Branca é branca preta é preta
Mas a mulata é a tal, é a tal!
Quando ela passa todo mundo grita:
“Eu tô aí nessa marmita!”
Quando ela bole com os seus quadris
Eu bato palmas e peço bis
Ai mulata, cor de canela!
Salve salve salve salve salve ela!
(Marchinha de Carnaval)
A mulata é a tal. Quando se trata da pele que não é branca há diversas gradações para definí-la. Especialmente no caso das mulheres: morena-jambo, morena-café, marrom-bombom, morena-canela, entre outros. Não há porém gradações para a mulher branca. Ninguém fala: branca-leite, branca-papel, branca-neve. Mas olhando nas ruas podemos ver também diferentes gradações da pele branca. O desejo de não se identificar diretamente com a pele negra está marcado em nossa história escravocrata. Um país que cresce e se desenvolve mantendo negras e negros nas camadas sociais mais baixas da pirâmide social, reflete o racismo acobertado por anos de uma sofisticada teia de preconceito.

Foto de Nina Vieira no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Há negras e negros ricos no Brasil. Quantos? Ah sim, eles só chegaram lá porque se esforçaram, não é mesmo? Anos de privação alimentar, moradia irregular e em locais com altos índices de doenças, déficit de transporte público, escolas públicas sem professores capacitados, mercado de trabalho que impõe boa aparência. Olhamos esses fatores e pensamos que realmente basta se esforçar para chegar ao topo de uma carreira num grande banco ou em uma novela da globo.
No imaginário do brasileiro que prega a meritocracia a quem sempre foi invisível socialmente, ela sempre esteve lá, a mulata. A figura mítica e sensual. O símbolo maior do Carnaval. O ponto final de nossa vocação da morenidade. Ela não é negra, ela é a mulata globeleza. A construção social da mulata traz questionamentos sobre raça e gênero, mas a sua subjetividade permanece acobertada por estereótipos.
No artigo ‘Sobre a invenção da mulata’, a antropóloga Mariza Corrêa enumera os adjetivos que retratam a mulata na literatura brasileira:
Seria preciso o talento de Lévi-Strauss para fazer o inventário da rica coleção de ervas e especiarias utilizadas nas metáforas dos cheiros, gostos e cores evocados nas frases nas quais a mulata é sujeito: manjericão, cravo e baunilha nas de Aluísio Azevedo (O cortiço, 1890); cravo, canela e alecrim nas de Jorge Amado (Gabriela, cravo e canela, 1958;Tenda dos milagres, 1969); mandioca doce nas de João Felicio dos Santos (João Abade, 1958). A lista poderia continuar, mas podemos resumi-la no verso de Lamartine Babo (O teu cabelo não nega, 1932): “Tens um sabor / bem do Brasil”. Além de cheirosa e gostosa a mulata é muitas outras coisas nesses e em outros textos: é bonita e graciosa, dengosa e sensual; em suma, desejável. (p.39)
A mulata como objeto de desejo reflete os sentidos carnais brasileiros. Porém, ao mesmo tempo que é descrita de forma extremamente sensorial não a vemos além do corpo. A mulata existe para o deleite dos olhos e do sexo. Ela não possui voz ou sonhos, não é um agente social. Apenas provoca os instintos mais primitivos e com isso desordem social. Provavelmente, essa característica também está ligada ao fato de que a mulata ou o mulato são resultado direto de relações sexuais entre brancos e negros. Relações que certamente eram classificadas como impróprias. Portanto, não se trata de negar nossa morenidade, mas de questionar a negação de nossa negritude.
Mariza Corrêa também faz uma importante observação sobre a herança que chega atrelada a pele das pessoas e a sexualidade como fator de discriminação e hieraquização, especialmente a homossexualidade:
Na classificação científica do século dezenove, brancos e negros se opunham como categorias discretas e sua mistura, portanto,tinha um efeito de paleta de pintor: tonalidades correspondiam também a atitudes, ou comportamentos, esperados de uma “mistura” não só de cores como de disposições inatas, herdadas. (Pré)disposições negativas no caso da entrada de herdeiros do primitivo mundo africano no civilizado mundo latino, primeiro, depois predisposições negativas das classes inferiores de imigrantes quando postas em contato com as classes superiores dos herdeiros dos legítimos conquistadores da terra, os lusos. O debate a respeito das conseqüências dessas misturas tinha, é claro, conseqüências para a definição da nação e do nacional, mas o que interessa aqui é outro aspecto dele. Interessa o que estava em jogo nas diferentes definições de feminilidade e de masculinidade quando postas no contexto do debate sobre relações raciais. De masculinidade: o mestiço era quase sempre também sinônimo de efeminado,ou, como era mais comumente chamado na época, de pederasta passivo, numa oposição nunca explicitada ao branco como heterossexual, por definição. Não por acaso, foi no contexto da análise dos cultos “afro- brasileiros” que se iniciou a discussão antropológica a respeito do homossexualismo no Brasil. Trabalhando explicitamente com classificações raciais, os autores desses discursos recorrem, implicitamente, a classificações sexuais, aparentemente tão sedimentadas que não merecem, ou necessitam, ser postas em causa. A hierarquia sexual não estava em discussão mas parece servir como referência à essa nova distinção, também hierárquica, a ser aplicada à diferenças “naturais”. (p. 42)
Por mais que a mulata pareça o símbolo máximo das maravilhas de nossa mestiçagem. Situando-se entre o branco e o negro, o fato que é socialmente cada cor tem seu lugar. E há diversos perigos ao transgredir essas fronteiras de racismo social. A raça é um marcador social importante e, para nossa mulata há também o marcador de gênero, que a limita em dois campos das relações sociais. Voltando a Mariza Corrêa para concluir:
Acredito que a mulata construída em nosso imaginário social contribui, no âmbito das classificações raciais, para expor a contradição entre a afirmação de nossa democracia racial e a flagrante desigualdade social entre brancos e não brancos em nosso país: como “mulato” é uma categoria extremamente ambígua e fluída, ao destacar dela a mulata que é a tal, parece resolver-se esta contradição, como se se criasse um terceiro termo entre os termos polares Branco e Negro. Mas, no âmbito das classificações de gênero, ao encarnar de maneira tão explícita o desejo do Masculino Branco, a mulata também revela a rejeição que essa encarnação esconde: a rejeição à negra preta. (p. 50)
Ps.: Obrigada a Marília Moscou pela dica do artigo.
Esse texto faz parte da Blogagem Coletiva – Dia da Consciência Negra promovida pelas Blogueiras Feministas.
Bibliografia:
Sobre a invenção da mulata. Artigo de Mariza Corrêa. Cadernos Pagu (6-7) 1996: pp. 35-50.
Raça, cultura e classe no Brasil. Artigo de Sueli Carneiro. Portal Geledés.
O efeito do sexo: políticas de raça, gênero e miscigenação. Artigo de Osmundo de Araújo Pinho. Cadernos Pagu n. 23, dec/2004.