Consciência Negra

Dia 20 de novembro foi Dia da Consciência Negra. Uma data especial para não negarmos o racismo persistente que existe no Brasil.

Cantora Thalma de Freitas

Rolou uma blogagem coletiva bacana no Blogueiras Feministas. Participei com três textos:

O feminismo é um movimento que busca a igualdade entre homens e mulheres. Porém, isso não impede que existam tensões entre os diferentes grupos de mulheres. De acordo com Luiza Bairros:

Numa sociedade racista sexista mareada por profundas desigualdades sociais o que poderia existir de comum entre mulheres de diferentes grupos raciais e classes sociais’? Esta e uma questão recorrente não totalmente resolvida pelos varias feminismos que interpretam a opressão sexista com base num diferenciado espectro teorico politica ideologia de onde o movimento feminista emergiu. Continue lendo em Nossos Feminismos Revisitados.

Já Lady Christina de Almeida pontua algumas questões que diferencia os grupos de mulheres brancas e negras:

Além da não incorporação do racismo como bandeira, o feminismo branco também não percebia a existência de uma problemática específica atingindo as mulheres negras. Lemos cita a fala da fundadora e coordenadora da organização Criola, Jurema Werneck, que ilustra as diferenças e contradições entre o feminismo tradicional e o feminismo negro.

…tem o subemprego, as questões do trabalho, o direito à procriação que é diferente, porque se a mulher branca reivindica o direito de evitar filhos, a mulher negra reivindica o direito de tê-los, criá-los e vê-los vivos até a velhice.

De fato, as bandeiras levantadas pelas mulheres negras e brancas tinham ênfases distintas. Com relação ao trabalho, as mulheres brancas lutavam pelo direito de trabalhar, o direito ao emprego no mercado de trabalho; mas as mulheres negras já estavam, há mais de quinhentos anos no mercado de trabalho, que explorava a sua mão de obra. As mulheres negras, mais especificamente, reivindicavam direitos trabalhistas, como redução da jornada de trabalho, melhores condições de trabalho. Segundo Lemos, o que as mulheres negras vivenciaram em relação a esse feminismo não foi apenas a desarticulação entre as suas bandeiras, mas também vivenciaram uma tomada de consciência, uma explicitação de como a forma de se olharem e se colocarem no mundo eram diferentes das mulheres do grupo dominante.  Continue lendo em Protagonismo e autonomia de mulheres negras. A experiência das organizações Geledés e Criola.

Enxergar e questionar essas barreiras e tensões, além de abarcar as demandas de todos os grupos de mulheres é mais um papel importante para o feminismo.

A Invenção da Mulata

Branca é branca preta é preta

Mas a mulata é a tal, é a tal!

Quando ela passa todo mundo grita:

“Eu tô aí nessa marmita!”

Quando ela bole com os seus quadris

Eu bato palmas e peço bis

Ai mulata, cor de canela!

Salve salve salve salve salve ela!

(Marchinha de Carnaval)

A mulata é a tal. Quando se trata da pele que não é branca há diversas gradações para definí-la. Especialmente no caso das mulheres: morena-jambo, morena-café, marrom-bombom, morena-canela, entre outros. Não há porém gradações para a mulher branca. Ninguém fala: branca-leite, branca-papel, branca-neve. Mas olhando nas ruas podemos ver também diferentes gradações da pele branca. O desejo de não se identificar diretamente com a pele negra está marcado em nossa história escravocrata. Um país que cresce e se desenvolve mantendo negras e negros nas camadas sociais mais baixas da pirâmide social, reflete o racismo acobertado por anos de uma sofisticada teia de preconceito.

Foto de Nina Vieira no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Há negras e negros ricos no Brasil. Quantos? Ah sim, eles só chegaram lá porque se esforçaram, não é mesmo? Anos de privação alimentar, moradia irregular e em locais com altos índices de doenças, déficit de transporte público, escolas públicas sem professores capacitados, mercado de trabalho que impõe boa aparência. Olhamos esses fatores e pensamos que realmente basta se esforçar para chegar ao topo de uma carreira num grande banco ou em uma novela da globo.

No imaginário do brasileiro que prega a meritocracia a quem sempre foi invisível socialmente, ela sempre esteve lá, a mulata. A figura mítica e sensual. O símbolo maior do Carnaval. O ponto final de nossa vocação da morenidade. Ela não é negra, ela é a mulata globeleza. A construção social da mulata traz questionamentos sobre raça e gênero, mas a sua subjetividade permanece acobertada por estereótipos.

No artigo ‘Sobre a invenção da mulata’, a antropóloga Mariza Corrêa enumera os adjetivos que retratam a mulata na literatura brasileira:

Seria preciso o talento de Lévi-Strauss para fazer o inventário da rica coleção de ervas e especiarias utilizadas nas metáforas dos cheiros, gostos e cores evocados nas frases nas quais a mulata é sujeito: manjericão, cravo e baunilha nas de Aluísio Azevedo (O cortiço, 1890); cravo, canela e alecrim nas de Jorge Amado (Gabriela, cravo e canela, 1958;Tenda dos milagres, 1969); mandioca doce nas de João Felicio dos Santos (João Abade, 1958). A lista poderia continuar, mas podemos resumi-la no verso de Lamartine Babo (O teu cabelo não nega, 1932): “Tens um sabor / bem do Brasil”. Além de cheirosa e gostosa a mulata é muitas outras coisas nesses e em outros textos: é bonita e graciosa, dengosa e sensual; em suma, desejável. (p.39)

A mulata como objeto de desejo reflete os sentidos carnais brasileiros. Porém, ao mesmo tempo que é descrita de forma extremamente sensorial não a vemos além do corpo. A mulata existe para o deleite dos olhos e do sexo. Ela não possui voz ou sonhos, não é um agente social. Apenas provoca os instintos mais primitivos e com isso desordem social. Provavelmente, essa característica também está ligada ao fato de que a mulata ou o mulato são resultado direto de relações sexuais entre brancos e negros. Relações que certamente eram classificadas como impróprias. Portanto, não se trata de negar nossa morenidade, mas de questionar a negação de nossa negritude.

Mariza Corrêa também faz uma importante observação sobre a herança que chega atrelada a pele das pessoas e a sexualidade como fator de discriminação e hieraquização, especialmente a homossexualidade:

Na classificação científica do século dezenove, brancos e negros se opunham como categorias discretas e sua mistura, portanto,tinha um efeito de paleta de pintor: tonalidades correspondiam também a atitudes, ou comportamentos, esperados de uma “mistura” não só de cores como de disposições inatas, herdadas. (Pré)disposições negativas no caso da entrada de herdeiros do primitivo mundo africano no civilizado mundo latino, primeiro, depois predisposições negativas das classes inferiores de imigrantes quando postas em contato com as classes superiores dos herdeiros dos legítimos conquistadores da terra, os lusos. O debate a respeito das conseqüências dessas misturas tinha, é claro, conseqüências para a definição da nação e do nacional, mas o que interessa aqui é outro aspecto dele. Interessa o que estava em jogo nas diferentes definições de feminilidade e de masculinidade quando postas no contexto do debate sobre relações raciais. De masculinidade: o mestiço era quase sempre também sinônimo de efeminado,ou, como era mais comumente chamado na época, de pederasta passivo, numa oposição nunca explicitada ao branco como heterossexual, por definição. Não por acaso, foi no contexto da análise dos cultos “afro- brasileiros” que se iniciou a discussão antropológica a respeito do homossexualismo no Brasil. Trabalhando explicitamente com classificações raciais, os autores desses discursos recorrem, implicitamente, a classificações sexuais, aparentemente tão sedimentadas que não merecem, ou necessitam, ser postas em causa. A hierarquia sexual não estava em discussão mas parece servir como referência à essa nova distinção, também hierárquica, a ser aplicada à diferenças “naturais”. (p. 42)

Por mais que a mulata pareça o símbolo máximo das maravilhas de nossa mestiçagem. Situando-se entre o branco e o negro, o fato que é socialmente cada cor tem seu lugar. E há diversos perigos ao transgredir essas fronteiras de racismo social. A raça é um marcador social importante e, para nossa mulata há também o marcador de gênero, que a limita em dois campos das relações sociais. Voltando a Mariza Corrêa para concluir:

Acredito que a mulata construída em nosso imaginário social contribui, no âmbito das classificações raciais, para expor a contradição entre a afirmação de nossa democracia racial e a flagrante desigualdade social entre brancos e não brancos em nosso país: como “mulato” é uma categoria extremamente ambígua e fluída, ao destacar dela a mulata que é a tal, parece resolver-se esta contradição, como se se criasse um terceiro termo entre os termos polares Branco e Negro. Mas, no âmbito das classificações de gênero, ao encarnar de maneira tão explícita o desejo do Masculino Branco, a mulata também revela a rejeição que essa encarnação esconde: a rejeição à negra preta. (p. 50)

Ps.: Obrigada a Marília Moscou pela dica do artigo.

Esse texto faz parte da Blogagem Coletiva – Dia da Consciência Negra promovida pelas Blogueiras Feministas.

Bibliografia:

 Sobre a invenção da mulata. Artigo de Mariza Corrêa. Cadernos Pagu (6-7) 1996: pp. 35-50.

Raça, cultura e classe no Brasil. Artigo de Sueli Carneiro. Portal Geledés.

O efeito do sexo: políticas de raça, gênero e miscigenação. Artigo de Osmundo de Araújo Pinho. Cadernos Pagu n. 23, dec/2004.

A Vida Sem Empregada

Revistas femininas parecem ser, atualmente, uma fonte inesgotável de estereótipos e matérias nonsense. A Revista Claudia publicou A Vida Sem Empregada. Um texto que afirma:

As domésticas serão artigo raro no mercado de trabalho, anunciam os indicadores sociais mais recentes, e o futuro aponta para uma nova equação familiar, em que todos colaboram nas tarefas da casa. A boa notícia: vêm aí pais e filhos mais unidos e um mundo possivelmente mais justo. Mas não vai ser fácil.

Quem tem grana no Brasil costuma ter empregada ou diarista. Eu contrato uma diarista que vem a minha casa uma vez por semana. Porém, nunca achei que deveria ter uma empregada e nem que seria um horror que ela se tornasse um raro artigo no mercado. A divisão de tarefas domésticas parece ser uma utopia nas famílias brasileiras que contam com empregadas domésticas. Sei que só posso contratá-la porque vivemos numa sociedade injusta, que desde a escravidão delega o trabalho doméstico as mulheres negras.

Nanny. Foto de Stephen Geyer no Flickr, em CC.

Segundo dados da Fundação Seade e do Dieese, em 2008 as mulheres ocupavam 45,1% do total de postos de trabalho. Entretanto, representavam 95,4% do total de pessoas que prestam serviços domésticos. As mulheres negras de baixa escolaridade são maioria no emprego doméstico. Porém, no Brasil, o emprego doméstico está tão enraizado que não pode ser eliminado repentinamente, por isso é importante valorizá-lo e garantir seus direitos de acordo com as indicações da Organização Internacional do Trabalho. Atualmente, as trabalhadoras domésticas não contam com benefícios como o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), seguro-desemprego, abono salarial e hora extra, entre outros. Fora a hipocrisia de ser tratada como alguém da família e depois não pagarem seus direitos.

Portanto, com a ampliação dos direitos deverá ficar cada vez mais caro ter uma empregada doméstica. É claro que algumas pessoas, que não aceitam perder seus privilégios, estão importando trabalhadoras domésticas de países pobres da América do Sul e mantendo-as ilegalmente no país. O trabalho doméstico é tido como algo que deve ser delegado a alguém com menor escolaridade, porque temos um passado escravocrata muito forte. Então, quando a reportagem de Claudia indaga: A ajuda doméstica está mudando de configuração. Cada dia mais, ela deixa de ser paga e passa a ser negociada: saem as profissionais, entram marido e filhos. Será que dá? Ao ler isso pergunto: E quem não tem empregada faz como?

A matéria segue enumerando razões para se ter uma empregada doméstica:

Como eu, muitas mulheres enfrentavam os mesmos problemas trabalhando ou não fora. O tempo não minimizou as questões. Ao contrário, a evolução feminina multiplicou atividades e funções, incluindo ocupações antes exercidas pelos homens (pagar contas, deixar o carro no mecânico). Sem esquecer, claro, da altíssima demanda social para a manutenção da beleza e da aparência.

Veja bem, as novas ocupações femininas não incluem manusear a furadeira para colocar uma quadro na parede, mas sim pagar contas e deixar o carro no mecânico. Além do que, não devemos esquecer nunca da manutenção da beleza e da aparência. É para isso que evoluímos e é por isso que precisamos ter uma empregada doméstica?

A nossa injusta sociedade cria a idéia de que o homem ajuda no trabalho doméstico, mas é essencial estabelecer uma relação não de favor, mas de divisão de tarefas, porque todos moram na mesma casa e todos sujam e bagunçam. Ensinar tarefas domésticas e mostrar no dia-a-dia suas responsabilidades para filhos e filhas é fundamental para a desmistificação da idéia de que precisamos de uma empregada doméstica e que sem ela não iremos sobreviver. O que acontece realmente é que teremos que cancelar uma ida ao cinema, uma saída com amigos, uma festinha no fim de semana ou mesmo mais tempo de sono para limparmos e organizarmos nossas casas. E isso significa reconhecer que temos privilégios, que enquanto tenho lazer há alguem arrumando minha casa. Essa pessoa é uma trabalhadora como eu, merece salário digno e direitos trabalhistas. E também merece mudar de vida, estudar e ter a possibilidade de escolher outra profissão.

Mais para o fim, a reportagem até fala de abdicação e responsabilidade familiar, mas explicita o pensamento de uma classe social mimada que parece não entender que é possível viver sem alguém abaixando-se para catar as roupas do chão:

É uma equação delicada. Nossas filhas, acostumadas à presença do auxílio doméstico, em geral não dão importância a essas tarefas. Foram criadas sem se preocupar com elas e sem treinamento para exercê-las. Portanto, não têm recursos para se transformar da noite para o dia em responsáveis pelo lar. Nem desejam. Por outro lado, a nova geração de meninos parece ser mais cúmplice, porque aprendeu assim. Mas será que eles estão preparados para uma ajuda regular e não eventual?

Por que parece tão difícil educar filhas e filhos para o trabalho doméstico? Por que perguntar se eles estão preparados para limpar e organizar a casa? Crescemos numa bolha em que nunca somos responsáveis por nossa própria sujeira? É de assustar uma reportagem tão maluca a ponto de perguntar se alguém está preparado para ajudar regularmente nas tarefas domésticas. Quanto ao tempo gasto com as tarefas domésticas, ninguém parece levantar na matéria a idéia de reduzir a carga horária dos trabalhadores, de lutar por melhor qualidade de vida e mais tempo com a família. No Brasil, contratar uma empregada doméstica significa abrir uma vaga de trabalho para uma mulher, mas é importante que essa mulher tenha outras oportunidades, direitos garantidos e principalmente, que ela tenha um contrato de trabalho claro, que seja contratada para um serviço específico e não para mimar crianças ou estabelecer tarefas afetivas.

[+] Carta Aberta ao Grupo Antiterrorismo de Babás. Texto da historiadora e professora Luana Diana dos Santos.

Feminismos – A Mulher Negra.

O blog Maçãs Podres coloca na roda: O que as “blogueiras feministas” deveriam aprender com os “blogueiros feministas” – Por um feminismo étnico de classe econômica.

Dentro do Feminismo há diversos feminismos. Pois o mundo das mulheres é extremamente amplo e as histórias e consequências da opressão são diferenciadas. Faça um pequeno esforço e não multiplique estereótipos, a diversidade está presente em qualquer movimento político e social. Entendi a questão acima levantada não como uma maneira de apontar nomes, de dizer quem são as “blogueiras feministas” ou os “blogueiros feministas” ou de mostrar posts em que escrevo sobre a condição da mulher negra, mas sim um convite a reflexão sobre as diferentes batalhas e dificuldades presentes na luta diária das mulheres. O Feminismo é um movimento que busca a igualdade e o fim de preconceitos, mas nem sempre todas as vozes e demandas são ouvidas e contempladas. É preciso estar com sentidos abertos para diferentes maneiras e gestos de se colocar no mundo, para as diferentes representações construídas socialmente. Além de buscar contato com mulheres negras, feministas ou não, minha contribuição hoje é trazer para a roda a perspectiva do feminismo da mulher negra.

Tábata. Clique na foto para ver a galeria de Daniel Pádua.

Foto de Daniel Pádua, CC

Retirei do texto “Enegrecer o Feminismo: A Situação da Mulher Negra na América Latina a partir de uma Perspectiva de Gênero” de Suely Carneiro, Fundadora e Coordenadora do Geledés – Instituto da Mulher Negra, trechos que mostram o quanto algumas colocações e demandas do movimento feminista podem não fazer sentido para muitas mulheres, pois não correspondem a realidade que vivem. Uma mulher é muitas vezes mais livre que outra apenas por estar em determinada classe social. Mulheres brancas e negras possuem diferentes trajetórias devido as relações de raça e cor impostas socialmente.  O racismo tem profunda ligação com o machismo, pois trabalham juntos na construção de uma representação equivocada e estereotipada da mulher negra. O Feminismo da mulher negra está profundamente ligado ao fato de que esta mulher nunca foi vista como algo frágil e virginal, a mulher negra sempre foi extremamente sexualizada e vista como escrava. Esse Feminismo traz questões de opressão sustentadas pela tríade raça, gênero e classe. Articulá-las de forma transversal é um dos grandes desafios para o movimento feminista. Enxergar a mulher negra como sujeito político e autônomo também faz parte da luta pelos direitos das mulheres.

O que poderia ser considerado como história ou reminiscências do período colonial permanece, entretanto, vivo no imaginário social e  adquire novos contornos e funções em uma ordem social supostamente democrática, que mantém intactas as relações de gênero segundo a cor ou a raça instituídas no período da escravidão. As mulheres negras tiveram uma experiência histórica diferenciada que o discurso clássico sobre a opressão da mulher não tem reconhecido, assim como não tem dado conta da diferença qualitativa que o efeito da opressão sofrida teve e ainda tem na identidade feminina das mulheres negras.

Quando falamos do mito da fragilidade feminina, que justificou historicamente a proteção paternalista dos homens sobre as mulheres, de que mulheres estamos falando? Nós, mulheres negras, fazemos parte de um  contingente de mulheres, provavelmente majoritário, que nunca reconheceram em si mesmas esse mito, porque nunca fomos tratadas como frágeis. Fazemos parte de um contingente de mulheres que trabalharam durante séculos como escravas nas lavouras ou nas ruas, como vendedoras, quituteiras, prostitutas…  Mulheres que não entenderam nada quando as feministas disseram que as mulheres deveriam ganhar as ruas e trabalhar! Fazemos parte de um contingente de mulheres com identidade de objeto. Ontem, a serviço de frágeis sinhazinhas e de senhores de engenho tarados. Hoje, empregadas domésticas de mulheres liberadas e dondocas, ou de mulatas tipo exportação.

Em geral, a unidade na luta das mulheres em nossas  sociedades não depende apenas da nossa capacidade de superar as desigualdades geradas pela histórica hegemonia masculina, mas exige, também, a superação de ideologias complementares desse sistema de opressão, como é o caso do racismo. O racismo estabelece a inferioridade social dos segmentos negros da população em geral e das mulheres negras em particular, operando ademais como fator de divisão na luta das mulheres pelos privilégios que se instituem para as mulheres brancas. Nessa perspectiva, a luta das mulheres negras contra a opressão de gênero e de raça vem desenhando novos contornos para a ação política feminista e anti-racista, enriquecendo tanto a discussão da questão racial, como a questão de gênero na sociedade brasileira.

Enegrecer o movimento feminista brasileiro tem significado, concretamente, demarcar e instituir na agenda do movimento de mulheres o peso que a questão racial tem na configuração, por exemplo, das políticas demográficas, na caracterização da questão da violência contra a mulher pela introdução do conceito de violência racial como aspecto determinante das formas de violência sofridas por metade da população feminina do país que não é branca; introduzir a discussão sobre as doenças étnicas/raciais ou as doenças com  maior incidência sobre a população negra como questões fundamentais na formulação de políticas públicas na área de saúde; instituir a crítica aos mecanismos de seleção no mercado de trabalho como a “boa aparência”, que mantém as desigualdades e os privilégios entre as mulheres brancas e negras.

CARNEIRO, Suely. Enegrecer o Feminismo: A Situação da Mulher Negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero.In: Ashoka Empreendimentos Sociais; Takano Cidadania (Orgs.). Racismos Contemporâneos. Rio de Janeiro: Takano Editora, 2003. p. 49-58.

[+] Conquistas e Desafios à Participação Política de Jovens Mulheres Negras de Jamile Carvalho e Raquel Quintiliano em Forito – Jovens Feministas Presentes.

[+] As Feministas e as Domésticas.

 

A Helena que não Viveu a Vida.

A primeira vez que ouvi falar da novela Viver a Vida (2009), veio a notícia de que esta seria a primeira novela das oito com uma protagonista negra. Taís Araújo, que já havia sido a primeira protagonista negra de uma novela brasileira com Xica da Silva (1996), na extinta Rede Manchete, iria superar mais uma barreira, pois também já tinha sido a primeira protagonista negra de uma novela da Rede Globo em Da Cor do Pecado (2004). Ela seria uma Helena, que dentro das novelas do autor Manoel Carlos são grandes protagonistas, mulheres que lutam para mudar seus destinos e serem felizes. A Helena de Taís seria uma modelo famosa internacionalmente, independente, conquistadora e carismática que se apaixonaria por um homem mais velho e castrador vivido por Zé Mayer. Realmente era essa a Helena do início da novela, com seus belos vestidos e a lindíssima cabeleira afro coroando uma atriz negra no papel central. Maneco acertou também ao incluir na trama a família de Helena, acolhedora e unida, toda formada por atores negros. Seus enredos fugiam do tradicional papel do ator/atriz negro/a que geralmente é o empregado/a de uma rica família branca ou faz parte do núcleo que mora no subúrbio. Edite, vivida por Lica de Oliveira, é mãe de Helena e figura central da família, uma mulher forte, inteligente e batalhadora, que está em seu segundo casamento e é dona de uma pousada em Búzios.

Apesar do casamento de Helena com Zé Mayer ser um dos pontos altos do início, a novela acabou ganhando outra protagonista. Helena foi totalmente colocada em segundo plano por Aline Moraes e sua personagem Luciana, uma modelo em início de carreira que fica tetraplégica num grave acidente. Não foi uma questão de a interpretação de Aline Moraes ser melhor e ofuscar, mas sim o fato de que Manoel Carlos parece não ter abraçado realmente sua primeira Helena negra, preferindo focar a trama principal nos dramas e na superação de Luciana. A novela teve muitos pontos positivos ao abordar o tema da limitação física, mostrou a reação dos personagens a notícia, o desenvolvimento do tratamento e as dificuldades na nova vida, inclusive houve uma cena em que Luciana tentou usar um ônibus público adaptado. Tratou também de temas difíceis como a vida sexual dos cadeirantes e as possibilidades de terem filhos. E divulgou projetos bacanas como o “Praia para Todos”.

A trama como um todo foi muito fraca. Manoel Carlos é conhecido como o autor do cotidiano, seus diálogos sempre falaram de trivialidades. Porém, tudo parecia excessivamente feliz, sem grandes dramas. Para quem já escreveu uma trama de muita dor e segredos, como a troca de bebês realizada por Regina Duarte em Por Amor, faltou a Viver a Vida uma expectativa, um “quem será o próximo a descobrir”. Faltou também uma grande vilã, como é de praxe nas novelas brasileiras. Em determinado momento a trama da novela girou apenas entre as traições de diversos casais, como se trair fosse algo absolutamente normal e ninguém sofresse mais por isso. Gustavo traía Betina com a prima dela, Betina traía Gustavo com o instrutor da academia. Marcos traía Helena com Dora, que traía Maradona com Marcos. Luciana traía Jorge com Miguel, que traía Renata, que o traía com Felipe.  Sempre tivemos personagens infiéis em outras novelas, como a Norminha de Caminho das Índias, mas nunca vi algo nesse estilo Quadrilha-de-Drummond. Era tanta traição que não tive escolha.  junto com as colegas de twitter apelidamos a novela de #trairavida.

Algumas cenas de Viver a Vida foram extremamente preconceituosas por tratarem mulheres de uma maneira inaceitável. Confesso que muitas vezes vibro com cenas de briga, apesar de não aprovar violência, há momentos em que queremos nos vingar da vilã que tanto tripudiou em cima da mocinha mosca-morta. Não foi o caso dessas três cenas específicas de Viver a Vida.

Helena é chamada de criminosa por ter feito um aborto. Todos os anos são realizados milhares de abortos clandestinos no Brasil, a grande maioria feita sem equipamentos e profissionais adequados, o que acarreta um grande número de mortes. A questão do aborto não deve ser influenciada por questões religiosas ou dogmáticas, o aborto deve ser decisão da mulher e atualmente é questão de saúde pública. O aborto é uma prática comum, presente em todas as classes sociais, sempre acobertado pela hipocrisia, indiferença e desrespeito com a mulher. A diferença é que quem tem dinheiro faz em clínicas particulares, com toda estrutura. Quem não tem se arrisca em abortos clandestinos que podem deixar sequelas ou causar a morte. A descriminalização do aborto é urgente, pois só quem vai presa é a mulher pobre. E quando Maneco escreve uma cena como essa, em que uma mulher que cometeu um aborto, independente de seus motivos, é achincalhada como criminosa, o autor está fazendo um desserviço ao respeito pelas mulheres e ao direito que elas devem ter sobre seu corpo. É importante que a questão do aborto seja retratada em novelas, mas justamente para acabar com os preconceitos. Vai pensando aí.

Helena leva um tapa de forma humilhante. O racismo do brasileiro está sempre nas entrelinhas, nunca é assumido. Num país como o Brasil exibir cenas em que uma pessoa branca bate na cara de uma pessoa negra ajoelhada, as duas caracterizadas por vestimentas totalmente distintas, é reproduzir cenas de humilhação que podem estar sendo vividas por muitas pessoas negras. Helena poderia estar de pé na hora do tapa, já que a idéia era revidar o tapa da cena que citei anteriormente. Helena poderia estar triste e deprimida, mas com certeza poderia estar usando um vestido simples e bonito, poderia estar com os cabelos soltos. Tereza que tinha descoberto que sua filha estava tetraplégica está bem vestida e maquiada. Por que Helena tem que estar numa posição tão humilhante? Por que a adolescente negra que viu Helena tão bela caminhando por Petra, agora tem que vê-la sendo esbofeteada por uma mulher rica e branca? Quantas Helenas se ajoelhariam e pediriam perdão e apanhariam sem reação em pleno século XXI? Foi com certeza a pior cena de toda novela. E ainda temos que aguentar ela sendo chamada de criminosa mais uma vez.

Marcos persegue Dora pela casa tentando agarrá-la. É tão nojento pensar que homens e mulheres realmente acham isso romântico. Um homem correndo atrás de uma mulher, tentando beijá-la a força, ela negando e depois cedendo como se a paixão fosse incontrolável. Todas as cenas em que Marcos, vivido por Zé Mayer, brincava de Lobo Mau com Dora, vivida por Giovanna Antonelli, eram nojentas. Porque começavam da mesma maneira e terminavam da mesma forma, dando a impressão que mulheres gostam de ser subjulgadas, que basta insistir que uma hora elas cedem, que são atitudes como essa que estimulam a paixão. Isso é violência, isso é forçar intimidade, isso é o tipo de atitude que leva ao estupro. Fugir correndo de um homem que quando me agarra à força diz: “você não tem que querer nada”; é deprimente e nojento. Nenhuma mulher deveria ser tratada dessa maneira, ninguém pode achar que isso é divertido ou sensual, isso é viver de forma humilhante.

Houveram outras cenas ruins, porém essas três foram as que mais me chocaram quanto ao desrespeito. Enquanto mostra as dificuldades e preconceitos enfrentados pelos cadeirantes, Manoel Carlos esquece de acabar com uma série de preconceitos contra as mulheres. Uma grande decepção a maioria das personagens femininas da trama , começam fortes, mas no fim padecem por não terem um homem ao seu lado. Uma pena que a primeira Helena negra seja tão esquecível como heroína. No fim, não consigo imaginá-la como a via no início, como uma mulher que muda seu destino e constrói sua felicidade vencendo preconceitos. Entretanto, neste último semestre houveram três novelas na Rede Globo com protagonistas negras, isso demonstra mudanças.

E como nem tudo são lágrimas e novela também é diversão, além das risadas no twitter, alguns vídeos fizeram a alegria da audiência de #trairavida: Houve os imperdíveis Momento Vanessão 1 e Momento Vanessão 2. Uma Dramatic-Rafaela feita pelo Marmota. E o mais infame de todos É Tetra!

Que venha Passione!