Pela Descriminalização e Legalização do Aborto

Outro dia li um texto que perguntava: “mas o que o aborto resolve?”. O aborto seguro resolve a vida das mulheres. O aborto seguro evita que mulheres morram. O aborto seguro faz com que as mulheres retomem suas vidas. Prevenir é fundamental, essencial e importantíssimo. Porém, somos humanos. Há milhares de razões para mulheres engravidarem. Algumas ficam radiantes com uma gravidez inesperada, outras desesperam-se porque sabem que não querem ser mães naquele momento. Por que não podemos dar a chance para essas duas mulheres terem a vida que quiserem? Por que se uma mulher engravida sem desejar ela deve ser obrigada a ter esse filho? É por que ela deve ser culpabilizada por ter feito sexo por prazer?

Hoje, 28 de setembro, é Dia de Ação pela Descriminalização do Aborto na América Latina. Dia de questionar porque as pessoas acham que a vida de um feto vale mais que a vida de uma mulher. Enquanto alguém engravidar sempre haverá aborto, pois nem toda gravidez é desejada. Por mais que exista prevenção e informação somos seres humanos falhos. Por isso, acredito que as mulheres devem ter direito a decidir sobre seus corpos e suas vidas. E luto para que elas não morram.

Não há princípios morais ou filosóficos que justifiquem o sofrimento e morte de tantas meninas e mães de famílias de baixa renda no Brasil. É fácil proibir o abortamento, enquanto esperamos o consenso de todos os brasileiros a respeito do instante em que a alma se instala num agrupamento de células embrionárias, quando quem está morrendo são as filhas dos outros. Os legisladores precisam abandonar a imobilidade e encarar o aborto como um problema grave de saúde pública, que exige solução urgente. Continue lendo em A Questão do Aborto de Drauzio Varella.

Ação da Marcha Mundial das Mulheres em 2008. Imagem de Karol Kalef.

Reproduzo abaixo o manifesto da Campanha 28 de Setembro: “Educação sexual para prevenir. Contraceptivo para não engravidar. Aborto seguro e legal para não morrer: Chamado à Ação 2011″. Divulgado pela AADS – Ipas Brasil.

A Campanha 28 de Setembro foi criada no V Encontro Feminista da América Latina e no Caribe, realizado na Argentina em 1990. As participantes escolheram esta data para marcar ações de visibilidade para a questão do aborto e reivindicações por reformas legais pró descriminalização e legalização. Abaixo a íntegra do Manifesto:

Descriminalização e legalização do aborto: Avanços e desafios neste 28 de Setembro

Chamado à Ação da Campanha 28 de Setembro pela Despenalização do Aborto na América Latina e no Caribe e da Rede Feminista de Saúde

As questões relacionadas à saúde e direitos reprodutivos estão ganhando terreno na agenda de discussão da nossa região, assim como as políticas públicas e, nesse sentido, parece haver mais avanços do que retrocessos. Assim, fazendo um balanço geral da situação continental por ocasião deste 28 de Setembro encontramos que de um lado persistem condições muito graves quanto à negação dos direitos humanos das mulheres, trazendo sequelas de sofrimentos terríveis e desnecessários, também vimos elementos esperançosos que poderão nutrir os nossos esforços ao longo do próximo ano.

Por suas implicações políticas e estratégicas para o trabalho das organizações que defendem os direitos humanos das mulheres, cabe primeiro destacar os avanços em matéria de jurisprudência internacional obtidos no último ano:

• A concessão por parte da Comissão Interamericana de Direitos Humanos de uma Audiência Temática Regional sobre Direitos Reprodutivos das Mulheres na América Latina e no Caribe, solicitada por 12 organizações feminista da região. Em sua declaração posterior, a Comissão afirmou a necessidade de despenalizar o acesso aos serviços de saúde materna que limitam a obrigação dos Estados de garantir o direito à saúde das mulheres, declarando explicitamente que a proibição do aborto terapêutico “viola a vida, a integridade física e psicológica das mulheres “.

• O parecer emitido pelo Comitê de Direitos Humanos, das Nações Unidas, no caso de uma jovem argentina, LMR, a quem foi negado o direito de interromper a gravidez a que tinha direito de acordo com as leis do seu país. O Comitê de Direitos Humanos criou assim jurisprudência sobre a aplicação do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, em relação aos casos de aborto legal não punível.

• As recomendações feitas à Nicarágua pelo Comitê de Direitos da Criança e Adolescentes quanto a necessidade de descriminalizar o aborto em casos de gravidez resultante de incesto e abuso sexual de meninas.

• As recomendações feitas a El Salvador pelo Comitê de Direitos Humanos sobre a necessidade de “rever a sua legislação sobre o aborto, tomar medidas para evitar mulheres que buscam os hospitais públicos sejam denunciadas pelo crime de aborto, assim como suspender a acusação contra as mulheres pelo crime de aborto “.

• A decisão histórica do CEDAW, em um caso de mortalidade materna no Brasil, onde o Comitê estabeleceu a obrigação dos Estados de assegurar a todas as mulheres o acesso a serviços acessíveis, não discriminatórios e adequados a saúde materna. Este é o primeiro caso de mortalidade materna decidido em instâncias internacionais.

Estes avanços em matéria de jurisprudência internacional, que nos lembram da importância de continuar a utilizar os instrumentos e mecanismos internacionais de direitos humanos, têm implicações importantes em vários sentidos. Em termos políticos, são um passo importante no processo de deslocar a discussão sobre o aborto da esfera da moral sexual para o âmbito dos direitos humanos o que, por sua vez, é condição imprescindível para laicizar legislação sobre o aborto na região, historicamente fundamentada em premissas religiosas.

Em termos estratégicos estes avanços são um recurso valioso para apoiar nossas exigências e demandas frente aos Estados, a começar pelos países da região (Chile, Nicarágua, República Dominicana e El Salvador), onde a proibição legal não admite sequer o aborto terapêutico. Mas as graves irresponsabilidades que incorrem os Estados em matéria de saúde e direitos reprodutivos não estão limitados a países com leis mais punitivas. Também naqueles países onde o aborto está despenalizado (Puerto Rico, México DF), assim como em outros da região, onde está permitido por causais, os Estados têm falhado sistematicamente na sua obrigação de prestar serviços oportunos e de qualidade, apelando a táticas dilatórias (tais como exigência de certificações ou atrasos na emissão de documentos), promovendo a objeção de consciência pelos profissionais de saúde, restringindo os orçamentos para os serviços de aborto e pós-aborto, e negando a informação oportuna as mulheres sobre os serviços que estão autorizados pelas leis do país.

A Jurisprudência internacional sobre direitos reprodutivos em geral, e ao aborto em particular, fortalece a nossa posição para pressionar os governos para que cumpram os compromissos internacionais sobre o tema, assumidos em Beijin, Cairo e nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, cujos prazos se encontram em contagem regressiva, sem que na maioria dos países se vislumbre a necessária responsabilidade governamental em matéria de políticas públicas para o seu cumprimento.

Finalmente, esta jurisprudência pode ser usada para fortalecer nossas denúncias frente às agressões que sofrem as defensoras de direitos humanos em nossa região, que vão desde as ameaças telefônicas, as sabotagens sistemática das nossas páginas da WEB, até pressões sobre os empregadores, a difamação pública e ou assassinato. De fato, para o nosso movimento é uma prioridade estratégica denunciar as agressões feita por grupos ultra-conservadores em toda a região, ante a indiferença, quando não a cumplicidade direta dos governos, com frequência estimulados por uma retórica irresponsável das igrejas que nos estigmatizam e nos infamam rotulando-nos publicamente de assassinas.

Em vários países (incluindo o Brasil e a República Dominicana), a igreja católica fez uma campanha política aberta contra parlamentares que se mostram a favor da descriminalização do aborto, além disso instigou os governos a iniciar processos judiciais e assédio de várias formas aos provedores de serviço de aborto. Uma das manifestações mais odiosas da pusilanimidade dos governos, quando não da cumplicidade direta, frente a esses setores ultraconservadores, se observa em El Salvador, onde em vez de aplicar as penalidades de 2 a 8 anos de prisão estabelecido no Código Penal para casos de aborto, as autoridades judiciais com frequencia tipificam o fato como “homicídio agravado por parentesco” para conseguir penas de até 30 anos de prisão para as mulheres (em sua maioria pobres) sob a acusação de interromper a gravidez.

Devemos evidenciar e denunciar os comportamentos vergonhosos e antidemocrático de instituições religiosas que se autoproclamam defesoras da vida e paladinas da moral, ao mesmo tempo que atuam na promoção de medidas para aumentar o sofrimento, adoecimento e a morte de mulheres e meninas de todas as classes sociais porem, sobretudo as mais pobres, que são sempre as principais vítimas da negação dos direitos sexuais e direitos reprodutivos. Neste sentido, é oportuno saudar os esforços de um número cada vez maior de organizações que promovem o uso correto do Misoprostol como um método abortivo que reduz os riscos de saúde associados a clandestinidade. Dado o sucesso dessas campanhas de informação, a redução comprovada da morbidade e mortalidade associadas ao método e empoderamento pessoal das mulheres que o mesmo promove, é de esperar uma ofensiva a curto prazo por parte das igrejas, para a qual devemos estar em alerta.

Finalmente saudar os avanços observados no último ano em matéria de investigação científica e de registro de evidência na região. Os comitês de mortalidade materna e os observatórios de políticas públicas, o registro de negligência e / ou violência na prestação de serviços de saúde, estudos e pesquisas qualitativas, etc, são matéria-prima indispensável para a construção das bases analíticas que ancoram as melhores estratégias políticas. Para ilustrar, consideremos que vários estudos recentes documentaram a complexidade do vínculos entre o aborto e a pobreza, não só na questão da maior vulnerabilidade das mulheres pobres frente a ilegalidade, mas em relação ao papel da pobreza e os baixos níveis educativos como determinantes de atitudes mais conservadoras em relação ao aborto. A constatação de que setores pobres e menos escolarizados são os que mais se opõem à despenalização deve levar ao desenvolvimento de análises mais refinadas e, portanto, a busca de estratégias políticas mais efetivas.

A luta pelos direitos sexuais e direitos reprodutivos segue enfrentando grandes desafios em nossa região, como atestam as estatísticas de morte materna, morbimortalidade por aborto, gravidez na adolescência, doenças sexualmente transmissíveis e outros. Muitos dos desafios postos nos chamados à Ação para a Campanha 28 de Setembro nos anos passados continuam em plena vigência.

Seguimos vivendo sob a ameaça do fanatismo religioso que infecta cada vez mais as instituições sociais e políticas da democracia. Porém, como demonstra este Chamada à Ação, também temos razões para a esperança,para confiar que nosso compromisso com os direitos de bem-estar e felicidade das mulheres do nosso continente pode dar os frutos para aqueles que lutam e continuam lutando.

Esse post faz parte da Blogagem Coletiva Pela Descriminalização e Legalização do Aborto proposta pelas Blogueiras Feministas.

Sobre Dilma

Sou uma das pessoas que votou em Dilma, comemorou e agora está bem triste com esse primeiro ano de mandato. Aquela sensação de que você confiou em alguém para fazer o trabalho da faculdade junto com você e a pessoa furou da pior forma possível. No dia em que Dilma disse: “Não vamos fazer propaganda de opção sexual”, eu chorei. Depois da lama que foram as eleições nem tinha esperanças de que o tema “direitos reprodutivos das mulheres” entrasse em pauta, mas não imaginei que em relação as questões LGBT ela seria assessorada por reacionários e intolerantes. Quando vemos as declarações do Kassab confirmando o veto a criação do Dia do Orgulho Hétero percebe-se quem está bem assessorado. Mas claro que não desisti, assim como no governo Lula vou tentar olhar para as medidas positivas e torcer para que não haja retrocessos.

Dilma Roussef, em foto da AP

Ontem, saiu na Carta Capital um ótimo artigo da psicanalista Maria Rita Kehl, chamado Mulher ou Militante. Vale a pena lê-lo. Fala sobre questões de gênero que envolvem ter uma mulher na Presidência do Brasil, sobre feminismo e analisa rapidamente pontos positivos e negativos de Dilma. Estou rancorosa, mas não perdi a fé em meu voto, por isso gostei muito da análise feita por Kehl. Selecionei alguns trechos:

Grosso modo, a escolha de Dilma parece ter sido mais pautada por razões políticas e interesses de classe do que pelo imaginário de gênero. Se assim foi, o mérito é todo dela. Durante os oito anos de seus dois governos, o presidente Lula perdeu grandes oportunidades de politizar os eleitores ao definir a relação necessariamente conflituosa entre a sociedade e seus governantes a partir de metáforas ligadas à vida familiar. Fiel ao seu estilo de “homem cordial”, na acepção de Ribeiro Couto e Sérgio Buarque de Hollanda, Lula desde o início se apresentou como pai dos brasileiros. Antes da campanha de 2010, já apresentava sua futura candidata como a “mãe do PAC”. Dilma comprou o rótulo por conveniência, mas teve o mérito de não encarnar o estereótipo maternal que faria par com o estilo carismático e paternalista de Lula.

Quanto à identificação de Dilma com as causas feministas, vale lembrar que a presidenta em toda sua longa trajetória política – se contarmos desde os anos de militância no grupo VAR-Palmares, na década de 1970 – nunca foi uma típica militante feminista. Como outras raras mulheres independentes de sua geração, as opções políticas da jovem Dilma Rousseff pautaram-se antes por causas universais – liberdade, igualdade, socialismo – do que pelas lutas de gênero, que, no Brasil, só se impuseram com mais força depois da derrota das organizações armadas. Quando as pioneiras das causas feministas começavam a levantar suas bandeiras, por aqui, a militante “Wanda” estava na cadeia.

Os preconceitos sexistas mais pesados contra ela surgiram durante a campanha, não por parte de eleitores, mas dos adversários políticos. O modo violento como a campanha de José Serra tentou explorar a polêmica sobre o aborto, a meu ver, não teria sido o mesmo com um candidato homem. Ao tentar caracterizar a possível simpatia de Dilma pela legalização do aborto como um grave delito de opinião, Serra apostou na convicção popular de que a mulher que não criminaliza o aborto é um monstro que mata criancinhas. Dilma não enfrentou a polêmica com a seriedade que o caso exigia, mas pelo menos não desceu tão baixo. Em todo caso, nunca saberemos até onde a oposição teria chegado se a notícia de um suposto aborto de Mônica Serra não tivesse vindo à baila.

A própria Dilma, se fosse mais “maternal”, teria defendido com maior firmeza a qualidade de vida dos operários da Usina de Jirau, submetidos a condições subumanas no canteiro de obras da Camargo Corrêa. Ou tentaria conciliar a brutal agenda desenvolvimentista com medidas efetivas de preservação da natureza, em prol da saúde das próximas gerações. O compromisso com as causas feministas poderia levar Dilma Rousseff a se manifestar de maneira mais clara no debate sobre a descriminalização do aborto, mas parece que o escândalo que se promoveu em torno do assunto, durante a campanha, contribuiu para transformar o aborto numa espécie de tabu político para a atual gestão.

Outras questões relativas à saúde das mulheres, no entanto, ainda podem ser contempladas no governo Dilma. Os casos mais óbvios seriam novas políticas de proteção à maternidade, com ênfase no amparo às mães adolescentes. Além disso, toda e qualquer melhora no atendimento à saúde de maneira geral beneficiaria as mulheres, acostumadas a cuidar não apenas da saúde dos filhos, mas também de pais, sogros e maridos. Ainda há tempo para esperar da primeira mulher presidente do Brasil medidas que diminuam a desigualdade de gênero no País, sobretudo nas classes mais baixas.

Essa esperança se deve ao fato de Dilma, em sua trajetória pessoal e política, ter escolhido as alternativas progressistas que se apresentaram à sua geração. Afinal, a característica mais marcante da presidenta é sua longa trajetória como militante radical de esquerda. Continue lendo em Mulher ou Militante.

Questões de Gênero

Vivemos num tempo em que o politicamente correto virou alvo, pois por propor mudanças é visto como chato. Normal, nada mais saudável do que haver reação ao se propor mudanças, especialmente sociais. Porém, tem crescido na mídia brasileira o papel do polemista. Alguém que fala um monte de asneiras só para gerar polêmica. É claro que nos perguntamos: devemos alimentar o ego desse tipo de gente? As opiniões divergem, mas às vezes é ótimo ler um texto como o que a Amanda escreveu:

Saiba, meu querido, que homens não perdem a masculinidade por considerar mulheres como seres humanos. Mas perdem a humanidade quando insistem em reduzir mulheres a meros objetos. Casos de violência contra mulheres acontecem justamente quando um homem tenta fazer com que uma mulher seja seu objeto. E essas mulheres sofrem duplamente: primeiro com as marcas da violência física e psicológica. Segundo, porque as violências mais sórdidas vêm embaladas num discurso bem construído de amor, fazendo com que as mulheres tenham dificuldade de romper com esse ciclo que chama de amor uma relação construída na desigualdade.

Continue lendo em: Recadinho pro Pondé.

Go Wherer? Sex, Gender and Toilets. Imagem do blog Sociological Images

Então, em meio a tudo isso temos que perceber o quanto a questão de gênero e os papéis sociais são pouco questionados, destrinchados e ressignificados. Por isso, o texto com a fala de Luna Borges na II Semana Gênero e Direito, traz algumas questões essenciais sobre a importância de discutir gênero em todos os espaços, especialmente na universidade, local de formação. Um espaço que também é representado por pessoas como o Pondé, que parecem querer regredir em questões básicas.

Aqui, faço um breve parêntesis para dizer o que entendemos sobre a palavra gênero, que dá título a nosso evento. Para nós, refere-se a uma categoria extremamente explícita e, ao mesmo tempo, aberta para possibilidades – como toda referência à gramática deve ser. Mais do que uma descrição objetiva de traços inerentes, é um meio de classificar fenômenos, um sistema de distinções socialmente acordado. A teórica e militante feminista Joan Scott, explica que é uma maneira de afirmar construções exclusivamente sociais das identidades subjetivas dos homens e das mulheres. Seria, portanto, uma categoria útil porque oferece meios de distinguir a prática sexual desses corpos, dos papéis atribuídos às mulheres e aos homens.

Então, diante disso, proponho a seguinte reflexão: O que a Universidade tem a ver com isso tudo? Por que estamos hoje aqui neste painel discutindo o que estamos discutindo? Arrisco dizer que a Universidade, como espaço público de construção de conhecimento não pode se esquivar das latentes e explícitas opressões de gênero, raça, classe. Se o papel da Universidade é criticar leis, interpretações e decisões judiciais que possam negar a autonomia de mulheres que se vêem sujeitos de suas próprias histórias, como poderíamos ser passivas em relação a discursos que, por exemplo, culpam estas mulheres de toda desgraça humana? Que atribuem a elas a causa das ações ingênuas, tolas e emocionais de alguns homens? Dizer que “(…) O mundo é masculino!” pode parece uma interpretação coerente para um Direito medieval, mas essas exatas palavras foram proferidas em 2007 pelo juiz Edilson Rodrigues, da 1ª Vara Criminal e da Infância e Juventude de Sete Lagoas – MG.

Quantas mulheres já foram vítimas de violência sexual, moral, patrimonial e posteriormente culpadas pela existência dessa violência? E não só em discursos judiciais. Quantas mulheres aqui deste auditório já se sentiram constrangidas em sala de aula por serem tratadas com condescendências do tipo “meu amor”, “minha querida”, “minha linda”?

Será preciso desenvolver algum tipo de habilidade para entender que esse posicionamento rechaça ainda mais as mulheres de espaços públicos? Que constrói discursos pretensiosamente neutros, inofensivos, mas que se mostram legitimadores de práticas degradantes para a dignidade de mulheres? Este auditório deveria contar com a presença de reitor, decanos, decanas e a maioria de professores e professoras daqui, pois entendemos que este é um momento ótimo para que a Universidade pense em como formar um(a) profissional e cidadão, cidadã? Como construir um conhecimento mínimo que permita identificar a exclusão de tantas subjetividades, de tantos direitos?

Continue lendo em: Questões de Gênero na Universidade

Go Where? Sex, Gender and Toilets. Imagem do blog Sociological Images

[+] Obrigada a Barbara Lopes pela dica do tumblr, que Como Queríamos Demonstar: tema de quase toda coluna do Pondé: “prefiro gente que X”, sendo X qualquer falha de caráter.

[+] Conheça também o Neo Pelúcias.

Quem paga a conta?

A notícia é: Em restaurante de outro século, mulher ganha cardápio sem preço. O Da Gemma é um antigo restaurante da Itália, com preços salgados, que possui 2 tipos de cardápio. Um com os preços, que são entregues aos homens. E outro sem preços, que são entregues as mulheres. Quando duas mulheres vão ao restaurante eles entregam os cardápios com preços as duas, pois não sabem quem irá pagar a conta. No fim tudo é justificado como sendo uma gentileza. Aí lendo os comentários você encontra pérolas do tipo:

Se todos os lugares fizessem isso, seria instituído o retorno do cavalherismo, o que eu acho lindo!

Enquanto existir esse tipo de mulher que acha que o fato do homem pagar uma simples conta de restaurante a diminui em alguma coisa, continuaremos no caminho da extinção da gentileza

Se a gente parar para avaliar a mudança comportamental, é devido à mulheres que pensam assim que os homens estão tão perdidos em relação ao seu papel na relação. A mulher ficou tão independente que mudou o comportamento dos homens também, e pra pior!

A questão fundamental é a seguinte: não há problema em alguém pagar a conta, mas há problema em o restaurante pressupor que o homem fará isso. O restaurante fazer isso não vai trazer de volta o cavalheirismo perdido dos tempos de outrora. Porque vivemos em outros tempos. E acredite, se os homens não são mais os cavalheiros elegantes de antigamente, isso não é culpa das mulheres independentes, mas sim da falta de gentileza da humanidade. Uma sociedade cada vez mais individualista, é uma sociedade que não preza a gentileza com o próximo. E além de tudo, crises econômicas também interferem nas nossas relações com o dinheiro. Então, é importante saber também que até a gentileza muitas vezes tem seu preço.

Cena do Filme "O Amor Custa Caro" com Catherine Zeta-Jones e George Clooney.

Já falei um pouco sobre gentileza e pagamento de contas no texto Às Mulheres que não querem direitos iguais. Não acho legal pautar minhas relações amorosas no dinheiro, mas se uma mulher quer que o cara sempre pague a conta, o que tenho a ver com a vida dela? O que quero é que ela não pregue que isso é o melhor para todo mundo. Individualmente ela pode exigir essas coisas e talvez até encontre um cara que sempre pague a conta. Ou talvez não, e passe a achar que rachar a conta ou pagá-la algumas vezes não é tão ruim assim. Uma mulher pode fazer suas escolhas.

É claro que pagar uma conta muitas vezes pressupõe uma relação de poder. Há casos em que alguém paga sua conta em um restaurante, mas vai ficar exigindo obediência depois, no estilo: “ah mas eu pago tudo o que você quer, então mereço que você faça algo por mim”. É contra esse tipo de relação que vejo muitas mulheres independentes levantarem a voz contra. Além disso, cada pessoa é um indivíduo com desejos e histórias pessoais. Talvez eu ache que a menina que quer sempre ter a conta paga tenha relações de carência mal resolvidas, mas aí voltamos a mesma questão, o que tenho a ver com a vida dela? A minha preocupação é que ela não pregue que todas as mulheres querem suas contas pagas por homens. Porque mulheres são, assim como os homens, pessoas muito diferentes umas das outras nas suas particularidades.

Mas no meu mundo-ideal-feminista, pensado dentro da estrutura do capitalismo (em que dinheiro é sinônimo de liberdade), a mulher que quer sua conta sempre paga por um homem continua existindo, assim como também será possível haver o homem que quer sua conta sempre paga por uma mulher. O meu feminismo não atua nos relacionamentos individuais, no sentido de que nunca vou virar para uma amiga que é dona-de-casa e está adorando e dizer: olha, você tem tem que arrumar um trabalho para não depender do seu marido. O que faço é lutar para que ela tenha direito a aposentadoria como dona-de-casa; que se ela se separar existam cursos de capacitação para pessoas que estão há muito tempo fora do mercado, além de toda estrutura jurídica para que se houver um caso de violência ela tenha todo apoio material e psicológico. E claro, brigo quando ela diz que a vida dela é melhor que a das outras mulheres, porque apoio totalmente o fato dela ser dona-de-casa, mas não aceito que isso seja padrão.

É claro que existem relações de poder em qualquer relacionamento, não importa quem ganhe mais ou menos, essas relações sempre vão existir. É um pouco minimizado quando os dois ganham igual, mas mesmo assim haverá uma luta pelo poder interno da relação, afinal são duas pessoas com suas histórias de vida ali. Tem muita mulher que não se separa de um casamento falido porque não quer ser chamada de divorciada. Em oposição, tem mulheres de 30 anos que mesmo vivendo um noivado ruim decidem casar para separar em 3 meses, pois não suportam a idéia de serem solteiras com 30 anos, preferem ser divorciadas. Quantas paranóias precisamos carregar num estado civil?

Eu olho para minha amiga que largou tudo para ser dona-de-casa e mãe, que adora ficar com os filhos o dia inteiro, que chama o marido de “docinho-de-coco” e tal. Eu olho e me preocupo se um dia essa fantasia vai acabar, mas a vida é dela. Eu só posso estar do lado dela e lutar para que ela tenha todo apoio para se reeguer se um dia seu conto de fadas acabar. Porque minha vida é outra, sem filhos, independente, mas é também uma vida em que não há garantias de felicidade eterna. É a vida que podemos escolher porque somos mulheres que podem escolher, enquanto outras tantas não escolhem, apenas vivem o que a vida lhes traz. Gentileza é lutar pela liberdade de todos. E isso não tem que ser exclusividade do homem num restaurante.

Jennifer Lawrence

Loira e linda, a mais recente revelação do cinema americano, Jennifer Lawrence tinha tudo para ser a eterna cheerleader. Mas, não é isso que ela vem mostrando. Desde que concorreu ao Oscar por Inverno da Alma, Jennifer vem fazendo bons personagens em diferentes tipos de filme. Acredito que junto com Dakota Fanning e Kristen Stewart ela caminha para ser uma das talentosas atrizes desta geração.

Em Inverno da Alma, Ree é uma jovem de 17 anos miserável, que vive num velho casebre de madeira ao lado dos dois irmãos pequenos e da mãe catatônica. Um retrato do “white trash” americano, pessoas que vivem em lugares inóspitos, mostrando que a terra da liberdade e da prosperidade não é para todos. Como protagonista, Jennifer carrega o filme com um rosto desgastado e cansado em várias cenas, em outros um misto de amor e fragilidade. O desespero toma conta do espectador várias vezes, mas a personagem Ree, merecidamente foi reconhecida como uma das melhores atuações do ano passado.

Imagem do Filme Inverno da Alma/2010

Em Um Novo Despertar, Jennifer é a cheerleader Norah. Mesmo no papel secundário de “interesse amoroso do filho do personagem principal”, ela traz toda a dualidade de Ree. Uma menina que parece tão decidida, cheia de medalhas e boas notas, precisa de ajuda para reencontrar seus fantasmas internos. A cheerleader é muito mais que a loira de saia curta da escola secundarista, e ela só é mais por causa de Jennifer, que transforma Norah numa pessoa que em meio a tanta loucura encontra sua sanidade na verdade de seus sentimentos.

E em X-Men: First Class, Jennifer nos brinda com a ótima interpretação de Mística. A mutante azul que pode se metamorfosear em qualquer pessoa. O tema central de sua personagem é a luta pela aceitação de seu corpo e de sua aparência. Uma desejo de ser amada pelo que se é e não por aquilo que se parece. É interessante que em determinado momento do filme ela perceber como a preocupação com sua aparência impede que ela desenvolva plenamente seu treinamento. “Mutante com Orgulho” é sua última frase. Uma frase que resulta de sua construção pessoal desde a infância, que Charles Xavier não deu a devida atenção e que Magneto conseguiu ver além. Jennifer está ótima no filme, mesmo quando coberta de tinta azul. Ela dá a humanidade necessária a personagem, mas nos lembra que nosso crescimento e nossas decisões podem nos separar de quem sempre esteve ao nosso lado.

Mística é uma personagem especial neste filme, pois questiona muito a aparência feminina e a beleza. Quando ela assume seu corpo e aparece sem roupas há uma demonstração crescente de poder, de conhecimento do seu potencial, um empoderamento muito forte. Pensar em Mística me lembra O Mito da Beleza, livro de Naomi Wolf:

As mulheres prósperas, instruídas e liberadas do Primeiro Mundo, que têm acesso a liberdades inatingíveis para qualquer outra mulher até agora, não se sentem tão livres quando querem ser. E já não podem restringir ao subconsciente sua sensação de que essa falta de liberdade tem algo a ver com questões que realmente não deveriam ser importantes. Muitas sentem vergonha de admitir que essas preocupações triviais — que se relacionam à aparência física, ao corpo, ao rosto, ao cabelo, às roupas — têm tanta importância. No entanto, apesar da vergonha, da culpa e da negação, é cada vez maior o número de mulheres que questiona se não se trata de elas serem totalmente neuróticas e solitárias, mas que o que está em jogo é relacionado com a liberação da mulher e a beleza feminina. (pg.11)

Aposto que Jennifer continuará nos brindando com ótimas interpretações (estou curiosa com The Hunger Games), mostrando por meio de suas personagens que as mulheres são muito mais plurais do que imaginamos.