O Karma do Aborto

Não está sendo fácil ser uma defensora da descriminalização e da legalização do aborto no Brasil. Não basta ter bancadas conservadoras no Congresso querendo usurpar direitos das mulheres, é preciso que o debate sobre aborto seja o mais raso possível. O karma do aborto é que as pessoas que são contra a legalização tem os piores argumentos possíveis, então não há nem como discutir quando a pessoa usa como argumento ovo de tartaruga ou o karma do planeta. Trouxe vários exemplos para vocês do que apareceu ontem na timeline. Várias vezes pensei: senta e chora porque #tápuxado.

1. As analogias e comparações absurdas que surgem para transformar o aborto na coisa mais horrenda que uma pessoa pode fazer. Não me pergunte o que tem a ver matar o síndico e nem depredar escola com a discussão de direitos reprodutivos.

2. A analogia de que aborto = assassinato. Aborto é interrupção da gravidez, dentro de um período pré-determinado. O feto não vive fora da barriga da mulher. A mulher que aborta não é processada por homicídio, ela é processada por aborto. São crimes diferentes, ok? E uma das nossas bandeiras é a descriminalização do aborto, porque só a mulher pobre vai presa nesse país. Além de que, uma mulher não é mãe simplesmente por estar grávida, ela deve ter o direito de escolher ser mãe. Fora que muitas mulheres correm risco de vida ao se expor a abortos inseguros, mas parece que a vida de um feto é mais importante que a vida de uma mulher adulta. Vale a pena ler o texto da Amanda: E o desejo de ser mãe, como fica?

3. Soluções para resolver o problema da gravidez indesejada. Todas as soluções são muito simples: camisinha, laqueadura, celibato. Métodos contraceptivos não são 100% infalíveis. Laqueadura no Brasil só é permitida se a mulher tiver mais de 25 anos e 2 filhos. Celibato significa que a mulher não pode fazer sexo por prazer. E todos esses gênios das soluções parecem não entender uma coisa, somos seres humanos falíveis. Podemos sim nos expor a uma gravidez indesejada. Por que ter uma criança deve ser uma penalidade por isso? Como disse a Niara no texto Aborto legal, livre e gratuito já!: Se no momento da concepção a sociedade está preocupadíssima com a vida do feto, lava suas mãos depois que esse feto nasce e ganha uma cor, uma raça e uma classe. Pró-vida de quem, então, moralistas?

 4. A conjugação do futuro do pretérito com a frase: “acho muito bonito você que nasceu ser a favor do aborto”. Os fetos abortados nesse momento estão na lan house do Nosso Lar escrevendo essas mensagens. É preciso entender que não há vida em potencial, não há o Joãozinho que não nasceu. Há um feto na barriga de uma mulher que não quer esse filho. Ela não quer passar 9 meses grávida para entregá-lo a doação. Por que ela não pode ter direito de decidir sobre seu corpo? Muitas mulheres que fazem abortos já tem filhos, sabem o que é ser mãe, mas não querem outro filho naquele momento. Há a vida de diversas mulheres envolvidas e parece que a sociedade ainda não decidiu se quer salvá-las. Entre diversas histórias há uma que envolve religião e acolhimento, contada pela Iara no texto Crônica.

5. O Brasil não pode ter o aborto legalizado porque:

6. Não me importo com as mulheres que morrem, o que interessa é o pobre feto indefeso que nem nasceu. 20 milhões de abortos são praticados anualmente no mundo. Desses, 97% são feitos em países pobres que criminalizam a prática. 6 milhões de abortos ocorrem todos os anos na América Latina. 1,4 milhão é praticado no Brasil. 1 em cada 7 mulheres brasileiras já fez um aborto. A prática de abortos inseguros e clandestinos no Brasil correspondem a 240.000 mil internações anuais; 25 % dos casos de esterilidade; 9 % dos óbitos maternos e a terceira causa de morte materna no país. Leia mais dados no texto Pra cadeia ou para o hospital? Para muitas pessoas hipocrisia não é fingir que o aborto não existe, é defender ovo de tartaruga e ser a favor do aborto. É com esse tipo de argumento que temos que lidar.

Como disse Isabela Ianelli num comentário no Blogueiras Feministas: O que me entristece MUITO são as mulheres que se mostram ainda mais machistas que estes homens. Que colocam o sexo como impuro. Que nem ao menos consideram o risco de acidente “se fez, sabia que podia acontecer”. Que asseguram a benção da maternidade, que se dizem a favor de uma vida. Porém, em detrimento da outra. Que argumentam dizendo que isto é coisa de mulher que acha mais fácil “abortar do que andar com camisinha na bolsa”. Antes fosse simples assim. Antes fosse uma questão que excluísse classe social… Uma boa notícia foi a participação e o apoio de vários homens na campanha #legalizaoaborto.

Ontem também descobri que não somos poucas pessoas a favor da legalização do aborto. A Blogagem Coletiva das Blogueiras Feministas foi um sucesso, não deixe de conferir os posts participantes. E lembre-se: ser contra o aborto é decidir por você. Ser contra a legalização do aborto é decidir por todas.

#zeofflineday

A internet me trouxe muitas pessoas maravilhosas e uma delas foi o . A primeira vez que nos encontramos em São Paulo ele tinha me dado um número de telefone errado e eu não conseguia falar com ele. Tínhamos marcado na rua depois que eu saísse de um filme que assisti. Isso me lembra que ainda não fui ao cinema com o Zé. Ele chegou meio apressado, meio com cara de quem já se conhece. E desse dia em diante tive certeza que eu e o Zé nos divertiríamos muito. O Zé é meu fotógrafo oficial em SP e tem até um álbum no flickr com meu nome.

O Zé tem cara e jeito de super cool. De ser publicitário, agente literário ou produtor de discos indie. Uma vez o Zé me levou para um encontro do Google Reader. O Zé me ensinou que podemos ficar amigos de gente que conhecemos por meio de comentários no Google Reader. O Zé esse ano começou a fazer podcasts, mas ainda não teve coragem de me convidar para profanar o blog dele com Beto Barbosa, Roupa Nova e afins. Hoje posso carregar um pouquinho do Zé no meu ouvido.

Já andei de metrô com o Zé. Já ficamos conversando em pé numa muvucada estação São Bento, num sábado de manhã. Já falamos sobre cantoras que parecem atendentes de lanchonete romenas. O Zé já me viu bem gripada. Me ensinou o bordão “cadê o companheirismo?”. E me contou sobre Paristuba. E uma vez no ponto de ônibus, o Zé me deu o chaveiro mais cafona que já ganhei na vida, e que usei como broche. Também já andei de trem com o Zé.

O Zé é o tipo de amigo que mora em outra cidade, que encontro uma vez por ano, que falo muito no twitter, que faço comentários troll miguxos no blog, que adora música, cinema, boas baladas, boas conversas e afins. O Zé já me deu tantos presentes. Ele me deu Slave to Love cantada pela Roisin Murphy, ele me deu o Hollywood Mon Amour e a Bic Runga. E o Zé não gosta de música brasileira. O Zé adora ler livros em inglês. E eu adoro quando a gente passeia pela Paulista.

Hoje é aniversário do Zé e acho que você deveria ir lá no zeoffline.com conhecer um mundo de músicas, bandas, cantoras, filmes, livros e algumas saudades. E além de ter me apresentado o Nestor e a Ucha, o Zé tem um irmão gêmeo igualzinho a ele, que eu nunca vi. Mas o Zé eu já vi, e volta e meia bate uma saudade imensa dele. E fico super feliz que uma banda escocesa (que só conheço por causa dele) deu um presentão de aniversário para ele. Parabéns, Zé! Felicidades! Sua miguxa de Brasília te ama muito!

Tuite um post. (2)

“é que a gente diverge com elegância, e não queremos ganhar a discussão; o prazer é a reflexão sobre o tema :-)Ladyrasta.

Discuto muito pelo twitter. Já tive algumas discussões interessantes com Ladyrasta, mas nunca descambamos para a baixaria, para xingamentos, para o baixo nível. E ela resumiu muito bem nessa frase porque isso acontece. Porque dialogamos, não estamos querendo ganhar a discussão no grito, mas complementar e refletir em conjunto. Somos duas mulheres adultas e agimos como tal. Discutir em 140 caracteres não é fácil e na maioria das vezes as pessoas não se entendem. Na internet é preciso calma para explicar um ponto de vista e é preciso que os dois lados não entrem no ringue, mas sim peguem suas xícaras de café e façam pequenas pausas entre um twitt e outro.