A sororidade que não transa críticas

Na sexta-feira publiquei o texto: Porque não transo sororidade. Minha intenção ao ter um blog feminista é discutir Feminismo, não apenas divulgá-lo. Acredito que o Feminismo é, antes de tudo, um movimento político e social que pretende mudar o status quo. Por isso, tenho um certo incômodo com o movimento da sororidade, porque não tenho o acolhimento como o objetivo fim do Feminismo, mas parte do processo, como uma ferramenta importante, mas algo que precisa ir além dos pequenos grupos.

Há muitas mulheres importantes em minha vida, mas não nasci e nem sobrevivi por causa da sororidade delas. Sempre pertenci a classe média e fui criada com plano de saúde e toddynho. Se fosse pobre e marginalizada, muito provavelmente nem teria esse espaço para escrever, por mais que mulheres tenham lutado por mim no passado. Por isso, meu interesse é que o Feminismo também englobe os diversos aspectos sociais que nos cercam.

Ao ler, ao escrever e ao narrar o feminino em muitos tempos, é possível relocalizar a metáfora da “sororidade” em redes sociais que as mulheres protagonizam, como também a sua negação, em muitas práticas. O sentimento de solidariedade traduz, também, códigos de não solidariedade. Ambos estão nas práticas femininas. Referência: Onda, rizoma e “sororidade” como metáforas: representações de mulheres e dos feminismos (Paris, Rio de Janeiro: anos 70/80 do século XX) por Suely Gomes Costa.

Ontem, a pessoa que fez as imagens que ilustravam o texto publicado na sexta-feira, e que exemplificavam de que conceito de sororidade estava falando, foi até os comentários pedir para que eu as despublicasse:

Gostaria de pedir, por gentileza, que você os retire do seu post. Fiquei bastante chateada e incomodada com uma feminista usando meus cartazes sobre sororidade para criticá-la. O termo sororidade, para mim, tem a ver com sobrevivência, entre minhas amigas, companheiras de luta e minhas familiares e ancestrais. Se hoje eu existo, vivo e sobrevivo, foi pela sororidade de toda a geração de mulheres da minha família que sobreviveram e que hoje me apoiam e me ajudam. Para mim, sororidade não é um grupo de amigas infantilizadas brincando de feminismo. São mulheres que podem se apoiar uma nas outras para que a opressão não doa tanto. Enfim, a sororidade é questão de sobrevivência ao patriarcado. E o termo é empoderador ao fazer com que enxerguemos outras mulheres como iguais, em suas especificidades.

Argumentei que as imagens eram importantes para ilustrar o texto e que meu objetivo é debater o assunto (tanto que linko 3 outros textos que tratam de sororidade). O diálogo e a discussão são ferramentas importantes para a construção do Feminismo, por isso quis entrar nesse debate que já estava acontecendo em outros blogs feministas. Porém, ela se mostrou irredutível e retirei as imagens, porque acredito que é um direito pedir isso, mesmo que não haja assinatura e que essas mesmas imagens possam ser encontradas com textos em inglês em outros sites.

Outras críticas interessantes que recebi por meio das redes sociais foram:

– Concordo que é necessário criticar os feminismos, mas temos que tomar cuidado pra não achar que nossas críticas são fundamentais e absolutas para que o feminismo seja melhor pra todo mundo. Isso não vai acontecer. Há mulheres diferentes, interesses diferentes, lutas diferentes. Acho que sororidade é entender isso, que a minha luta não pode passar por cima da luta de outras mulheres, mesmo que elas entrem em conflito.

– Sempre que vejo textos que se propõe feministas, com criticas a comportamentos que já são tão comumente atribuídos às mulheres, como formar panelinhas, e etc., sinto que estamos dando sim combustível para nossas fogueiras, criticas internas e discussões, são importantes, discordâncias idem, mas acredito que talvez, por exemplo, ter postado esse texto num grupo, aberto a discussão entre feministas, teria sido mais produtivo do que lança-lo ao espaço virtual aberto.

– Não compreendo publicar uma critica direta ao termo, a palavra pela palavra não tem força nenhuma, a força esta no uso que damos a ela, e nesse sentido a critica ali exposta me parece aos comportamentos e vivências em discussões feministas.

– A sororidade, inicialmente, tinha essa função de questionar e quebrar esses preconceitos. Através de uma reflexão crítica, do não julgamento, da não desconfiança, do exercício de sentar e perceber que aquilo que te oprime seja você quem for oprime aquela mulher que por algum motivo você está pré-julgando. Isso era, no meu entender, o conceito de sororidade. Sinceramente, não acho ruim. Se isso é ‘tratar outra feminista de companheira de luta’ acho que é válido sim. Agora, isso pode ter sido mal utilizado para silenciar críticas, criar grupos herméticos e impermeáveis a reflexões críticas, para servir de desculpa para escorregadelas que todas damos? Pode. E isso não é legal.

– Não faz diferença dizer solidariedade ou sororidade, como você propõe que seja feita a troca, o que faz a diferença é a maneira como o termo é empregado, solidariedade também pode ser usada para silenciar ou oprimir.

– É meu sentimento que DEVO SIM tratar outra feminista como uma companheira de luta, mesmo que eu discorde com ela em assuntos pontuais.

Esse apontamentos complementam bem a discussão e mostram que a Segunda Onda deixou marcas fortes no Feminismo, além do desejo de retomar o termo por mais pessoas. Porém, com esse episódio, acredito que parte do que critiquei está sendo corroborado. Há pessoas que defendem a sororidade como um conceito fundamental ao Feminismo e que não admitem críticas de outras feministas. Outras sugerem que críticas ao Feminismo devem ficar restritas aos espaços feministas porque estamos dando combustível para nossas fogueiras. Há todo espaço para comentar, indicar textos ou fazer um post em resposta, mas algumas pessoas preferem que o debate não seja feito, infelizmente.

imagem do tumblr Chibambo.
imagem do tumblr Chibambo.

É óbvio que não sou dona do conceito de sororidade, mas esse episódio me mostrou que para algumas pessoas esse parece ser um assunto intocável. E, vamos falar sério, dou gargalhadas quando me acusam de querer “rachar” o movimento. Quem sou eu na fila do pão feminista para “rachar” e prejudicar um movimento histórico?

Meu objetivo nunca foi criticar alguém especificamente, mas o uso de um termo que está sendo apropriado e utilizado por várias feministas, especialmente na internet. Se basear na origem do termo pode ser simplista, claro. Usar solidariedade ao invés de sororidade não tem a mesma amplitude, concordo. Sisterhood é um conceito bem difundido em inglês. Mas, continuo acreditando que sororidade não está tão longe da ideia de convento, de grupos de mulheres enclausuradas em si mesmas, preocupadas apenas em combater o patriarcado e estereótipos que não serão modificados se não saírem da esfera do grupo de irmãs feministas.

É exatamente esse tipo de comportamento que não entendo no Feminismo que prega a sororidade. Como se fosse pecado criticar algo que sim, empodera mulheres, mas que acho importante perguntar: que mulheres ele empodera? que mulheres se sentem seguras dentro do conceito de sororidade? Além de acolhimento e empoderamento o que mais a sororidade propõe? A sororidade está sendo usada para atacar em bloco grupos de mulheres marginalizadas ou quem não se encaixa no conceito? É preciso esperar que todas as mulheres se unam, se amem e sejam empoderadas para fazer política? Por que todo esse foco no patriarcado como o grande vilão?

Inclusive, esses dias rolou nos Estados Unidos uma discussão sobre solidariedade no Feminismo, por causa da hashtag #Solidarityisforwhitewomen.

É claro que várias pessoas me apresentaram outros conceitos de sororidade. Focando na ideia de que as mulheres foram e são educadas para encarar outras mulheres como adversárias. Que mulheres não devem confiar em mulheres e que isso precisa urgentemente ser combatido. Não discordo de nada disso. Nem mesmo que grupos de mulheres ajudam muito vítimas de violência. Mas, não sei se é possível combater estereótipos que prejudicam as mulheres pregando apenas acolhimento e empoderamento. Porque, antes de tudo, somos pessoas e entramos em conflitos constantemente.

A obrigação de apoiar a companheira de luta nos leva a algum lugar? Acredito que não silenciar frente a reprodução e disseminação de preconceitos como o racismo, a transfobia, o capacitismo, a gordofobia e a lesbofobia tem sido táticas mais interessantes. E daí, vem outra pergunta: posso ressignificar individualmente um conceito que está sendo usado majoritariamente de outra forma, algumas vezes até antagônica?

O problema se torna mais complexo e mais nuançado, no entanto, quando entendemos que as identidades dos indivíduos são socialmente aprendidas, mas que esse não é um ponto de chegada para as reflexões sobre o impacto das estruturas e as formas que a ação individual assume. Considerar suas escolhas – e o grau de autonomia nelas envolvido – é considerá-las a partir dessa base, isto é, de sua inserção no contexto de relações sociais concretas. O fato de que são socialmente constituídas e motivadas não significa, no entanto, que os indivíduos não façam escolhas e que estas não tenham impacto na definição das suas vidas. Mas significa que são feitas em meio a pressões, interpelações e constrangimentos que não são necessariamente percebidos como tal.

Assim, o problema da constituição autônoma das identidades, que é objeto deste artigo, não se define na oposição entre autonomia individual e produção social da individualidade. Partir dessa premissa, que é de fato a orientação mais fundamental assumida neste artigo, não esgota o problema. Daí a necessidade de analisar diferentes abordagens para esse problema num campo da teoria política em que a crítica à opressão e a análise da constituição diferenciada das identidades (em alguns casos, como reação à opressão, em outros como sua reprodução) vem sendo fecundo, a teoria política feminista. Referência: Autonomia, opressão e identidades: a ressignificação da experiência na teoria política feminista por Flávia Biroli.

Os movimentos sociais sempre trabalharam com ressignificações de termos e conceitos: vadia e queer são alguns exemplos. Mas, estes estão sendo usados de forma positiva majoritariamente em seus âmbitos. Então, surgem mais perguntas: o conceito de sororidade tem sido a voz de que grupo? De mulheres brancas cisgêneras? As negras, indígenas, trans*, mães solteiras, deficientes, lésbicas, as soropositivas, as donas de casa, as funkeiras do Bonde das Maravilhas, a personagem gorda e humilhada da novela das 8, a participante do reality show traída pelo marido, também são sempre defendidas pela sororidade em todas as suas demandas?

Cada dia transo menos esse conceito de sororidade. Porque para mim o Feminismo precisa ser criticado em todos os ângulos para se reconstruir constantemente. E, por mais que acolhimento seja importante, não é meu principal objetivo como feminista. Há diversas formas de empoderar mulheres, busco lutar dentro daquelas que tem propostas políticas concretas e que beneficiem as mulheres como um todo, observando demandas e especificidades, não apenas focando em eliminar o patriarcado ou me preocupando em ser legal com todas as feministas.

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