Toda vez que vou escrever as Sextas de Nova navego sem rumo pelo site da revista. Faço pesquisas em vários temas, busco palavras-chave, clico em matérias relacionadas. Tento encontrar o que há de mais absurdo, porque é mais fácil rir com momentos surreais. Em agosto desse ano, a Ana Farias do blog Trend Twins comprou uma edição e deu de cara com a matéria 10 Regras para Viajar com o Gato. Entre as regras (comentadas pela Ana) está:
2 – Ligue torneira, chuveiro, som e tudo o que for possível enquanto estiver usando o banheiro. Ele não deve nem desconfiar do que está se passando lá dentro.
Sim, porque você não faz número 2, né? Nunquinha, isso não é coisa de moça bonita! Meo, save the rainforest, faz favor? Que desperdiçar água o quê. Peça um momento pro cara, peça pra ele esperar fora do quarto se isso te incomoda tanto assim. Tome banho depois, finja que você tem esse TOC. Excesso de intimidade às vezes é brabo mesmo, mas aja com naturalidade, tipo, desculpa, não me sinto confortável, será que você podia dar uma voltinha… Né.
7 – Exclua açaí e salada do cardápio para evitar surpresas coloridas no seu sorriso.
Eu já diria o contrário, micos leves costumam criar laços entre o casal. Por favor, não deixe de ser saudável só porque a Nova quer que você arrume um namorado fresco.
Hoje, lá estava futucando o site quando encontro a matéria Pega a ladra de namorado! Em pleno 2011 as pessoas ainda acham que alguém rouba o namorado de alguém. Para as mulheres da matéria parece que não é óbvio que, se em algum momento, seu namorado te trai é porque o relacionamento não vai tão bem. As leitoras contam as histórias de traição e comentam coisas como:
Certa vez, numa festa, ela o abraçou por trás de um jeito possessivo que não gostei. Mas nem assim achei que oferecesse perigo. Imaginei que era coisa de mulher sem filhos.
Não vou negar que adorei quando me contaram que o romance não durou nem seis meses. A vadia arranjou outro, mais bonito, mais rico, e chutou o Pedro para bem longe.”
Perdi a fala. Como é que um cara de 20 e poucos anos podia namorar uma quarentona? A gente nem havia se separado oficialmente e o desgraçado já estava com outra.
No final da tarde, o pessoal resolveu tomar a saideira em um barzinho. Preferi não ir. Se arrependimento matasse… Deu meia-noite e nada de o Celso voltar. Seu celular não atendia. Preocupada, fui ao tal bar.
Aliás, iam ficar, pois Elisa estava com ele. Não liguei. Afinal, aquela mulher sempre tão séria e compenetrada no trabalho não era páreo para mim. Uma semana depois de voltar, Davi confessou que tinha ‘vacilado’.
É tão absurdamente ingênuo pensar que se ela tivesse impedido a mulher de abraçá-lo ou tivesse ido no bar as coisas seriam diferentes. Não é a ida a um bar que salva um relacionamento. Todos os homens que namoravam essas mulheres eram adultos, tomam decisões sobre suas vidas, não são pobres coitados seduzidos por uma biscate irresistível. É triste ver como nessa reportagem a culpa e os xingamentos recaem totalmente sobre a outra mulher. Afinal, quem foi que vacilou feio com as mulheres dos depoimentos? Foi a chefe do marido que mal a viu? Foi a amiga sumida dos tempos da faculdade que ela mal conhecia? Por que parece tão difícil para as mulheres aceitarem que seus namorados quebraram o compromisso que tinham?
O bônus da matéria é que Nova ensina como fazer um seguro contra roubo de namorado:
Agir com maturidade contribui para ficar menos vulnerável a uma ladra tomar o que é seu.
Descarte os joguinhos
Nada de dizer que está tudo bem quando não está ou ficar de bico porque seu namorado decidiu passar o sábado com a mãe dele. As mulheres com maior maturidade emocional não fazem tantas cobranças nem dramatizam qualquer situação. Têm vida própria e coisas mais importantes com o que se preocupar. Siga o exemplo!
Deixe claro o que deseja
Uma mulher madura não precisa de um cara para sustentá-la ou bancar o pai dos filhos. Demonstre ao bonitão que está interessada nele como homem.
Revele-se na cama
Mulheres com autoconfiança não ficam com frescura na hora de tirar a roupa. Sabem que não há gordurinha que desencoraje um homem quando a parceira mostra que está louca de desejo.
Mantenha-se bem
É muito comum a gente não se preocupar tanto com a aparência quando está namorando. Mas, se você não quer que seu namorado ache a grama do vizinho mais bonita, cuide-se por dentro e por fora. Sem neura, é claro.
Cadê o diálogo? Cadê a maturidade para chegar e assumir que o relacionamento não está bem? Academia e salão de beleza não são garantia de seguro contra roubo de namorado, porque ninguém é roubado. Traições acontecem e isso tem muito mais a ver com as pessoas da relação do que com a pessoa externa que acabou de aportar. Ninguém está livre de passar por isso e cada casal deve decidir o que é melhor para os dois. Chega a ser muito irônico o “sem neura, é claro” do final. Afinal, a matéria inteira é cheia de neurose do tipo: “ah se eu tivesse percebido antes”.
E no meio das pesquisas descobri que Nova já foi uma revista revolucionária, só que nos anos 70. Há várias matérias antigas publicadas no site e muitas discutem assuntos interessantes, que relatam as modificações das relações de trabalho e da mulher naquela década. É uma pena ver que uma revista que falava abertamente sobre igualdade no trabalho e aborto tornou-se um manual de como voltar a ser uma mulher da década de 50. A mulher de Nova pode enlouquecer seu homem à vontade, mas não deveria esquecer de como chegou até aqui.

Em 1977, eu já era gatuxinha, mas haviam outros assuntos na revista, inclusive um conto de Machado de Assis.
Semana que vem, Lígia começa a trabalhar. “Beneficiada” pela crise econômica ou, como ela diz, “pelo jeito que as coisas vão”. Para Lígia, a crise, o dinheiro apertado que mal chega para pagar as mensalidades da escola dos filhos, que mal dá para vez ou outra ir ao cinema, é motivo de otimismo.Afinal, graças a isso, o próprio marido, a quem repugnava a idéia de ter esposa trabalhando fora de casa, foi quem sugeriu que Lígia procurasse um emprego de meio período, “só por uns tempos, até a situação melhorar”.
Já Magali, jeito desembaraçado de advogada, só tem em comum com Lígia os problemas econômicos. Seu marido é fervoroso adepto da igualdade de direitos entre homens e mulheres, principalmente no que se refere à profissão. “Às vezes é difícil conciliar o serviço doméstico, filho e marido com a carreira, mas vale a apena” diz, com um ar de quem está contando uma grande novidade. E acrescenta: “o meu dinheiro ajuda muito em casa, além do que posso me realizar profissionalmente”.
Alternando frequentemente, à custa de um certo sacrifício, o papel submisso de esposa-mãe com o de profissional (um tanto mais enérgico e combativo), as Lígias e Magalis tendem a engrossar as mirradas fileiras de mulheres que trabalham fora de casa – seja por causa de problemas econômicos, seja um sinal dos tempos – a diminuição do preconceito “de que lugar de mulher é em casa”. É verdade que, no período de 1920 a 1970, as estatísticas da força de trabalho feminino no Brasil aumentaram mais de sete vezes (de 1,4 milhão passaram a 10,6 milhões). Entretanto, os últimos dados oficiais, do Censo de 1970, indicam também que menos de 25% da população feminina urbana do país trabalha, metade da qual constituída por empregadas domésticas.
Seja como for, as Lígias e Magalis começam a multiplicar-se e, sem dúvida, com o sentimento de estarem, de alguma forma, sendo favorecidas. Os olhos de Lígia brilham e Magali esclare, sincera, que “vale a pena”.
Mas e os homens? Até que ponto eles compartilham dessa “euforia da libertação”?
Continue lendo em O que os homens pensam do trabalho da mulher.
Publicada em maio de 1977.
A professora de enfermagem Malvina de Oliveira Ramos Netto, por seu lado, entre 1973 e 1973, fez uma pesquisa com 124 mulheres de Osasco, município industrial da Grande São Paulo, constatando um alto índice de abortos. Apenas três mulheres da pesquisa não haviam abortado nenhuma vez. Cerca de 35% haviam ficado grávidas três ou quatro vezes, mas 38% entre elas tinham apenas um filme, demonstrando a prática do aborto nas vezes anteriores. Além disso, 30% haviam engravidado cinco ou sete vezes, sendo que 24% tinham naquele momento apenas três ou quatro filhos. Isto significa a média de um ou dois abortos nos dois grupos de mulheres. Mais de 80% das mulheres pesquisadas eram católicas, mas, segundo a professora Malvina, a proibição do aborto pela religião não era levada em consideração quando estas mulheres precisavam livrar-se de uma gravidez indesejável, por falta de condições econômicas. Apenas 21% dessas mulheres admitiram que os abortos haviam sido provocados. Entretanto, para a pesquisadora, este dado não é real, pois muitas das mulheres provavelmente temiam as implicações legais.
Permitido na União Soviética desde 1920, no Japão desde 1948, nos Estados Unidos a partir de 1967 e em noventa países de todo o mundo, sua legalização na América do Sul e principalmente no Brasil enfrenta sérias restrições de muitos setores, inclusive da Igreja. Considerado um crime contra a vida e a pessoa, o aborto só é permitido na legislação brasileira em três casos: estupro; quando a gravidez põe em risco a vida da mãe; ou quando o feto apresenta problemas. Nestes casos é necessário que o aborto seja solicitado por três médicos de “notório saber” e referendado pelo Conselho Regional de Medicina. Não ocorrendo nenhum destes casos, o código penal de 1969 prevê que o médico ou a paciente poderão ser condenados a penas que variam de um a dez anos de prisão.
A ilegalidade é apontada por médicos como a principal causa dos altos riscos a que se expõem atualmente as mulheres que recorrem ao aborto. Negócio escuso, clandestino, portanto não sujeito à fiscalização, é um campo fértil para a ação de pessoas inescrupulosas, tornando-se uma prática que pode até conduzir à morte o que, na realidade, se bem realizado, oferece riscos bastante controláveis. Além disso, a ameaça de prisão favorece os altos preços e inclusive chantagens.
Continue lendo em Aborto: no código penal, crime. No cotidiano, prática.
Publicada em setembro de 1979.