Borboletas Negras

Tenho um problema sério, sempre que ouço a voz de Nelson Mandela me emociono muito. Era adolescente quando ele foi libertado e eleito presidente da África do Sul, sua história me marcou profundamente como um símbolo da luta pela liberdade. No trailer de Borboletas Negras descobri que em seu discurso de posse ele recitou trechos de um poema de Ingrid Jonker, poetisa sul-africana. Vi o trailer pela primeira vez em setembro e desde então precisava descobrir quem foi essa mulher.

Borboletas Negras é a cinebiografia de Ingrid Jonker, poetisa sul-africana. Por causa do estilo de seus poemas foi chamada de a Sylvia Plath da África do Sul. Ingrid é uma daquelas pessoas com as quais não sabemos como lidar. Imprevisível, impulsiva, explosiva, inquieta e sempre apaixonante. Já vimos personagens como Ingrid em outros filmes e vidas, são pessoas que não conseguem simplesmente se encaixar no nosso mundo tão organizado entre a hora de acordar e dormir. Não veem sentido em arrumar um trabalho e viver uma vida comum, algo as persegue internamente, um embate eterno com o não-pertencimento, com a não-identificação. Em alguns momentos Ingrid diz: “eu só quero um lar”. Um local onde possa se sentir segura. Ao mesmo tempo que vemos o quanto Ingrid sofre com sua condição, com suas escolhas e não-escolhas que faz pela vida, ela produz em palavras sentimentos que nunca soubemos expressar. Alguns de seus poemas são recitados no filme, outros podemos ler nas paredes, janelas e qualquer lugar em que ela escreva. Quando Ingrid perde sua capacidade de escrever, perde completamente seu desejo de viver.

O filme é marcado pelo relacionamento amoroso de Ingrid com o escritor Jack Cope. E, pelo relacionamento com seu pai, Abraham Jonker, um autoritário parlamentar sul-africano que defendia o Apartheid e era responsável por censurar produções artísticas, especialmente literatura. Ingrid morreu jovem, aos 31 anos, no mar. Esses dois relacionamentos acabam por ser os pontos de referência para onde Ingrid volta quando está feliz ou triste, mas ela sabe que não pertence a nenhum dos dois.

O filme da diretora Paula van der Oest é envolvente e mostra diferentes faces de Ingrid: mãe, amante, filha, ativista, poetisa. A forte sensibilidade é seu maior trunfo e seu demônio. Fica claro que a inconformidade de Ingrid com as injustiças e com o fato de não ser amada quando tem tanto amor para dar. Ao mesmo tempo que busca incessantemente a aprovação paterna, também deseja a liberdade e o amor. O sexo é uma grande força interior para Ingrid, assim como o amor. Ela sabe que ama Jack, mas a fidelidade não é um imperativo. Seus dois principais amantes dizem a ela em momentos diferentes: “você me esgota, me seca”. Porque tudo em Ingrid é muito intenso. Jack está sempre ao seu lado, mas sabe que é impossível conviver muito tempo com Ingrid, ninguém está preparado para tantos sentimentos e conflitos. Ingrid é seu próprio mar turbulento.

Leia o poema original de Ingrid Jonker lido por Nelson Mandela:

The Dead Child of Nyanga

 

The child is not dead

The child lifts his fists against his mother

Who shouts Afrika ! shouts the breath

Of freedom and the veld

In the locations of the cordoned heart

 

The child lifts his fists against his father

in the march of the generations

who shouts Afrika ! shout the breath

of righteousness and blood

in the streets of his embattled pride

 

The child is not dead not at Langa nor at Nyanga

not at Orlando nor at Sharpeville

nor at the police station at Philippi

where he lies with a bullet through his brain

 

The child is the dark shadow of the soldiers

on guard with rifles Saracens and batons

the child is present at all assemblies and law-givings

the child peers through the windows of houses and into the hearts of mothers

this child who just wanted to play in the sun at Nyanga is everywhere

the child grown to a man treks through all África

 

The child grown into a giant journeys through the whole world

Without a pass.

Mulheres e Cárcere

Estréia em São Paulo no dia 25/11 o documentário “Leite e Ferro”. Premiado no Festival de Paulínia como melhor documentário, é dirigido por Claudia Priscilla e retrata o cotidiano no extinto Centro de Atendimento Hospitalar à Mulher Presa (CAHMP), uma instituição em São Paulo que abrigava mulheres em fase de aleitamento após darem à luz. As filmagens aconteceram durante um mês do ano de 2007, no Centro onde se encontravam 70 mães e 70 crianças. Mas, o CAHMP foi fechado há quase dois anos e as presas, realocadas em centros hospitalares.

Cena do documentário "Leite e Ferro"

Em uma entrevista a diretora fala um pouco sobre suas motivações e impressões sobre o filme:

O que a motivou a retratar a maternidade na prisão? Como conheceu o Centro de Atendimento Hospitalar à Mulher Presa (CAHMP)?

O que me motivou a fazer este filme foi a minha experiência com a maternidade, após o nascimento do meu filho Pedro. Tive vontade de entender como essa experiência poderia acontecer em uma situação limite, tanto emocional quanto física. Quem me apresentou a instituição foi a Heide da Pastoral Carcerária.

Como foi a experiência de estar em contato com a realidade dessas detentas durante as de filmagem?

Foi muito difícil, tive que encarar muitos monstros internos. Cheguei ao limite de me sentir culpada por estar em liberdade e elas não, porque isso não é um detalhe, estar encarcerada muda tudo na vida de alguém.

Como você vê a relação destas mães presas com seus filhos? È diferente das mães em “liberdade”?

A liberdade é a diferença em qualquer coisa na vida.

Continue lendo em Entrevista com a diretora Claudia Priscilla

Outra boa dica sobre o assunto é o blog da Nana Queiroz: Presos que Menstruam -  Histórias de mulheres que são tratadas como homens nas prisões paulistas. Relatos intensos de mulheres invisíveis socialmente.

A Penitenciária do Tremembé foi planejada para homens. Seus banheiros são masculinos, suas instalações são masculinas, seus uniformes são masculinos, sua lista de itens de higiene é praticamente masculina. E, mesmo assim, observando só a estrutura, é impossível não notar que ela é habitada por mulheres.

Cada cela de porta marrom e sóbria tem um desenho colorido, uma ilustração infantil ou uma frase em grafia caprichada. “Vamos cuidar das nossas almas, que da nossa vida muitos já estão cuidando”, lê-se em uma delas. O corredor para chegar nessas celas é limpo e em suas paredes, além dos avisos naturais de mural de presídio, estão afixados mostruários com opções de tinturas para cabelo e novas cores de esmalte da Impala.

Continue lendo em Quanto menos verem grades.

Pela Descriminalização e Legalização do Aborto

Outro dia li um texto que perguntava: “mas o que o aborto resolve?”. O aborto seguro resolve a vida das mulheres. O aborto seguro evita que mulheres morram. O aborto seguro faz com que as mulheres retomem suas vidas. Prevenir é fundamental, essencial e importantíssimo. Porém, somos humanos. Há milhares de razões para mulheres engravidarem. Algumas ficam radiantes com uma gravidez inesperada, outras desesperam-se porque sabem que não querem ser mães naquele momento. Por que não podemos dar a chance para essas duas mulheres terem a vida que quiserem? Por que se uma mulher engravida sem desejar ela deve ser obrigada a ter esse filho? É por que ela deve ser culpabilizada por ter feito sexo por prazer?

Hoje, 28 de setembro, é Dia de Ação pela Descriminalização do Aborto na América Latina. Dia de questionar porque as pessoas acham que a vida de um feto vale mais que a vida de uma mulher. Enquanto alguém engravidar sempre haverá aborto, pois nem toda gravidez é desejada. Por mais que exista prevenção e informação somos seres humanos falhos. Por isso, acredito que as mulheres devem ter direito a decidir sobre seus corpos e suas vidas. E luto para que elas não morram.

Não há princípios morais ou filosóficos que justifiquem o sofrimento e morte de tantas meninas e mães de famílias de baixa renda no Brasil. É fácil proibir o abortamento, enquanto esperamos o consenso de todos os brasileiros a respeito do instante em que a alma se instala num agrupamento de células embrionárias, quando quem está morrendo são as filhas dos outros. Os legisladores precisam abandonar a imobilidade e encarar o aborto como um problema grave de saúde pública, que exige solução urgente. Continue lendo em A Questão do Aborto de Drauzio Varella.

Ação da Marcha Mundial das Mulheres em 2008. Imagem de Karol Kalef.

Reproduzo abaixo o manifesto da Campanha 28 de Setembro: “Educação sexual para prevenir. Contraceptivo para não engravidar. Aborto seguro e legal para não morrer: Chamado à Ação 2011″. Divulgado pela AADS – Ipas Brasil.

A Campanha 28 de Setembro foi criada no V Encontro Feminista da América Latina e no Caribe, realizado na Argentina em 1990. As participantes escolheram esta data para marcar ações de visibilidade para a questão do aborto e reivindicações por reformas legais pró descriminalização e legalização. Abaixo a íntegra do Manifesto:

Descriminalização e legalização do aborto: Avanços e desafios neste 28 de Setembro

Chamado à Ação da Campanha 28 de Setembro pela Despenalização do Aborto na América Latina e no Caribe e da Rede Feminista de Saúde

As questões relacionadas à saúde e direitos reprodutivos estão ganhando terreno na agenda de discussão da nossa região, assim como as políticas públicas e, nesse sentido, parece haver mais avanços do que retrocessos. Assim, fazendo um balanço geral da situação continental por ocasião deste 28 de Setembro encontramos que de um lado persistem condições muito graves quanto à negação dos direitos humanos das mulheres, trazendo sequelas de sofrimentos terríveis e desnecessários, também vimos elementos esperançosos que poderão nutrir os nossos esforços ao longo do próximo ano.

Por suas implicações políticas e estratégicas para o trabalho das organizações que defendem os direitos humanos das mulheres, cabe primeiro destacar os avanços em matéria de jurisprudência internacional obtidos no último ano:

• A concessão por parte da Comissão Interamericana de Direitos Humanos de uma Audiência Temática Regional sobre Direitos Reprodutivos das Mulheres na América Latina e no Caribe, solicitada por 12 organizações feminista da região. Em sua declaração posterior, a Comissão afirmou a necessidade de despenalizar o acesso aos serviços de saúde materna que limitam a obrigação dos Estados de garantir o direito à saúde das mulheres, declarando explicitamente que a proibição do aborto terapêutico “viola a vida, a integridade física e psicológica das mulheres “.

• O parecer emitido pelo Comitê de Direitos Humanos, das Nações Unidas, no caso de uma jovem argentina, LMR, a quem foi negado o direito de interromper a gravidez a que tinha direito de acordo com as leis do seu país. O Comitê de Direitos Humanos criou assim jurisprudência sobre a aplicação do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, em relação aos casos de aborto legal não punível.

• As recomendações feitas à Nicarágua pelo Comitê de Direitos da Criança e Adolescentes quanto a necessidade de descriminalizar o aborto em casos de gravidez resultante de incesto e abuso sexual de meninas.

• As recomendações feitas a El Salvador pelo Comitê de Direitos Humanos sobre a necessidade de “rever a sua legislação sobre o aborto, tomar medidas para evitar mulheres que buscam os hospitais públicos sejam denunciadas pelo crime de aborto, assim como suspender a acusação contra as mulheres pelo crime de aborto “.

• A decisão histórica do CEDAW, em um caso de mortalidade materna no Brasil, onde o Comitê estabeleceu a obrigação dos Estados de assegurar a todas as mulheres o acesso a serviços acessíveis, não discriminatórios e adequados a saúde materna. Este é o primeiro caso de mortalidade materna decidido em instâncias internacionais.

Estes avanços em matéria de jurisprudência internacional, que nos lembram da importância de continuar a utilizar os instrumentos e mecanismos internacionais de direitos humanos, têm implicações importantes em vários sentidos. Em termos políticos, são um passo importante no processo de deslocar a discussão sobre o aborto da esfera da moral sexual para o âmbito dos direitos humanos o que, por sua vez, é condição imprescindível para laicizar legislação sobre o aborto na região, historicamente fundamentada em premissas religiosas.

Em termos estratégicos estes avanços são um recurso valioso para apoiar nossas exigências e demandas frente aos Estados, a começar pelos países da região (Chile, Nicarágua, República Dominicana e El Salvador), onde a proibição legal não admite sequer o aborto terapêutico. Mas as graves irresponsabilidades que incorrem os Estados em matéria de saúde e direitos reprodutivos não estão limitados a países com leis mais punitivas. Também naqueles países onde o aborto está despenalizado (Puerto Rico, México DF), assim como em outros da região, onde está permitido por causais, os Estados têm falhado sistematicamente na sua obrigação de prestar serviços oportunos e de qualidade, apelando a táticas dilatórias (tais como exigência de certificações ou atrasos na emissão de documentos), promovendo a objeção de consciência pelos profissionais de saúde, restringindo os orçamentos para os serviços de aborto e pós-aborto, e negando a informação oportuna as mulheres sobre os serviços que estão autorizados pelas leis do país.

A Jurisprudência internacional sobre direitos reprodutivos em geral, e ao aborto em particular, fortalece a nossa posição para pressionar os governos para que cumpram os compromissos internacionais sobre o tema, assumidos em Beijin, Cairo e nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, cujos prazos se encontram em contagem regressiva, sem que na maioria dos países se vislumbre a necessária responsabilidade governamental em matéria de políticas públicas para o seu cumprimento.

Finalmente, esta jurisprudência pode ser usada para fortalecer nossas denúncias frente às agressões que sofrem as defensoras de direitos humanos em nossa região, que vão desde as ameaças telefônicas, as sabotagens sistemática das nossas páginas da WEB, até pressões sobre os empregadores, a difamação pública e ou assassinato. De fato, para o nosso movimento é uma prioridade estratégica denunciar as agressões feita por grupos ultra-conservadores em toda a região, ante a indiferença, quando não a cumplicidade direta dos governos, com frequência estimulados por uma retórica irresponsável das igrejas que nos estigmatizam e nos infamam rotulando-nos publicamente de assassinas.

Em vários países (incluindo o Brasil e a República Dominicana), a igreja católica fez uma campanha política aberta contra parlamentares que se mostram a favor da descriminalização do aborto, além disso instigou os governos a iniciar processos judiciais e assédio de várias formas aos provedores de serviço de aborto. Uma das manifestações mais odiosas da pusilanimidade dos governos, quando não da cumplicidade direta, frente a esses setores ultraconservadores, se observa em El Salvador, onde em vez de aplicar as penalidades de 2 a 8 anos de prisão estabelecido no Código Penal para casos de aborto, as autoridades judiciais com frequencia tipificam o fato como “homicídio agravado por parentesco” para conseguir penas de até 30 anos de prisão para as mulheres (em sua maioria pobres) sob a acusação de interromper a gravidez.

Devemos evidenciar e denunciar os comportamentos vergonhosos e antidemocrático de instituições religiosas que se autoproclamam defesoras da vida e paladinas da moral, ao mesmo tempo que atuam na promoção de medidas para aumentar o sofrimento, adoecimento e a morte de mulheres e meninas de todas as classes sociais porem, sobretudo as mais pobres, que são sempre as principais vítimas da negação dos direitos sexuais e direitos reprodutivos. Neste sentido, é oportuno saudar os esforços de um número cada vez maior de organizações que promovem o uso correto do Misoprostol como um método abortivo que reduz os riscos de saúde associados a clandestinidade. Dado o sucesso dessas campanhas de informação, a redução comprovada da morbidade e mortalidade associadas ao método e empoderamento pessoal das mulheres que o mesmo promove, é de esperar uma ofensiva a curto prazo por parte das igrejas, para a qual devemos estar em alerta.

Finalmente saudar os avanços observados no último ano em matéria de investigação científica e de registro de evidência na região. Os comitês de mortalidade materna e os observatórios de políticas públicas, o registro de negligência e / ou violência na prestação de serviços de saúde, estudos e pesquisas qualitativas, etc, são matéria-prima indispensável para a construção das bases analíticas que ancoram as melhores estratégias políticas. Para ilustrar, consideremos que vários estudos recentes documentaram a complexidade do vínculos entre o aborto e a pobreza, não só na questão da maior vulnerabilidade das mulheres pobres frente a ilegalidade, mas em relação ao papel da pobreza e os baixos níveis educativos como determinantes de atitudes mais conservadoras em relação ao aborto. A constatação de que setores pobres e menos escolarizados são os que mais se opõem à despenalização deve levar ao desenvolvimento de análises mais refinadas e, portanto, a busca de estratégias políticas mais efetivas.

A luta pelos direitos sexuais e direitos reprodutivos segue enfrentando grandes desafios em nossa região, como atestam as estatísticas de morte materna, morbimortalidade por aborto, gravidez na adolescência, doenças sexualmente transmissíveis e outros. Muitos dos desafios postos nos chamados à Ação para a Campanha 28 de Setembro nos anos passados continuam em plena vigência.

Seguimos vivendo sob a ameaça do fanatismo religioso que infecta cada vez mais as instituições sociais e políticas da democracia. Porém, como demonstra este Chamada à Ação, também temos razões para a esperança,para confiar que nosso compromisso com os direitos de bem-estar e felicidade das mulheres do nosso continente pode dar os frutos para aqueles que lutam e continuam lutando.

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva Pela Descriminalização e Legalização do Aborto proposta pelas Blogueiras Feministas.