Na Estante: A Volta.

A Volta – A Incrível e Real Aventura da Reencarnação de James Huston Jr.; de Bruce e Andrea Leininger com Ken Gross.

Capa do livro - 2009.

Capa do livro - 2009.

A primeira impressão que temos de A Volta é que se trata de um livro sobre reencarnação. É verdade, porém, não é um livro espírita. A Volta conta a história de como Bruce e Andrea Leininger descobriram e lidaram com o fato de que seu filho, James, teve uma vida passada e deu diversas demonstrações disso. Bruce e Andrea são católicos e nunca pensaram em reencarnação como a primeira opção para explicar o que seu filho tinha, esse é o grande atrativo do livro, pois eles pesquisam sobre os dados que seu filho fornece. No fim, o pequeno James muda a vida de seus pais e de um grupo de veteranos da Segunda Guerra Mundial.

“Os gritos surgiram repentinamente, James Leininger, então com 2 anos reçém-completados, era um menino feliz e brincalhão, a maior alegria de uma família amorosa, moradora da suave planície costeira do sul da Louisiana. Certa noite, o menino, dormindo, começou a se debater na cama como um cabo elétrico partido, aos berros, numa angústia devastadora.” pg. 21

Interessante notar como Bruce, Andrea e James parece formar uma típica família americana perfeita, até republicanos eles afirmam ser em determinada parte do livro. Porém, Bruce mostra-se um workaholic e Andrea uma mãe neurótica. Isso pesa um pouco contra o livro, o constante lembrete desses estereótipos só nos faz prestar mais atenção em James e em sua forma particular de enxergar o mundo. James é a reencarnação de um piloto que foi morto durante combate na Segunda Guerra Mundial e, basicamente, James sabe pilotar aviões, sabe milhares de infomações sobre eles com pouco menos de 5 anos de idade.

“Em abril de 2002, logo depois de seu aniversário de 4 anos, James pegou sua velha cadeirinha para automóvel na garagem e arrastou-a até o armário do escritório de Bruce, montando-a em uma caixa de arquivo de plástico. Em seguida, pegou um brinquedo educativo que tinha um teclado e Bruce ajudou-o a pendurá-lo bem alto sobre a parte da frente da velha cadeirinha do carro. James também conseguiu um painel de um carro de brinquedo que tinha um pequeno fone acoplado e inseriu-o diretamente na frente de sua invenção. Essa era sua cabine de pilotagem. James encontrou ainda um velho capacete de construção civil e ajustou-o, de maneira que se tornasse seu capacete de piloto. Algumas bolsas velhas de lona e uma mochila se tornaram seu paraquedas.” pg. 149

Andrea nos cativa quando aciona seu clã feminino formado por sua mãe e as três irmãs. As passagens em que as irmãs fazem ligações umas para as outras, formando um grande Conselho Feminino pode até ser visualizada como nos desenhos animados que dividem a tela com vários personagens atendendo telefonemas ao mesmo tempo. Bruce é cétido e possui um estilo militar. É um homem esforçado que tenta dar o melhor para sua família e aprender com seus erros. O livro é na verdade uma grande luta para compreender e tentar aceitar o que seu filho está passando.

Há ainda os marinheiros, pilotos e outros militares do Natoma Bay, o porta-aviões em que James Huston Jr trabalhou durante a Guerra. Durante sua pesquisa para encontrar provas reais de que seu filho é a reencarnação de um piloto, Bruce encontra um grupo de veteranos que se reunem de tempos em tempos. Mente para poder chegar próximo, mas acaba se rendendo aos encantos daqueles heróis com tantas histórias para contar. O livro conta muito do cotidiano dos Leiningers, mas também é uma grande homenagem ao navio Natoma Bay e a seus homens.

“Houve muitas coincidências, fatos que poderiam ter modificado o destino de james Huston. Outro piloto deveria ter ido para o Natoma Bay, mas foi transferido, de modo que Huston o substituiu. No revezamento, ele já não deveria estar mais combatendo no dia 03 de março de 1945, mas apresentou-se como voluntário para aquela última missão em Chichi-Jima, onde foi morto – no dia 03 de março. A guerra encerra muitas incertezas.” pg. 301

A Volta é um ótimo livro para quem quer saber um pouco sobre reencarnação sem adentrar em questões de dogmas religiosos, apenas acompanhando o cotidiano de uma família americana que teve sua vida modificada para sempre por uma pessoa que escolheu aquelas pessoas para serem seus pais.

#Quem também comentou sobre o livro:

Patrícia Daltro em Resenha do livro: A Volta.

#Este livro chegou até mim como parte do Book Crossing da Bites com a Editora Record.

Selinho.

Selinho.

Mundos de Eufrásia

Capa do livro - Divulgação
Capa do livro – Divulgação

Este humilde bloguinho caminhoneiro Shell foi convidado para um Book Crossing proporcionado pela Bites e pela Editora Record. Dos livros disponíveis o que logo me chamou a atenção foi Mundos de Eufrásia: A história do amor entre a incrível Eufrásia Teixeira Leite e o notável Joaquim Nabuco. Meu interesse estava no fato de que Eufrásia foi uma mulher que desafiou as tradições do seu tempo, não se casou, morou no exterior sozinha e foi uma financista de sucesso. Viveu durante o século XIX e acompanhou todo o processo do declínio do ciclo do café brasileiro e da abolição da escravatura.

O livro é uma biografia romanceada da vida de Eufrásia tendo como tema central seu romance com Joaquim Nabuco, jovem advogado e figura histórica importante no período abolicionista. Infelizmente, Eufrásia não entrou nos tradicionais livros de História e nem nos breves relatos sobre figuras proeminentes da vida política brasileira.Eufrásia estava mais preocupada em viver sua vida e arcar com as consequências de suas escolhas. Escolhas que muitas vezes não foi ela quem as fez.

Eufrásia foi a filha caçula de uma tradicional família de Vassouras, no estado do Rio de Janeiro. Seu pai era uma grande financista, muito preocupado com o futuro de seus bens, enquanto sua mãe era uma grande beata, muito preocupada com o futuro social das filhas. O que muda a vida deEufrásia , e também o que irá encaminhá-la por um determinado destino é justamente seu pai. Um homem que se preocupa em ensinar as filhas não só as letras, mas também a matemática e a lógica do capital.Eufrásia teve oportunidades que pouquíssimas mulheres tiveram, como pode-se ver em vários trechos do livro sobre a dificuldade que as mulheres da época tinham de ler e escrever. Porém, a liberdade conquistada pelas letras não lhe garantiu tudo. Durante a vida percebe-se queEufrásia paga o preço por suas escolhas, pela sua decisão de ser independente . Pelo pai, pela mãe, pela irmã, pela família e pela sociedade que impõe tantos deveres e cobranças a uma mulher que só queria ser livre para amar. E talvez a cobrança de JoaquimNabuco seja a que mais lhe dói, pois para a jovem Eufrásia o amor venceria tudo, até mesmo as tradições, os costumes e a maneira como as pessoas enxergavam os papéis do homem e da mulher.

A autora utiliza uma narração poética, especialmente nos encontros românticos entre Eufrásia e Nabuco, na maneira como crescem esperançosos dentro do arrebatamento de um desejo amoroso que parece não ter fim. É gostoso ver brotar entre dois jovens um sentimento tão genuíno. Claudia Lage consegue transcrever muito bem esses momentos:

Nossa Senhora da Conceição foi testemunha silenciosa de um encontro repleto de atropelos e desacertos. Nabuco vinha com intenções febris, mas estremeceu de uma inibição que não conhecia diante das mulheres. Pelas circunstâncias, achava que Eufrásia estaria ao menos um pouco trêmula. Mas não, ela tinha uma certeza assentada por dentro que lhe tirava as suas. Era uma mocinha, afinal, que encontrava às escondidas um homem. Afinal, era uma mocinha que não conhecia os homens. E lá estava ela, com seus olhos escuros voltados para ele, chamando por ele, com umasimplicidade desconcertante. (pg. 41)

Os momentos da paixão entre os dois são meus trechos favoritos do livro. A descrição dos encontros torna-se um pouco repetitiva, mas a poesia das palavras mistura tantas sensações que volta e meia quando beijo fico pensando nos diversos sabores envolvidos.

Olharam o menino Jesus. E o olharam sem vê-lo. Olharam Santo Antônio no oratório do lado do menino sem poder dizer que o haviam visto. Nossa Senhora imaculava quando Nabuco se virou para Eufrásia no mesmo instante em que ela se virava para ele. Mais um instante, ele a puxava para si e ela se deixava puxar. A sensação áspera do bigode foi a primeira coisa que sentiu sobre os lábios. Em seguida, a estranha doçura de uma boca grossa, a forte respiração de um homem inteiro.Eufrásia descobriu que a saliva tem a acidez do abacaxi, sua perdição, ou o cítrico da lima-da-pérsia, sua favorita. A fruta úmida invadiu lábios adentro, a imensidão da boca adentro. (pg.42)

Claudia Lage conta a história de Eufrásia num ritmo cadenciado em que passado, presente e futuro aprumam-se entre capítulos, um entrelaçando o outro. Não há linearidade, mas há vários momentos em que não se quer parar de ler justamente para saber o que vai acontecer, pois não há como saber em que capítulo estará o desdobramento do que me deixou sem fôlego. Em várias passagens também há a mistura de pensamentos, com vozes de outrem, com diálogos impondo ritmo frenético aos parágrafos. São trechos especiais em queEufrásia se mostra livre, inteira e desejosa.

Nabuco a beijou, consumido pelo que queria consumir, envolvido pelo que queria envolver. “És estranha”, disse, as bocas coladas, “não queres que eu peça a tua mão a teu pai”, disse, as salivas misturadas, “e me beija assim…”,Eufrásia afastou os lábios, “Assim como?”. Ele pressentiu que ia se arrepender, “Como se já fosses minha”, disse, arrependido. “Não sou”, ela disparou, eNabuco pensou que iria se afastar, ofendida. Ao contrário, se aproximou, “Tu não me mostras o que sente por mim?”, ela quase mordia os seus lábios, “Por que não posso mostrar o que sinto por ti?”, a qualquer momento, poderia morder, “Se nossascircunstâncias fossem outras, talvez não mostrasse tanto…”, já unia os lábios de novo, “mas as circunstâncias são essas”, revelava os dentes para a mordida, “Já tenho que esconder o que sinto de meu pai, de minha irmã, de todos”, lábios e dentes próximos, “escondia de minha mãe”, tão próximos, “não entendes?”,Nabuco não entendeu, “Tenho que esconder também de ti?”, Eufrásia o beijou, “De ti, não!”, abriu a boca, “De ti, não posso!”, arfava, “Não!”. (pg.146)

Eufrásia é uma grande personagem feminina. É uma mulher brasileira que enfrentou a sociedade de seu tempo para viver à sua maneira e teve muitas oportunidades para crescer financeiramente. Porém, como ela mesmo diz em alguns trechos do livro, numa sociedade de homens ela ainda é uma mulher, não tem direito a erros, pois não é considerada uma pessoa inteligente, para uma mulher arriscada ela é muito sortuda. É essa a visão que prevalece sobre seu trabalho. É uma pena que poucos que cruzaram seu caminho tiveram uma visão diferente dessa. É uma pena que mesmo os abolicionistas não percebessem o quanto ainda mantinham prisioneiras suas mulheres e filhas.Eufrásia não queria ir contra tudo e todos, apenas queria viver sua vida como achava que era melhor para si mesma, estudando, trabalhando e produzindo.Eufrásia não queria apenas se dedicar a casa e o marido, sabia que poderia ter muito mais e queria tudo. É uma pena que a solidão seja uma constante na vida adulta deEufrásia. Porém, sua beleza, sua força e seus ideais transformam esse livro num belo relato de sua vida.

Claudia Lage tem blog: A Pequena Morte.

Outras resenhas do Book Crossing:

Univero Mix – Mundos de Eufrásia

A Vida como a vida quer – Entrevista com Claudia Lage sobre os Mundos de Eufrásia

O tempo que não ando lendo.

# O tempo me atropelou de uma maneira incomunicável. Tudo é para ter sido feito ontem, mas não fui eu quem decidiu quando. A vida simplesmente aconteceu ao cruzar com minha avó no hospital. E tudo tomou uma proporção muito maior depois de terça-feira. São dias de silêncio e estranhamentos. O desconhecido chega e me pega com a mão na boca, com a sensação de que o maior elo da minha família simplesmente não existe mais. Desconheço qualquer maneira de ler o que irá acontecer. Que o tempo tenha gratidão de nós. Ela ainda tinha planos aos 92 anos.

#Dentro do tempo galopante e ofegante, acumulam-se pelas mesas tudo o que não consigo ler. Os afazeres acadêmicos primeiro, pois é preciso crescer formalmente. Porém, nesse momento de reencontro com uma matriarca, ao meu redor, que não está deserto, repousam diversas mulheres:

Sob o Sol da Índia de Julia Gregson. Quando vi o título fui remetida a Comer, Rezar, Amar, mas em comum só mesmo a Índia, o fato de serem best-sellers e contarem histórias de mulheres que transformam suas vidas. Então, pode jogar pedra na moda indiana…rs. Hare Baba! Estou na página 155. Viva é uma jovem que possui um passado misterioso. Pretende voltar à Índia, onde viveu na infância e onde perdeu os pais. Para isso, aceita ser dama de companhia de duas jovens burguesas inglesas e um rapaz extremamente peculiar. A leitura flui apesar da riqueza exagerada na descrição de alguns detalhes. É, na verdade, uma grande novela em que vamos descobrindo pouco a pouco sobre os personagens e suas motivações para viajar, é também uma trama cheia de cores, sabores e odores para se imaginar.  Interessantes são as descrições dos costumes, das festas e da viagem de navio no ano de  1928. Viva, Rose e Tor são personagens cativantes, cada uma em sua busca pessoal, com seus anseios, amores, dúvidas, frustrações, medos e conquistas. Estar naquele navio a caminho da Ìndia mudará a vida de todas e esse é o mote principal do romance, cercado por pequenas doses de suspense e mistério, contando-nos por meio de conta-gotas o passado e o presente dessas três mulheres. Cada uma com uma personalidade bem definida, mas sem um futuro claro. Rose vai para casar, Viva para reencontrar seu passado e Tor quer liberdade. Todas em busca de uma nova vida, com a inquietude natural de quem deixou para trás o que era certo para tentar se encontrar. Simpatizei com o livro logo pela capa e especialmente por Viva. Espero avançar mais nos próximos dias.

“Juntas as duas olharam para um delicado colar de luzes que surgia adiante no mar escuro e encrespado. Uma cidade estrangeira onde pessoas estrangeiras estavam escovando os dentes, lavando a louça do jantar e pensando em ir para cama.”

“‘Eu também mal conheço a mulher com quem estou me casando’. Era assim que ele se sentia voltando para casa aos prantos, sozinho no riquixá, e também durante toda a noite que se seguiu, que passou em claro, suando frio em sua cama. Ele esperava que no dia seguinte não se sentisse daquele jeito.”

“No banheiro, ela encheu a bacia e espirrou água no rosto com raiva. Era estranho – pensou ela, prendendo o cabelo para trás e passando duas pitadas de creme de limpeza no rosto – não ter falado a Tor sobre como estava se sentindo nervosa. Parecia um gesto de deslealdade, mas ela não sabia dizer se estava sendo desleal com Jack ou com sua melhor amiga, tal era o estado de confusão em que se encontravam seus pensamentos.”

“A festa das Mil e Uma Noites já estava animadíssima quando Tor subiu ao convés naquela noite. O céu flamejava com cores de coral e de um vinho bem claro, e os rostos dos convidados estavam banhados pela luz. A tripulação havia passado o dia correndo para lá e para cá, forrando as mesas com toalhas cor-de-rosa e fazendo pilhas de figos, mangas e asiminas, além de frutas cristalizadas e docinhos turcos de gelatina. Havia luzes coloridas penduradas ao longo da murada do convés e o que costumava ser a parte do convés para a prática de esportes tinha sido magicamente transformado na tenda de um sultão. Havia um engolidor de fogo dentro da tenda e uma aglomeração de pessoas que falavam alto e usavam máscaras, sandálias turcas, sáris e vestidos esvoaçantes. O coronel Kettering, numa túnica longa, balançava ao som de uma orquestra de músicos egípcios. Tor respirou fundo. ‘Ombros para trás. Cabeça erguida. Sorria. Caminhe.’ Seu destino era o outro lado do convés carmim, onde ela localizou seu grupo bebendo e rindo.”

#Mrs. Dalloway e Simone de Beauvoir olham de soslaio na fila enquanto banham-se com o sol das manhãs que chegam cedo demais.

#Beijos extremamente especiais para Charô e Marilyn. Todo meu carinho a vocês.

Trechos de Natal.

Não sou uma pessoa muito natalina. Não acho decoração de shopping a coisa mais linda do mundo. A família se reúne, mas não somos de dar presentes. Papai Noel para mim é um ninja, personagem do desenho da Pucca. Essa semana li um post da Jaque com o meme da página 161 e decidi dar de presente aos meus leitores trechos aleatórios de livros que li, que estou lendo e que irei ler. Pequenos cartões de Natal, para, quem sabe, você escolher um. Divirtam-se!

#Minha casa ficava numa viela, perto do centro. Era uma construção modesta, com dois quartos (um deles convertido em laboratório), uma sala acanhada, cozinha, banheiro e quintal. Lavínia gostou do quintal. Adorou Zacarias, que não deu a mínima para ela. Eu tinha herdado um tatu do antigo inquilino. Um velho tatu, que nem escavava mais. Vivia nos fundos, na dele. Eu o alimentava com bananas e tomates, mas não conquistei seu afeto. Nunca ficamos grandes amigos. Eu tinha o costume de conversar com Zacarias. Longas conversas. Neurose de solitário, acho. “Querido sujeitinho casca grossa: minto se disser que não senti sua perda. Ela agachou-se e tocou sua carapaça indiferente naquela tarde chuvosa; tornou-o sagrado.” Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios” de Marçal Aquino, pg.26

#Para Amália, você vai ser o senhorzinho mesmo que tiver oitenta anos. E quanto a Yambo, quem me explicou foi a própria Maria. Era você mesmo quem dizia, eu me chamo Yambo, o do topetinho. E virou Yambo para todos. A misteriosa chama da Rainha Loana de Umberto Eco, pg.11

#Mesmo que os dedos dos pés indiquem a direção, desinverta. O calcanhar não tem dedos porque ele mesmo é um único dedo, mais largo e gordo, vendo as coisas se afastarem. Nisso se resume a agonia, o que se distancia é o que nos mantém o passo, é o que nos trouxe; veja a tua mãe. Engano seu de Andrea del Fuego, pg. 21

#Todos os verdadeiros Gurus são parecidos no fato de existirem em um estado constante de auto-realização, mas suas características externas são diferentes. As aparentes diferenças entre a minha Guru e seu mestre são imensas — ela é uma mulher feminina, poliglota, com formação universitária, uma profissional sagaz; ele é por vezes um caprichoso, por vezes um régio leão aguerrido do sul da Índia. Para um boa moça da Nova Inglaterra como eu, é fácil seguir um mestre vivo, alguém reconfortante em seu decoro — exatamente o tipo de Guru que se poderia levar para casa para conhecer mamãe e papai. Mas Swamiji… ele era totalmente imprevisível. E, desde a primeira vez em que entrei no caminho de seu ioga e vi fotografias suas, e ouvi histórias a seu respeito, pensei: “Vou ficar bem longe desse sujeito. Ele é grande demais. Ele me deixa nervosa”. Comer, Rezar, Amar de Elizabeth Gilbert, pg.175

#As frágeis escamas de gelo garantiam que aqueles metros restantes seriam duros, perigosos, custosos. Mas de repente não havia lugar mais alto para ir. Senti meus lábios rachados abrir-se num sorriso dolorido. Eu estava no topo do Polegar do Diabo. Na Natureza Selvagem de Jon Krakauer, pg.162

#Aquilo que torna a mente leve, forte e vigorosa, de modo a manter-se num estado equilibrado, mesmo numa condição de dor — aquilo que perpetuamente cria um sentimento interno prazeroso, é chamado amor. Devoção é idêntico ao amor. No momento em que a devoção é despertada, o amor de Deus vem. Os pensamentos de P. R. Sarkar de Prabhat Rainjan Sarkar, pg.89

#Ele era um rapaz de compleição esguia, bem apessoado, mas não de chamar a atenção, pois sua tez o classificava entre os nativos daquela costa, olhos castanhos, cabelo escuro e liso, pele morena. Isto é, até que ele falasse. O verão antes da queda de Doris Lessing, pg. 71

#Do you love any, do you love none

Do you love twenty, can you love one

Do you love me? Murmúrios urgentes de Suzanne Vega, pg.99

#O que em minha casa eu não podia entender era o empenho de todos em vedar goteiras. Chover dentro de casa era como furar o olho que suga a noite para não havê-la. A noite lá fora, sempre lá fora. Em minha infância, só me permitiam o durante o dia. Mas eu sabia que, mesmo lá fora e sob estrelas, havia o olho-moinho sugando a noite de minhas mãos. Uma vez, com seu constante ar de galhofa filosófica, meu tio me disse “É que à noite a alma também é corpo”. Meu tio profetizava coisas, olhou para as paredes da casa e viu, antes de existissem, nas paredes, imensas rachaduras; e, de fato, elas nunca apareceram. Profeta pode ser também aquele que lê, nos olhos de um menino, o silêncio. Casa entre vértebras de Wesley Peres, pg. 34

#Enquanto outras mulheres soltavam gritinhos quando eram espetadas por um alfinete, eu estava ocupada me irritando por Dana ter tantas amigas para fazê-las suas damas de honra. Por concessão, das oito, uma era sua prima e outra, sua futura cunhada, mas ainda restavam seis boas amigas fiéis. Boas o suficiente para apóiá-la em seu casamento. Procura-se um namorado, última chamada de Melissa Senate, pg.177

#E quanto mais te penso, de si mesma

Se encanta a minha idéia. Vertiginosa

E tensa como a flecha, contente de ser viva

Júbilo, memória, noviciado da paixão de Hilda Hilst, pg. 54

#Naquele dia me dei conta de que você tinha mais senso político que eu. Você percebia realidades que me escapavam porque não correspondiam à matriz que eu usava para ler o real. Tornei-me um pouco mais modesto; ganhei o hábito de fazer você ler meus artigos e manuscritos antes de enviá-los. Eu considerava as suas críticas praguejando: “Por que é que você sempre tem que ter razão?!”. Carta a D. – história de um amor de André Gorz, pg.40

#Ana Beatriz parecia uma princesa loura, de olhos castanhos, e, enquanto trabalhava com a pazinha, repetia para Heitor, o jabuti, a mesma explicação recebida do pai dela: que tudo nessa vida tem começo, meio e fim, que as pessoas morriam e iam para o céu quando era hora, mas que elas viveriam para sempre enquanto nos lembrássemos delas. Doze anos depois, Ana Beatriz morreria de overdose no banheiro de uma boate em Belo Horizonte. Após receber o telefonema da polícia, essa foi a imagem que me acompanhou enquanto eu pegava o avião, reconhecia o corpo, providenciava a ida para o funeral em São Paulo e consolava Eliano contando mentiras, dizendo que tudo ia ficar bem: a menininha frágil brincando descalça na areia e falando com um jabuti. Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite de Fal Azevedo, pg. 15

#Suponha que um anjo bata à sua porta. Não se espante: é final de ano e tradicionalmente, como os balões de junho, esta data é propícia ao aparecimento de anjos. Para evitar constrangimentos ou diálogos inúteis, você está sozinho em casa. Então o anjo bate, depois você larga o que estiver fazendo, abre a porta e convida-o para entrar e sentar, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Pequenas epifanias de Caio Fernando Abreu, pg. 94

@Recado:

# Estela comanda a divulgação da campanha de Natal do UNICEF. Participe!