Negras e Novelas

Estreou essa semana na Dona Grobo, Cheias de Charme. Uma novela que tem como protagonistas três empregadas domésticas. Das três, a única negra é Taís Araújo. Num país em que a maioria das empregadas domésticas são negras, vemos que o protagonismo nas telenovelas ainda é majoritariamente branco.

Taís Araújo como Maria da Penha na novela Cheias de Charme.

Interessante observar que é a primeira vez que empregadas domésticas são protagonistas de uma novela. Quando digo protagonista, quero explicitar que o universo delas é o principal tema da novela, as outras tramas giram ao redor da trama das três protagonistas. Em outra novela, Avenida Brasil, pela primeira vez o futebol tem destaque e é fundamental na trama principal. Dois elementos tão popularmente brasileiros foram ignorados por anos nas tramas novelescas. Foi preciso que a Classe C virasse a queridinha do momento, para mudar o foco para o núcleo suburbano. Porém, são mudanças muito recentes. E não significa que a representação de negros e mestiços está em alta ou fugindo dos estereótipos.

Taís Araújo fez sua primeira protagonista em Xica da Silva (1995), na extinta Rede Manchete. Também foi a protagonista negra de duas novelas da Rede Globo: Da Cor do Pecado (2004) e Viver a Vida (2010). É interessante que quando há uma personagem negra ou negro entre os principais da novela, geralmente há uma família negra. Esses núcleos negros tem mudado, se tornado distintos e até saído das senzalas (nas novelas de época) e das cozinhas, mas essa é uma mudança bem recente, como podemos ver pelas datas das novelas. A única protagonista negra nas novelas atuais, além de Taís Araújo, é Camila Pitanga.

Na novela Aquele Beijo, que terminou semana passada, Sheron Menezes parecia ser a protagonista em alguns momentos, mas o início da novela e o final demonstrou que Giovanna Antonelli era a personagem principal. No caso da Globo há sempre a pista de quem é a personagem principal pela ordem em que aparecem os nomes dos atores na abertura da novela.

Luana Tolentino, me chamou a atenção para o fato que a primeira protagonista negra em uma novela no Brasil foi Ruth de Souza, na novela A Cabana do Pai Tomás (1969/1970), que trouxe um grande elenco negro. Porém, a personagem principal era Pai Tomás, vivido pelo ator branco Sergio Cardoso, que também fazia outros dois personagens na mesma novela e pintava o rosto para interpretar um negro. A personagem de Ruth era a mulher mais importante da trama, mas com o passar dos capítulos foi sendo escanteada. A Cabana do Pai Tomás foi uma novela fundamental para compreender as disputas internas envolvendo racismo entre a rede globo e patrocinadores.

Nas tramas em que Taís Araújo e Camila Pitanga foram protagonistas, elas foram as personagens principais, as outras histórias giravam a partir das suas. O que só mostra o quanto é absurdo que a Globo tenha esperado 35 anos para ter uma protagonista negra sem intervenções. Lembrando que as heroínas de novelas brasileiras são muitas vezes mulheres românticas, ingênuas e subalternas as ordens masculinas, cujo maior objetivo na vida é casar com seu par romântico. Nem é preciso lembrar que nunca houve uma lésbica ou um gay como a personagem principal numa novela. Para saber mais sobre a questão, vale muito assistir o documentário: A Negação do Brasil – O Negro nas Telenovelas Brasileiras de Joel Zito Araújo.

Outro dado curioso, nessas novas novelas com foco na classe C, há vilãs extremamente malvadas e que humilham as empregadas domésticas em várias cenas. Em Avenida Brasil, Carminha acordou Nina de madrugada para limpar o chão da cozinha. Em outra cena, ela proíbe as empregadas de comer a mesma comida dos patrões. No primeiro capítulo de Cheias de Charme, a cantora Chayene jogou comida na cara de Penha. Parece haver um revanchismo, já que as protagonistas vão buscar se vingar de suas patroas.

Escritora moçambicana Paulina Chiziane. Foto de Elza Fiúza/Agência Brasil

Essas observações foram motivadas por uma entrevista com Paulina Chiziane, romancista moçambicana, que está participando da 1° Bienal do Livro e da Leitura em Brasília: Novelas brasileiras passam imagem de país branco, critica escritora moçambicana.

“Para nós, moçambicanos, a imagem do Brasil é a de um país branco ou, no máximo, mestiço. O único negro brasileiro bem-sucedido que reconhecemos como tal é o Pelé. Nas telenovelas, que são as responsáveis por definir a imagem que temos do Brasil, só vemos negros como carregadores ou como empregados domésticos. No topo [da representação social] estão os brancos. Esta é a imagem que o Brasil está vendendo ao mundo”, criticou a autora, destacando que essas representações contribuem para perpetuar as desigualdades raciais e sociais existentes em seu país.

“De tanto ver nas novelas o branco mandando e o negro varrendo e carregando, o moçambicano passa a ver tal situação como aparentemente normal”, sustenta Paulina, apontando para a mesma organização social em seu país.

A presença de igrejas brasileiras em território moçambicano também tem impactos negativos na cultura do país, na avaliação da escritora. “Quando uma ou várias igrejas chegam e nos dizem que nossa maneira de crer não é correta, que a melhor crença é a que elas trazem, isso significa destruir uma identidade cultural. Não há o respeito às crenças locais. Na cultura africana, um curandeiro é não apenas o médico tradicional, mas também o detentor de parte da história e da cultura popular”, detacou Paulina, criticando os governos dos dois países que permitem a intervenção dessas instituições.

Primeira mulher a publicar um livro em Moçambique, Paulina procura fugir de estereótipos em sua obra, principalmente, os que limitam a mulher ao papel de dependente, incapaz de pensar por si só, condicionada a apenas servir.

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A Vida da Gente

Hoje é o último capítulo de A Vida da Gente. Acho que desde Caminho das Índias não me envolvia tanto com uma novela.

Manu e Ana, numa cena "nós é jeca, mas é jóia".

Em termos de representação social tem todos os problemas da maioria das novelas. Os personagens principais não são necessariamente ricos, mas vivem em casas enormes, muito bem decoradas, mesmo quando estão sem trabalhar. Não há negros no núcleo principal e os que existem começam sempre no papel de empregados domésticos. Não há gays, lésbicas, nada que fuja da heteronormatividade. Há também questões hilárias como o figurino de Ana, que está sempre com roupas vermelhas e o de Manu, que usou todos os vestidos florais com casaquinhos existentes no planeta terra. Teve Celina, que tal qual a grávida de Taubaté, tem um filho que não nasce nunca. Homens perfeitos, românticos e maravilhosos como Dr.Lucii.Me.Examina.com.br e Gabriel, o fazendeiro. Homens encosto e imaturos como Marcos, Lourenço e Rodrigo.

Porém, venho de uma longa família de noveleiras e o que nos encanta são justamente as histórias. Ana e Manu serão inesquecíveis. Especialmente pelo dilema principal que não deixa margem para acusarmos nenhuma das duas de querer o mal da outra. Como disse a autora da novela, se há alguma vilã nessa história, ela é a vida. Os pontos positivos são a história dramática vivida nos dias atuais, o núcleo de idosos que possui vida sexual ativa e as diferentes personagens maternas. Algumas muito amorosas, outras exigentes e perfeccionistas. Uma das cenas mais belas foi a sequência do luto de Nanda e Francisco após a morte de Lui. O melhor texto é o da cena em que Manuela e Gabriel se beijam pela primeira vez. A melhor cena é o acerto de contas entre Ana e Manu, porque uma boa briga é muitas vezes o remédio para percebermos os erros de ambas.

Ontem, conversando com a Dehbora, percebemos o quanto a vida real nos impõe todos esses dilemas. O quanto as pessoas perdem ou jogam fora relacionamentos e vidas, porque não conseguem distinguir ao certo o que sentem em um momento. Um instante que muda a vida de todos, tal qual um bullet time effect. Por vários momentos me peguei conversando com amigas sobre as cenas da novela e como aqueles momentos já se repetiram de diferentes maneiras em nossas vidas.

O Amor. Ana, Rodrigo e Manu cresceram juntos. Ana e Rodrigo descobriram uma paixão avassaladora, revelada num passeio com amigos. Uma paixão interrompida por um coma de 5 anos. Manu e Rodrigo se uniram para criar a pequena Júlia juntos. Precisaram amadurecer e reinventar suas vidas. Dessa relação nasceu um amor. As pessoas comentam que o relacionamento entre Manu e Rodrigo era um tédio, que era morno, mas acredito que não há sentimento mais verdadeiro do que aquele que nasce da relação cotidiana entre duas pessoas, da admiração pelas pequenas conquistas. Depois de tanto imbróglio gostaria que todos eles se libertassem e ficassem com outras pessoas, mas parece mesmo que Manu e Rodrigo terão outra chance.

A Paixão. Depois que Ana acordou do coma Manu tentou compreender o sentimento dela e Rodrigo. Perguntou a eles o que sentiam, mas dificilmente conseguimos dizer a verdade nesses momentos. Uma dor que faz até pensar que é ruim conhecer a felicidade. Porém,  o melhor dessa cena é que ela deu origem a fotonovela A Vida Da Crente.

A Reconciliação. Nessa cena há a reconciliação de todos em torno do amor que sentem por Júlia. O olhar entre as duas irmãs é maravilhoso. O interessante é que em uma novela com um texto tão bom, a cena final da reconciliação das duas é feita sem palavras.

A Vadia de Insensato Coração

Em tempos de SlutWalks ou Marchas das Vadias sendo organizadas pelo mundo, inclusive em São Paulo. É importante olharmos para o machismo diário, estampado em ações e declarações de homens e mulheres. Por isso me chamou atenção uma matéria, enviada pela Renata Correa, sobre a atual novela das 9: No ar como a Leila de ‘Insensato Coração’, Bruna Linzmeyer testemunha reação machista do público.

O GLOBO: Por que Leila é polêmica?

BRUNA LINZMEYER: Ela é rica, tem dois lados. É conflituosa, coloca várias questões na mesa. Leila é uma menina contemporânea que luta pelo seu prazer? Ou uma periguete que dá para todo mundo?

O que você acha?

BRUNA: Procuro não julgar. Acho a Leila errada em alguns pontos. Não concordo de ela ficar com um cara só para fazer ciúmes no André. Mas por que não é normal uma menina ficar com um, dois ou três caras na mesma semana e sentir prazer com eles? E se a Leila fosse homem? Será que teria essa repercussão toda?

O público é machista?

BRUNA: Tem gente que ainda é machista. Muitos me abordam na rua de maneira preconceituosa. Mas também encontro meninas dizendo que queriam ter a coragem e ousadia da Leila. É um feminismo bonito.

Como telespectadora de novelas, uma coisa que me incomoda na personagem Leila é sua construção na trama. Leila vem de uma família que tem grana, mas ela quebra muitos padrões. Na primeira fase foi apresentada como uma garota que queria perder a virgindade a qualquer custo. Muito mais do que se apaixonar Leila queria sexo. Ela é um contraponto a irmã Cecília, que é romântica e certinha, como pode-se ver no vídeo: Leila decide perder a virgindade com Cadu. Sabemos que o público brasileiro de novelas é conservador, então me parece normal que ele rejeite a personagem, como vemos na entrevista. Leila poderia ter outras nuances. Mesmo seu sonho de estudar moda e se desenvolver artísticamente fica em segundo plano. Mas, acredito que a personagem tende a crescer na trama.

Leila à esquerda, seus pais, Júlio e Eunice à direita. Cena da Novela Insensato Coração da Rede Globo.

Na segunda fase da novela, Leila volta de uma temporada morando em Londres. Ela se transforma e a personagem ganha um visual moderno e fashionista. Porém, mais uma vez o único tema que gira ao redor de Leila é sexo. Ela é realmente uma personagem libertadora, mas que acaba perdendo fôlego com essa fixação. Ela transa com o personagem-garanhão André e, apesar de outras experiências sexuais, tem seu primeiro orgasmo. André é um personagem que deixa claro: nunca transa mais de uma vez com a mesma mulher. E Leila fica obcecada em conquistá-lo. O mais interessante é que Leila usa de diversas táticas para tentar conquistá-lo, inclusive ficar com amigos de André. Ao mesmo tempo que a vemos cega pelo garanhão, ela usa e abusa de sua liberdade sexual.Vale a pena ver a quantidade de falas depreciando Leila como: “tô vendo o Beto pegar minhas sobras” ou “a uva tava verde quando tava na minha mão” ou “cortesia de amigo”, na conversa do vídeo: Leila vai para casa de Beto. Por que a promiscuidade parece ser o grande mal da juventude atual? Se tomamos precauções e não machucamos pessoas, por que moralmente é tão absurdo sermos promíscuos? Vale a pena ler alguns dos comentários deixados na matéria citada acima:

Me desculpem o comentário, mas acho que estas novelas mostram uma realidade de maneira muito promíscua, qualquer adolescente que ver estas interpretações vão se achar no direito de ser assim, e sabemos muito bem que a realidade entre homens e mulheres estão assim, ninguem pensa que amar é a melhor coisa e que envelhecer na solidão só trás depressão e doença. Deveriam maneirar nestas interpretações, estão invertendo os valores e, sabemos que isso não é ser felicidade. Natvalle

O que posso dizer é coitados dos jovens e dos pais destes jovens. Promiscuidade é promiscuidade, masculina ou feminina. Não sonhem com finais felizes, futuros casamentos duradouros e filhos emocionalmente estruturados. A história mostra que este comportamento tem um custo caro. JSA

Então, as perguntas de Bruna Linzmeyer são muito pertinentes. E se fosse um homem ficando com várias mulheres na mesma semana? Por que o personagem de André, vivido por Lázaro Ramos, não sofre essa rejeição? Por que não podemos aceitar que mulheres tem desejos e querem sentir prazer sem necessariamente haver um relacionamento tradicional? Amor e casamento são o único caminho para felicidade? A personagem Leila acaba sendo contraditória no seu movimento de liberação sexual, pois parece fazer isso apenas para conquistar o personagem André. Porém, sua história mostra que o prazer é sua busca. Ela representa uma personagem feminina revolucionária, que enfrenta o próprio pai e diz com todas as letras que paga um preço por sua liberdade que ele nunca vai entender, como vemos na cena: Leila perde a cabeça com Júlio e lhe dá um tapa na cara. A pergunta que fica é: por que Leila tem que pagar esse preço? Por que as mulheres não podem ser livres e donas de seus corpos? Socialmente devemos sempre nos comportar como se usássemos burcas.

É bonito ver o pai de Leila pedindo para ela voltar, os dois se desculpando, mas é mais bonito ainda ver Leila explicando que: “eu vou voltar a morar aqui porque amo vocês. São minha família. Mas eu ganho meu dinheiro e pago minhas contas, o que faço da porta pra fora é assunto meu”; no vídeo Júlio pede para Leila voltar para casa. A vida sexual das pessoas não diminui em nada os sentimentos pela família, portanto não deve diminuir o respeito.

Leila é a vagabunda da vez na novela. Muitas ainda marcharão para lutar pelo direito de serem o que quiserem. Mulheres podem ser obedientes e boazinhas. Assim como também podem ser agressivas e indiscretas. Há espaço para todas. Não somos vadias e nem vagabundas, somos libertárias. Atuamos em nossas próprias vidas, sem nos preocupar com rótulos. Todas somos putas quando não agimos da maneira convencional, determinada pelo machismo, que nos faz pagar o alto preço de nossa liberdade. Uma liberdade que ainda não existe para todas. Então, bitch, não chame a coleguinha de puta, ok?