Travestis e Transexuais das Novelas

Cartaz do grupo britânico Transfabulous

O Mar, me mandou um link super bacana esses dias que ficou perdido na timeline louca do Facebook.

Relembre os travestis e transexuais das novelas.

Imperdível! Especialmente em tempos de Laerte sendo sabatinado por pessoas com as mentes tão fechadas no programa Roda Viva. Chegou a hora dessa gente bronzeada subverter de vez os limites de gênero e sexualidade.

Enfim, a emancipação masculina - O que é ser homem hoje? A boa notícia é que ninguém sabe.

Gênero e Sexualidade.

Com a entrada e a saída de Ariadna do BBB11, os transexuais ganharam alguma mídia. Porém, as pessoas não conseguem compreender a amplitude da sexualidade humana. Por puro preconceito, travesti no Brasil é sinônimo de transexual. E existe a questão de que tudo o que é não é hétero-normativo, que seja diferente do comum não é aceito, tem que ser estigmatizado.

Ariadna é uma mulher. Ela nasceu com um corpo de homem, mas sempre se soube mulher. Uma cirurgia de mudança de sexo foi feita e agora ela está feliz com seu corpo.  Na minha concepção Ariadna não é homossexual, ela é uma mulher hétero que estava presa no corpo de um homem. Uma mulher que muda de sexo e torna-se homem para viver com outra mulher, é o que? Hétero? Lésbica? Para que definir? O que tenho a ver com a vida dela/dele?

Fundamental para compreender essa questão é a reportagem de Clara Becker na Revista Piauí – Como Mudar de Sexo.

Linda não sabe explicar o motivo, mas sua voz jamais engrossou. Ao falar com ela pelo telefone, ninguém diria que há um homem do outro lado da linha. Nunca fez xixi em pé e sempre ficou nervosa ao se tocar.  Aos 16 anos, depois de meses ingerindo hormônios femininos por conta própria, pequenos seios brotaram em seu tórax. Insatisfeita, pediu a uma amiga travesti que lhe injetasse silicone industrial – comprado numa loja de autopeças – no peito, no culote e nos glúteos. Ficou como se tivesse duas bolas de rúgbi presas ao tronco. Mais alguns meses e o implante caseiro se deslocou, fazendo com que os seios artificiais parassem na altura do umbigo. Conheceu no Rio uma transexual que lhe contou as proezas do doutor Alexsandro.

Boa parte dos transexuais que chegam a Alexsandro no Hospital Pedro Ernesto resume assim a sua angústia: é como estar aprisionado dentro de um corpo do sexo oposto. O transexual é alguém que se olha no espelho e não se reconhece. Nasceu com cromossomos, órgãos genitais e hormônios de um sexo, mas tem a mente, as aspirações, desejos e inquietações próprias do outro. Ele é diferente do travesti que, em geral, está satisfeito com sua genitália e se sente confortável em se vestir como o sexo oposto. E é ainda mais diverso do hermafrodita (ou intersexo, o termo usado pelos especialistas), a pessoa com alterações anatômicas fora do padrão masculino e feminino.

Outra questão é a do travesti ou crossdresser. É um homem que quer se vestir de mulher, mas não é gay ou não é hétero. Ele não quer mudar de sexo, quer apenas usar e abusar de roupas e acessórios que são característicos do feminino. E existe travesti mulher? Mulher usando roupa de homem, o que há de incomum? Mulheres há algum tempo podem usar roupas de homem, calças, botas, camisas, terno. E não há nada demais nisso. Talvez alguém a chame de sapatão se ela usar cueca, mas não será um escândalo. Mas e um homem vestido de mulher? Ele será humilhado nas ruas? Será degradante? Uma bela música da Madonna já perguntava isso – What it Feels Like For a Girl.

Essencial ler as entrevistas dadas pelo Laerte, que recentemente assumiu publicamente ser travesti ou crossdresser.

E qual é o papel da mídia na construção do gênero?
A mídia é meio apavorante. Conduzir uma conversa, um debate como a gente está fazendo agora, não é uma coisa comum. Normalmente, as pessoas são apresentadas em programas, jornais, reportagens, como uma curiosidade: “Veja só! Ele é homem, mas ele sai por aí, na loja ele vai no provador de mulher e experimenta um vestido. Vejam! Olhem!”. Pode ter um sentido positivo nisso, mas, na essência, o que aquele órgão de imprensa está fazendo é uma manutenção do status quo. Ele não está agindo no sentido de transformar nada, ele é conservador.

Quando você vai para a esfera pública, se arrisca, questiona isso publicamente, começa a mexer com uma série de representações, questões e modos de comportamento que estão cristalizados.
O modo como os meios de comunicação representam esses pensamentos cristalizados também é interessante porque ele é sempre conservador, procura tranquilizar o leitor. Uma matéria sobre crossdressers numa revista feminina, diz que isso é uma coisa normal: “Querida leitora, se o seu marido começar a mexer nas suas calcinhas, não entre em pânico. Não quer dizer que ele virou uma bichona, ele só está experimentando” [risos]. Não fala nesses termos, mas é isso que está sendo dito no subtexto. O que é interessante, porque é verdade, não quer dizer mesmo. Mas, ao mesmo tempo o sub-subtexto é o seguinte: “O normal é o heteroerotismo”. Tudo que é desvio é uma exceção. “Você, querida leitora, se seu marido é gay, então salta fora”. Tem um livro de duas jornalistas que saiu agora que procura alertar para esse tipo de coisa: sinais de que seu marido no fundo é gay, portanto, você está num casamento do qual deve fugir. Na capa, tem um casal na mesa tomando café, a mulher meio neutra, e o cara na frente dela, tomando café e por baixo do pano da mesa você vê uma perna com um sapato de salto. Quer dizer, está dizendo que o cara é travesti, crossdresser, coisa assim, portanto, gay.

E quando se fala de preconceito tem a questão do humor. Humor deve ter limites? Atualmente a palavra “politicamente correto” virou motivo de chacota, mas a defendo. Acho muito importante se colocar no lugar do outro, pensar em quem vamos atingir com determinadas palavras. Fazer o esforço e não mascarar e reproduzir o preconceito com humor. Ou simplesmente perceber que o assunto não é você.

Falando de travesti, o Fausto lembrou que você até foi acusado de ser homofóbico em momentos da sua carreira.
Racista também [risos].

Mas você lembra por que isso ocorreu?
Ah, deve ter acontecido, e eu devo ter sido homofóbico mesmo. Porque é o seguinte, a gente vai usando o humor assim, e às vezes pelo bom desempenho da piada a gente sacrifica certos princípios. A gente acha que não, a piada é boa, e que isso santifica ela, deixa ela kosher. Mas não é verdade, toda piada, toda mensagem humorística contém um caldo ideológico, senão não seria uma piada, não seria risível. E esse caldo ideológico corresponde muitas e muitas vezes a posições preconceituosas, reacionárias, muitas vezes mesmo. O humor como linguagem revolucionária para mim não é algo pacífico: “Ah, o cara é humorista portanto ele é revolucionário, é progressista etc”. Não é verdade isso, a história está cheia de exemplos.

Você acha que o humor tem que ter limites?
Não, não tem que ter limites. O que a gente tem que ter também é uma crítica ilimitada. O humor tem que ser solto como qualquer linguagem humana tem que ser solta e livre, o que a gente tem é que ter o direito de exercer o poder da crítica sobre isso permanentemente. Então você dizer que uma piada é racista, ou sexista, e argumentar nessa direção, não é censurá-la, é exercer seu direito de crítica.

Muita gente defende o direito de opinião, mas para elas qualquer opinião contrária é uma censura.
O que eu acho que realmente tem que ser proibido é o insulto, a difamação, a calúnia, a agressão, isso tem que ser coibido por lei. E não é totalmente coibido. Por exemplo, esse Carlos Apolinário, esse vereador, ele defende que o projeto de lei 122 vai difundir uma ditadura gay, ou corresponde aos planos de uma ditadura gay. Ou seja, ele é um reacionário filho de uma boa puta, um distorcedor de fatos. Ele quer alimentar essa homofobia que existe na sociedade com esse tipo de coisa. “Eles querem tomar o poder, eles querem obrigar você a ser gay. Vão ensinar seu filho na escola a ser gay.” Vocês assistiram Milk, o filme? Lembram dos argumentos dos caras? “Como os gays não podem se reproduzir, porque são gays, do que eles dependem para a perpetuação da sua espécie? Adesões de crianças, cooptações de crianças.” Esse tipo de ideia está nesse discurso desse Carlos Apolinário. E isso tem que ser proibido sim, não é limitar a liberdade de expressão, é limitar o direito desses filhos da puta de continuarem insultando, agredindo e dando porrada na rua e no dia seguinte ficarem falando que a vida é assim mesmo, a liberdade é assim e que as pessoas são assim.