Consciência Negra

Dia 20 de novembro foi Dia da Consciência Negra. Uma data especial para não negarmos o racismo persistente que existe no Brasil.

Cantora Thalma de Freitas

Rolou uma blogagem coletiva bacana no Blogueiras Feministas. Participei com três textos:

O feminismo é um movimento que busca a igualdade entre homens e mulheres. Porém, isso não impede que existam tensões entre os diferentes grupos de mulheres. De acordo com Luiza Bairros:

Numa sociedade racista sexista mareada por profundas desigualdades sociais o que poderia existir de comum entre mulheres de diferentes grupos raciais e classes sociais’? Esta e uma questão recorrente não totalmente resolvida pelos varias feminismos que interpretam a opressão sexista com base num diferenciado espectro teorico politica ideologia de onde o movimento feminista emergiu. Continue lendo em Nossos Feminismos Revisitados.

Já Lady Christina de Almeida pontua algumas questões que diferencia os grupos de mulheres brancas e negras:

Além da não incorporação do racismo como bandeira, o feminismo branco também não percebia a existência de uma problemática específica atingindo as mulheres negras. Lemos cita a fala da fundadora e coordenadora da organização Criola, Jurema Werneck, que ilustra as diferenças e contradições entre o feminismo tradicional e o feminismo negro.

…tem o subemprego, as questões do trabalho, o direito à procriação que é diferente, porque se a mulher branca reivindica o direito de evitar filhos, a mulher negra reivindica o direito de tê-los, criá-los e vê-los vivos até a velhice.

De fato, as bandeiras levantadas pelas mulheres negras e brancas tinham ênfases distintas. Com relação ao trabalho, as mulheres brancas lutavam pelo direito de trabalhar, o direito ao emprego no mercado de trabalho; mas as mulheres negras já estavam, há mais de quinhentos anos no mercado de trabalho, que explorava a sua mão de obra. As mulheres negras, mais especificamente, reivindicavam direitos trabalhistas, como redução da jornada de trabalho, melhores condições de trabalho. Segundo Lemos, o que as mulheres negras vivenciaram em relação a esse feminismo não foi apenas a desarticulação entre as suas bandeiras, mas também vivenciaram uma tomada de consciência, uma explicitação de como a forma de se olharem e se colocarem no mundo eram diferentes das mulheres do grupo dominante.  Continue lendo em Protagonismo e autonomia de mulheres negras. A experiência das organizações Geledés e Criola.

Enxergar e questionar essas barreiras e tensões, além de abarcar as demandas de todos os grupos de mulheres é mais um papel importante para o feminismo.

A Invenção da Mulata

Branca é branca preta é preta

Mas a mulata é a tal, é a tal!

Quando ela passa todo mundo grita:

“Eu tô aí nessa marmita!”

Quando ela bole com os seus quadris

Eu bato palmas e peço bis

Ai mulata, cor de canela!

Salve salve salve salve salve ela!

(Marchinha de Carnaval)

A mulata é a tal. Quando se trata da pele que não é branca há diversas gradações para definí-la. Especialmente no caso das mulheres: morena-jambo, morena-café, marrom-bombom, morena-canela, entre outros. Não há porém gradações para a mulher branca. Ninguém fala: branca-leite, branca-papel, branca-neve. Mas olhando nas ruas podemos ver também diferentes gradações da pele branca. O desejo de não se identificar diretamente com a pele negra está marcado em nossa história escravocrata. Um país que cresce e se desenvolve mantendo negras e negros nas camadas sociais mais baixas da pirâmide social, reflete o racismo acobertado por anos de uma sofisticada teia de preconceito.

Foto de Nina Vieira no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Há negras e negros ricos no Brasil. Quantos? Ah sim, eles só chegaram lá porque se esforçaram, não é mesmo? Anos de privação alimentar, moradia irregular e em locais com altos índices de doenças, déficit de transporte público, escolas públicas sem professores capacitados, mercado de trabalho que impõe boa aparência. Olhamos esses fatores e pensamos que realmente basta se esforçar para chegar ao topo de uma carreira num grande banco ou em uma novela da globo.

No imaginário do brasileiro que prega a meritocracia a quem sempre foi invisível socialmente, ela sempre esteve lá, a mulata. A figura mítica e sensual. O símbolo maior do Carnaval. O ponto final de nossa vocação da morenidade. Ela não é negra, ela é a mulata globeleza. A construção social da mulata traz questionamentos sobre raça e gênero, mas a sua subjetividade permanece acobertada por estereótipos.

No artigo ‘Sobre a invenção da mulata’, a antropóloga Mariza Corrêa enumera os adjetivos que retratam a mulata na literatura brasileira:

Seria preciso o talento de Lévi-Strauss para fazer o inventário da rica coleção de ervas e especiarias utilizadas nas metáforas dos cheiros, gostos e cores evocados nas frases nas quais a mulata é sujeito: manjericão, cravo e baunilha nas de Aluísio Azevedo (O cortiço, 1890); cravo, canela e alecrim nas de Jorge Amado (Gabriela, cravo e canela, 1958;Tenda dos milagres, 1969); mandioca doce nas de João Felicio dos Santos (João Abade, 1958). A lista poderia continuar, mas podemos resumi-la no verso de Lamartine Babo (O teu cabelo não nega, 1932): “Tens um sabor / bem do Brasil”. Além de cheirosa e gostosa a mulata é muitas outras coisas nesses e em outros textos: é bonita e graciosa, dengosa e sensual; em suma, desejável. (p.39)

A mulata como objeto de desejo reflete os sentidos carnais brasileiros. Porém, ao mesmo tempo que é descrita de forma extremamente sensorial não a vemos além do corpo. A mulata existe para o deleite dos olhos e do sexo. Ela não possui voz ou sonhos, não é um agente social. Apenas provoca os instintos mais primitivos e com isso desordem social. Provavelmente, essa característica também está ligada ao fato de que a mulata ou o mulato são resultado direto de relações sexuais entre brancos e negros. Relações que certamente eram classificadas como impróprias. Portanto, não se trata de negar nossa morenidade, mas de questionar a negação de nossa negritude.

Mariza Corrêa também faz uma importante observação sobre a herança que chega atrelada a pele das pessoas e a sexualidade como fator de discriminação e hieraquização, especialmente a homossexualidade:

Na classificação científica do século dezenove, brancos e negros se opunham como categorias discretas e sua mistura, portanto,tinha um efeito de paleta de pintor: tonalidades correspondiam também a atitudes, ou comportamentos, esperados de uma “mistura” não só de cores como de disposições inatas, herdadas. (Pré)disposições negativas no caso da entrada de herdeiros do primitivo mundo africano no civilizado mundo latino, primeiro, depois predisposições negativas das classes inferiores de imigrantes quando postas em contato com as classes superiores dos herdeiros dos legítimos conquistadores da terra, os lusos. O debate a respeito das conseqüências dessas misturas tinha, é claro, conseqüências para a definição da nação e do nacional, mas o que interessa aqui é outro aspecto dele. Interessa o que estava em jogo nas diferentes definições de feminilidade e de masculinidade quando postas no contexto do debate sobre relações raciais. De masculinidade: o mestiço era quase sempre também sinônimo de efeminado,ou, como era mais comumente chamado na época, de pederasta passivo, numa oposição nunca explicitada ao branco como heterossexual, por definição. Não por acaso, foi no contexto da análise dos cultos “afro- brasileiros” que se iniciou a discussão antropológica a respeito do homossexualismo no Brasil. Trabalhando explicitamente com classificações raciais, os autores desses discursos recorrem, implicitamente, a classificações sexuais, aparentemente tão sedimentadas que não merecem, ou necessitam, ser postas em causa. A hierarquia sexual não estava em discussão mas parece servir como referência à essa nova distinção, também hierárquica, a ser aplicada à diferenças “naturais”. (p. 42)

Por mais que a mulata pareça o símbolo máximo das maravilhas de nossa mestiçagem. Situando-se entre o branco e o negro, o fato que é socialmente cada cor tem seu lugar. E há diversos perigos ao transgredir essas fronteiras de racismo social. A raça é um marcador social importante e, para nossa mulata há também o marcador de gênero, que a limita em dois campos das relações sociais. Voltando a Mariza Corrêa para concluir:

Acredito que a mulata construída em nosso imaginário social contribui, no âmbito das classificações raciais, para expor a contradição entre a afirmação de nossa democracia racial e a flagrante desigualdade social entre brancos e não brancos em nosso país: como “mulato” é uma categoria extremamente ambígua e fluída, ao destacar dela a mulata que é a tal, parece resolver-se esta contradição, como se se criasse um terceiro termo entre os termos polares Branco e Negro. Mas, no âmbito das classificações de gênero, ao encarnar de maneira tão explícita o desejo do Masculino Branco, a mulata também revela a rejeição que essa encarnação esconde: a rejeição à negra preta. (p. 50)

Ps.: Obrigada a Marília Moscou pela dica do artigo.

Esse texto faz parte da Blogagem Coletiva – Dia da Consciência Negra promovida pelas Blogueiras Feministas.

Bibliografia:

 Sobre a invenção da mulata. Artigo de Mariza Corrêa. Cadernos Pagu (6-7) 1996: pp. 35-50.

Raça, cultura e classe no Brasil. Artigo de Sueli Carneiro. Portal Geledés.

O efeito do sexo: políticas de raça, gênero e miscigenação. Artigo de Osmundo de Araújo Pinho. Cadernos Pagu n. 23, dec/2004.

A Vida Sem Empregada

Revistas femininas parecem ser, atualmente, uma fonte inesgotável de estereótipos e matérias nonsense. A Revista Claudia publicou A Vida Sem Empregada. Um texto que afirma:

As domésticas serão artigo raro no mercado de trabalho, anunciam os indicadores sociais mais recentes, e o futuro aponta para uma nova equação familiar, em que todos colaboram nas tarefas da casa. A boa notícia: vêm aí pais e filhos mais unidos e um mundo possivelmente mais justo. Mas não vai ser fácil.

Quem tem grana no Brasil costuma ter empregada ou diarista. Eu contrato uma diarista que vem a minha casa uma vez por semana. Porém, nunca achei que deveria ter uma empregada e nem que seria um horror que ela se tornasse um raro artigo no mercado. A divisão de tarefas domésticas parece ser uma utopia nas famílias brasileiras que contam com empregadas domésticas. Sei que só posso contratá-la porque vivemos numa sociedade injusta, que desde a escravidão delega o trabalho doméstico as mulheres negras.

Nanny. Foto de Stephen Geyer no Flickr, em CC.

Segundo dados da Fundação Seade e do Dieese, em 2008 as mulheres ocupavam 45,1% do total de postos de trabalho. Entretanto, representavam 95,4% do total de pessoas que prestam serviços domésticos. As mulheres negras de baixa escolaridade são maioria no emprego doméstico. Porém, no Brasil, o emprego doméstico está tão enraizado que não pode ser eliminado repentinamente, por isso é importante valorizá-lo e garantir seus direitos de acordo com as indicações da Organização Internacional do Trabalho. Atualmente, as trabalhadoras domésticas não contam com benefícios como o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), seguro-desemprego, abono salarial e hora extra, entre outros. Fora a hipocrisia de ser tratada como alguém da família e depois não pagarem seus direitos.

Portanto, com a ampliação dos direitos deverá ficar cada vez mais caro ter uma empregada doméstica. É claro que algumas pessoas, que não aceitam perder seus privilégios, estão importando trabalhadoras domésticas de países pobres da América do Sul e mantendo-as ilegalmente no país. O trabalho doméstico é tido como algo que deve ser delegado a alguém com menor escolaridade, porque temos um passado escravocrata muito forte. Então, quando a reportagem de Claudia indaga: A ajuda doméstica está mudando de configuração. Cada dia mais, ela deixa de ser paga e passa a ser negociada: saem as profissionais, entram marido e filhos. Será que dá? Ao ler isso pergunto: E quem não tem empregada faz como?

A matéria segue enumerando razões para se ter uma empregada doméstica:

Como eu, muitas mulheres enfrentavam os mesmos problemas trabalhando ou não fora. O tempo não minimizou as questões. Ao contrário, a evolução feminina multiplicou atividades e funções, incluindo ocupações antes exercidas pelos homens (pagar contas, deixar o carro no mecânico). Sem esquecer, claro, da altíssima demanda social para a manutenção da beleza e da aparência.

Veja bem, as novas ocupações femininas não incluem manusear a furadeira para colocar uma quadro na parede, mas sim pagar contas e deixar o carro no mecânico. Além do que, não devemos esquecer nunca da manutenção da beleza e da aparência. É para isso que evoluímos e é por isso que precisamos ter uma empregada doméstica?

A nossa injusta sociedade cria a idéia de que o homem ajuda no trabalho doméstico, mas é essencial estabelecer uma relação não de favor, mas de divisão de tarefas, porque todos moram na mesma casa e todos sujam e bagunçam. Ensinar tarefas domésticas e mostrar no dia-a-dia suas responsabilidades para filhos e filhas é fundamental para a desmistificação da idéia de que precisamos de uma empregada doméstica e que sem ela não iremos sobreviver. O que acontece realmente é que teremos que cancelar uma ida ao cinema, uma saída com amigos, uma festinha no fim de semana ou mesmo mais tempo de sono para limparmos e organizarmos nossas casas. E isso significa reconhecer que temos privilégios, que enquanto tenho lazer há alguem arrumando minha casa. Essa pessoa é uma trabalhadora como eu, merece salário digno e direitos trabalhistas. E também merece mudar de vida, estudar e ter a possibilidade de escolher outra profissão.

Mais para o fim, a reportagem até fala de abdicação e responsabilidade familiar, mas explicita o pensamento de uma classe social mimada que parece não entender que é possível viver sem alguém abaixando-se para catar as roupas do chão:

É uma equação delicada. Nossas filhas, acostumadas à presença do auxílio doméstico, em geral não dão importância a essas tarefas. Foram criadas sem se preocupar com elas e sem treinamento para exercê-las. Portanto, não têm recursos para se transformar da noite para o dia em responsáveis pelo lar. Nem desejam. Por outro lado, a nova geração de meninos parece ser mais cúmplice, porque aprendeu assim. Mas será que eles estão preparados para uma ajuda regular e não eventual?

Por que parece tão difícil educar filhas e filhos para o trabalho doméstico? Por que perguntar se eles estão preparados para limpar e organizar a casa? Crescemos numa bolha em que nunca somos responsáveis por nossa própria sujeira? É de assustar uma reportagem tão maluca a ponto de perguntar se alguém está preparado para ajudar regularmente nas tarefas domésticas. Quanto ao tempo gasto com as tarefas domésticas, ninguém parece levantar na matéria a idéia de reduzir a carga horária dos trabalhadores, de lutar por melhor qualidade de vida e mais tempo com a família. No Brasil, contratar uma empregada doméstica significa abrir uma vaga de trabalho para uma mulher, mas é importante que essa mulher tenha outras oportunidades, direitos garantidos e principalmente, que ela tenha um contrato de trabalho claro, que seja contratada para um serviço específico e não para mimar crianças ou estabelecer tarefas afetivas.

[+] Carta Aberta ao Grupo Antiterrorismo de Babás. Texto da historiadora e professora Luana Diana dos Santos.