Personagens negras em Flor do Caribe

Flor do Caribe‘ estreou em março de 2013 e acabou na última sexta-feira (13 de setembro). A primeira coisa que se nota, ao ver qualquer capítulo, é que as três personagens do triângulo amoroso principal: Ester (Grazi Massafera), Cassiano (Henri Castello) e Alberto (Igor Rickli) são brancos, loiros e de olhos claros. A novela foi inclusive apelidada de ‘Flor da Suécia’. E, vale notar que a novela anterior, Lado a Lado (2012) tinha talvez o maior elenco negro da história das telenovelas globais e, entre seus temas principais estavam o racismo e a formação da comunidade negra do Morro da Providência no Rio de Janeiro.

‘Flor do Caribe’ teve quatro personagens negras com participação direta nas tramas principais: Quirino (Ailton Graça), William (Renzo Aprouch), Nicole (Cinara Leal) e Silvestre (Wilson Rabelo). Há outras personagens negras ou não-brancas como a bugueira Tais (Débora Nascimento), a tenente da aeronáutica Isabel (Thaissa Carvalho), a dona de quiosque Bibiana (Cyra Coentro) e a empregada doméstica Zuleika (Gisele Alves), algumas remetem a etnia indígena. O site da novela, em sua lista de personagens traz Alaor (Gésio Amadeu), como sendo amigo de Chico (Cacá Amaral), pai de Cassiano, mas o vi em poucas cenas em seis meses de novela. Então, vou me concentrar nas quatro que citei primeiro, especialmente porque com três houve cenas que envolveram casos de racismo.

Muitas vezes reclamamos de como a Globo não escala atores negros para suas novelas, especialmente para papéis que não reproduzam estereótipos e reforçem as posições sociais de negras e negros, como empregadas domésticas, motoristas, malandros, prostitutas, etc. Porém, não basta apenas ter personagens negras, é preciso dar destaque para suas tramas ou que pelo menos tenham papel fundamental nas tramas principais. Mesmo com apenas quatro personagens negras, ‘Flor do Caribe’ até que foi bem sucedida nesse ponto, na minha opinião. As personagens começam dentro de estereótipos clássicos, mas no decorrer da trama modificam seus caminhos com resultados positivos.

Dentre todas as personagens negras, Quirino é a que tem mais destaque, tendo cenas em praticamente todos os capítulos e com participação direta em tramas principais como a descoberta de um nazista, além de ter seus próprios dramas que envolvem o namoro e casamento com Doralice (Rita Guedes), seu trabalho como professor e a relação de paternidade com os filhos Juliano e William. No início, Quirino é motorista na mansão de Dionísio Albuquerque (Sergio Mamberti), um dos vilões da novela. Ficamos sabendo que Quirino é ex-padre e que largou a batina para adotar Juliano (Bruno Gissoni). Após casar com Doralice, adotam William. Quirino pede demissão do emprego na mansão, quando Dionísio é racista com William. Na cena, a questão do racismo velado é falada com todas as letras: ‘Quirino discute com Dionísio e pede demissão’. O assunto é retomado na cena em que Quirino encontra o amigo Samuel: ‘Quirino conta a Samuel o motivo de ter pedido demissão’.

Quirino (Ailton Graça) e William (Renzo Aprouch) em cena da novela 'Flor do Caribe' (2013).
Quirino (Ailton Graça) e William (Renzo Aprouch) em cena da novela ‘Flor do Caribe’ (2013).

William é amigo de Samuca (Vitor Figueiredo), filho das personagens principais Cassiano e Ester. Aparece em várias cenas com outras crianças da trama, na escola e interagindo com a família. É alegre, extrovertido e amoroso. Quando seus pais decidem se separar há uma cena muito especial: ‘William diz a Doralice que prefere morar com Quirino’. Foi uma personagem que não teve diferenças na representação em comparação as outras crianças da trama.

Silvestre só apareceu com destaque no último mês de novela. Mineiro, é escolhido por Alberto para lhe passar informações e sabotar a mina do rival Cassiano. A proposta de Alberto é feita explorando as dificuldades financeiras de Silvestre, o que nos faz pensar na representação do negro traidor, que só pensa em se dar bem, como vemos na cena: ‘Alberto pressiona Silvestre a aceitar proposta’. Posteriormente, ocorrem ameaças: ‘Alberto ameaça Silvestre e sua família’. A partir daí, Silvestre decide ser honesto e abrir o jogo com Cassiano: ‘Silvestre confessa a Cassiano que explodiu a mina’ e ‘Cassiano decide não entregar Silvestre para a polícia’. A relação homem branco sendo o patrão e homem negro como operário está representada, mas o diálogo honesto não coloca Silvestre como alguém humilhado, que implora por perdão, mas sim que assume seus erros. A partir daí os planos do vilão Alberto são frustrados e Silvestre torna-se amigo de Cassiano, inclusive aparecendo nas cenas finais, na festa de casamento.

Nicole surge na novela a partir da metade, quando Guiomar (Claudia Netto), mãe de Alberto, entra na trama. Primeiramente, ela é secretária particular de Guiomar, mas logo vai trabalhar como coreógrafa e dançarina no bar Flor do Caribe, que tem Cassiano como proprietário. Mora na mansão Albuquerque junto com Guiomar, onde mais uma vez ocorre uma cena de racismo com Dionísio: ‘Dionísio expulsa Nicole de sua casa’. Após esse acontecimento, Nicole recebe apoio para fazer uma denúncia na polícia: ‘Nicole faz a denúncia contra Dionísio’. A reação de Nicole é muito bem-vinda, não apenas por dizer que tem orgulho de sua negritude, mas também por ser mulher. Afinal, é comum ver o racismo relativizado na televisão brasileira e personagens femininas sendo condescendentes.

Nicole (Cinara Leal) em cena da novela 'Flor do Caribe' (2013).
Nicole (Cinara Leal) em cena da novela ‘Flor do Caribe’ (2013).

No fim da novela, Quirino e Nicole se apaixonam e acabam formando com William uma nova família. Dentro do contexto geral, acredito que as representações foram positivas. Todas as personagens conseguiram sair de estereótipos e ganharam destaque em momentos importantes da trama, fora o fato de haver cenas discutindo racismo de forma explícita. Mesmo a personagem de Nicole, que é uma mulher bonita e sensual, não teve essas características exploradas de maneira preconceituosa. Foi apresentada como uma mulher criativa, alegre e admirada por outras personagens.

‘Lado a Lado’ foi um marco em termos de representação negra e discussão do racismo nas telenovelas brasileiras. Que ‘Flor do Caribe’ tenha tido algumas cenas sobre o tema, mesmo com um elenco predominantemente branco, pode ser um indicativo de que as pessoas estão cientes que esse assunto precisa ser discutido na televisão. Ainda há muito a ser feito, precisamos que os elencos das novelas tenham cada vez mais representações de pessoas não-brancas, especialmente como protagonistas. E, no caso das personagens negras é urgente que saiam de papeis reducionistas como a empregada doméstica, o malandro ou o criminoso. Como destaca Joel Zito Araújo:

Ao caracterizar o negro de modo estereotipado, a telenovela traz, para o mundo da ficção, um imaginário que permeia as relações entre brancos e negros no Brasil; revela o universo presente nessas relações, atualiza crenças e valores pautados por esse imaginário que não modernizou as relações interétnicas na nossa sociedade. A telenovela pretende, hoje, representar a moderna sociedade brasileira, discutir temáticas sociais atuais e candentes; entretanto, não inclui nessas temáticas uma imagem mais moderna nem um questionamento mais sério e corajoso da questão racial e das relações entre brancos e negros no Brasil, a não ser por meio de algumas tentativas esporádicas e realizadas, frequentemente, com alguns equívocos. Não parece fazer parte da agenda das emissoras de tevê uma proposta sistemática de contribuir para uma discussão sobre o racismo. Do mesmo modo que em outras instâncias esse debate não é considerado prioridade, pois, possivelmente pelo “preconceito de ter preconceito”, continuamos a não enfrentar a existência do racismo e a não admití-lo, e insistimos em racionalizar com a afirmativa de que esse problema já foi resolvido no Brasil, invocando-se inclusive a Constituição para corroborar a afirmativa. Sabemos que, do mesmo modo que a questão do racismo não se resolveu com uma lei, também não se resolveria com discussões na televisão ou inserções na telenovela. Entretanto, uma proposta de discussão e inserção nesses veiculos de comunicação, se bem encaminhada e tratada com seriedade, poderia contribuir para esclarecer, principalmente as novas gerações e o público leigo no assunto. Referência: A negação do Brasil: o negro na telenovela brasileira (pg. 13) de Joel Zito Araújo. Editora SENAC, São Paulo, 2004.