Você lembra da Mayara, certo?
Primeiro, devo avisar que escrevi o nome dela errado. Troquei os sobrenomes, o correto é Mayara Tavares. Ela tem 17 anos e foi representante do UNICEF no Junior-8, um encontro paralelo ao G-8. Foi escolhida como representante devido a seu trabalho no programa do UNICEF chamado Plataforma de Centros Urbanos. Uma pesquisa feita por adolescentes com adolescentes focada em questões relacionadas as suas vidas como o local onde mora, a escola, etc. Mayara participa do grupo articulador local na sua comunidade. No Junior-8 a função dela foi mostrar a realidade das crianças brasileiras que vivem nos centros urbanos, mais especificamente no Rio de Janeiro. A educação é um ponto de discussão muito importante no encontro e fiquei sabendo que Mayara estuda à noite.
Sabe como descobri tudo isso? Foi na imprensa brasileira? Nããããão! Foi em uma entrevista de Mayara concedida à rádio ONU. A seguir transcrevo alguns trechos:
Rádio ONU: – Mas o que você e os outros jovens vão conversar com o Presidente (Lula) nessa reunião amanhã? O que vocês vão levar pra essa reunião?
Mayara: – A questão é mostrar a diferença. Por exemplo: uma das coisas lá do Rio é falar sobre a educação. E a outra menina da Amazônia vai falar que, por exemplo: lá eles não têm a questão do meio ambiente garantida. O menino da Bahia vai lutar pelo direito das crianças e dos adolescentes. Mas principalmente a gente vai tentar falar com o Lula sobre a nossa participação em si na questão de ajudar o Brasil a se transformar. A mudar a opinião de muitas pessoas que acham que o Brasil é um país que não tem cultura, que não tem participação, não tem desenvolvimento. Pelo contrário, ele tem vários pontos fortes que eu percebi aqui em relação a mobilização de adolescentes. Esse é o nosso ponto chave que a gente tem que… eu não tinha percebido ainda.
Rádio ONU: – Mayara, você me disse uma coisa muito interessante. Você disse que o Brasil é percebido de fora de uma maneira muito mais positiva do que pelos próprios brasileiros. O que te disseram aí sobre o Brasil? Que tipos de elogio fizeram ao país para que você chegasse a essa conclusão?
Mayara: – Na verdade, eu tirei das críticas um grande elogio. Porque muitos aqui não têm participação em programas sociais, eles estudam para poder debater. E a gente não, a gente não precisa estudar, nossa escola é a nossa vida. Entendeu? Então, a gente discutiu, debateu mesmo sobre as políticas públicas, a gente falou da nossa realidade, enquanto eles falaram o que eles estudaram. Entendeu? A gente não estudou, a gente simplesmente viveu.
Está aí a voz de Mayara, estão aí algumas das perguntas que a imprensa brasileira poderia ter feito a ela. A única referência a essa entrevista é essa matéria do G1, que linka a entrevista no fim. No Google News descobri que o caso ganhou até apelido, “buttgate”, porque as pessoas gostam mesmo de chafurdar na lama dos acontecimentos. Falta agora descobrirmos quais os nomes dos outros participantes brasileiros:
#Santiago Plata Garces tem 17 anos e mora em Goiás. Nos últimos 7 meses esteve envolvido no Fórum Municipal contra a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Recentemente participou da organização do grupo Ação Jovem, que visa envolver adolescentes em projetos sociais que irão fazer a diferença em suas comunidades.
#Fagner Lima tem 14 anos e mora na Bahia. É beneficiado pelo PETI – Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, pois trabalhou em plantações durante a sua infância. Participou de conferências municipais e estaduais sobre os direitos das crianças e adolescentes. Quer ser jornalista e está muito envolvido na representação estudantil de sua escola. Está extremamente preocupado com questões relacionadas as alterações climáticas.
#Rosicleia Silva tem 15 anos e vive com sua família em uma área remota da região amazônica no estado do Pará. Ela tem se empenhado no movimento Coletivo Jovem pelo Meio Ambiente. E desenvolvido iniciativas e ações ambientais em sua comunidade, tendo sido escolhida como representante para participar de conferências Ambientais para Crianças e Adolescentes.
Todo esse assunto só veio parar aqui blog por causa daquela foto. Acredito que Mayara possa produzir bons debates e mudanças com sua experiência no Junior-8. E também acredito que as pessoas gostariam de saber sobre o que Mayara conversou com Lula, como foi encontrar Obama, quais as suas impressões dos encontros com os representates do UNICEF de outros países. O discurso de Mayara tem objetivos claros, ela quer mudar a opinião das pessoas que não acreditam no Brasil e acha que a mobilização de adolescentes pode ser um meio de viabilizar essa mudança. Ela também fala sobre a importância das experiências pessoais na construção de políticas sociais coerentes com a realidade e necessidades das pessoas. É uma jovem querendo mudar o mundo, que não teve nenhum espaço na imprensa para falar sobre o futuro. Infelizmente, para a imprensa, as pessoas não estão preocupadas com o futuro, não estão preocupadas em discutir mudanças, querem apenas uma bunda que as faça deixar de pensar nos problemas que enfrentamos. Felizmente, Mayara não pensa assim.


