Feira de Links #5

Afghan children enjoy a ride on a swing set up inside a cemetery near Sakhi shrine in Kabul, Afghanistan, Oct. 11, 2011. Foto de Muhammed Muheisen/Associated Press, via Big Pitcture. Clique na imagem para ver a galeria.

#RIP Google Reader – o melhor texto sobre o fim do Google Reader é do Zeoffline. Uma vez ele foi encontrar a galera do google reader e me convidou. Deu para ver que para eles o Google Reader era muito mais do que uma ferramenta de compartilhamento de links. E, como bem lembrou o Zé, era também uma ferramenta essencial para países com sérias restrições de acesso como o Irã.

#Who Stole Feminsm? – A direita conservadora americana está se apropriando da palavra feminismo. Seu interesse não está nos direitos das mulheres, mas sim na possibilidade de capitalizar votos. Sarah Palin é contra a legalização do aborto, educação sexual nas escolas e, durante seu mandato como prefeita de uma cidade do Alaska fez as vítimas de estupro pagarem pelo material que foi usado em seus exames de corpo delito. Ela se declara feminista. Temos aí uma questão muito perigosa que pode começar a respingar nas eleições brasileiras.

# As Meninas que pareciam Garotos – A Érika relata mais um caso triste revoltante de homofobia e nos fala como a fluidez e liberdade sexual de algumas pessoas colocam em risco toda construção histórica de que a heterossexualidade é universal.

# Maternidade Voluntária – Nádia Cantanhede fala sobre maternidade, planejamento familiar, contracepção e aborto num texto bem interessante, com trechos do recentemente lançado: O Livro Negro da Condição das Mulheres.

 

Feira de Links #4

1. “Baby, você precisa saber da piscina, da margarina, da Carolina, da gasolina…”

 

Aborto Libre

Aborto Libre y gratuito. Fonte: Flickr, photo by isus

 

2. 1 em cada 5 mulheres já fez aborto no Brasil.

Neste domingo, o Fantástico veiculou uma reportagem denunciando clínicas que realizam abortos em Belém, Salvador e Rio de Janeiro.  A reportagem foca apenas em clínicas que atendem mulheres pobre, debocha da maneira como os funcionários tratam as pacientes e no fim consegue apenas provar a importância da legalização do aborto, num país onde o SUS têm que realizar milhões de procedimentos cirúrgicos decorrentes de abortos malfeitos. Porque ao que parece as mulheres ricas já legalizaram o aborto em clínicas particulares caras. O aborto é uma questão delicada para a imensa maioria das mulheres. Sempre existiu e sempre existirá. Porém, deve ser uma escolha de cada mulher. Por mais que existam métodos anticoncepcionais, algo pode dar errado e uma mulher pode se ver diante de uma situação de gravidez indesejada. E por que ela não pode decidir não ter esse filho? Por que ela não pode escolher realizar um aborto num local limpo e estruturado, com apoio psicológico? Muitas pessoas gritam que se o aborto for legalizado então todas o usarão como método anticoncepcional. Isso não é verdade. Sempre haverá pessoas que usam indiscriminadamente a pílula do dia seguinte ou métodos de interrupção da grvidez, mas com certeza não é a maioria. E outra coisa, as mulheres já fazem muitos abortos no Brasil, mesmo com o ato sendo crime. E você acha que uma mulher que não quer ter um filho é uma criminosa? Como diz a antropóloga na reportagem, a mulher que aborta é uma mulher comum, como qualquer outra, é tia, advogada, mãe, diarista, universitária. E a mulher deve ter direito sobre seu corpo. E se sua religião não aceita, não faça um aborto, mas não venha dizer que você sabe o que é melhor para todo mundo. Cada um sabe de sua vida e de suas escolhas.

3. Aborto no Fantástico: sensacionalismo e superficialidade.

“A responsabilidade por evitar uma gravidez indesejada é integralmente da mulher: é ela quem deve tomar pílulas anticoncepcionais; é ela quem tem dificuldade de negociar com seu parceiro o uso da camisinha; são dela todos os ônus de eventuais falhas de métodos contraceptivos; é dela a vida que mais muda com o nascimento de uma criança, muitas vezes, sem pai. Apenas uma coisa não é dela: o direito de escolher levar a cabo ou não uma gravidez. A matéria também não falou disso.”

4. Aborto: em defesa de qual vida?

“A criminalização do aborto não evita o aborto, mas tão somente obriga a mulher a realizá-lo na clandestinidade. A discussão sobre a descriminalização do aborto não é uma discussão sobre o direito ou não de a gestante abortar, mas sobre o direito ou não de a gestante ter auxílio médico para abortar. Com a descriminalização, os abortos continuarão a ser praticados, tal como hoje o são, mas a mortalidade materna será substancialmente reduzida.”

5. Mulheres que optam por não ter filhos são alvo de pressão social

Porque se a mulher faz um aborto é criminosa, mas se decide não ter filhos é uma pessoa egoísta e sem coração. O papel da mulher na sociedade não pode vir atrelado apenas ao fato de ser mãe. Ter filhos ou não deveria ser uma escolha pessoal de mulheres e de homens. Dessa maneira talvez as pessoas tivessem uma visão melhor das responsabilidades.

6. Escravidão, questão de gênero.

Gulnara Shahinian é relatora da ONU sobre Formas Contemporâneas de Trabalho Escravo  e busca chamar atenção do Conselho de Direitos Humanos para a exploração do trabalho doméstico feminino. Uma atividade que sempre foi vista como um dever da mulher pode muitas vezes acobertar a escravidão. Afinal, se é um serviço que as mulheres devem fazer, por que deveríamos pagar a elas?

Ainda sobre Mães e a Liberdade Feminina.

Vale a pena acompanhar as discussões e repercussões que as entrevistas da escritora, ex-atriz, agora mãe Maria Mariana. Em entrevistas na Folha Ilustrada e na revista Época, Maria Mariana faz uma série de declarações absurdas sobre a mitificação da maternidade, o atual papel da mulher jovem e indefesa no mercado de trabalho, o prazer de cuidar das roupas íntimas do marido e até afirma que depressão pós-parto é culpa da mãe que não se dedica com afinco para ter um parto normal. Em todas as declarações, Maria Mariana parece ter tomado sua vivência como única forma de verdade, esquecendo de todas as mulheres que não se adequam aos estereótipos da maternidade como a mais intensa e sagrada experiência que uma mulher pode ter. A mais intensa experiência que uma mulher ou qualquer outra pessoa pode ter é a da liberdade, acima de tudo.

A Marjorie Rodrigues começou comentando a entrevista da Folha. E continua com as novas declarações sobre a emancipação feminina na Época, com uma análise dos melhores comentários publicados no site da revista. Traz também, como um alívio, a dica da entrevista da Fernanda Montenegro na Bravo! Mas o que achei mais bacana é a maneira como a Marjorie explicita como a argumentaçao que: “homens e mulheres são diferentes” é a que mais a irrita. Quando se discute gênero alguém sempre acaba citando essa frase, e é óbvio que quem está defendendo a igualdade não está falando de questões biológicas, de corpos físicos diferentes, de quantidade de neurônios ou maneiras de agir diante de um problema, mas sim do poder que homens e mulheres possuem nos meios sociais. Qual o poder das mulheres no Congresso, por exemplo? É mais fácil aprovar leis que privilegiem a liberdade dos homens ou das mulheres? E o arremate final do post é: “Acho que a melhor maneira de desmascar os autores desta frase é perguntar qual dessas diferenças (ou supostas diferenças) justifica uma discriminação. Porque aí quem se estrepa é ele, porque fica claro justamente o que ele queria disfarçar: o fato dele defender que as pessoas podem ou devem ser discriminadas por conta de suas diferenças.”

Denise fez um belo post sobre Maria Mariana e seu castelo de areia. O texto é longo, mas vale muito a leitura, a Denise promove novas discussões sobre a maternidade e a importância dela para a mulher: “Parar tudo para ser somente mãe, como opção, é colocar nas mãos dos filhos o seu rumo, a sua felicidade e isso é injusto e um peso que eles não pediram. Mesmo sem ter um trabalho formal, eu diria às mães que nunca desistam de buscar essa tal “realização”, paralelamente, seguindo outros caminhos além da maternidade”. Ter filhos pode ser a realização de muitos sonhos e conquistas, mas é importante que a mulher não se reduza a um papel que depende de outra pessoa.

A Lola também dissecou as piores partes da entrevista e alerta sobre as pessoas que querem o retorno a uma outra época, em que tudo era mais simples, afinal a mulher sabia qual era o seu lugar e não ficava se metendo em assuntos masculinos.

A Scarlett explicita o que deveria ser escrito numa faixa e colocada na porta da casa da Maria Mariana: “cada mulher sabe o que é melhor para si e para seus filhos”

Liliane Ferrari também pegou no taco e pergunta:  “Como ela ousa relacionar parto com uma mãe ser melhor ou pior do que a outra?”.

A Vanessa falou sobre a publicidade que se ganha com declarações polêmicas: “Porque, convenhamos, de que outra forma alguém realmente teria interesse em saber a opinião da Maria Mariana sobre a maternidade e ainda pagar por isso?!”.

A Maysa falou de sua experiência cheia de delicadeza: “Amamentar e parir faz parte dessa busca, sem dúvida, mas pra algumas pessoas a caminhada é mais importante que o objetivo em si; porém também acho que amamentar e parir pode fazer surgir uma mulher melhor, mas isso não tem nada a ver com a mãe que ela será.”

E por fim, a Deh levantou a bola no grupo do Luluzinha Camp e Lu Monte transformou num post bacana. E interessante perceber que no grupo há muitas meninas que declararam abertamente que não pretendem ter filhos. E por isso somos um bando de mulheres medrosas, fujonas e infelizes, Dona Maria Mariana?

[update] A Cynthia listou mais blogs que falaram sobre o assunto (entre eles os ótimos posts da Srta. T, da Bibi e da VBN) e pergunta: “quantos homens escreveram sobre o assunto?” [/update]

Confissões de Adolescente foi livro, peça de teatro e seriado de tv. Tinha 13 anos quando a série estreou. Fui fã incondicional desde o início, desde a abertura com Gilberto Gil cantando Sina. Tanto o livro como o seriado falavam de muitos temas que não constumavam ser abordados na visão de adolescentes, muito menos de meninas. O círculo principal era constituído por uma família com um pai viúvo e 4 filhas. Diana e Bárbara eram filhas do primeiro casamento, a mãe delas foi formar outra família e cada reencontro era sempre pontuado por um misto de sentimentos de abandono, amor, perdão e revolta. Paulo, o pai, se casou pela segunda vez. A nova esposa trouxe junto Natália e tiveram Carol. Lembro até hoje de vários episódios como o do primeiro beijo da Natália, o aborto da Diana, a perda da virgindade da Bárbara, os sonhos da Carol de ir para a Disney. Era um seriado sobre sexo, drogas, rock`n roll, mpb, família, dieta, amor, paixão, amadurecimento e muito mais. Como bem disse a Sam, elas foram o Sex and the City da minha adolescência. Ano passado a Ka encenou a peça e chorei muito ao relembrar alguns momentos.

É isso que mais me dói ao ver as declarações atuais de Maria Mariana. Uma mulher que deu voz a tantas adolescentes, que mostrou de forma tão verdadeira e delicada como é a vida de baladas, sonhos, romances, dúvidas, alegrias e frustrações de uma adolescente classe média como eu, agora repete absurdos como: “A partir do movimento feminista, sofremos uma pressão para ser ativa no mercado de trabalho, ter valores masculinos. E a realidade da maternidade é outra, é querer vivenciar essa experiência.” Não existem valores masculinos ou femininos, existem valores sociais e culturais que devem ser estimulados por serem benéficos para a consolidação de uma sociedade igualitária. Ninguém questiona o homem que é pai e trabalha, por que é a mulher quem sofre esse dilema? Escrever um livro enquanto cria 4 crianças não é trabalhar e ser mãe ao mesmo tempo? E é importante relembrar que quem é mulher e pobre não tem opção, tem que trabalhar e cuidar dos filhos, muitas vezes sozinha. Afinal, no mundo perfeito de Maria Mariana todas as mulheres tem um ótimo marido no leme, que sustenta a casa e espalha cuecas pelo chão.