Uma casa para Elizabeth

A Revista Piauí — que já publicou cartas da poetisa ameticana Elizabeth Bishop em sua edição 35 — traz um texto bacana sobre a Casa Mariana. A casa que Elizabeth Bishop comprou em Ouro Preto e onde morou por alguns anos.

Gosto dessas pequenitudes da vida de pessoas ilustres. Sempre achei interessante a forma como Elizabeth adotou o Brasil, com um misto de curiosidade, paixão e desencantamento. Como se os trópicos prometessem o paraíso e não é bem assim, o calor as vezes cansa.

Uma casa para Elizabeth (meus trechos preferidos):

O trabalho de restauro, além de longo, foi caro. “Para mim a casa já está lindíssima, embora ainda haja muita coisa a fazer e meu dinheiro tenha acabado, pelo menos por ora”, escreveu Bishop numa carta de maio de 1967. Mais adiante: “A casa foi uma extravagância um tanto impensada, ao que parece, mas do jeito que os trabalhadores estão fazendo a reforma ela vai ficar em forma por mais três séculos. Tem um velho bem velhinho sentado no chão trançando lascas finas de bambu para refazer o teto – é como trabalho de cesteiro –, depois tudo é pintado de branco exatamente como se fazia no século XVIII.”

José Alberto contou, entre muitas outras, a história do dia em que Zenite, uma vizinha que prestava pequenos serviços a Bishop, levou a mãe para visitá-la. Sentaram-se, a poeta no meio, Zenite de um lado, a mãe de Zenite do outro. A mãe achava que aquela estrangeira seria incapaz de entendê-la. Dizia então à filha: “Pergunta se ela gosta de Ouro Preto.” A filha perguntava: “A senhora gosta de Ouro Preto?” Bishop respondia: “Gosto.” A filha traduzia: “Ela disse que gosta.” A mãe repicava: “Pergunta se ela sabe de cozinhar.” A filha: “Ela perguntou se a senhora sabe de cozinhar.” Bishop: “Sei, e gosto muito.” A filha: “Ela disse que sabe e que gosta muito de cozinhar.” E assim transcorreu a visita, com Zenite investida no papel de intérprete do português para o português e vice-versa.

O poeta James Merrill, grande amigo de Elizabeth – artista de muitos méritos, ganhador do prêmio Pulitzer e filho de um dos fundadores da financeira Merrill Lynch –, veio visitá-la em julho de 1970. Finalmente encontrara um meio de atender aos insistentes convites da amiga. Ficou hospedado na Casa Mariana. Em julho também José Alberto se hospedava na casa; era época do Festival de Inverno, durante o qual dava aulas. Na noite da chegada de James Merrill, ao entrar na sala, José Alberto deu com os dois sentados no sofá e Elizabeth a chorar. José Alberto ensaiou um recuo, Elizabeth o deteve. “Não se preocupe, José Alberto. Estou chorando em inglês.”

Cartas de Cortázar

Saiu na edição de julho de 2011 da Piauí, trechos da coletânea Cartas de Julio Cortazar. As cartas publicadas na revista são endereçadas a seu ex-colega de escola normal Eduardo Jonquières, poeta e pintor.

Acho que essas pequenitudes do cotidiano são uma das melhores formas de se aproximar da maneira de respirar de nossos autores e autoras preferidos.

Outro dia ocorreu-me que, se eu tiver tempo e vontade, vou escrever um Manual de Instruções. Isso surgiu porque Aurora e eu tínhamos ido a San Giovanni in Laterano para continuar explorando o museu (que é fenomenal, incluída a parte etnográfica, tão divertida, mas principalmente os sarcófagos cristãos e os mosaicos das Termas de Caracala). Como faltava um pouco para que o abrissem, libamos umtimballo di lasagnanuma tavola calda, e entramos no palácio da Scala Santa. Você deve saber que por tal scala sobe-se de joelhos, pois santa Helena a levou a Roma depois de tirá-la da casa de Pilatos. Notei, entre várias coisas notáveis, que vendiam uns livrinhos com “instruções para subir a Scala Santa” e achei muito interessante. Tão interessante que percebi o quanto estamos órfãos de boas instruções para fazer uma porção de coisas importantes. Seria bom ter instruções para beber uma xicrinha de café, por exemplo, ou para sentar numa cadeira. São coisas elementares – ou seja, profundas, ou seja, mal- entendidas. Como se acende um fósforo? Você sabe? Não, você o acende. Mas e se do fósforo, por inabilidade sua, brotar uma cebolinha enorme? Etc. etc. Reconhece, contudo, que o Manual se impõe. Alguém teria de escrevê-lo. (Um inglês, provavelmente.)

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