Não pode. Não pode. Não pode… protestar…

Após a Marcha das Vadias do Rio de Janeiro, vi muita gente dizendo: “Não pode quebrar imagens de santos”. Após o início dos protestos pelo país, vi muita gente dizendo: “Não pode quebrar agência bancária, não pode quebrar loja, não pode quebrar vidraça, não pode quebrar lixeira”. Após os protestos do 7 de setembro, vi muita gente dizendo: “Não pode queimar bandeira do Brasil”.

Também fiquei sabendo que a depredação do prédio do Itamaraty deixou Brasília de baixo astral. Inclusive, pessoas me disseram que protesto tem que ter elegância.

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Espero que as pessoas não estejam pensando em fazer um “Manual do Protesto Brasileiro” ou apoiem a ideia de um “Manifestódromo”, como propõe a Polícia Militar, para que as manifestações — cof cof — não prejudiquem o trânsito. O nosso querido e amado santo trânsito de todo dia útil. Minha intenção não é discutir o que pode ou não numa manifestação, o que me intriga é o “não pode”.

Quando somos crianças e começamos a explorar o microcosmo ao nosso redor, as pessoas que cuidam de nós estão sempre prontas para nos dizer: “não pode”. Quando crescemos, aprendemos que há leis que devem ser respeitadas. Porém, também aprendemos (ou deveríamos aprender, talvez com ‘As origens do totalitarismo’ ou com o filme ‘A Fita Branca’) que há instituições que oprimem diversas pessoas ou grupos específicos da sociedade e, por isso, as vezes desrespeitamos leis. Sim, há consequências. Mas, será mesmo que alguém deve ir para a cadeia por quebrar uma vidraça?

O que revela nosso desejo de ver uma pessoa que quebre algo ser encarcerada e jogada num dos piores sistemas prisionais do mundo? O que revela nosso anseio de estabelecer regras para uma situação caótica? Por que temos esse amor pela disciplina social utópica? Qual nosso desejo secreto ao dizer “não pode”? Em que posição nos colocamos ao olhar para o Outro, apontar o que consideramos seu erro e dizer “não pode”?

O “não pode” está se concretizando em decretos governamentais arbitrários que, dentre outras coisas, proíbem pessoas de andar mascaradas. Sim, sentimos medo ao nos ver em uma situação de confronto entre polícia e manifestantes na rua, ou mesmo num quebra-quebra generalizado. Porém, por que “não pode” quebrar, queimar, depredar? O público é de todos, mas também pode ser opressor.

Ou, como diz a Camila PavanelliÉ quase irresistível essa ideia de polícia – ou governo – ou deus – ou pai – ou avó – sumamente responsável e bondosa que toma conta de tudo e só quer o nosso bem, e na sua presença podemos respirar aliviados e dormir tranquilamente (ou sentar no meio da rua calmamente) enquanto a polícia – o governo – deus – o pai – a avó nos defende contra todo o Mal.

Sei que as pessoas se ofendem ao verem santas sendo quebradas ou bandeiras sendo queimadas. Também me sentiria mal se queimassem uma bandeira do arco-íris, por exemplo. Porém, cada objeto simbólico tem diferentes significados. Portanto, não significa a mesma coisa queimar uma bandeira do Brasil e queimar uma bandeira do arco-íris. Ao mesmo tempo, que não significa a mesma coisa quebrar uma estátua de santo católico e uma estátua do candomblé, por exemplo. A historicidade, a posição que cada elemento desse ocupa faz diferença, basta ver quais desses objetos estão presentes nos locais de poder, mesmo o Brasil sendo um país laico em sua Constituição.

Não acho que as ações realizadas por grupos mascarados nas manifestações sejam todas iguais, nem mesmo super legais. Não acho que qualquer pessoa que use uma máscara seja um criminoso em potencial só porque não quer ser identificado. Não acho que o quebra-quebra tenha que ser sempre justificado. Mas, acho que todo mundo um dia sente vontade de quebrar e expor sua fúria contra objetos, instituições e afins. Esteja essa pessoa certa ou não. O certo e o errado muitas vezes possuem linhas tênues, especialmente quando observamos a posição social das pessoas.

O mito do brasileiro pacífico, do país alegre do futebol, nada disso corresponde ao imaginário íntimo e coletivo das brasileiras e brasileiros. Basta ver o quanto as pessoas se desrespeitam no seu cotidiano, o quanto retrocedemos e estacionamos na garantia de Direitos Humanos nos últimos anos. O quanto as minorias ainda enfrentam barreiras enormes para ascender socialmente ou conseguir escolaridade e bons empregos. O quanto o reacionarismo cresce na fila do pão.

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Somos um país com uma desigualdade absurda. Era para estarmos revoltados há muito mais tempo. Era para nossa indignação ter ganho as ruas há muito mais tempo. O Estado, os Bancos, a Igreja, a Justiça, o Exército representam o “coitado” do Brasil e são alguns exemplos de instituições que estabelecem milhares de “não pode”.

É claro que gostaria de ver as pessoas na rua caminhando e cantando e seguindo a canção. Porém, sabemos que isso não garante que reivindicações sejam atendidas. Também não acho que por meio da violência elas serão atendidas. Mas, muitas vezes a violência é uma reação, a raiva é um sentimento que precisa ser externado. Por mais que você ache Gandhi e sua filosofia super legais, saiba que existiu muita política por trás da independência da Índia. Não existe almoço grátis nesse mundo em que vivemos.

Então, não sei de nada quanto aos Black Blocs. Não sei quem são as pessoas que quebram tudo nas manifestações e nem se estão agindo a mando de alguém ou de alguma organização. O que acho é que pode tudo no que se refere a vilipendiar e depredar objetos ou instituições. Porque sempre vou me importar mais com as pessoas, inclusive com policiais, sabendo que representam, literalmente, o cacetete e a bomba de gás lacrimogênio do Estado.

Pouco me importa que símbolos uma estátua religiosa ou uma bandeira do Brasil carreguem. Pessoas estão sendo violentadas todos os dias nesse país, seja nas manifestações, na falta de moradia, no transporte público ineficiente, no acesso a saúde e educação, entre tantos outros. É claro que as pessoas que dizem “não pode”, não são automaticamente a favor de que os manifestantes tomem spray de pimenta na cara. Mas, ver do que a pessoa está reclamando mostra o que ela considera mais importante sobre os acontecimentos.

Ao que parece, estamos há um passo de sermos proibidos de protestar por decretos estaduais. Afinal, a Polícia está autorizada a quebrar todas e todos, em defesa do “não pode” regozijante do “cidadão de bem”, de quem acha que objetos de pano ou gesso tem mais valor que anos de opressão vivida por tantas pessoas.

Muitas vezes, a única esperança que me resta é acreditar que o mundo vai acabar em putaria. Pelo menos alguém poderia gozar, mesmo sendo proibido.