Benetton beija na boca e mostra o Papa

Olha, taí uma marca que a gente faz coraçãozinho com as mãos para a publicidade. A Benetton que já fez tantas campanhas legais e controversas, dessa vez resolveu fazer o que há de melhor: beijar na boca. Mas beijo na boca, é coisa do passado, a moda agora é a paz abençoada.

Papa Bento XVI e Ahmed Mohamed el Tayeb, imã da mesquita de Al Azhar no Cairo num momento pera, uva, maçã, salada mista.

O nome da campanha é UNHATE e foi inspirada na foto de um beijo entre o líder soviético Leonid Brezhnev e o líder da Alemanha Oriental Erich Honecker em 1979. De acordo com Alessandro Benetton, atual presidente do Grupo Benetton, UNHATE quer dizer “não odiar”: “Em momentos sombrios, com crises financeiras, manifestações na América do Norte e em Atenas, essa é uma atitude que todos podemos adotar e que pode ter uma energia positiva.”

Leonid Brezhnev e Erich Honecker num momento comunista também ama.

Estamos sempre na torcida por uma suruba diplomática, mas enquanto isso nos contentamos com essas ótimas fotos que incluem selinhos, estalinhos e bitocas entre diversos líderes mundiais. O bom é que tem para todo gosto. E podem notar que geral tá de olhinho fechado, curtindo o momento.

Merkel e Sarkozy num momento Ooops I did it again

Close no nariz de Sarkoza, né? Sem comentários, agora sabemos o que Carla Bruni viu no jovem aspirante a Rei Sol do petit gateau. E preciso dizer que sempre fui fã da franjinha libidinosa da Merkel.

Mahmoud Abbas, presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina) com o premiê israelense, Binyamin Netanyahu.num momento "vem cá, meu nego".

Geral no fundo gritando: beija! beija! beija! Toca Molejão aê, gente! A mão no cangote dá um charme inigualável a esse momento.

Barack Obama e Hugo Chavéz num momento tutti-frutti

 Achei pura ternura. Achei música de Roberto Carlos. Achei que Obama tá fazendo um #OccupyChavéz delicinha.

Kim Jong-Il e Lee Myung-bak mostrando o que que a Coréia tem.

Kim Jong-Il provando que ditador não fica só olhando, também beija moooooooito.

Um super beijo de língua na Benetton por ter nos proporcionado essa campanha tão bacana. Todo mundo tinha mais é que querer beijar na boca e ser feliz. Para arrebatar ainda tem o belo filme da campanha. Diversidade, pegação e paz, é nóis!

Susan Linn

Quando comecei a pesquisar sobre publicidade infantil deparei-me com Susan Linn. Americana, professora de psiquiatria na Escola Médica de Harvard, diretora associada do Centro de Mídia Infantil Judge Baker (Media Center of the Judge Baker Children’s Center) e co-fundadora da Campanha de Coalizão Nacional por Comercial sem Infância (National Coalition Campaign for a Commercial-Free Childhood). E, autora do livro “Crianças do Consumo – A infância roubada”.

Nesse livro, Susan Linn discute as relações entre pais, crianças, agências de publicidade, marketing e consumismo e suas conseqüências para o desenvolvimento infantil, como erotização precoce, obesidade e fortalecimento do egocentrismo. São títulos de alguns dos capítulos: “Alunos à venda: quem lucra com o marketing nas escolas?”, “Bebês de marca: do berço ao túmulo” e “Na magreza e na obesidade: o pesado problema do marketing de alimentos”.

Susan era uma das palestrantes do Encontro de Blogueiras promovido pelo Instituto Alana. Infelizmente não conseguiu comparecer pessoalmente, mas fez um vídeo expondo suas ideias principais. A primeira pergunta que Susan nos faz é: o que há de errado com a publicidade? Tenho 30 anos, cresci repetindo vários jingles publicitários e estou ótima, por que devo me preocupar com isso? Porque o mundo mudou e, como Susan nos mostra, as estratégias de marketing também. Porém, não é preciso ficar descrente e achar que nada pode ser feito. Podemos sempre apoiar projetos que proponham a regulamentação da publicidade.

 

Marketing Infantil

Tem texto meu no Amálgama Blog.

Deixo um trecho, mas não deixe de conferir por inteiro: O impacto negativo do marketing infantil.

A publicidade é a primeira indústria criada exclusivamente para a promoção do consumo. Agora o consumidor deve ser motivado, seduzido a adquirir tal produto ao invés de outro. Neste caso, o discurso da publicidade passa a se autonomizar das características utilitárias do produto em favor de associações que se referem a universos simbólicos que extrapolam o próprio valor de uso dos bens que deseja promover. Dessa maneira a publicidade desloca o foco do utilitarismo do produto e busca o campo do simbólico para seduzir o consumidor. O produto passa a ser também mediador de relações sociais, pois dentro da estrutura capitalista o ter significa ser.

Muitas vezes acabamos não sabendo por que compramos um produto específico. Qual a diferença entre desejo espontâneo e apelo de mercado? As crianças sabem distinguir o que está por trás da publicidade? Ou o objetivo é continuar formando mais ávidos consumidores? A publicidade possui uma avançada tecnologia de persuasão. Onde está a ética ao focar crianças como consumidoras? Afinal, sabemos que crianças ainda não têm o desenvolvimento cognitivo e pensamento crítico completamente desenvolvidos, e muitas vezes não diferenciam um programa de tevê de um comercial. Embora, de acordo com a lei, as crianças não possam comprar um automóvel ou um celular, elas são abordadas diretamente pela publicidade como plenas consumidoras. Basta ver a quantidade de propagandas de celulares com crianças e as propagandas de carro em que pais pegam os filhos na escola.

Há muito tempo a publicidade percebeu que as crianças têm influência nas compras da família. Técnicas de venda, linguagem específica e fantasias são usadas para conquistar a atenção e a emoção das crianças. Que criança não quer um cereal extremamente açucarado para ficar mais próxima do tigre protetor e forte? Quantas meninas não querem ser magras, loiras e eternamente lindas como a boneca? O incentivo ao consumo também segrega as crianças, pois elas se sentem inferior ao coleguinha que tem o brinquedo da moda. Acreditam que sua mãe é malvada porque não permite que ele coma todas as guloseimas, como a mãe do comercial. Quais seriam os valores que a publicidade transmite?

Para saber mais:

Instituto Alana

Manifesto pelo fim da publicidade e da comunicação mercadológica dirigida ao público infantil

Ainda sobre calcinhas

[+] Hoje tem post meu no Blogueiras Feministas sobre Consumo e Publicidade Feminina.

[+] A Lis Lemos publicou ontem um texto muito bacana: O Papa e a Gisele.

[+] O Rob Gordon fez uma crônica engraçadíssima: Lingerie.

[+] Reproduzo aqui 2 twittadas longas do Fabiano Camilo que achei muito boas sobre o caso Hope. É interessante ver como o discurso de que o “politicamente correto é censurador” ganha força nessas horas, como se a crítica não pudesse ser feita. Publicidade não é expressão cultural, portanto, não deve ter o privilégio da liberdade de expressão. Deve ser regulamentada como as outras relações comerciais. Desde muito tempo a propaganda é utilizada para disseminar ideais, crenças e pensamentos políticos, seja de forma maniqueísta ou subliminar.

O fato de boa parte das reclamações partirem de feministas foi fundamental para os rumos tomados. Assim, se desqualifica as críticas como politicamente corretas, as pessoas que criticam como desprovidas de senso de humor etc. Se só o Conar tivesse sido acionado, duvido que teríamos tantas defesas extremadas pela liberdade de expressão. Uma pessoa há pouco lembrou, aqui no Twitter, o caso de um comercial das Havaianas, com o ator Cauã Reymond, que foi tirado do ar por reclamações ao Conar e cuja retirada não causou toda essa comação. No filme, uma avó falava de forma aberta sobre sexo com a neta. Mulher como Amélia não incomoda, mulher como pessoa independente e segura incomoda. E quando a censura atua no último caso, onde estão os bravos defensores da liberdade de expressão? Leia aqui.

Um último ponto: acho que é necessário se discutir também o conceito de censura, que passou a ser empregado sem discernimento, a torto e a direito. Um filme publicitário não é um filme para o cinema, uma novela, uma peça de teatro etc. Tem finalidades específicas. E o Conar, Conselho Nacional de AUTO-REGULAMENTAÇÃO Publicitária, é uma organização da sociedade civil, não é um órgão do Estado. Se o filme for retirado do ar pelo Conar, a decisão não terá sido uma decisão do Poder Executivo ou do Poder Judiciário. Todas esses detalhes vem sendo ignorados pelos “defensores da liberdade de expressão”. Leia aqui.

Imagem do coletivo feminista argentino Mujeres Publicas.

Gisele Bundchen e a Minha Calcinha

Alô Amiga-Irmã-Consumidora-Enlouquecedora-de-Homens! Hoje não tem Sextas de Nova porque o assunto é sério. A Hope, uma das poucas marcas de lingerie no Brasil que sabem que o tamanho do busto e das costas das consumidoras possuem medidas diferentes, está achando que você compra lingerie para fazer beicinho pro seu marido. Mas eles dizem que é tudo piada, sabe? Quando você  tem que ouvir piadinhas sobre o quanto as mulheres são interesseiras, a Hope entende que isso não é machismo, mas sim piada.

A Thalita resume bem no que consiste a publicidade da Hope:

Na peça, a modelo “ensina” como as mulheres devem comunicar más notícias para seus maridos/namorados. Falar que bateu o carro ou que estourou o limite do cartão de crédito (oi?) vestida não dá certo. A pedida é mostrar o corpão na hora de comunicar ao macho provedor que você, mulher, não se comportou como ele gostaria.

Outra questão é o uso do corpo como passaporte para se safar de situações difíceis (considerando o que já foi dito antes, que é um absurdo falar que bateu o carro ser uma situação difícil). Não quer criar problema? É só oferecer sexo e tudo bem. Mas veja bem, se você não for linda, alta, magra e loira não adianta, porque, afinal, quem é que quer uma mulher que não seja perfeita fisicamente? (e sim, indo um pouco além, sexo, para as mulheres, serve só para agradar os homens. Mulher tendo prazer? Isso é coisa do demo!) Continue lendo em O machismo nosso de cada dia ou Gisele Amélia Bundchen.

Sou tão fofinha vestida, mas só convenço você quando tô sex bomb. Imagem da Campanha da Hope.

No comunicado em resposta a reclamação da Secretaria de Políticas para Mulheres, a Hope:

esclarece que a propaganda teve o objetivo claro e bem definido de mostrar, de forma bem-humorada, que a sensualidade natural da mulher brasileira, reconhecida mundialmente, pode ser uma arma eficaz no momento de dar uma má notícia. E que utilizando uma lingerie HOPE seu poder de convencimento será ainda maior.

Veja bem, só porque você nasceu no Brasil sua sensualidade é inata. É tão bom saber disso quando temos casos de várias brasileiras que são detidas em aeroportos de países Europeus, como a Espanha, por suspeita de serem prostitutas. Voltando a notinha da Hope:

Os exemplos nunca tiveram a intenção de parecer sexistas, mas sim, cotidianos de um casal. Bater o carro, extrapolar nas compras ou ter que receber uma nova pessoa em sua casa por tempo indeterminado são fatos desagradáveis que podem acontecer na vida de qualquer casal, seja o agente da ação homem ou mulher.

Veja bem, o estereótipo de consumista e ruim de roda sempre foi aplicado aos homens não é mesmo? Você sempre viu um homem dirigindo mal na rua e gritou: “só podia ser homem mesmo!”. Ao que parece vamos ter que mandar cartinhas desenhando o que é sexismo para a Hope, porque tenho certeza que eles não entenderam. A Marjorie disse tudo:

Como é que uma empresa investe milhões (porque o cachê da Gisele não é bolinho, sabemos) num comercial sem exigir da agência que ele seja, no mínimo, criativo? Porque, né, se eu tivesse pagando uma nota preta por uma propaganda, ia querer algo mais do que “mulher no volante, perigo constante” e “ai, a sensualidade da brasileira”. Tô pagando, porra. Continue lendo em Alguns tostões sobre a propaganda da Hope.

A cereja do bolo é o finzinho da nota:

Foi exatamente para evitar que fôssemos analisados sob o viés da subserviência ou dependência financeira da mulher que utilizamos a modelo Gisele Bundchen, uma das brasileiras mais bem sucedidas internacionalmente. Gisele está ali para evidenciar que todas as situações apresentadas na campanha são brincadeiras, piadas do dia-a-dia, e em hipótese alguma devem ser tomadas como depreciativas da figura feminina. Seria absurdo se nós, que vivemos da preferência das mulheres, tomássemos qualquer atitude que desvalorizasse nosso público consumidor.

Cê jura? Então toda a propaganda que eu ver com Gisele Bundchen é automaticamente uma propaganda feminista, pois ela é uma mulher bem-sucedida e independente? Olha, não é essa a mensagem que Gisele está me passando nos vídeos. Ela diz claramente que mulheres devem ser loiras, magras e usar seu corpo para resolver problemas, porque elas sempre estão metidas em encrencas. Afinal, todas somos moças bobinhas que precisam dar notícias desagradáveis para o marido usando muito sex appeal. O que Gisele Bundchen faz é representar toda a contradição que há entre ser uma mulher bem-sucedida e moderna na vida real, mas que só faz papel de mulher frágil, mimada e machista nos comerciais. Essa mulher só tem poder se estiver de lingerie. Não era mais fácil fazer um comercial mostrando como os sutiãs da Hope são confortáveis e ao mesmo tempo bonitos, adequando-se melhor ao corpo de cada mulher? Como disse Barbara Castro:

Por isso a gravidade da imagem da “Amélia” que Gisele vem protagonizando desde as propagandas da SKY. Elas passaram desapercebidas pela grita geral porque o texto não literalizava o sexismo que a Hope teima em naturalizar. Gisele, a mulher poderosa e independente, é reconduzida ao seu papel de gênero e volta a brilhar no reino do lar. Nada poderia ser mais aviltante à luta das mulheres. Continue lendo em Não é só propaganda.

Porém, a melhor parte são as pessoas que dizem: as mulheres que estão indignadas com esse comercial estão com inveja da beleza de Gisele. Veja em que mundo vivemos. Alguém faz um dos comerciais mais idiotas e pouco criativos dos últimos tempos, mas não podemos criticar, porque somos um bando de feias invejosas e autoritárias. Tem horas que o mundo parece não ter saído da 5° série.

A justificativa de que tudo é humor e que as pessoas são chatas, pois não acham graça, também é recorrente. Mauricio Ayer nos comentários do Futepoca resume muito bem porque a desculpa de que tudo é piada é o consolo do prisioneiro:

Quando o cara que dá a vida por uma cerveja ou a gostosa que fica seminua para contar ao homem que bateu o carro riem de si mesmos, ambos reafirmam a mesma estrutura social, as mesmas posições, em que o homem pode ser o cachorrão que não pensa mas que segue por cima, cercado de gostosas e cerveja, que no fim é o que importa, e a mulher, com a mais fina artimanha, consegue manter o controle da situação, a situação de ser aquela que deve prestar contas ao marido e obter dele dinheiro e aprovação. Quem quer quebrar uma estrutura ideológica (pois a realidade material-econômica já é outra faz tempo) tem que não achar graça de algumas coisas, libertar-se, para começar a achar graça de outras coisas. O riso é uma forma de afirmação de poder, e por isso mesmo pode ser um veículo de libertação.

A HOPE mostrou que realmente não está interessada em vender sutiãs a mulheres que queimam sutiãs, que prefere vender a imagem de que vencedora é aquela que usa de sua natureza para submeter a cultura (a velha oposição homem/mulher, cultura/natureza, inteligência/loucura, em que no mesmo polo da mulher está também a criança, o louco ou o empregado).

Parece algo óbvio, mas muita gente insiste em não perceber. Publicidade não é uma bobagem. É um meio de comunicação que age socialmente reforçando o status quo e gerando novas demandas de consumo. Se uma peça publicitária reforça preconceitos machistas ela faz uma construção estereotipada da imagem feminina e repassa essa mensagem para toda sociedade. Fora que a propaganda da Hope reforça estereótipos ruins para homens e mulheres. Enquanto a mulher usa o corpo para conseguir  o que quer, o homem é um ser apalermado que cai nesse truque ridículo.

A proliferação das imagens femininas representadas por Gisele Bundchen causam a reprodução de valores arcaicos e machistas. E, a consolidação de um modelo de feminino que só tem poder quando coloca-se na posição de objeto sexual do marido. Criticar a propaganda da Hope não significa que as feministas estão querendo tirar seu direito de fazer beicinho para o marido. Significa que não queremos que o poder das mulheres seja reduzido a isso, um beicinho e uma lingerie, dando satisfação ao marido.

Ps. em 01/10/2011:

- A propaganda da Hope é feita pela mesma agência (Giovanni+DRAFTFCB) que fez uma série de propagandas sexistas da Sky. As duas peças publicitárias tem Gisele Bundchen no papel de “Amélia”. É interessante pensar se a equipe de publicitári@s só sabem fazer peças com esse tipo de estereótipo ou se Gisele tem exigido esse tipo de papel.