Brejeira Malagueta

Fiz uma resenha do livro: Frente e Verso – visões da lesbianidade, para o Blogueiras Feministas. Uma coletânea descontraída de artigos sobre mulheres lésbicas. Lúcia Facco, Laura Bacellar e Hanna Korich falam de forma bem humorada sobre o cotidiano de lésbicas, o desejo de promover a literatura lésbica e a necessidade de criminalizar a homofobia e garantir direitos iguais.

Capa do livro Frente e Verso - visões da Lesbianidade

Porém, o mais bacana foi descobrir que no Brasil há um editora que só publica livros de autoras lésbicas. A Brejeira Malagueta é uma editora que tem como objetivo promover e fomentar a literatura lésbica, especialmente livros que tenham finais felizes e muita pimenta nos relacionamentos. As grandes editoras ignoram a literatura LGBT, especialmente as lésbicas, por puro preconceito. Se no cinema, os filmes com temática LGBT atraem vários espectadores, por que a literatura precisa ser sempre heteronormativa, não é mesmo? Essa iniciativa é um importante passo para  a visibilidade lésbica e, para adolescentes que estão descobrindo seus desejos e sentem-se muitas vezes confusas. Além de mostrar as lésbicas como elas são: pessoas comuns, normais, legais (bom, nem todas), tão (des)equilibradas quanto as outras mulheres, porém com a interessante particularidade de gostar (e amar e sentir tesão por e correr atrás de) outras mulheres.

Dentre os livros publicados pela Brejeira Malaqueta, acho que Frente e Verso – visões da lesbianidade é um bom presente para as leitoras e leitores que não são lésbicas, porque traz pensamentos e reflexões que eu, uma mulher predominantemente heterossexual, dificilmente faço. Eis alguns trechos de meus atigos preferidos:

Nas férias, fiz uma viagem de carro de João Pessoa a Natal. No caminho visitei o Projeto Peixe-Boi, que fica em Barra de Mamanguape. Passei, então, por uma pequena (muito pequena mesmo) vila de pescadores. As casas eram humildes, mas com uma característica bastante interessante: todas super coloridas e com flores. Uma sensibilidade tocante exposta em uma comunidade tão pobre.

Observei os rostos das mulheres, crianças, adolescentes e de alguns poucos homens (imaginei que a maioria devia estar fora, pescando). Fiquei, então, imaginando como se comportaria uma menina ou um rapaz que morasse ali e se percebesse com desejos homossexuais. Sim, porque isso não se aprende no rádio nem na televisão chegada recentemente junto com a energia elétrica. O desejo nasce naturalmente, como acontece com todo adolescente. A “diferença” é percebida apenas porque em volta do adolescente homossexual há exclusivamente exemplos de heterossexualidade. Trecho de “É mais difícil em cidades pequenas? de Lúcia Facco.

Muitas pessoas, inclusive lésbicas, encaram a homossexualidade como algo associado exclusivamente ao sexo, ficando portanto em dúvida se contam ou não aos filhos. Afinal, jamais comentaríamos com eles as nossas posições preferidas ou os “brinquedinhos que temos nas gavetas de nossas mesinhas de cabeceira.

Acontece que a homossexualidade envolve muito mais que apenas sexo. Envolve afetividade e postura diante da vida e da soceidade. Envolve nossos próprios conflitos, nossos medos. Envolve possíveis situações constrangedoras a serem enfrentadas. É muita coisa importante para ser escondida das pessoas que são tão importantes – se não as mais importantes – para nós. Trecho de “Mães Lésbicas” de Lúcia Facco

Além da cuidar da editora, Laura Bacellar e Hanna Korich tem um programa de entrevistas no youtube chamado As Brejeiras, vale o clique:

Bonecas e Heroínas

Muitas vezes me pergunto como seria o mundo se as meninas tivessem mais acesso a bonecas heroínas. É claro que meninas sempre bricaram com action figures como Comandos em Ação e outras coisas do tipo. Mas como seria se action figures femininas fossem a principal brincadeira das meninas? Como seriam as bonecas se abandonássemos a estética bebê que prevalece nos brinquedos direcionados as meninas?

She-ra e seu cavalo no modo Ventania

Acho que a única boneca heroína que tive foi a She-ra. Ela era líder de um grupo de mulheres e homens que combatiam o mau num reino encantado e tinha um cavalo super legal. (Opa! lembrei de outra heroína, a Sara do Cavalo de Fogo, mas nunca vi boneca dela) Tudo bem que She-ra foi abandonada por seus pais, que preferiram viver em outro reino e cuidar de seu irmão gêmeo He-man, mas com certeza She-ra chutava bundas. Gostaria que as meninas pudessem ter mais bonecas como ela. A She-ra era adulta, não era infantilizada, tinha liderança, tomava decisões e se em algum momento aparecia algum interesse amoroso ele não era seu objetivo final. Nada contra as heroínas casarem, She-ra até tinha um quê de lésbica bacana, mas cansa esse modelo das princesas em que o homem é sempre o objetivo de vida. Talvez as Meninas Super Poderosas tenham contribuído para a geração dos anos 2000. É por esse desejo de ver mais representações femininas heróicas que gosto tanto de um vídeo em que as irmãs Brontë são bonecas e heroínas reais.

Meninas Super Poderosas: Lindinha, Florzinha e Docinho

Charlotte, Emily e Anne foram escritoras na Inglaterra do século XIX. Durante suas vidas, um de seus projetos foi montar uma escola de meninas em Haworth, mas não conseguiram ir adiante por falta de alunas. A primeira publicação foi uma coletânea de poemas das três irmãs, a qual pagaram do próprio bolso e usaram pseudônios masculinos. “Poems by Currer, Ellis and Acton Bell” foi publicado em 1846. Os pseudónimos escondiam na letra inicial a verdadeira identidade das autoras. As irmãs sempre foram muito unidas, apesar da visíveis diferenças entre elas, perceptíveis em suas obras, mas as três recusaram o papel secundário e passivo que a sociedade burguesa do século XIX atribuía à mulher.

O livro de poemas não fez sucesso, mas elas insistiram. Em 1847 conseguiram um editor. Charlotte publicou “Jane Eyre”, Emily, “O Morro dos Uivantes” e Anne, “A Inquilina Wildfell Hall”. Posteriormente Anne publicou “Agnes Grey” e Charlotte publicou mais dois romances: “Shirley” e “Villette”. As três enfrentaram uma sociedade machista que não enxergava valor no trabalho das mulheres. É muito bom pensar que elas enfrentavam o sexismo do século XIX com super-bigodes-falsos, livros-bumerangue e um megazord.

Atropelo

Desde julho o ritmo da vida mudou. Parece que quando nossos pais adoecem a vida toma um rumo nunca antes pensado. Como bem disse a Ladyrasta, as perguntas mudam. Naquele 1° de julho as urgências começaram e a vida não mais abandonou o ritmo de ambulância. Um atropelo no meu caso, pois não sei levar a vida sem controle, sem rotina, sem saber quando sair, nem que horas voltar. Sempre há os outros.

Agora vou abandonar tudo. Eu que sempre quis ter tudo sob meu controle, que sempre estive certa em todos os momentos, comecei a abandonar pessoas. Porque tudo tem seu limite e ninguém é salvo se não quiser agarrar a bóia. Saio da situação para buscar o meu arrebatamento, porque é bom saber que as pessoas vivem sem mim. Graças a dica da doce Luciana, me dedicarei a contar carecas.

“O Estranho Caso de Mister Wong

Além do controlado Dr. Jekyll e do desrecalcado Mister Hyde, há também um chinês dentro de nós: Mister Wong. Nem bom, nem mau: gratuito. Entremos, por exemplo, neste teatro. Tomemos este camarote. Pois bem, enquanto o dr. Jekyll, muito compenetrado, é todo ouvidos, e Mister Hyde arrisca um olho e a alma no decote da senhora vizinha, o nosso Mister Wong, descansadamente, põe-se a contar carecas na platéia…

Outros exemplos? Procure-os o senhor em si mesmo, agora mesmo. Não perca tempo. Cultive o seu Mister Wong!”

QUINTANA, Mario. Sapato Florido. São Paulo: Globo, 2005. Pg. 37.

Os pés de Paul McCartney. Foto de Linda McCartney. Clique para ver a galeria.

A “diferença sexual”

Trecho do texto O Grande Silêncio: a violência da diferença sexual de Tania Navarro Swain.

Vamos problematizar. A “ diferença sexual”, naturalizada, assenta-se sobre um tripé, três instancias do social, que asseguram o exercício do poder falocentrico: a) a diferença material, onde se fixa a significação dada ao sexo e a sexualidade, onde se consagra a valorização do sexo masculino, do pênis, o “verdadeiro sexo”, louvado pela psicanálise, significante geral dos sistemas patriarcais. A diferença material, é a que acolhe a violência, assegurando os lugares de poder para o masculino. A partir do biológico, instala-se, portanto um determinismo social, no qual papéis/ status / deveres/ trabalho são divididos de forma assimétrica e hierárquica.

Imbrica-se a esta dimensão material, o campo representacional, a segunda peça do tripé, aquela que cria e recita imagens dotadas de significações binárias: são os sentidos produzidos no social, o que interpretam e criam realidade a partir de valores, verdades construídas em redes históricas de produção de conhecimento.

Uma representação repetida é performativa, isto é, cria aquilo que representa, cria também campos de poderes e de verdades em formações sociais históricas: se digo a um menino muçulmano “você é um homem”, subentende-se uma hierarquia e poderes a ela inerentes: ele terá ascendência sobre todas as “não-homens”, as “diferente”, que não possuem o sexo masculino: sua mãe, tias, irmãs, etc.

Ao se dizer “seja homem”, de modo geral, está-se significando um conjunto de valores atrelados ao masculino, que estão ausentes no feminino, assim desvalorizado. Quantas vezes não ouvimos a frase, dita a meninos de tenra idade: “cuide de sua mãe”? Encontramo-nos, assim, desde o nascimento, desde antes do nascimento, em um sistema de significações, de representações, de uma linguagem que impregna de valores e determina comportamentos em divisões binárias, identitárias, classificatórias, exclusivas e excludentes. Este é o domínio do Pai, assim instaurado no social como o eixo da autoridade e do poder.

Mas uma representação também é histórica e para manter-se precisa ser recitada, repetida, ensinada, inculcada e neste sentido percebe-se o processo de diferenciação de sexos, incrustado na biologia para melhor justificar sua pretensa veracidade. Foucault aponta para os “regimes de verdade” no social, isto é, a circulação de enunciados, de valores, de imagens e representações com valor de verdade.

Percebe-se assim que o processo de diferenciação de sexos se instala em formações sociais históricas e este processo é político, pois assegura e transmite poder, justifica e aprova o uso da força e da violência no controle, domesticação e utilização dos corpos, do trabalho, da produção realizada pelas mulheres. Este é o domínio do Patriarcado, a terceira ponta do tripé, os três P, que instituem corpos, ordenam e classificam os seres segundo sua genitália.

A construção da diferença sexual é, portanto, um processo político que produz diferença, desigualdade, que cria hierarquia e assimetria, que permite e estimula o uso da violência institucional e social, centradas na valorização e/ou desvalorização de um detalhe biológico – o sexo.

Assegura igualmente uma divisão de tarefas pretensamente ligada ao biológico e naturalizada pela memória social, a história. Hoje quase ninguém, que estuda e reflete um pouco pensa ainda numa história evolutiva, cujo processo levaria do pior para o melhor; sabe-se que a história é uma narrativa, uma ficção elaborada a partir de alguns indícios e explicitada segundo as condições de imaginação e de conhecimento dos historiadores.

É assim que, ao considerar a diferença sexual enquanto dado “natural”, a história não problematiza as representações e os valores que constituem o social e vem, nas formações sociais, aquilo que querem ver. Desta maneira, temos uma história androcentrica, que não cessa de repetir o mesmo, a mesma divisão biológica, os mesmos atributos, as mesmas hierarquias e assimetrias ao longo de um tempo linear.

Quem pode afirmar, por exemplo, que os desenhos pré-históricos foram feitos por homens ou que a descoberta do fogo ou da roda também foram fruto da diligencia e criatividades masculinos? Quem pode afirmar que havia mesmo um feminino e um masculino em épocas das quais nada sabemos? Ou mesmo em épocas mais conhecidas, para as quais não se problematiza a construção da “diferença sexual”, do sexo social? Quem pode afirmar que o sexo e a sexualidade sempre foram os determinantes da estrutura do social? Os discursos das essências e da incontornável “diferença sexual” são fruto de crenças caducas, de verdades esfarrapadas, destilados pelos donos da verdade, guardiões de poderes adquiridos.

[+] Diferença sexual: uma questão de poder – Tania Navarro Lins.

Jorge Amado

Em agosto de 2012, Jorge Amado completaria 100 anos. As comemorações de seu centenário já começaram. Sua obra tem sido republicada e o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo inaugurará em março de 2012 uma exposição.

Por mais que sua literatura seja criticada por ajudar a disseminar o estereótipo da brasileira sensual para o mundo. Suas personagens mulheres são muito fortes e decididas. Não há como ficar indiferente a uma Tereza Batista ou a Dona Flor. Gabriela e Tieta do Agreste. Todas mulheres transgressoras.

Hoje tomei conhecimento de que será lançado o filme Capitães de Areia. Nesse livro, Jorge Amado trouxe um grupo de crianças abandonadas para o centro do seu romance. A saga de Pedro Bala e seu grupo de meninos de rua nos mostra as vidas e experiências diárias de um grupo que sobrevive em um ambiente de pobreza e violência, carregadas de pequenas tragédias sociais e familiares. Espero que o filme não perca muito do romance que enxerga os excluídos e lhes torna personagens principais de uma vida carregada pelo mar.