Monografia, day 83.

— Dumbledore está morto. Vi acontecer, vi o corpo. Ele partiu para sempre. Mas, seja como for, o Patrono dele era uma fênix e não uma corça.

— Mas os Patronos podem mudar, não? — perguntou Rony. — O da Tonks mudou, não foi?

— É, mas se Dumbledore estivesse vivo, por que não se mostraria? Por que simplesmente não nos entregaria a espada?

— Aí você me pegou. Pela mesma razão por que não lhe entregou quando estava vivo? A mesma razão por que lhe deixou um velho pomo de ouro e à Hermione um livro de histórias para crianças?

— E qual é a razão? — perguntou Harry, se virando para encarar Rony de frente, desesperado por um resposta.

— Não sei. Ás vezes, quando estava meio aborrecido, pensava que ele estava se divertindo ou… ou queria dificultar as coisas. Mas acho que não, não mais. Ele sabia o que estava fazendo quando me deixou o desiluminador, concorda? Ele… bem — as orelhas de Rony ficaram vermelhíssimas, e o garoto fingiu estar absorto em um tufo de capim a seus pés, que cutucou com a ponta do calçado —, ele devia saber que eu abandonaria vocês.

— Não — corrigiu-o Harry. — Ele devia saber que você sempre iria querer voltar.

Harry Potter e as Relíquias da Morte, J. K. Rowling, pg. 305.

Monografia, day 78.

Monografia é algo que suga, como grande parte das coisas da vida. Aí me peguei pensando em abandonar o blog até terminar tudo. Mas as coisas não funcionam assim. Nem eu consigo ser tão entregue. Aí as vezes fujo para outro lado, pego o primeiro livro da estante, abro uma página qualquer e respiro. São essas pausas que andarão por aqui, até o fim de tudo. E o bom é que acabam sendo dicas literárias.

[A Fernando Sabino]

Washington, 5 de outubro de 1953, segunda-feira

Fernando,

Não tenho feito muitos amigos (salvo uma enfermeira da maternidade que gostou de mim e depois de quase oito meses de Paulinho nascido vem me visitar na folga — hoje toma chá comigo), e não tenho influenciado nenhuma pessoa. Tomo menos milk-shake e levo uma vida diária vazia e agitada. Passo o tempo todo pensando — não raciocinando, não meditando — mas pensando, pensando sem parar. E aprendendo, não sei o que, mas aprendendo. E com a alma mais sossegada (não estou totalmente certa). Sempre quis “jogar alto”, mas parece que estou aprendendo que o jogo alto está numa vida diária pequena, em que uma pessoa se arrisca muito mais profundamente, com ameaças maiores. Com tudo isso, parece que estou perdendo um sentimento de grandeza que não veio nunca de livros nem de influência de pessoas, uma coisa muito minha e que desde pequena deu a tudo, aos meus olhos, uma verdade que não vejo mais com tanta frequência. Disso tudo, restam nervos muito sensíveis e uma predisposição séria para ficar calada. Mas aceito tanto agora. Nem sempre pacificamente, mas a atitude é de aceitar.

Correspondências – Clarice Lispector, pág. 201.

O Feminismo & Eu.

Girls can wear jeans
And cut their hair short
Wear shirts and boots
‘Cause it’s OK to be a boy
But for a boy to look like a girl is degrading
‘Cause you think that being a girl is degrading
But secretly you’d love to know what it’s like
Wouldn’t you?
What it feels like for a girl

Fui criada por muitas mulheres. Mãe, avós, tias, todas bem sucedidas, todas com muita liberdade para ir e vir.  Tive liberdade, não fui obrigada a casar e nem ter filhos, pude construir minha vida do jeito que quisesse. Meu único dever para essas mulheres era ser independente. Acabou que cresci um pouco no mundo de Bobby acreditando que todo mundo era feminista, porque: “Oi? Por que alguém não seria feminista? Um movimento fantástico que quer a emancipação feminina?” Além da minha vida extremamente libertária, eu não era uma pessoa politizada, alguém que se interessasse por analisar os problemas sociais e tentar descobrir as nuances dos processos de dominação forjados no nosso dia a dia. Até que em 2003, entrei na faculdade de Pedagogia na UnB, me deparei com Paulo Freire e minha percepção de mundo deu um giro de 180°. Foi aí que realmente enxerguei como a sociedade se estruturava. Eu usufruia de todas as benesses do movimento feminista e não conseguia ver que a empregada da minha tia era desrespeitada numa delegacia onde ia prestar queixa de estupro, que há várias maneiras de ignorar as mulheres, que só a mulher rica tem direito a escolher abortar ou não com procedimentos seguros, que não há muitas mulheres senadoras, deputadas, ministras ou presidentes, que há mulheres que recebem salários menores apenas por serem mulheres, que crimes contra mulheres permanecem impunes.

Porém, eu ainda não sabia que a palavra feminista era um palavrão. Uma designação fuleira da mulher barbada que só sabe reclamar que tudo é sexismo e cospe na cara dos homens. Em 2008 publiquei o post Girl Power! Muito do meu feminismo era estimulado pelas músicas da Madonna, por filmes que focam as mulheres como grandes heroínas de suas próprias vidas, além de personalidades femininas como Frida Kahlo. O mundo sempre teve grandes mulheres, mas elas também sempre foram mal vistas socialmente por causa de suas atitudes. Esse post de 2008 era um momento que eu refletia sobre minha construção pessoal como mulher e descobria que dentre as pessoas que foram responsáveis pela minha trajetória estão mulheres públicas.

Também em 2008, aconteceu o primeiro Luluzinha Camp em que conheci várias mulheres, mas uma foi muito especial, a Cynthia Semiramis, por meio do blog dela conheci várias outras feministas. Foi nessa época que descobri que ser feminista é algo terrível, e me surpreendi mais ainda ao saber que amigas que eu considerava feministas tinham horror a essa palavra. Daí encasquetei e fui estudar para descobrir mais. Perguntei a 15 amigas se elas eram feministas, obtive 10 respostas e nenhuma delas disse ser feminista. A maioria disse que prefere ser feminina, que o feminismo não é mais tão necessário e que sempre que lê a palavra “feminista” pensa em mulheres rasgando sutiãs e querendo ser igual aos homens. E algumas reclamaram que por culpa do feminismo as mulheres hoje carregam muito mais tarefas e responsabilidades do que antes. Parar para pensar que a divisão de tarefas justa entre os sexos nunca aconteceu não parece ser o problema, as feministas lutarem para mulher entrar no mercado de trabalho, sim.

Também me joguei na literatura do movimento: Simone de Beauvoir, Gloria Steinem, Naomi Wolf e outras. Enxergava o feminismo por meio de lentes opacas e sujas que a mídia me passava, mas nunca enxerguei as mulheres feministas por meio de seus clichês, nem nunca achei que me rotular como feminista fosse algo ruim. Sou tão grata a todas as mulheres que lutaram pela liberdade que tenho hoje que não concebo ignorá-las, tratá-las como loucas que só querem pisar nos homens. Em qualquer posição que tomo posso ter direito de mudar de opinião, de errar, até de ser contraditória. E pagarei por isso, pois as pessoas estão sempre prontas a apontar o dedo para nossas contradições.

Ser feminista para mim nunca significou ser igual a um homem. Acho que a sociedade é formada por homens, mulheres, crianças, natureza, cosmos e tantas coisas. Acho também que homens e mulheres têm diferenças biológicas e culturais. Boas e ruins. Adoro ser mimada pelos homens ao meu redor, adoro que não me deixem carregar alguma coisa pesada e não faço a minima idéia de como se troca um pneu, mas nem por isso me considero menos feminista. E quando digo que sou feminista não estou dizendo que luto apenas por salários iguais e pelo fim da violência, mas luto também para que pais não desestimulem sua filha que quer ser engenheira espacial, luto para que a Geyse Arruda não seja expulsa da faculdade por usar vestido curto e para que Tessália possa praticar sua sexualidade embaixo do edredon com liberdade.  E para que uma jovem seja valorizada por seu papel num evento e não por seus atributos físicos. Luto para que todas as mulheres tenham voz numa sociedade que prefere vê-las castas, lutando contra o envelhecimento para não perder o marido ou de costas num outdoor.

Veja bem, é claro que existem pessoas boas e ruins, não vou defender todas as mulheres sempre, mas vou defender a mulher que decide fazer um aborto, a que quer ser prostituta ou a atriz pornô. Mas também vou discutir toda e qualquer situação, vou assistir novela e participar do debate sobre a representação da sociedade. E esse debate precisa incluir todo mundo, homem, mulher, negro, negra, branca, branco, índio, índia, rico, pobre, portadores de necessidades especiais, etc. O meu principal dever como feminista é trazer o debate à tona, é não deixar esquecida a pena por agressão do Dado Dolabella. É propor um debate político sério, pois pela primeira vez temos 2 mulheres candidatas a Presidência da República na mesma eleição. Minha atuação como feminista também é lutar por mais creches públicas e educação de qualidade para formação de um mundo mais igualitário. E também é prestar atenção diariamente nos pequenos preconceitos que mascaram anos de machismo social. É dizer pro meu pai que ele não pode xingar de vagabunda a atriz global que posa na playboy, é dizer pro meu irmão que ele tem que respeitar se a namorada dele não quer trepar com ele naquele dia, é dizer pro meu amigo que ele é tão responsável por uma gravidez indesejada quanto a menina com quem ele trepou, é dizer pra minha amiga que ela não pode continuar num relacionamento em que ela não é respeitada. E no meu caso, também é casar com um homem que me ame, me respeite e entenda o quanto é importante para mim ser feminista.

Há vários motivos para você achar que sou uma feminista de meia-tigela. Gosto de funk, volta e meia caio na risada com as amigas cantando: “Por que agora eu sou piranha e ninguém vai me segurar”.  Uso roupas  detonadas num dia e ando toda bibêlo no outro, Sex And The City é um dos meus seriados favoritos e gosto de cuidar do meu marido. Apoio o Piriguete Pride e o Trucker Pride. Porque ser feminista para mim não significa ser homem, e também não é o contrário do machismo, significa essencialmente liberdade. Liberdade de cada mulher ser a mulher que quiser, mas consciente de sua representatividade, sempre repensando seu papel, sempre pronta a mudar de opinião, sempre pronta a identificar quando uma situação não lhe faz bem. Não acredite em estereótipos, não vire as costas para a feminista que você considera radical. Aquela mulher que queimou ou não sutiã no passado, protestando por um mundo mais justo é parte de mim hoje.  Está viva em cada escolha que faço. Não preciso ser como ela, não preciso ter as mesmas atitudes, mas não posso negar sua importância, seu significado e sua revolução que ainda não terminou. Porque, como disse a Maria Frô, sexismo emburrece e mata.

Este post já vinha sendo pensado há muito tempo, mas foi feito especialmente para o Concurso de Blogueiras organizado pela Lola.

Outros posts bacanas de mulheres queridas sobre a origem de seu feminismo:

Princesas, Roses, Simones e Malus.

Feminismo, ateísmo e outros “ismos”

Eu, feminista