Personagens negras em Flor do Caribe

Flor do Caribe‘ estreou em março de 2013 e acabou na última sexta-feira (13 de setembro). A primeira coisa que se nota, ao ver qualquer capítulo, é que as três personagens do triângulo amoroso principal: Ester (Grazi Massafera), Cassiano (Henri Castello) e Alberto (Igor Rickli) são brancos, loiros e de olhos claros. A novela foi inclusive apelidada de ‘Flor da Suécia’. E, vale notar que a novela anterior, Lado a Lado (2012) tinha talvez o maior elenco negro da história das telenovelas globais e, entre seus temas principais estavam o racismo e a formação da comunidade negra do Morro da Providência no Rio de Janeiro.

‘Flor do Caribe’ teve quatro personagens negras com participação direta nas tramas principais: Quirino (Ailton Graça), William (Renzo Aprouch), Nicole (Cinara Leal) e Silvestre (Wilson Rabelo). Há outras personagens negras ou não-brancas como a bugueira Tais (Débora Nascimento), a tenente da aeronáutica Isabel (Thaissa Carvalho), a dona de quiosque Bibiana (Cyra Coentro) e a empregada doméstica Zuleika (Gisele Alves), algumas remetem a etnia indígena. O site da novela, em sua lista de personagens traz Alaor (Gésio Amadeu), como sendo amigo de Chico (Cacá Amaral), pai de Cassiano, mas o vi em poucas cenas em seis meses de novela. Então, vou me concentrar nas quatro que citei primeiro, especialmente porque com três houve cenas que envolveram casos de racismo.

Muitas vezes reclamamos de como a Globo não escala atores negros para suas novelas, especialmente para papéis que não reproduzam estereótipos e reforçem as posições sociais de negras e negros, como empregadas domésticas, motoristas, malandros, prostitutas, etc. Porém, não basta apenas ter personagens negras, é preciso dar destaque para suas tramas ou que pelo menos tenham papel fundamental nas tramas principais. Mesmo com apenas quatro personagens negras, ‘Flor do Caribe’ até que foi bem sucedida nesse ponto, na minha opinião. As personagens começam dentro de estereótipos clássicos, mas no decorrer da trama modificam seus caminhos com resultados positivos.

Dentre todas as personagens negras, Quirino é a que tem mais destaque, tendo cenas em praticamente todos os capítulos e com participação direta em tramas principais como a descoberta de um nazista, além de ter seus próprios dramas que envolvem o namoro e casamento com Doralice (Rita Guedes), seu trabalho como professor e a relação de paternidade com os filhos Juliano e William. No início, Quirino é motorista na mansão de Dionísio Albuquerque (Sergio Mamberti), um dos vilões da novela. Ficamos sabendo que Quirino é ex-padre e que largou a batina para adotar Juliano (Bruno Gissoni). Após casar com Doralice, adotam William. Quirino pede demissão do emprego na mansão, quando Dionísio é racista com William. Na cena, a questão do racismo velado é falada com todas as letras: ‘Quirino discute com Dionísio e pede demissão’. O assunto é retomado na cena em que Quirino encontra o amigo Samuel: ‘Quirino conta a Samuel o motivo de ter pedido demissão’.

Quirino (Ailton Graça) e William (Renzo Aprouch) em cena da novela 'Flor do Caribe' (2013).

Quirino (Ailton Graça) e William (Renzo Aprouch) em cena da novela ‘Flor do Caribe’ (2013).

William é amigo de Samuca (Vitor Figueiredo), filho das personagens principais Cassiano e Ester. Aparece em várias cenas com outras crianças da trama, na escola e interagindo com a família. É alegre, extrovertido e amoroso. Quando seus pais decidem se separar há uma cena muito especial: ‘William diz a Doralice que prefere morar com Quirino’. Foi uma personagem que não teve diferenças na representação em comparação as outras crianças da trama.

Silvestre só apareceu com destaque no último mês de novela. Mineiro, é escolhido por Alberto para lhe passar informações e sabotar a mina do rival Cassiano. A proposta de Alberto é feita explorando as dificuldades financeiras de Silvestre, o que nos faz pensar na representação do negro traidor, que só pensa em se dar bem, como vemos na cena: ‘Alberto pressiona Silvestre a aceitar proposta’. Posteriormente, ocorrem ameaças: ‘Alberto ameaça Silvestre e sua família’. A partir daí, Silvestre decide ser honesto e abrir o jogo com Cassiano: ‘Silvestre confessa a Cassiano que explodiu a mina’ e ‘Cassiano decide não entregar Silvestre para a polícia’. A relação homem branco sendo o patrão e homem negro como operário está representada, mas o diálogo honesto não coloca Silvestre como alguém humilhado, que implora por perdão, mas sim que assume seus erros. A partir daí os planos do vilão Alberto são frustrados e Silvestre torna-se amigo de Cassiano, inclusive aparecendo nas cenas finais, na festa de casamento.

Nicole surge na novela a partir da metade, quando Guiomar (Claudia Netto), mãe de Alberto, entra na trama. Primeiramente, ela é secretária particular de Guiomar, mas logo vai trabalhar como coreógrafa e dançarina no bar Flor do Caribe, que tem Cassiano como proprietário. Mora na mansão Albuquerque junto com Guiomar, onde mais uma vez ocorre uma cena de racismo com Dionísio: ‘Dionísio expulsa Nicole de sua casa’. Após esse acontecimento, Nicole recebe apoio para fazer uma denúncia na polícia: ‘Nicole faz a denúncia contra Dionísio’. A reação de Nicole é muito bem-vinda, não apenas por dizer que tem orgulho de sua negritude, mas também por ser mulher. Afinal, é comum ver o racismo relativizado na televisão brasileira e personagens femininas sendo condescendentes.

Nicole (Cinara Leal) em cena da novela 'Flor do Caribe' (2013).

Nicole (Cinara Leal) em cena da novela ‘Flor do Caribe’ (2013).

No fim da novela, Quirino e Nicole se apaixonam e acabam formando com William uma nova família. Dentro do contexto geral, acredito que as representações foram positivas. Todas as personagens conseguiram sair de estereótipos e ganharam destaque em momentos importantes da trama, fora o fato de haver cenas discutindo racismo de forma explícita. Mesmo a personagem de Nicole, que é uma mulher bonita e sensual, não teve essas características exploradas de maneira preconceituosa. Foi apresentada como uma mulher criativa, alegre e admirada por outras personagens.

‘Lado a Lado’ foi um marco em termos de representação negra e discussão do racismo nas telenovelas brasileiras. Que ‘Flor do Caribe’ tenha tido algumas cenas sobre o tema, mesmo com um elenco predominantemente branco, pode ser um indicativo de que as pessoas estão cientes que esse assunto precisa ser discutido na televisão. Ainda há muito a ser feito, precisamos que os elencos das novelas tenham cada vez mais representações de pessoas não-brancas, especialmente como protagonistas. E, no caso das personagens negras é urgente que saiam de papeis reducionistas como a empregada doméstica, o malandro ou o criminoso. Como destaca Joel Zito Araújo:

Ao caracterizar o negro de modo estereotipado, a telenovela traz, para o mundo da ficção, um imaginário que permeia as relações entre brancos e negros no Brasil; revela o universo presente nessas relações, atualiza crenças e valores pautados por esse imaginário que não modernizou as relações interétnicas na nossa sociedade. A telenovela pretende, hoje, representar a moderna sociedade brasileira, discutir temáticas sociais atuais e candentes; entretanto, não inclui nessas temáticas uma imagem mais moderna nem um questionamento mais sério e corajoso da questão racial e das relações entre brancos e negros no Brasil, a não ser por meio de algumas tentativas esporádicas e realizadas, frequentemente, com alguns equívocos. Não parece fazer parte da agenda das emissoras de tevê uma proposta sistemática de contribuir para uma discussão sobre o racismo. Do mesmo modo que em outras instâncias esse debate não é considerado prioridade, pois, possivelmente pelo “preconceito de ter preconceito”, continuamos a não enfrentar a existência do racismo e a não admití-lo, e insistimos em racionalizar com a afirmativa de que esse problema já foi resolvido no Brasil, invocando-se inclusive a Constituição para corroborar a afirmativa. Sabemos que, do mesmo modo que a questão do racismo não se resolveu com uma lei, também não se resolveria com discussões na televisão ou inserções na telenovela. Entretanto, uma proposta de discussão e inserção nesses veiculos de comunicação, se bem encaminhada e tratada com seriedade, poderia contribuir para esclarecer, principalmente as novas gerações e o público leigo no assunto. Referência: A negação do Brasil: o negro na telenovela brasileira (pg. 13) de Joel Zito Araújo. Editora SENAC, São Paulo, 2004.

O amor do senhor pelo escravo

Essa é a semana decisiva da novela Lado a Lado.

Isabel (negra, filha de ex-escravos) descobre que Constância (ex-baronesa nos tempos do império, esposa de um senador da República) roubou seu filho, colocou um bebê morto no lugar e deu dinheiro para o menino ser criado no Morro, bem ao lado do avô, sem ninguém saber de nada. Ela ainda patrocinou a ida de Isabel para França, com o intuito de vê-la longe do menino, já que pretendia enviá-lo para um internato.

O capítulo do dia 16 de janeiro trouxe o embate entre as duas com cenas e diálogos incríveis (clique nos links para ver as cenas).

Lado a Lado. Cena do Capítulo de 16/01/2013. Isabel enfrenta Constância para descobrir a verdade sobre seu filho.

Lado a Lado. Cena do Capítulo de 16/01/2013. Isabel enfrenta Constância para descobrir a verdade sobre seu filho.

1. Laura pressiona Constância.

Laura (filha de Constância, amiga de Isabel): Tem uma história na nossa família que me arrepia até hoje. Quem contou foi a Tia Celinha…. Que a mucama da minha avó era irmã dela!

Constância: Meia-irmã! Ilegítima! Era a escrava mais bem tratada da casa.

Laura: Quando penso que eu tinha uma tia-avó que era tratada como escrava pela própria família, isso me dá nojo de mim mesma. Mas, para a senhora, isso é normal. O importante é sempre não manchar a imagem da família.

2. Isabel, Afonso e Laura colocam Constância contra a parede.

Essa cena vale inteira pelo momento final, em que Constância depois de negar o tempo inteiro o ato abominável que cometeu, vacila e se entrega, ao saber que seu neto mestiço, tão amado, está perdido pela cidade.

3. Constância assume culpa e Isabel se descontrola.

Constância: O importante agora é saber onde foi parar o Elias.

Isabel: Onde foi parar o Elias???? A senhora teve coragem de tirar um filho da própria mãe. A senhora o jogou na mão de duas desmioladas. A culpa é sua!

Constância: Se fosse por você, ele ia viver na vergonha de ser filho de uma mãe solteira, que trabalhava como camareira num teatro. Eu dei a ele uma mãe viúva e ia por no melhor internato…

Isabel: Cala a boca! Ela é um monstro. É um monstro. Eu vou sair daqui senão vou esfolar sua mãe viva. 

Eu e meu pai carregamos nas costas o peso de centenas de anos de pelourinho, de chibata, de violência. Eu sempre tive horror a isso. Mas agora, eu juro por Deus, tudo que eu mais queria era ver a senhora de costas nuas, levando chibatada até sangrar.

Constância: Quando vocês encontrarem o Elias, por favor, me deem notícias.

Isabel: Isabel… Isabel não mata essa mulher. Porque você tem um filho pra criar e você não pode parar na cadeia.

Afonso (pai de Isabel): Isso. Vamos embora desse pardieiro. Eu tô com medo de pegar alguma doença se ficar mais tempo aqui. Vamos, Isabel.

Constância: Será que eles vão conseguir achar o Elias? Não é melhor chamar a polícia?

Laura: Mãe, se chamarem a polícia, você vai presa!

4. Constância pede segredo a Laura.

Constância: Não vai tomar o seu chá, minha filha?

Laura: Não. Como é que eu posso tomar chá, qualquer outra coisa, diante… Mãe, o que aconteceu aqui foi muito grave. O que a senhora fez foi muito grave.

Constância: Eu só quis oferecer o melhor pro meu neto. Mais um pouco eu ia mandar o Elias pro internato, ia ter uma ótima educação. Esses anos todos eu zelei por esse menino. Aguardei ansiosamente cada encontro nosso.

Laura: Mãe, a senhora tirou o filho da Isabel. A Isabel enterrou um bebê achando que era o filho dela.

Constância: O Elias é uma criança adorável, Laura. E o amor de avó é recheado de boas lembranças. Ter uma criança por perto, sentir aquele cheirinho novamente, é como ser mãe de novo, sem tantas provações. Cada vez que eu via o Elias, revivia os melhores momentos da minha vida.

5. Mesmo abalada, Isabel diz a Jurema que vai dançar no evento beneficente.

Isabel: Só quando a desgraçada mostrou que tava preocupada com o Elias é que a dúvida acabou de vez. Essa Constância é a mulher mais horrível que existe, Tia. Mais horrível porque ela é capaz de dar carinho pra uma criança… a mesma criança que ela sequestrou e pra quem fez tanto mal. 

Tia, eu nunca achei que carinho pudesse ser uma coisa ruim. Mas esse carinho é. Porque esse carinho é asqueroso… ele é indecente… Ai Tia, eu nem sei explicar isso.

Tia Jurema: Mas eu sei, meu bem. É o carinho do senhor pelo escravo que lhe serve. 

A dona do próprio corpo

Lado a Lado é a atual novela da faixa das seis na Grobo. É uma novela de época que tem como um dos temas principais a emancipação feminina. Apesar dos elogios da crítica, a novela vai mal na audiência. Porém, é um biscoito fino que merece ser apreciado especialmente pelo texto e por suas duas protagonistas: Isabel e Laura. Prometo escrever um post mais longo no futuro, porque acho essa novela bem feminista. Porém, hoje quero apenas destacar uma cena.

Isabel, personagem de Camila Pitanga na novela Lado a Lado (2012).

Isabel é uma negra, filha de ex-escravos, interpretada por Camila Pitanga. Trabalhou como empregada doméstica e camareira de teatro. Foi mãe solteira e perdeu seu bebê devido a maldade da vilã Constância. Decidida a ter uma nova vida, aproveitou a oportunidade de conhecer a dançarina francesa Jeanette Dorleac e foi morar na Paris dos anos 20. Voltou rica e famosa. Apresentou sua dança, inspirada no samba e em outros ritmos negros e conquistou tudo que sonhou. Voltou ao Brasil para retornar as suas raízes.

Isabel é apaixonada por Zé Maria, vivido por Lázaro Ramos. Capoeirista, ex-barbeiro e ex-marinheiro. Um homem honesto e justo, mas machista como a sociedade da época. Após ficarem anos separados, a paixão entre os dois ainda existe. No reencontro é que se dá a cena e o texto que quero mostrar:

Zé Maria (Lázaro Ramos) foi preconceituoso e grosseiro com Isabel (Camila Pitanga) depois da primeira noite de amor deles. O ex-marinheiro ficou tão inseguro com a postura da dançarina que a colocou contra a parede para saber com quantos homens ela já se deitou. Arrependido, ele vai até a casa dela, mas é recebido com quatro pedras na mão. Afinal, Isabel não está para brincadeira. “O senhor por favor se retire, não é mais bem-vindo nessa casa”, diz Isabel. Zé Maria insiste para que ela o escute. Ele diz que não quis ofendê-la, mas ficou surpreso com a nova Isabel que acaba de surgir.

Sem baixar a cabeça, ela demonstra que não é mais aquela menina inocente, criada para se casar virgem, e que sabe exatamente o que quer. “Eu convivi com muitas mulheres diferentes em Paris, descobri que a mulher pode ser livre, dona do próprio corpo. O corpo é meu, Zé! Não é de homem nenhum, nunca foi, nunca vai ser. Nem seu. Nem foi seu anteontem, quando eu me deitei com você. Se eu me deitei com você foi porque eu quis, éramos duas pessoas, não um homem sendo dono de uma mulher. Eu quis ir pra cama com você porque eu te desejo, porque eu te amo”, diz.

Veja a cena aqui.

Negras e Novelas

Estreou essa semana na Dona Grobo, Cheias de Charme. Uma novela que tem como protagonistas três empregadas domésticas. Das três, a única negra é Taís Araújo. Num país em que a maioria das empregadas domésticas são negras, vemos que o protagonismo nas telenovelas ainda é majoritariamente branco.

Taís Araújo como Maria da Penha na novela Cheias de Charme.

Interessante observar que é a primeira vez que empregadas domésticas são protagonistas de uma novela. Quando digo protagonista, quero explicitar que o universo delas é o principal tema da novela, as outras tramas giram ao redor da trama das três protagonistas. Em outra novela, Avenida Brasil, pela primeira vez o futebol tem destaque e é fundamental na trama principal. Dois elementos tão popularmente brasileiros foram ignorados por anos nas tramas novelescas. Foi preciso que a Classe C virasse a queridinha do momento, para mudar o foco para o núcleo suburbano. Porém, são mudanças muito recentes. E não significa que a representação de negros e mestiços está em alta ou fugindo dos estereótipos.

Taís Araújo fez sua primeira protagonista em Xica da Silva (1995), na extinta Rede Manchete. Também foi a protagonista negra de duas novelas da Rede Globo: Da Cor do Pecado (2004) e Viver a Vida (2010). É interessante que quando há uma personagem negra ou negro entre os principais da novela, geralmente há uma família negra. Esses núcleos negros tem mudado, se tornado distintos e até saído das senzalas (nas novelas de época) e das cozinhas, mas essa é uma mudança bem recente, como podemos ver pelas datas das novelas. A única protagonista negra nas novelas atuais, além de Taís Araújo, é Camila Pitanga.

Na novela Aquele Beijo, que terminou semana passada, Sheron Menezes parecia ser a protagonista em alguns momentos, mas o início da novela e o final demonstrou que Giovanna Antonelli era a personagem principal. No caso da Globo há sempre a pista de quem é a personagem principal pela ordem em que aparecem os nomes dos atores na abertura da novela.

Luana Tolentino, me chamou a atenção para o fato que a primeira protagonista negra em uma novela no Brasil foi Ruth de Souza, na novela A Cabana do Pai Tomás (1969/1970), que trouxe um grande elenco negro. Porém, a personagem principal era Pai Tomás, vivido pelo ator branco Sergio Cardoso, que também fazia outros dois personagens na mesma novela e pintava o rosto para interpretar um negro. A personagem de Ruth era a mulher mais importante da trama, mas com o passar dos capítulos foi sendo escanteada. A Cabana do Pai Tomás foi uma novela fundamental para compreender as disputas internas envolvendo racismo entre a rede globo e patrocinadores.

Nas tramas em que Taís Araújo e Camila Pitanga foram protagonistas, elas foram as personagens principais, as outras histórias giravam a partir das suas. O que só mostra o quanto é absurdo que a Globo tenha esperado 35 anos para ter uma protagonista negra sem intervenções. Lembrando que as heroínas de novelas brasileiras são muitas vezes mulheres românticas, ingênuas e subalternas as ordens masculinas, cujo maior objetivo na vida é casar com seu par romântico. Nem é preciso lembrar que nunca houve uma lésbica ou um gay como a personagem principal numa novela. Para saber mais sobre a questão, vale muito assistir o documentário: A Negação do Brasil – O Negro nas Telenovelas Brasileiras de Joel Zito Araújo.

Outro dado curioso, nessas novas novelas com foco na classe C, há vilãs extremamente malvadas e que humilham as empregadas domésticas em várias cenas. Em Avenida Brasil, Carminha acordou Nina de madrugada para limpar o chão da cozinha. Em outra cena, ela proíbe as empregadas de comer a mesma comida dos patrões. No primeiro capítulo de Cheias de Charme, a cantora Chayene jogou comida na cara de Penha. Parece haver um revanchismo, já que as protagonistas vão buscar se vingar de suas patroas.

Escritora moçambicana Paulina Chiziane. Foto de Elza Fiúza/Agência Brasil

Essas observações foram motivadas por uma entrevista com Paulina Chiziane, romancista moçambicana, que está participando da 1° Bienal do Livro e da Leitura em Brasília: Novelas brasileiras passam imagem de país branco, critica escritora moçambicana.

“Para nós, moçambicanos, a imagem do Brasil é a de um país branco ou, no máximo, mestiço. O único negro brasileiro bem-sucedido que reconhecemos como tal é o Pelé. Nas telenovelas, que são as responsáveis por definir a imagem que temos do Brasil, só vemos negros como carregadores ou como empregados domésticos. No topo [da representação social] estão os brancos. Esta é a imagem que o Brasil está vendendo ao mundo”, criticou a autora, destacando que essas representações contribuem para perpetuar as desigualdades raciais e sociais existentes em seu país.

“De tanto ver nas novelas o branco mandando e o negro varrendo e carregando, o moçambicano passa a ver tal situação como aparentemente normal”, sustenta Paulina, apontando para a mesma organização social em seu país.

A presença de igrejas brasileiras em território moçambicano também tem impactos negativos na cultura do país, na avaliação da escritora. “Quando uma ou várias igrejas chegam e nos dizem que nossa maneira de crer não é correta, que a melhor crença é a que elas trazem, isso significa destruir uma identidade cultural. Não há o respeito às crenças locais. Na cultura africana, um curandeiro é não apenas o médico tradicional, mas também o detentor de parte da história e da cultura popular”, detacou Paulina, criticando os governos dos dois países que permitem a intervenção dessas instituições.

Primeira mulher a publicar um livro em Moçambique, Paulina procura fugir de estereótipos em sua obra, principalmente, os que limitam a mulher ao papel de dependente, incapaz de pensar por si só, condicionada a apenas servir.

[+] Pretas, escravas e sinhás por Gilson Moura H. Junior

[+] Entrevista com Ruth de Souza

A Vida da Gente

Hoje é o último capítulo de A Vida da Gente. Acho que desde Caminho das Índias não me envolvia tanto com uma novela.

Manu e Ana, numa cena "nós é jeca, mas é jóia".

Em termos de representação social tem todos os problemas da maioria das novelas. Os personagens principais não são necessariamente ricos, mas vivem em casas enormes, muito bem decoradas, mesmo quando estão sem trabalhar. Não há negros no núcleo principal e os que existem começam sempre no papel de empregados domésticos. Não há gays, lésbicas, nada que fuja da heteronormatividade. Há também questões hilárias como o figurino de Ana, que está sempre com roupas vermelhas e o de Manu, que usou todos os vestidos florais com casaquinhos existentes no planeta terra. Teve Celina, que tal qual a grávida de Taubaté, tem um filho que não nasce nunca. Homens perfeitos, românticos e maravilhosos como Dr.Lucii.Me.Examina.com.br e Gabriel, o fazendeiro. Homens encosto e imaturos como Marcos, Lourenço e Rodrigo.

Porém, venho de uma longa família de noveleiras e o que nos encanta são justamente as histórias. Ana e Manu serão inesquecíveis. Especialmente pelo dilema principal que não deixa margem para acusarmos nenhuma das duas de querer o mal da outra. Como disse a autora da novela, se há alguma vilã nessa história, ela é a vida. Os pontos positivos são a história dramática vivida nos dias atuais, o núcleo de idosos que possui vida sexual ativa e as diferentes personagens maternas. Algumas muito amorosas, outras exigentes e perfeccionistas. Uma das cenas mais belas foi a sequência do luto de Nanda e Francisco após a morte de Lui. O melhor texto é o da cena em que Manuela e Gabriel se beijam pela primeira vez. A melhor cena é o acerto de contas entre Ana e Manu, porque uma boa briga é muitas vezes o remédio para percebermos os erros de ambas.

Ontem, conversando com a Dehbora, percebemos o quanto a vida real nos impõe todos esses dilemas. O quanto as pessoas perdem ou jogam fora relacionamentos e vidas, porque não conseguem distinguir ao certo o que sentem em um momento. Um instante que muda a vida de todos, tal qual um bullet time effect. Por vários momentos me peguei conversando com amigas sobre as cenas da novela e como aqueles momentos já se repetiram de diferentes maneiras em nossas vidas.

O Amor. Ana, Rodrigo e Manu cresceram juntos. Ana e Rodrigo descobriram uma paixão avassaladora, revelada num passeio com amigos. Uma paixão interrompida por um coma de 5 anos. Manu e Rodrigo se uniram para criar a pequena Júlia juntos. Precisaram amadurecer e reinventar suas vidas. Dessa relação nasceu um amor. As pessoas comentam que o relacionamento entre Manu e Rodrigo era um tédio, que era morno, mas acredito que não há sentimento mais verdadeiro do que aquele que nasce da relação cotidiana entre duas pessoas, da admiração pelas pequenas conquistas. Depois de tanto imbróglio gostaria que todos eles se libertassem e ficassem com outras pessoas, mas parece mesmo que Manu e Rodrigo terão outra chance.

A Paixão. Depois que Ana acordou do coma Manu tentou compreender o sentimento dela e Rodrigo. Perguntou a eles o que sentiam, mas dificilmente conseguimos dizer a verdade nesses momentos. Uma dor que faz até pensar que é ruim conhecer a felicidade. Porém,  o melhor dessa cena é que ela deu origem a fotonovela A Vida Da Crente.

A Reconciliação. Nessa cena há a reconciliação de todos em torno do amor que sentem por Júlia. O olhar entre as duas irmãs é maravilhoso. O interessante é que em uma novela com um texto tão bom, a cena final da reconciliação das duas é feita sem palavras.