Ontem, aconteceu a final da Copa do Mundo de Futebol Feminino entre Estados Unidos e Japão. O jogo foi emocionante, com a veloz e aguerrida seleção japonesa empatando duas vezes, levando o jogo para os pênaltis e vencendo. A Women’s World Cup quebrou o recorde de tweets por segundo. Torci para o Japão. Não só pela seleção americana ter eliminado a seleção brasileira, mas também porque as japonesas mostraram muita vontade de vencer durante o torneio, eliminando seleções fortes como a Suécia e a Alemanha. Foram 4 gols no tempo regular de jogo, uma média alta para o futebol de resultados que vemos hoje em dia, mas há pessoas que acham que isso não é suficiente para que o futebol feminino seja reconhecido como um esporte tão importante como o futebol masculino.

Marta e Pretinha durante os Jogos Pan-Americanos do Rio em 2007. Uma medalha de ouro não traz investimentos, apenas promessas. Imagem de Fabio Motta/AE
Durante as cobranças dos pênaltis, a goleira japonesa defendeu a primeira bola. Na segunda cobrança das americanas, a camisa 10 chutou para fora. E, na segunda cobrança das japonesas, a bola foi defendida. A partir daí surgiu o seguinte comentário na minha timeline do twitter: “Mulher não sabe bater pênalti”. Veja bem, não é “a jogadora x não sabe bater pênalti”, é mulher que não sabe. Um comentário extremamente sexista e preconceituoso. Afinal, quantas vezes já vimos um torcedor dizer: “Homem não sabe bater pênalti”? Com o fim do jogo, teve outra pessoa que disse: “Olhaê Marta, até o Japão é campeão e você não”. Mais um péssimo comentário carregado de machismo, inclusive diminuindo o time campeão do torneio. Porque parece que vitória feminina nunca pode ter o mesmo valor que a masculina. Afinal, basta ter o melhor jogador do mundo em campo para ser campeão, não é mesmo? Não precisa de incentivos e nem de apoio. Coincidentemente, o jogo da seleção masculina de futebol na Copa América foi um fiasco, com o Brasil eliminado após perder 4 cobranças de pênaltis seguidas. Quem é mesmo que não sabe bater pênalti?
É triste ler todos esses comentários sexistas sabendo que no Brasil o futebol feminino é um esporte totalmente ignorado pela Confederação Brasileira de Futebol – CBF e pela maioria dos torcedores brasileiros. Durante toda a Copa do Mundo de Futebol Feminino tivemos que escutar coisas como “mulher não sabe jogar bonito”, “só tem mulher feia na seleção”, “mulher que joga futebol fica muito masculina”. Comentários que carregam anos e séculos de machismo em suas entranhas, mas refletem um país que não faz o mínimo para mudar a situação das mulheres que amam o futebol e querem ser grandes atletas na modalidade.
Infelizmente, a melhor jogadora do mundo sozinha não é a solução para todos os problemas. É preciso investimento e apoio para criação de categorias de base, além da formação de novas jogadoras. A modalidade precisa ter incentivos para crescer e ganhar visibilidade, com isso atrair não só mais torcedores, mas também patrocinadores. O futebol feminino precisa que suas atletas treinem muito, portanto, é preciso criar campeonatos brasileiros competitivos, o que aumentaria consideravelmente o número de atletas na modalidade. A situação do futebol feminino no Brasil é crítica, basta ver algumas frases proferidas na matéria, que a Thayz Athayde me passou, “Após eliminação, jogadoras da seleção brasileira pedem mais incentivo ao futebol feminino” no Esporte Espetacular:
“Para mudar o futebol feminino precisa muita coisa e que as pessoas olhem com mais carinho. Só raça e vontade não ganha campeonato mundial. Só raça, vontade e confiança não ganha medalha olímpica.” Andreia, goleira da Seleção Brasileira de Futebol Feminino.
“Estados Unidos já perdeu quantas vezes? Alguém já deixou de investir na liga americana? A liga americana é a mais forte que se tem hoje. A Alemanha já perdeu, alguém deixou de investir na Alemanha? Por que o Brasil é sempre a mesma coisa? Por que é sempre: perdeu não vamos investir. Não, tem que continuar, aí sim você tem que continuar incentivando.”
“Para mim essas meninas são sempre ouro. O que elas conseguem fazer com as condições de trabalho que elas tem é fenomenal.”
“Nossa pergunta é: se ganhasse a gente teria esse investimento? A gente não sabe. A gente fez o que fez em 3 competições, 2 olimpíadas e 1 mundial e continua do mesmo jeito. A gente não sabe como seria. Será que se fosse campeão mudaria alguma coisa? Eu acho que não.”
Perder não é o problema. No esporte todo mundo perde um dia. O problema é você ter vários talentos e morrer na praia porque diversas atletas brasileiras precisam largar o esporte para se dedicar a outras atividades, ao invés de se aperfeiçoarem e criarem uma seleção mais competitiva e com um campeonato local forte. Há jogadoras na seleção sem clube e semiprofissionais, voltam ao Brasil sem saber o que vai acontecer com o futebol feminino. Na Alemanha, sentiram na pele a falta de preparo, já que a CBF organizou apenas dois amistosos neste ano. Sem falar que, na delegação, não havia psicólogos ou até mesmo cozinheiros. As próprias jogadoras preparavam sua comida nos hotéis. Nem mesmo fotógrafo oficial a CBF enviou à Alemanha. Em matéria do Terra, várias jogadoras desabafaram:
“Ganhou o melhor e quem tem o melhor. A gente não tem e nunca vai ter o melhor. Venceu uma seleção que investe no futebol feminino, que tem jogadoras que jogam desde os 12 anos, desde o colégio, tem time, clube, salário, e a gente não tem e nunca vai ter”, afirmou ela. “Não acho que se fosse campeã mundial ia mudar alguma coisa. Não ia nada.”
A atacante Cristiane, um dos destaques da Seleção Brasileira, lembrou que algumas jogadoras, entre elas a meia Formiga, chegou à Copa do Mundo da Alemanha sem clube para jogar na volta ao país. “O Brasil continua o mesmo e não muda. Tivemos três medalhas de prata em duas Olimpíadas e um Mundial e nada mudou. É triste por saber disso”, avaliou.
O Brasil é o atual vice-campeão mundial e levou ainda duas medalhas de prata nas duas últimas Olimpíadas, em 2004 e 2008, perdendo a decisão justamente para os EUA. O técnico Kleiton Lima avalia que com uma preparação na base melhor as grandes potências acabam levando vantagem física sobre as jogadoras brasileiras.
“O problema está na base. O que falta é estrutura da modalidade no país… falta um trabalho nas categorias de base. Os Estados Unidos têm meninas de 13, 14, 15 anos sendo preparadas para serem campeãs olímpicas e mundiais. A gente não tem nada”, declarou ele.
“A gente começa a convocar jogadoras com 17 anos, que não tiveram trabalho de base em seus clubes. Enquanto isso não mudar, países de primeiro mundo vão estar na nossa frente porque treinam da maneira ideal. Começamos o trabalho tarde e falta a cultura do país abrir as portas para o futebol feminino”, acrescentou ele.
Não deixe de ler outros ótimos posts sobre o assunto:
[+] O universo da Mulher Futebolista Brasileira no O Laço da Chuteira
[+] O Futebol Feminino do Brasil por quem conhece no Futepoca
[+] Carta Aberta a Marta Vieira da Silva no Desvio à Esquerda
[+] Futebol Feminino, Machismo e Discriminação Racial: o que uma coisa tem a ver com a outra? no Efemérides Baianas
[+] Padrões que prejudicam atletas para popularizar o esporte no Lola Escreva
E as notícias são:
[+] Comissão va ouvir Marta e o Ministro do Esporte sobre Futebol Feminino
[+] Bancada Feminina quer audiência com a jogadora Marta para discutir dificuldades das atletas

