A maioria dos relacionamentos segue o princípio da monogamia, apenas os dois na relação e no máximo familiares e amigos metendo a colher. Até quando dois bastam? Pessoas são suscetíveis a desejos, ambições, dúvidas e oportunidades, nesse quadro ocorrem as chamadas traições, que podem resultar em longos casos ou encontros fortuitos. Na atual atmosfera amorosa, a traição se tornou mais comum para ambos os sexos e em alguns casos perdoável. Hoje é possível até trair virtualmente. A traição é um conceito moral pessoal? Perdoável, pois somos todos humanos? Ou não devemos inibir certos desejos, pois a vida é uma só? Seja a dois ou a três, a traição ainda é o fantasma dos monogâmicos, o vampiro que nos tenta com promessas de paixões eternas em cada esquina. Seria o poliamor uma alternativa?
# Episódio 9: Easy come, easy go. Chegamos a terceira temporada de Sex and the City. Big se casou com Natasha. Carrie namora Aidan e tudo parece estar indo muito bem. Porém, Big reaparece e lança novos dados na mesa. Carrie encontra com as meninas para contar a novidade.
Carrie: – Big vai largar a esposa! Ficou bêbado e me contou durante a exposição.
Miranda: – O que ele foi fazer lá?
Carrie: – Beber e largar a esposa?
Samantha: – Temos que admitir, você venceu.
Carrie: – Era uma competição?
Samantha: – Com o Ex sempre é. Chama-se “quem sofrerá mais?”
Miranda: – O que ele disse?
Carrie: – Ele disse “não está dando certo”. Depois chegou mais perto e disse em meu ouvido “se souber de alguém interessada…”
Charlotte: – Que absurdo! Você não conhece ninguém interessada. Ele é casado.
Carrie: – Sei disso.
Miranda: – Por que lhe disse isso?
Carrie: – Não sei… talvez para economizar selos?
Samantha: – O que você vai fazer? Como ele teve coragem? Homens casados nunca abandonam as esposas.
Carrie: – Mesmo se ele largar, nao tenho intenção de fazer nada por duas razões: tenho um namorado maravilhoso e não sou louca.
Miranda: – Não teve vontade de socá-lo?
Carrie: – Não… foi meio triste.
Miranda: – Eu teria batido.
Charlotte: – É realmente triste. Há quanto tempo está casado? Sete meses?
Samantha: – A crise dos sete meses.
Miranda: – Isso acontece quando se vai com muita sede ao pote.
Charlotte: – Entendi a indireta. Trey e eu não somos como Big e Natasha.
Samantha: – Não lhe dê ouvidos, ela acabou de terminar um namoro.
Miranda: – Obrigada por lembrar.
Charlotte: – Trey e eu nos amamos de verdade. Vou conhecer sua mãe e se tudo correr bem… Trey está quase pedindo minha mão. Estou sentindo.
Carrie: – Oh my God, sério?
Miranda: – Vocês acabaram de se conhecer!
Charlotte: – Não é algo lógico. É amor. Não posso explicar, mas em meu coração sinto que é certo.
Miranda: – Ok… como quiser.
Samantha: – Mas então, como Big estava?
O Ex que assombra o atual relacionamento é um personagem recorrente em algumas histórias. Big sabe que Carrie ainda sente algo por ele, faz bem para seu ego ir atrás dela, tentar reconquistá-la já que seu casamento vai mal. É uma atitude covarde, mas é também o caminho mais simples para se sentir melhor. Trair pode deixar alguns com peso na consciência, mas é comum ficar com o ego inflado. Esconder segredos, evidências e contar mentiras são atitudes amorais, porém sedutoras. Viver uma vida dupla traz adrenalina para o cotidiano. Porém, é triste, é patético e algumas vezes nojento ver como as pessoas não cumprem sua responsabilidade por suas escolhas, ou como usam outras como válvula de escape. Diz a regra que pelo menos uma vez na vida todos trairão e todos serão traídos. Acontece com a diretora da escola ou com o vendedor de paçoca. Acontece em pensamento, sonho, virtualmente, num filme pornô ou numa pizzaria ruim. Pressa ou precaução são coisas que não garantem nada quando se trata de amor.
# Carrie sente-se ameaçada com as investidas de Big. Não consegue ficar em casa com Aidan trabalhando e vai para um hotel escrever sua coluna. Big a procura.
Big: – Estou no saguão.
Carrie: – Quem lhe disse que estou aqui?
Big: – O cara que está na sua casa.
Carrie: – Você ligou na minha casa de novo?
Big: – Preciso conversar com você.
Carrie: – Eu também. Fique no saguão, já estou descendo.
(…)
Carrie: – O que acha que está fazendo? Liga na minha casa, vem até aqui?
Big: – Pode sentar e me escutar? Por um minuto, por favor?
Carrie: – Não tenho tempo para isso. Tenho um namorado e um trabalho com prazo para entregar. E você tem uma esposa e aparentemente bebe demais.
Big: – Não estou bêbado.
Carrie: – E qual é sua desculpa?
Big: – Calma, não consigo pensar… Fui um idiota naquele dia.
Carrie: – Foi mesmo.
Big: – Disse que me separaria e você não disse anda. Fiquei nervoso, e então…
Carrie: – Então o que?
Big: – Eu não sei…
Carrie: – Isso tem que parar! Pare de flertar comigo, pare de ligar para meu namorado. Ele não sabe de você e não pretendo que saiba.
Big: – Por que?
Carrie: – Vá embora.
(…)
Big: – Carrie, espere! Não me expliquei direito. Espere um minuto, ouça-me… A questão é que sinto sua falta.
Carrie: – Coitado. Não me siga no elevador, pare de me perseguir!
Big: – Preciso conversar com você.
Carrie: – O que? O que mais você tem a dizer?
Big: – Cometi um erro.
Carrie: – Vai se foder!
Big: – Eu te amo.
Carrie (pensando): – Minha mente gritava de raiva, mas meu coração… E desse jeito, perdi a cabeça.
Carrie e Big tiveram um relacionamento intenso, de pele e paixão. A atração sexual continua forte e de acordo com a cena incontrolável. Isso é desculpa para uma traição? Os mais racionais provavelmente dirão que não. Eles deixaram de amar seus cônjuges por isso? Difícil dizer. A paixão é a nossa principal imagem de um amor intenso, provoca inúmeras sensações físicas, como calafrios, arrepios, significa sentir na pele o momento. É claro que não é apenas por essa razão que as pessoas traem, assim como não existe apenas uma razão para as pessoas casarem. Trair significa também não pensar nos sentimentos das outras pessoas envolvidas, é um prazer egoísta e irresistível. As tentações estão espalhadas por aí, em roçadas de braço nas filas de cinema, em caronas no fim do curso, em encontros por acaso em bares. Quem já traiu a de concordar comigo que algumas vezes não há uma razão específica, apenas uma oportunidade. Quem já foi traído sabe que tudo pode acontecer de forma inesperada e sem maiores explicações. Não somos todos santos, sabemos que pecar é divertido e cada um sabe o peso do chifre que carrega. Entretanto, há pessoas dispostas a serem sinceras, a abdicarem de oportunidades e desejos em prol da segurança proporcionada pela monogamia. A vida é só uma, decidir abdicar de paixões furtivas, de novos primeiros beijos, significa muitas vezes arcar com a responsabilidade do compromisso de uma vida em comum. Não se pode culpar o coração por uma traição, é preciso assumir nossas fraquezas e erros. A adrenalina de uma traição pode favorecer uma explosão de sentidos, mas também significa muita dor em algum momento. Até quando estaremos insatisfeitos em relação ao fato de que não podemos ter tudo?
Para elucidar e provocar ainda mais a questão, sugiro dois filmes: Closer (2004), Amor à flor da pele (2000) e Vicky Cristina Barcelona (2008).