Em tempos de SlutWalks ou Marchas das Vadias sendo organizadas pelo mundo, inclusive em São Paulo. É importante olharmos para o machismo diário, estampado em ações e declarações de homens e mulheres. Por isso me chamou atenção uma matéria, enviada pela Renata Correa, sobre a atual novela das 9: No ar como a Leila de ‘Insensato Coração’, Bruna Linzmeyer testemunha reação machista do público.
O GLOBO: Por que Leila é polêmica?
BRUNA LINZMEYER: Ela é rica, tem dois lados. É conflituosa, coloca várias questões na mesa. Leila é uma menina contemporânea que luta pelo seu prazer? Ou uma periguete que dá para todo mundo?
O que você acha?
BRUNA: Procuro não julgar. Acho a Leila errada em alguns pontos. Não concordo de ela ficar com um cara só para fazer ciúmes no André. Mas por que não é normal uma menina ficar com um, dois ou três caras na mesma semana e sentir prazer com eles? E se a Leila fosse homem? Será que teria essa repercussão toda?
O público é machista?
BRUNA: Tem gente que ainda é machista. Muitos me abordam na rua de maneira preconceituosa. Mas também encontro meninas dizendo que queriam ter a coragem e ousadia da Leila. É um feminismo bonito.
Como telespectadora de novelas, uma coisa que me incomoda na personagem Leila é sua construção na trama. Leila vem de uma família que tem grana, mas ela quebra muitos padrões. Na primeira fase foi apresentada como uma garota que queria perder a virgindade a qualquer custo. Muito mais do que se apaixonar Leila queria sexo. Ela é um contraponto a irmã Cecília, que é romântica e certinha, como pode-se ver no vídeo: Leila decide perder a virgindade com Cadu. Sabemos que o público brasileiro de novelas é conservador, então me parece normal que ele rejeite a personagem, como vemos na entrevista. Leila poderia ter outras nuances. Mesmo seu sonho de estudar moda e se desenvolver artísticamente fica em segundo plano. Mas, acredito que a personagem tende a crescer na trama.

Leila à esquerda, seus pais, Júlio e Eunice à direita. Cena da Novela Insensato Coração da Rede Globo.
Na segunda fase da novela, Leila volta de uma temporada morando em Londres. Ela se transforma e a personagem ganha um visual moderno e fashionista. Porém, mais uma vez o único tema que gira ao redor de Leila é sexo. Ela é realmente uma personagem libertadora, mas que acaba perdendo fôlego com essa fixação. Ela transa com o personagem-garanhão André e, apesar de outras experiências sexuais, tem seu primeiro orgasmo. André é um personagem que deixa claro: nunca transa mais de uma vez com a mesma mulher. E Leila fica obcecada em conquistá-lo. O mais interessante é que Leila usa de diversas táticas para tentar conquistá-lo, inclusive ficar com amigos de André. Ao mesmo tempo que a vemos cega pelo garanhão, ela usa e abusa de sua liberdade sexual.Vale a pena ver a quantidade de falas depreciando Leila como: “tô vendo o Beto pegar minhas sobras” ou “a uva tava verde quando tava na minha mão” ou “cortesia de amigo”, na conversa do vídeo: Leila vai para casa de Beto. Por que a promiscuidade parece ser o grande mal da juventude atual? Se tomamos precauções e não machucamos pessoas, por que moralmente é tão absurdo sermos promíscuos? Vale a pena ler alguns dos comentários deixados na matéria citada acima:
Me desculpem o comentário, mas acho que estas novelas mostram uma realidade de maneira muito promíscua, qualquer adolescente que ver estas interpretações vão se achar no direito de ser assim, e sabemos muito bem que a realidade entre homens e mulheres estão assim, ninguem pensa que amar é a melhor coisa e que envelhecer na solidão só trás depressão e doença. Deveriam maneirar nestas interpretações, estão invertendo os valores e, sabemos que isso não é ser felicidade. Natvalle
O que posso dizer é coitados dos jovens e dos pais destes jovens. Promiscuidade é promiscuidade, masculina ou feminina. Não sonhem com finais felizes, futuros casamentos duradouros e filhos emocionalmente estruturados. A história mostra que este comportamento tem um custo caro. JSA
Então, as perguntas de Bruna Linzmeyer são muito pertinentes. E se fosse um homem ficando com várias mulheres na mesma semana? Por que o personagem de André, vivido por Lázaro Ramos, não sofre essa rejeição? Por que não podemos aceitar que mulheres tem desejos e querem sentir prazer sem necessariamente haver um relacionamento tradicional? Amor e casamento são o único caminho para felicidade? A personagem Leila acaba sendo contraditória no seu movimento de liberação sexual, pois parece fazer isso apenas para conquistar o personagem André. Porém, sua história mostra que o prazer é sua busca. Ela representa uma personagem feminina revolucionária, que enfrenta o próprio pai e diz com todas as letras que paga um preço por sua liberdade que ele nunca vai entender, como vemos na cena: Leila perde a cabeça com Júlio e lhe dá um tapa na cara. A pergunta que fica é: por que Leila tem que pagar esse preço? Por que as mulheres não podem ser livres e donas de seus corpos? Socialmente devemos sempre nos comportar como se usássemos burcas.
É bonito ver o pai de Leila pedindo para ela voltar, os dois se desculpando, mas é mais bonito ainda ver Leila explicando que: “eu vou voltar a morar aqui porque amo vocês. São minha família. Mas eu ganho meu dinheiro e pago minhas contas, o que faço da porta pra fora é assunto meu”; no vídeo Júlio pede para Leila voltar para casa. A vida sexual das pessoas não diminui em nada os sentimentos pela família, portanto não deve diminuir o respeito.
Leila é a vagabunda da vez na novela. Muitas ainda marcharão para lutar pelo direito de serem o que quiserem. Mulheres podem ser obedientes e boazinhas. Assim como também podem ser agressivas e indiscretas. Há espaço para todas. Não somos vadias e nem vagabundas, somos libertárias. Atuamos em nossas próprias vidas, sem nos preocupar com rótulos. Todas somos putas quando não agimos da maneira convencional, determinada pelo machismo, que nos faz pagar o alto preço de nossa liberdade. Uma liberdade que ainda não existe para todas. Então, bitch, não chame a coleguinha de puta, ok?