Mulheres e a Violência Sexual nas Guerras

Essa semana tive acesso ao trailer de um programa da tv americana chamado Women, War & Peace. “Porque em algumas guerras é mais perigoso ser mulher do que soldado”.

Watch the full episode. See more Women War and Peace.

O estupro e a violência sexual sempre ocorreram em guerras, mas cada vez mais tem sido usados como uma estratégia. Há uma grande luta até para que ele seja visto como crime de guerra e não como mais um crime entre vários. Vendo o documentário percebemos que a Guerra da Bósnia foi extremamente cruel com as mulheres, assim como as guerras em diversos países africanos. Porém, quando pensamos em guerra e total desumanidade lembramos sempre a 2° Guerra Mundial com os nazistas. Quando pensamos no Holocausto, veem à nossa cabeça imagens de trabalhos forçados em campos de concentração e câmaras de gás. Mas a Segunda Guerra Mundial viu outras atrocidades, entre elas a violência sexual contra mulheres, por meio de estupros e até de mulheres que eram obrigadas a se prostituírem.

Por que sabemos tão pouco do sofrimento das mulheres durante o Holocausto? Há várias razões. A primeira delas é que a maioria das vítimas foi assassinada. Na Alemanha nazista havia uma lei que proibia as relações sexuais entre arianos e judeus. Por isso, quando soldados alemães estupravam uma mulher judia, eles a matavam para evitar problemas. As que sobreviveram tinham um sentimento tão grande de vergonha que não falavam sobre o assunto. Achavam que isso impediria que se casassem, não queriam que seus maridos soubessem. Até hoje as vítimas de estupro sentem vergonha, ainda que saibam não ter culpa. O que mais gerava vergonha, talvez, era o que acontecia em alguns campos de concentração em que homens usavam seu poder para dar às prisioneiras algo que lhes garantisse a sobrevivência. Eles trocavam sexo por um pedaço de pão. Para mim, isso não deixa de ser estupro. Os pesquisadores do Holocausto, a maioria homens, talvez não quisessem ver que as mulheres eram violentadas, que eles não conseguiram protegê-las. Era algo que não deveria ter acontecido, mas aconteceu. Alguns estudiosos também diziam que retratar o sofrimento das mulheres tirava de foco o fato de que o Holocausto era, no fundo, o extermínio de judeus. Mas se é possível estudar o Holocausto em diferentes países, com diferentes grupos étnicos, por que não pesquisar a perspectiva feminina?

O livro revela que as mulheres judias sofreram violência não só nos campos de concentração, mas também nos esconderijos. Os protetores também eram agressores, em alguns casos. É também por isso que as pessoas não falam sobre o assunto. Nos guetos, por exemplo, havia os conselhos judeus, responsáveis por organizar a vida diária. Claro que esses conselhos não tinham o poder, que estava nas mãos dos nazistas. E os nazistas às vezes diziam ao conselho: “Se vocês não derem X mulheres jovens para nosso prazer, vamos deixar de apoiar toda a população”. E o conselho tinha que decidir se mandava as meninas aos nazistas ou se todos morreriam. E eles enviavam as mulheres. Há um tipo de caso que é particularmente horrível: quando os não-judeus que escondiam judeus eram os agressores. Conversei com uma vítima que me contou que estava na casa de um homem e ele insistiu para que ela fosse até a cama dele. Ela era uma adolescente e pensou que estava salvando a irmã mais nova de sofrer o mesmo tipo de abuso. Continue lendo em Violência sexual na guerra: terror no Holocausto.

Não é exatamente uma novidade descobrir que haviam bordéis nos campos de concentração. O que surpreende é sua principal função: premiar os “melhores trabalhadores” judeus nos campos de concentração. As visitas eram permitidas para aqueles que se destacassem. De prisioneiros, tornavam-se exploradores sexuais de mulheres obrigadas a se prostituir. Ao contrário dos prostíbulos que serviam aos soldados nazistas, nas casas destinadas aos presos não havia judias. Dentre as mulheres obrigadas a ir para os bordéis, a maioria (71%) havia sido considerada “perturbadora da ordem pública”. O restante se dividia entre prisioneiras de guerra e criminosas, jovens alemãs e polonesas presas por causarem “desordem social”.

A rotina nos prostíbulos parecia mais com a de uma clínica médica. As mulheres acordavam às 7h30, tomavam banho e se vestiam. Durante o dia, se ocupavam de cuidar da casa e deixar os quartos limpos. À noite, logo após os homens voltarem do trabalho, atendiam por duas horas. “Passavam o dia todo apreensivas esperando o momento em que teriam de se prostituir”, afirma Sommer.

Para frequentar o estabelecimento era necessário pagar com cupons que os prisioneiros recebiam como gratificação eventual por seu trabalho. O cupom era uma espécie de moeda interna do campo de concentração. O direito de usar uma prostituta custava dois Reichsmark (moeda da Alemanha entre 1928 e 1948), sendo que apenas um quarto disso ia para a prostituta. Era mais barato que um maço de cigarros (3 Reichsmark). Entretanto, só dinheiro não era o suficiente. Quem quisesse ir ao bordel precisava pedir, via formulário, analisado pelos comandantes da SS.

Os aprovados eram chamados no fim do dia e se organizavam em duas filas esperando a sua vez. Antes de entrar, passavam por uma consulta médica e tomavam uma injeção com contraceptivo. Depois, iam para o quarto que estava disponível (não havia a possibilidade de escolha da prostituta). O “cliente” tinha 15 minutos e só era permitida a posição “papai e mamãe”. Deitar na cama com sapatos também era proibido. Os guardas da SS fiscalizavam as regras por meio de buracos na porta do quarto. Se não saísse no tempo determinado, um oficial tirava o prisioneiro à força do recinto. Antes de deixar o bordel, o trabalhador passava novamente por inspeção médica. Continue lendo em Bórdeis no campo de concentração.

Mulher violentada sexualmente no Congo. Foto de Finbarr O'Reilly/Reuters. Clique na imagem para abrir a galeria de imagens "Países Mais Perigosos do Mundo Para Mulheres"

A violência sexual é um poderoso crime de guerra. O estupro é uma arma de guerra tão ou mais destrutiva do que as de fogo, porque deixa consequências que duram décadas e abalam comunidades inteiras. As vítimas, traumatizadas e estigmatizadas, muitas vezes não conseguem se reerguer depois do conflito. Em alguns casos, perderam os maridos e têm que sustentar a si e aos filhos sozinhas. Em outros, são abandonadas por toda a família à própria sorte. O estigma sobre a mulher estuprada é imenso. Além da vergonha e do medo de reviver os acontecimentos, sofrem com a falta de apoio e acolhimento.

Aprendemos que não é suficiente para as mulheres ter direitos. Muitas vítimas de violência sexual são estigmatizadas pela sociedade e não podem nem contar com o apoio da própria família. Elas acabam em situação de extrema pobreza e precisam encontrar um caminho para sustentar a si e aos filhos. Elas precisam desenvolver habilidades e ter profissões. Esses dois fatores têm que andar juntos. Temos um programa que ensina às mulheres sobre seu papel e seu valor na sociedade, sobre seus direitos em caso de herança, casamento ou trabalho. Além disso, damos a elas ferramentas que as ajudam a ter uma renda sustentável. No fundo, damos a elas escolhas, para que possam fazer o que quiser com a própria vida, colocar os filhos na escola, procurar atendimento médico.

É justamente por ter consequências de longo prazo que o estupro é tão usado como arma estratégica por Exércitos e milícias em vários tipos de guerra. O estupro desumaniza as pessoas, quebra a comunidade. Estuprar uma mulher não tem efeito só para uma mulher. A sobrevivente vai enfrentar o trauma psicológico, a dor física, possivelmente doenças e o estigma. O estupro transforma o corpo da mulher num campo de batalha, fratura a comunidade, danifica a identidade étnica do grupo inimigo. Na ex-Iugoslávia, por exemplo, soldados sérvios estupravam mulheres bósnias muçulmanas e agora há toda uma geração em que o “inimigo” está infiltrado, por assim dizer. Há crianças que parecem sérvias, mas elas não sabem quem são seus pais, só sabem que eles agrediram suas mães. O estupro não afeta só a mulher e sua família, mas também toda a sociedade, por um longo período. Continue lendo em Violência sexual na guerra: a recuperação das vítimas.

Violência Sexual.

O programa Profissão Repórter, exibido dia 05/04/2011, teve como tema violência sexual. Durante 12 dias, os repórteres visitaram o Hospital Pérola Byington em São Paulo, Centro de Referência em Saúde da Mulher e acompanharam casos de mulheres e crianças, as maiores vítimas da violência sexual no Brasil. A ONU recentemente lançou um banco de dados sobre a violência contra a mulher. E alguns estados brasileiros mobilizam-se em campanhas públicas de combate a violência sexual contra crianças e adolescentes.

As pessoas são violentadas diariamente a caminho do trabalho ou da escola, porém, a maioria dos casos acontece dentro de casa, praticados por parentes ou conhecidos. O foco do programa é o tratamento dado as vítimas de violência sexual com espaço para as falas das vítimas e dos profissionais de saúde. Acho importante ressaltar algumas informações veiculadas:

- Dentre os atendimentos realizados no Pérola Byington, todo mês, 200 mulheres vão até lá para relatar casos de estupro. O hospital possui um ambulatório especializado em violência sexual. Importante notar que apenas em um hospital, o dado revela que em média há mais de 6 mulheres estupradas por dia na cidade de São Paulo.

- 53% das vítimas de violência sexual tem menos de 12 anos. Apenas neste hospital, 53% das vítimas atendidas são crianças, tanto meninos como meninas. Em um dia dos dias da reportagem houve 12 atendimentos, destes, 10 foram de crianças. A reportagem se concentra no caso de um menino de 4 anos que sofreu abuso do próprio pai. Quem o levou para fazer a denúncia foi a avó, mãe do pai. Especialmente nos casos contra crianças, os abusos acontecem dentro de casa.

- Mulheres que foram estupradas precisam tomar uma bateria de medicações para evitar contágio por doenças sexualmente transmissíveis. Só para combater o vírus da AIDS é preciso tomar 6 comprimidos por dia, 180 comprimidos num mês. O efeitos colaterais desses medicamentos são inúmeros, muita náusea, vômitos e dor de estômago, por causa disso muitas interrompem o tratamento.

- O caso da menina de 12 anos que foi estuprada enquanto ia para casa da avó. Com medo das ameaças do estuprador, que afirmava que se ela contasse algo ele mataria a mãe e a tia dela, demorou a contar sua situação e o aborto não pode ser realizado porque a lei só permite abortar até a 22º semana de gestação e o feto não pode ter mais de 500 gramas. O feto da menina tem 560 gramas. A única opção é ela ter o bebê e depois ficar com ele ou entregá-lo para adoção. Muitas mulheres não sabem que o aborto pode ser uma opção em casos de estupro e quanto mais rápido a denúncia for feita, maiores as chances de se realizar um procedimento de Aspiração Manual Intra-uterina, extremamente rápido, indolor e seguro.

- O caso de duas meninas, de 6 e 4 anos, que foram violentadas por primos mais velhos. Essas duas crianças são filhas de mães que também foram abusadas sexualmente na infância. Casos que se repetem. Quais seriam as razões? A mãe de uma delas optou por parar de trabalhar, porque não há vagas nas escolas e não há com quem deixar a criança.

- Maria, que engravidou do estuprador, realizou uma série de procedimentos para realizar um aborto legal. Durante a noite a bolsa se rompeu e enfermeiras se recusaram a atendê-la por serem religiosas, ela ficou 7 horas sem atendimento e ainda teve que ouvir que mulher que aborta tem é que sofrer mesmo. Realizar o aborto foi fundamental para a saúde, autoestima e para os planos de vida de Maria.

Não deixe de assistir o programa que está dividido em 2 partes e os comentários dos repórteres contando sobre suas impressões:

Ps.: Em determinado momento da reportagem, Caco Barcellos pergunta a assistente social Avani se depois que ela passou a trabalhar no ambulatório a visão dela mudou em relação aos homens. Ela afirma que não pode generalizar. Essa é uma questão importante dentro do movimento de combate a violência contra a mulher, nós que defendemos leis como a Lei Maria da Penha, não estamos dizendo que todos os homens são horríveis estupradores, estamos alertando para a forma como a violência contra a mulher acontece. Não negamos que também existam homens que sofrem violência doméstica ou sexual, mas os números são bem menores e os fatores que provocam essa violência são outros. Estamos dizendo que há em nossa cultura e na nossa história a formação de uma sociedade machista, que enxerga o homem como superior a mulher e, que durante muito tempo essa sociedade aceitou coniventemente a violência doméstica e sexual contra mulheres. Então, muitos dos estupradores e abusadores não são pessoas doentes mentais, são pessoas comuns que se sentem no direito de agredir mulheres. Por que o cara quando está frustrado, bêbado,  não vai procurar alguém do tamanho dele para bater na rua, por que ele vai para casa bater e estuprar a esposa? É mais fácil bater em quem tem menos poder, é mais fácil bater em quem culturalmente não é estimulada a revidar. A violência contra a mulher é cultural. E é um problema generalizado, seja em países desenvolvidos ou não. Por isso devem ser feitas leis especificamente para esses crimes. Porque por mais que a Constituição diga que há igualdade entre todas as pessoas, sabemos que dependendo das circunstâncias não há, então é preciso dar condições de igualdade para os desiguais e isso é feito por meio de leis e medidas públicas do Estado.

[+] Lista de locais onde procurar atendimento, no Brasil, em casos de violência sexual.