Violências, ameaças e pessoas que se acham melhores que todas

As organizadoras da Marcha das Vadias do Rio de Janeiro estão sendo ameaçadas e tendo suas informações pessoais (endereço, documentos, telefones) divulgadas na internet.

As pessoas que as ameaçam dizem que fazem isso como represália ao ato da quebra da santas e sodomia de crucifixos que aconteceu em um momento do evento. Porém, preciso dizer que não é por causa disso que elas estão sendo ameaçadas. Qualquer pessoa que faça parte da organização das Marchas das Vadias no Brasil sabe que sempre recebemos ameaças. Antes, durante e depois das Marchas. E não precisa haver motivo para isso, basta saírmos as ruas.

Durante muito tempo a extrema direita esteve silenciada. Porém, nas últimas eleições de 2010, seus métodos escusos, intimidadores e apelativos foram usados em profusão, especialmente em campanhas difamatórias online. Desde então, vemos métodos de coerção e ameaças sendo frequentemente difundidos na internet. Basta a pessoa participar de qualquer ato público, em que seja tirada uma foto sua, para que isso seja usado de forma violenta e difamatória no futuro. Num ciclo de violência que parece infinito.

Um exemplo, estão sendo divulgadas na internet, especialmente em páginas reacionárias do Facebook, imagens em que uma integrante da Marcha das Vadias de Brasília é apresentada como sendo a mesma pessoa que realizou o ato de blasfêmia na Marcha do Rio de Janeiro. Isso só comprova o que a Marcha das Vadias de Brasília explicita em texto: esse debate não é sobre fé, é sobre política.

Também não é estranho, nem mesmo surpreendente, que esse tipo de conteúdo difamatório e mentiroso seja divulgado nos sites oficiais de políticos, como do deputado estadual do Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro.

Responsabilidade com a informação e com a verdade não parece ser algo respeitado por pessoas que bradam os clichês: “é preciso respeitar antes, para ser respeitado” ou “quem disse que intolerância se combate com mais intolerância”.

O colunista do jornal ‘O Globo’, Ancelmo Gois, publicou nota sobre as ameaças que as organizadoras da Marcha das Vadias do Rio de Janeiro vem recebendo. Entre os comentários vemos várias pessoas apoiando as ameaças de violência em nome de um cristianismo que prega a vingança e a intimidação.

Fico mesmo admirada que pessoas inteligentes estejam caindo nessa armadilha da dicotomia respeito x religião, de cobrarem da organização da Marcha das Vadias do Rio de Janeiro um pronunciamento contundente de repúdio ao ato que aconteceu. Para mim, a discussão se isso é bom ou não para o feminismo também é irrelevante. Porque mais uma vez estamos vendo como a violência contra mulheres age e atua em nosso país, especialmente por meio da intimidação e da ameaça.

O que leva alguém a discar 10 vezes no mesmo dia um número de telefone simplesmente para dizer que sabe onde essa mulher mora e que estará a espreita com uma turma de homens para estuprá-la? É a cultura de violência e intolerância contra a qual as Marchas das Vadias tem lutado nesses últimos três anos. Esse tipo de violência só reforça a necessidade de continuarmos nas ruas, de brigar e enfrentar essa parte da sociedade que quer nos silenciar.

Hoje, a ‘Lei Maria da Penha‘ completa sete anos de existência. A violência doméstica tem sido tema de inúmeras reportagens e campanhas pelo Brasil. Porém, enquanto as mulheres não forem plenamente respeitadas dentro e fora de casa, não avançaremos.

Também é preciso pensar em formas de combater essa violência difamatória online. Há muita gente trabalhando para espalhar mentiras e assassinar reputações na rede. É visível a conivência com a misoginia de sites como o Facebook. Ou mesmo o Twitter, que se pronunciou sobre ataques misóginos recentemente, mas nunca se pronunciou antes sobre ataques sofridos em sua rede por mulheres lésbicas e trans*. Fora o apoio que tantas pessoas dão a esse tipo de absurdo. Vale lembrar, essas pessoas, que usam da violência sem pestanejar, sempre se consideram muito melhores que todas.

A contrução de uma sociedade mais igualitária passa pelo direito que todas as pessoas tem a cidadania. E, o que vemos, são várias pessoas no Brasil com direitos pela metade ou sem nenhuma cidadania. Numa hierarquia social em que o homem branco, heterossexual, rico, conservador e religioso comanda as principais decisões políticas do país, porque são maioria nos ministérios, no Congresso Nacional, nas instituições jurídicas, etc. Apoiar esse sistema significa aplaudir as ameaças e violências perpetradas contra pessoas que vão as ruas pedir liberdade, cidadania e democracia.