Revista Ocas

Andando pelas ruas de São Paulo algumas vezes me ofereceram a Revista Ocas. Uma revista com design que chama atenção, com cara de revista alternativa. Lembra um zine. Porém, a Ocas é bem mais que isso. Seu propósito é ser uma revista com informação sobre diversos assuntos que não são pautados na grande mídia, mas também um instrumento de geração de renda.

A revista Ocas” é uma publicação bimestral da Organização Civil de Ação Social (OCAS). Uma entidade da sociedade civil, sem fins lucrativos, que tem como objetivo criar mecanismos para que o indivíduo se torne seu próprio agente de transformação.

A revista é uma chance de mudança efetiva na vida das pessoas em situação de vulnerabilidade social e econômica, ou seja, com dificuldades para entrar no mercado de trabalho. A interação decorrente da compra e da venda da publicação permite que os vendedores estabeleçam contatos e deem novos e autônomos passos de reintegração. O objetivo é fornecer instrumentos de resgate da autoestima dos vendedores, criando mecanismos para que o indivíduo se torne seu próprio agente de transformação, de forma que Ocas” seja um ponto de passagem, e não o destino definitivo. Os vendedores compram a revista por 1 real e a vendem pelo preço de capa, 4 reais. A diferença, 3 reais, fica com o vendedor, sem intermediários. Todos os vendedores têm idade mínima de 18 anos, recebem treinamento, assinam um código de conduta e portam crachá.

A Ocas” publica, há 9 anos, reportagens e ensaios nacionais e internacionais sobre cultura, comportamento, política, esporte e meio ambiente. Além disso, a publicação reserva espaço para expressão dos vendedores e aborda questões relacionadas ao tema da exclusão social. A revista não depende de grupos de comunicação ou está vinculada a interesses comerciais e políticos.

Em 2011, a Ocas” foi vencedora do prêmio internacional das revistas de rua, o International Street Paper Awards, do qual participaram as 114 publicações da rede. A revista venceu na categoria “melhor artigo produzido por vendedor”, com o texto “Antes que o frio doa”, no qual Sebastião Nicomedes revela estratégias de sobrevivência de pessoas que enfrentam as baixas temperaturas nas ruas. A publicação concorreu também em outras duas categorias: “melhor reportagem” e “melhor design”.

A Edição 80

Em novembro, a Ocas publica a edição 80, mas para isso busca recursos para impressão. Você pode colaborar com um projeto bacana, ajude a Revista Ocas pelo Catarse, que promove o financiamento colaborativo de iniciativas criativas.

A partir de R$ 10, qualquer pessoa pode colaborar. Há contrapartidas previstas para cada faixa de doação, que vão desde o recebimento da próxima revista e edições do acervo, até a publicação de um anúncio de página inteira ou a palestra “Comunicação para transformar a sociedade”, ministrada por voluntários e vendedores em empresas, escolas e demais organizações.

“Queremos catalisar, num esforço coletivo, o apoio dos amigos, leitores e admiradores que o projeto conquistou em nove anos de circulação ininterrupta. Nossa recompensa é comemorar com nossos leitores mais uma edição impressa”, destaca Márcio Seidenberg, presidente da organização.

Uma Nova Diferente

Toda vez que vou escrever as Sextas de Nova navego sem rumo pelo site da revista. Faço pesquisas em vários temas, busco palavras-chave, clico em matérias relacionadas. Tento encontrar o que há de mais absurdo, porque é mais fácil rir com momentos surreais. Em agosto desse ano, a Ana Farias do blog Trend Twins comprou uma edição e deu de cara com a matéria 10 Regras para Viajar com o Gato. Entre as regras (comentadas pela Ana) está:

2 – Ligue torneira, chuveiro, som e tudo o que for possível enquanto estiver usando o banheiro. Ele não deve nem desconfiar do que está se passando lá dentro.

Sim, porque você não faz número 2, né? Nunquinha, isso não é coisa de moça bonita! Meo, save the rainforest, faz favor? Que desperdiçar água o quê. Peça um momento pro cara, peça pra ele esperar fora do quarto se isso te incomoda tanto assim. Tome banho depois, finja que você tem esse TOC. Excesso de intimidade às vezes é brabo mesmo, mas aja com naturalidade, tipo, desculpa, não me sinto confortável, será que você podia dar uma voltinha… Né.

7 – Exclua açaí e salada do cardápio para evitar surpresas coloridas no seu sorriso.

Eu já diria o contrário, micos leves costumam criar laços entre o casal. Por favor, não deixe de ser saudável só porque a Nova quer que você arrume um namorado fresco.

Hoje, lá estava futucando o site quando encontro a matéria Pega a ladra de namorado! Em pleno 2011 as pessoas ainda acham que alguém rouba o namorado de alguém. Para as mulheres da matéria parece que não é óbvio que, se em algum momento, seu namorado te trai é porque o relacionamento não vai tão bem. As leitoras contam as histórias de traição e comentam coisas como:

Certa vez, numa festa, ela o abraçou por trás de um jeito possessivo que não gostei. Mas nem assim achei que oferecesse perigo. Imaginei que era coisa de mulher sem filhos.

Não vou negar que adorei quando me contaram que o romance não durou nem seis meses. A vadia arranjou outro, mais bonito, mais rico, e chutou o Pedro para bem longe.”

Perdi a fala. Como é que um cara de 20 e poucos anos podia namorar uma quarentona? A gente nem havia se separado oficialmente e o desgraçado já estava com outra.

No final da tarde, o pessoal resolveu tomar a saideira em um barzinho. Preferi não ir. Se arrependimento matasse… Deu meia-noite e nada de o Celso voltar. Seu celular não atendia. Preocupada, fui ao tal bar.

Aliás, iam ficar, pois Elisa estava com ele. Não liguei. Afinal, aquela mulher sempre tão séria e compenetrada no trabalho não era páreo para mim. Uma semana depois de voltar, Davi confessou que tinha ‘vacilado’.

É tão absurdamente ingênuo pensar que se ela tivesse impedido a mulher de abraçá-lo ou tivesse ido no bar as coisas seriam diferentes. Não é a ida a um bar que salva um relacionamento. Todos os homens que namoravam essas mulheres eram adultos, tomam decisões sobre suas vidas, não são pobres coitados seduzidos por uma biscate irresistível. É triste ver como nessa reportagem a culpa e os xingamentos recaem totalmente sobre a outra mulher. Afinal, quem foi que vacilou feio com as mulheres dos depoimentos? Foi a chefe do marido que mal a viu? Foi a amiga sumida dos tempos da faculdade que ela mal conhecia? Por que parece tão difícil para as mulheres aceitarem que seus namorados quebraram o compromisso que tinham?

O bônus da matéria é que Nova ensina como fazer um seguro contra roubo de namorado:

Agir com maturidade contribui para ficar menos vulnerável a uma ladra tomar o que é seu.

Descarte os joguinhos

Nada de dizer que está tudo bem quando não está ou ficar de bico porque seu namorado decidiu passar o sábado com a mãe dele. As mulheres com maior maturidade emocional não fazem tantas cobranças nem dramatizam qualquer situação. Têm vida própria e coisas mais importantes com o que se preocupar. Siga o exemplo!

Deixe claro o que deseja

Uma mulher madura não precisa de um cara para sustentá-la ou bancar o pai dos filhos. Demonstre ao bonitão que está interessada nele como homem.

Revele-se na cama

Mulheres com autoconfiança não ficam com frescura na hora de tirar a roupa. Sabem que não há gordurinha que desencoraje um homem quando a parceira mostra que está louca de desejo.

Mantenha-se bem

É muito comum a gente não se preocupar tanto com a aparência quando está namorando. Mas, se você não quer que seu namorado ache a grama do vizinho mais bonita, cuide-se por dentro e por fora. Sem neura, é claro.

Cadê o diálogo? Cadê a maturidade para chegar e assumir que o relacionamento não está bem? Academia e salão de beleza não são garantia de seguro contra roubo de namorado, porque ninguém é roubado. Traições acontecem e isso tem muito mais a ver com as pessoas da relação do que com a pessoa externa que acabou de aportar. Ninguém está livre de passar por isso e cada casal deve decidir o que é melhor para os dois. Chega a ser muito irônico o “sem neura, é claro” do final. Afinal, a matéria inteira é cheia de neurose do tipo: “ah se eu tivesse percebido antes”.

E no meio das pesquisas descobri que Nova já foi uma revista revolucionária, só que nos anos 70. Há várias matérias antigas publicadas no site e muitas discutem assuntos interessantes, que relatam as modificações das relações de trabalho e da mulher naquela década. É uma pena ver que uma revista que falava abertamente sobre igualdade no trabalho e aborto tornou-se um manual de como voltar a ser uma mulher da década de 50. A mulher de Nova pode enlouquecer seu homem à vontade, mas não deveria esquecer de como chegou até aqui.

Em 1977, eu já era gatuxinha, mas haviam outros assuntos na revista, inclusive um conto de Machado de Assis.

Semana que vem, Lígia começa a trabalhar. “Beneficiada” pela crise econômica ou, como ela diz, “pelo jeito que as coisas vão”. Para Lígia, a crise, o dinheiro apertado que mal chega para pagar as mensalidades da escola dos filhos, que mal dá para vez ou outra ir ao cinema, é motivo de otimismo.Afinal, graças a isso, o próprio marido, a quem repugnava a idéia de ter esposa trabalhando fora de casa, foi quem sugeriu que Lígia procurasse um emprego de meio período, “só por uns tempos, até a situação melhorar”.

Já Magali, jeito desembaraçado de advogada, só tem em comum com Lígia os problemas econômicos. Seu marido é fervoroso adepto da igualdade de direitos entre homens e mulheres, principalmente no que se refere à profissão. “Às vezes é difícil conciliar o serviço doméstico, filho e marido com a carreira, mas vale a apena” diz, com um ar de quem está contando uma grande novidade. E acrescenta: “o meu dinheiro ajuda muito em casa, além do que posso me realizar profissionalmente”.

Alternando frequentemente, à custa de um certo sacrifício, o papel submisso de esposa-mãe com o de profissional (um tanto mais enérgico e combativo), as Lígias e Magalis tendem a engrossar as mirradas fileiras de mulheres que trabalham fora de casa – seja por causa de problemas econômicos, seja um sinal dos tempos – a diminuição do preconceito “de que lugar de mulher é em casa”. É verdade que, no período de 1920 a 1970, as estatísticas da força de trabalho feminino no Brasil aumentaram mais de sete vezes (de 1,4 milhão passaram a 10,6 milhões). Entretanto, os últimos dados oficiais, do Censo de 1970, indicam também que menos de 25% da população feminina urbana do país trabalha, metade da qual constituída por empregadas domésticas.

Seja como for, as Lígias e Magalis começam a multiplicar-se e, sem dúvida, com o sentimento de estarem, de alguma forma, sendo favorecidas. Os olhos de Lígia brilham e Magali esclare, sincera, que “vale a pena”.

Mas e os homens? Até que ponto eles compartilham dessa “euforia da libertação”?

Continue lendo em O que os homens pensam do trabalho da mulher.

Publicada em maio de 1977.

A professora de enfermagem Malvina de Oliveira Ramos Netto, por seu lado, entre 1973 e 1973, fez uma pesquisa com 124 mulheres de Osasco, município industrial da Grande São Paulo, constatando um alto índice de abortos. Apenas três mulheres da pesquisa não haviam abortado nenhuma vez. Cerca de 35% haviam ficado grávidas três ou quatro vezes, mas 38% entre elas tinham apenas um filme, demonstrando a prática do aborto nas vezes anteriores. Além disso, 30% haviam engravidado cinco ou sete vezes, sendo que 24% tinham naquele momento apenas três ou quatro filhos. Isto significa a média de um ou dois abortos nos dois grupos de mulheres. Mais de 80% das mulheres pesquisadas eram católicas, mas, segundo a professora Malvina, a proibição do aborto pela religião não era levada em consideração quando estas mulheres precisavam livrar-se de uma gravidez indesejável, por falta de condições econômicas. Apenas 21% dessas mulheres admitiram que os abortos haviam sido provocados. Entretanto, para a pesquisadora, este dado não é real, pois muitas das mulheres provavelmente temiam as implicações legais.

Permitido na União Soviética desde 1920, no Japão desde 1948, nos Estados Unidos a partir de 1967 e em noventa países de todo o mundo, sua legalização na América do Sul e principalmente no Brasil enfrenta sérias restrições de muitos setores, inclusive da Igreja. Considerado um crime contra a vida e a pessoa, o aborto só é permitido na legislação brasileira em três casos: estupro; quando a gravidez põe em risco a vida da mãe; ou quando o feto apresenta problemas. Nestes casos é necessário que o aborto seja solicitado por três médicos de “notório saber” e referendado pelo Conselho Regional de Medicina. Não ocorrendo nenhum destes casos, o código penal de 1969 prevê que o médico ou a paciente poderão ser condenados a penas que variam de um a dez anos de prisão.

A ilegalidade é apontada por médicos como a principal causa dos altos riscos a que se expõem atualmente as mulheres que recorrem ao aborto. Negócio escuso, clandestino, portanto não sujeito à fiscalização, é um campo fértil para a ação de pessoas inescrupulosas, tornando-se uma prática que pode até conduzir à morte o que, na realidade, se bem realizado, oferece riscos bastante controláveis. Além disso, a ameaça de prisão favorece os altos preços e inclusive chantagens.

Continue lendo em Aborto: no código penal, crime. No cotidiano, prática.

Publicada em setembro de 1979.

Gisele Bundchen e a Minha Calcinha

Alô Amiga-Irmã-Consumidora-Enlouquecedora-de-Homens! Hoje não tem Sextas de Nova porque o assunto é sério. A Hope, uma das poucas marcas de lingerie no Brasil que sabem que o tamanho do busto e das costas das consumidoras possuem medidas diferentes, está achando que você compra lingerie para fazer beicinho pro seu marido. Mas eles dizem que é tudo piada, sabe? Quando você  tem que ouvir piadinhas sobre o quanto as mulheres são interesseiras, a Hope entende que isso não é machismo, mas sim piada.

A Thalita resume bem no que consiste a publicidade da Hope:

Na peça, a modelo “ensina” como as mulheres devem comunicar más notícias para seus maridos/namorados. Falar que bateu o carro ou que estourou o limite do cartão de crédito (oi?) vestida não dá certo. A pedida é mostrar o corpão na hora de comunicar ao macho provedor que você, mulher, não se comportou como ele gostaria.

Outra questão é o uso do corpo como passaporte para se safar de situações difíceis (considerando o que já foi dito antes, que é um absurdo falar que bateu o carro ser uma situação difícil). Não quer criar problema? É só oferecer sexo e tudo bem. Mas veja bem, se você não for linda, alta, magra e loira não adianta, porque, afinal, quem é que quer uma mulher que não seja perfeita fisicamente? (e sim, indo um pouco além, sexo, para as mulheres, serve só para agradar os homens. Mulher tendo prazer? Isso é coisa do demo!) Continue lendo em O machismo nosso de cada dia ou Gisele Amélia Bundchen.

Sou tão fofinha vestida, mas só convenço você quando tô sex bomb. Imagem da Campanha da Hope.

No comunicado em resposta a reclamação da Secretaria de Políticas para Mulheres, a Hope:

esclarece que a propaganda teve o objetivo claro e bem definido de mostrar, de forma bem-humorada, que a sensualidade natural da mulher brasileira, reconhecida mundialmente, pode ser uma arma eficaz no momento de dar uma má notícia. E que utilizando uma lingerie HOPE seu poder de convencimento será ainda maior.

Veja bem, só porque você nasceu no Brasil sua sensualidade é inata. É tão bom saber disso quando temos casos de várias brasileiras que são detidas em aeroportos de países Europeus, como a Espanha, por suspeita de serem prostitutas. Voltando a notinha da Hope:

Os exemplos nunca tiveram a intenção de parecer sexistas, mas sim, cotidianos de um casal. Bater o carro, extrapolar nas compras ou ter que receber uma nova pessoa em sua casa por tempo indeterminado são fatos desagradáveis que podem acontecer na vida de qualquer casal, seja o agente da ação homem ou mulher.

Veja bem, o estereótipo de consumista e ruim de roda sempre foi aplicado aos homens não é mesmo? Você sempre viu um homem dirigindo mal na rua e gritou: “só podia ser homem mesmo!”. Ao que parece vamos ter que mandar cartinhas desenhando o que é sexismo para a Hope, porque tenho certeza que eles não entenderam. A Marjorie disse tudo:

Como é que uma empresa investe milhões (porque o cachê da Gisele não é bolinho, sabemos) num comercial sem exigir da agência que ele seja, no mínimo, criativo? Porque, né, se eu tivesse pagando uma nota preta por uma propaganda, ia querer algo mais do que “mulher no volante, perigo constante” e “ai, a sensualidade da brasileira”. Tô pagando, porra. Continue lendo em Alguns tostões sobre a propaganda da Hope.

A cereja do bolo é o finzinho da nota:

Foi exatamente para evitar que fôssemos analisados sob o viés da subserviência ou dependência financeira da mulher que utilizamos a modelo Gisele Bundchen, uma das brasileiras mais bem sucedidas internacionalmente. Gisele está ali para evidenciar que todas as situações apresentadas na campanha são brincadeiras, piadas do dia-a-dia, e em hipótese alguma devem ser tomadas como depreciativas da figura feminina. Seria absurdo se nós, que vivemos da preferência das mulheres, tomássemos qualquer atitude que desvalorizasse nosso público consumidor.

Cê jura? Então toda a propaganda que eu ver com Gisele Bundchen é automaticamente uma propaganda feminista, pois ela é uma mulher bem-sucedida e independente? Olha, não é essa a mensagem que Gisele está me passando nos vídeos. Ela diz claramente que mulheres devem ser loiras, magras e usar seu corpo para resolver problemas, porque elas sempre estão metidas em encrencas. Afinal, todas somos moças bobinhas que precisam dar notícias desagradáveis para o marido usando muito sex appeal. O que Gisele Bundchen faz é representar toda a contradição que há entre ser uma mulher bem-sucedida e moderna na vida real, mas que só faz papel de mulher frágil, mimada e machista nos comerciais. Essa mulher só tem poder se estiver de lingerie. Não era mais fácil fazer um comercial mostrando como os sutiãs da Hope são confortáveis e ao mesmo tempo bonitos, adequando-se melhor ao corpo de cada mulher? Como disse Barbara Castro:

Por isso a gravidade da imagem da “Amélia” que Gisele vem protagonizando desde as propagandas da SKY. Elas passaram desapercebidas pela grita geral porque o texto não literalizava o sexismo que a Hope teima em naturalizar. Gisele, a mulher poderosa e independente, é reconduzida ao seu papel de gênero e volta a brilhar no reino do lar. Nada poderia ser mais aviltante à luta das mulheres. Continue lendo em Não é só propaganda.

Porém, a melhor parte são as pessoas que dizem: as mulheres que estão indignadas com esse comercial estão com inveja da beleza de Gisele. Veja em que mundo vivemos. Alguém faz um dos comerciais mais idiotas e pouco criativos dos últimos tempos, mas não podemos criticar, porque somos um bando de feias invejosas e autoritárias. Tem horas que o mundo parece não ter saído da 5° série.

A justificativa de que tudo é humor e que as pessoas são chatas, pois não acham graça, também é recorrente. Mauricio Ayer nos comentários do Futepoca resume muito bem porque a desculpa de que tudo é piada é o consolo do prisioneiro:

Quando o cara que dá a vida por uma cerveja ou a gostosa que fica seminua para contar ao homem que bateu o carro riem de si mesmos, ambos reafirmam a mesma estrutura social, as mesmas posições, em que o homem pode ser o cachorrão que não pensa mas que segue por cima, cercado de gostosas e cerveja, que no fim é o que importa, e a mulher, com a mais fina artimanha, consegue manter o controle da situação, a situação de ser aquela que deve prestar contas ao marido e obter dele dinheiro e aprovação. Quem quer quebrar uma estrutura ideológica (pois a realidade material-econômica já é outra faz tempo) tem que não achar graça de algumas coisas, libertar-se, para começar a achar graça de outras coisas. O riso é uma forma de afirmação de poder, e por isso mesmo pode ser um veículo de libertação.

A HOPE mostrou que realmente não está interessada em vender sutiãs a mulheres que queimam sutiãs, que prefere vender a imagem de que vencedora é aquela que usa de sua natureza para submeter a cultura (a velha oposição homem/mulher, cultura/natureza, inteligência/loucura, em que no mesmo polo da mulher está também a criança, o louco ou o empregado).

Parece algo óbvio, mas muita gente insiste em não perceber. Publicidade não é uma bobagem. É um meio de comunicação que age socialmente reforçando o status quo e gerando novas demandas de consumo. Se uma peça publicitária reforça preconceitos machistas ela faz uma construção estereotipada da imagem feminina e repassa essa mensagem para toda sociedade. Fora que a propaganda da Hope reforça estereótipos ruins para homens e mulheres. Enquanto a mulher usa o corpo para conseguir  o que quer, o homem é um ser apalermado que cai nesse truque ridículo.

A proliferação das imagens femininas representadas por Gisele Bundchen causam a reprodução de valores arcaicos e machistas. E, a consolidação de um modelo de feminino que só tem poder quando coloca-se na posição de objeto sexual do marido. Criticar a propaganda da Hope não significa que as feministas estão querendo tirar seu direito de fazer beicinho para o marido. Significa que não queremos que o poder das mulheres seja reduzido a isso, um beicinho e uma lingerie, dando satisfação ao marido.

Ps. em 01/10/2011:

- A propaganda da Hope é feita pela mesma agência (Giovanni+DRAFTFCB) que fez uma série de propagandas sexistas da Sky. As duas peças publicitárias tem Gisele Bundchen no papel de “Amélia”. É interessante pensar se a equipe de publicitári@s só sabem fazer peças com esse tipo de estereótipo ou se Gisele tem exigido esse tipo de papel.