Lesbianidade e Feminismo: tensões e desencontros

O fato de que o feminismo tenha provocado rupturas nas imposições sociais que fixaram as mulheres no lugar de submissão nas relações de gênero, que definiram a reprodução e a maternidade como à única possibilidade de realização, que negaram o prazer sexual para as mulheres e que fixaram modelos de feminilidade é arrebatador de reações contrárias próprias a uma cultura sexista. Apela-se à idéia de que a desconstrução da subalternidade das mulheres só se explicaria mediante a ausência do desejo das mulheres por homens, sendo esta premissa resultante da combinação entre o sexismo e a heterossexualidade obrigatória (FALQUET, 2006). As normas que mantêm a heterossexualidade são diversas, sutis, inflexíveis e onipresentes e se espraiam pela sociedade (GOMIDE, 2007). Assim, mesmo o feminismo caiu na armadilha da heterossexualidade obrigatória.

As alegorias e estereótipos associados ao feminismo traduzem o apelo ao reforço da categoria mulher. Uma imagem antagônica que opõe feminismo à feminilidade baseada na lógica binária que associa mulher, feminilidade, corpo, emoção em oposição a homem, masculinidade, cabeça, razão.

Historicamente, o movimento feminista tem defendido a liberdade das mulheres, a sexualidade e o direito ao prazer sexual, tornando-o um ambiente favorável as descobertas, que ajuda as mulheres a se revelaram e a experimentarem a lesbianidade. Na prática, o campo feminista é marcado pela existência de mulheres lésbicas e de vivências afetivo sexuais entre mulheres. Os encontros nacionais feministas, que tiveram seu auge na década de 80 e 90, foram momentos importantes de visibilização da presença lésbica no feminismo para feministas e para mulheres populares urbanas e rurais dos movimentos de mulheres.

Muitas lésbicas integraram o movimento feminista brasileiro desde seu início, considerando os anos 70, e o período da abertura política. Todavia, o feminismo resistiu a incorporar as questões das mulheres lésbicas em sua produção teórica e agenda política. Boa parte do movimento se deixou intimidar pela pressão social da conjuntura da época que exigiu ao feminismo o silêncio sobre a lesbianidade e sua invisibilização para que pudesse ser, minimamente, respeitado pela esquerda brasileira, pela intelectualidade acadêmica, pela Teologia da Libertação, pela mídia, pela sociedade em geral no momento pós-ditadura no Brasil. No contexto da anistia brasileira, o movimento feminista se revitalizou com o retorno do exílio na Europa e Estados Unidos de mulheres que haviam entrado em contato com a efervescência do feminismo. A despeito de que, o feminismo seja plural e comporte manifestações diversas, muitas dessas mulheres eram militantes de partidos políticos ou vinculadas a segmentos progressistas da Igreja Católica, que resistiam à ditadura militar, atribuindo características próprias ao movimento.

Constata-se a convivência do feminismo com a lesbianidade sem que seja colocada como tema de debate e de reivindicação de direitos. O silenciamento do feminismo sobre a experiência da lesbianidade na vida das mulheres colaborou para a manutenção da invisibilidade. O questionamento à heterossexualidade obrigatória não teve espaço na formulação epistemológica e na agenda política do movimento feminista brasileiro, tendo sido priorizada a agenda relacionada às vivências de mulheres heterossexuais, como a contracepção, o aborto, a esterilização, a gravidez, o parto6.

A constituição de lésbicas como sujeito político feminista foi tardia e a visibilidade das questões lésbicas no movimento feminista ainda é tênue.

Referência: Assumindo a lesbianidade no campo teórico feminista por Gilberta Santos Soares e Cecília Maria Bacellar Sardenberg.