Mundos de Eufrásia

Capa do livro - Divulgação
Capa do livro – Divulgação

Este humilde bloguinho caminhoneiro Shell foi convidado para um Book Crossing proporcionado pela Bites e pela Editora Record. Dos livros disponíveis o que logo me chamou a atenção foi Mundos de Eufrásia: A história do amor entre a incrível Eufrásia Teixeira Leite e o notável Joaquim Nabuco. Meu interesse estava no fato de que Eufrásia foi uma mulher que desafiou as tradições do seu tempo, não se casou, morou no exterior sozinha e foi uma financista de sucesso. Viveu durante o século XIX e acompanhou todo o processo do declínio do ciclo do café brasileiro e da abolição da escravatura.

O livro é uma biografia romanceada da vida de Eufrásia tendo como tema central seu romance com Joaquim Nabuco, jovem advogado e figura histórica importante no período abolicionista. Infelizmente, Eufrásia não entrou nos tradicionais livros de História e nem nos breves relatos sobre figuras proeminentes da vida política brasileira.Eufrásia estava mais preocupada em viver sua vida e arcar com as consequências de suas escolhas. Escolhas que muitas vezes não foi ela quem as fez.

Eufrásia foi a filha caçula de uma tradicional família de Vassouras, no estado do Rio de Janeiro. Seu pai era uma grande financista, muito preocupado com o futuro de seus bens, enquanto sua mãe era uma grande beata, muito preocupada com o futuro social das filhas. O que muda a vida deEufrásia , e também o que irá encaminhá-la por um determinado destino é justamente seu pai. Um homem que se preocupa em ensinar as filhas não só as letras, mas também a matemática e a lógica do capital.Eufrásia teve oportunidades que pouquíssimas mulheres tiveram, como pode-se ver em vários trechos do livro sobre a dificuldade que as mulheres da época tinham de ler e escrever. Porém, a liberdade conquistada pelas letras não lhe garantiu tudo. Durante a vida percebe-se queEufrásia paga o preço por suas escolhas, pela sua decisão de ser independente . Pelo pai, pela mãe, pela irmã, pela família e pela sociedade que impõe tantos deveres e cobranças a uma mulher que só queria ser livre para amar. E talvez a cobrança de JoaquimNabuco seja a que mais lhe dói, pois para a jovem Eufrásia o amor venceria tudo, até mesmo as tradições, os costumes e a maneira como as pessoas enxergavam os papéis do homem e da mulher.

A autora utiliza uma narração poética, especialmente nos encontros românticos entre Eufrásia e Nabuco, na maneira como crescem esperançosos dentro do arrebatamento de um desejo amoroso que parece não ter fim. É gostoso ver brotar entre dois jovens um sentimento tão genuíno. Claudia Lage consegue transcrever muito bem esses momentos:

Nossa Senhora da Conceição foi testemunha silenciosa de um encontro repleto de atropelos e desacertos. Nabuco vinha com intenções febris, mas estremeceu de uma inibição que não conhecia diante das mulheres. Pelas circunstâncias, achava que Eufrásia estaria ao menos um pouco trêmula. Mas não, ela tinha uma certeza assentada por dentro que lhe tirava as suas. Era uma mocinha, afinal, que encontrava às escondidas um homem. Afinal, era uma mocinha que não conhecia os homens. E lá estava ela, com seus olhos escuros voltados para ele, chamando por ele, com umasimplicidade desconcertante. (pg. 41)

Os momentos da paixão entre os dois são meus trechos favoritos do livro. A descrição dos encontros torna-se um pouco repetitiva, mas a poesia das palavras mistura tantas sensações que volta e meia quando beijo fico pensando nos diversos sabores envolvidos.

Olharam o menino Jesus. E o olharam sem vê-lo. Olharam Santo Antônio no oratório do lado do menino sem poder dizer que o haviam visto. Nossa Senhora imaculava quando Nabuco se virou para Eufrásia no mesmo instante em que ela se virava para ele. Mais um instante, ele a puxava para si e ela se deixava puxar. A sensação áspera do bigode foi a primeira coisa que sentiu sobre os lábios. Em seguida, a estranha doçura de uma boca grossa, a forte respiração de um homem inteiro.Eufrásia descobriu que a saliva tem a acidez do abacaxi, sua perdição, ou o cítrico da lima-da-pérsia, sua favorita. A fruta úmida invadiu lábios adentro, a imensidão da boca adentro. (pg.42)

Claudia Lage conta a história de Eufrásia num ritmo cadenciado em que passado, presente e futuro aprumam-se entre capítulos, um entrelaçando o outro. Não há linearidade, mas há vários momentos em que não se quer parar de ler justamente para saber o que vai acontecer, pois não há como saber em que capítulo estará o desdobramento do que me deixou sem fôlego. Em várias passagens também há a mistura de pensamentos, com vozes de outrem, com diálogos impondo ritmo frenético aos parágrafos. São trechos especiais em queEufrásia se mostra livre, inteira e desejosa.

Nabuco a beijou, consumido pelo que queria consumir, envolvido pelo que queria envolver. “És estranha”, disse, as bocas coladas, “não queres que eu peça a tua mão a teu pai”, disse, as salivas misturadas, “e me beija assim…”,Eufrásia afastou os lábios, “Assim como?”. Ele pressentiu que ia se arrepender, “Como se já fosses minha”, disse, arrependido. “Não sou”, ela disparou, eNabuco pensou que iria se afastar, ofendida. Ao contrário, se aproximou, “Tu não me mostras o que sente por mim?”, ela quase mordia os seus lábios, “Por que não posso mostrar o que sinto por ti?”, a qualquer momento, poderia morder, “Se nossascircunstâncias fossem outras, talvez não mostrasse tanto…”, já unia os lábios de novo, “mas as circunstâncias são essas”, revelava os dentes para a mordida, “Já tenho que esconder o que sinto de meu pai, de minha irmã, de todos”, lábios e dentes próximos, “escondia de minha mãe”, tão próximos, “não entendes?”,Nabuco não entendeu, “Tenho que esconder também de ti?”, Eufrásia o beijou, “De ti, não!”, abriu a boca, “De ti, não posso!”, arfava, “Não!”. (pg.146)

Eufrásia é uma grande personagem feminina. É uma mulher brasileira que enfrentou a sociedade de seu tempo para viver à sua maneira e teve muitas oportunidades para crescer financeiramente. Porém, como ela mesmo diz em alguns trechos do livro, numa sociedade de homens ela ainda é uma mulher, não tem direito a erros, pois não é considerada uma pessoa inteligente, para uma mulher arriscada ela é muito sortuda. É essa a visão que prevalece sobre seu trabalho. É uma pena que poucos que cruzaram seu caminho tiveram uma visão diferente dessa. É uma pena que mesmo os abolicionistas não percebessem o quanto ainda mantinham prisioneiras suas mulheres e filhas.Eufrásia não queria ir contra tudo e todos, apenas queria viver sua vida como achava que era melhor para si mesma, estudando, trabalhando e produzindo.Eufrásia não queria apenas se dedicar a casa e o marido, sabia que poderia ter muito mais e queria tudo. É uma pena que a solidão seja uma constante na vida adulta deEufrásia. Porém, sua beleza, sua força e seus ideais transformam esse livro num belo relato de sua vida.

Claudia Lage tem blog: A Pequena Morte.

Outras resenhas do Book Crossing:

Univero Mix – Mundos de Eufrásia

A Vida como a vida quer – Entrevista com Claudia Lage sobre os Mundos de Eufrásia