Panmela Castro, a Anarkia Boladona

Semana passada, a a brasileira Panmela Castro, também conhecida por Anarkia Boladona foi premiada em Nova York com o DVF Awards, prêmio anual dado a mulheres que lutam para diminuir a violência e a injustiça de gênero, pela Diller-von Fustenberg Family Foundation. Panmela é uma grafiteira carioca que, por meio de sua arte, consegue conscientizar as mulheres vítimas de violência doméstica de seus direitos – especialmente nas favelas cariocas.

Muros dividem espaços. Mas, para a grafiteira carioca Panmela Castro, servem para aproximar pessoas e discutir os direitos das mulheres por meio de imagens. “No muro, a arte toca todas as pessoas, independentemente de sexo, raça ou gênero. Mesmo sem querer, a pessoa acaba assimilando a ideia”, diz. Ela usa o grafite e a arte de rua como ferramenta para promover uma mudança cultural. “A igualdade está escrita no papel. Mas culturalmente as coisas são diferentes. Isso precisa mudar”, diz a grafiteira de 29 anos.

Mais conhecida pela assinatura Anarkia Boladona, ela teve uma trajetória muito rápida e se destacou no universo ainda predominantemente masculino do grafite. Seu trabalho tem uma importante carga autobiográfica e aborda temas como as relações de poder sobre o corpo da mulher, a sexualidade e o desbravamento do espaço urbano pelo ser feminino. São imagens de mulheres fortes que refletem sobre as relações de gênero.

A convite de uma ONG de direitos humanos da Baixada Fluminense, a ComCausa, há dois anos Anarkia criou o projeto “Grafiteiras pela Lei Maria da Penha”. A iniciativa usa o grafite para divulgar essa lei aprovada em 2006 para proteger as mulheres da violência doméstica e combater a impunidade dos agressores. Um dos avanços dessa lei é considerar a violência doméstica como uma violação dos direitos humanos das mulheres. Outro é incluir na categoria de abuso as agressões psicológicas, morais e patrimoniais.

Na companhia de uma especialista nessa lei, a advogada Ana Paula Sciammarella, e de um grupo de grafiteiras, Anarkia vai às comunidades carentes do Rio de Janeiro ministrar oficinas. Durante esses encontros, as mulheres falam sobre situações vividas no dia a dia e do seu entendimento sobre os próprios direitos. No desenrolar da conversa, Anarkia às vezes fala de episódios de agressão e omissão de direitos ocorridos com amigas, tias, primas e com ela mesma — ela morou com um rapaz que a agrediu, o que pôs fim à relação. Depois desse diálogo e de uma explicação sobre o funcionamento e o alcance da Lei Maria da Penha, as participantes pintam murais de rua com imagens e frases baseadas em suas vivências e na lei. “Assim as informações discutidas continuam sendo lembradas e passadas dentro da comunidade”, diz a grafiteira. As imagens que serão colocadas em murais também são tema de conversa. “Muitas mulheres dizem que, se soubessem antes dos direitos expostos nos murais e nas oficinas, talvez tivessem percorrido caminhos diferentes em suas vidas”, diz Panmela.

A receptividade ao projeto multiplicou a quantidade de meninas engajadas nas questões femininas e fortaleceu a união de mulheres artistas de rua. Depois de trabalhar em conjunto com diversas organizações, elas entenderam que era hora de criar uma rede para levar adiante a ação. Isso levou ao surgimento, em maio de 2010, da Nami Rede Feminista de Arte Urbana. “Funciona como uma fonte de intercâmbio para que as meninas e mulheres que foram capacitadas continuem em contato e aprendam cada vez mais sobre artes, educação e direitos”, diz Anarkia.

Ir às comunidades ouvir as histórias das mulheres mudou a forma de a grafiteira enxergar a condição feminina. “Muitas mulheres agredidas procuram justificar a causa da agressão ou chegam à delegacia declarando que não deram motivo. Como se houvesse algum motivo no mundo que justificasse uma agressão”, diz Anarkia. É por isso que o jeito como a mulher é vista e como ela se vê faz parte da conversa com as oficineiras. “As grafiteiras são referências para essas mulheres, que em contato com essas informações podem dar um novo rumo às suas vidas. Digo que uma mulher pode ser e fazer o que ela quiser”, diz.

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