Inícios

Hortelã

O vento aqui invade cada fresta, cada vão, cada canto. As árvores plantadas por Seu Lurdiano, perto do muro, não barram o vento. Só o obrigam a uivar mais, até me alcançar. Quando reclamo, Seu Lurdiano ri com a mão na frente da boca. Ele me pergunta que vento é esse que só eu escuto. Não sei o que dizer.

Página 9: Minúsculos Assassinatos e Alguns Copos de Leite de Fal Azevedo

Foto de Saltarello no Picsy

Eu não sei se eu já nasci desse jeito ou se eu fui ficando assim por causa do meu amigo pintor, mas quando eu olho pra uma coisa eu me ligo logo é na cor.

Gente, casa, livro, é sempre igual: primeiro eu fico olhando pra cor do olho, da porta, da capa; só depois eu começo a ver o jeito que o resto tem.

Página 8: Meu Amigo Pintor de Lygia Bojunga

Isto é para quando você vier. É preciso estar preparado. Alguém terá que prevení-lo. Vai entrar numa terra em que a verdade e a mentira não tem mais os sentidos que o trouxeram até aqui. Pergunte aos índios. Qualquer coisa. O que primeiro lhe passar pela cabeça. E amanhã, ao acordar, faça de novo a mesma pergunta. E depois de amanhã, mais uma vez. Sempre a mesma pergunta. E a cada dia receberá uma resposta diferente.. A verdade está perdida entre todas as contradições e os disparates. Quando vier à procura do que o passado enterrou, é preciso saber que estará às portas de uma terra em que a memória não pode ser exumada, pois o segredo, sendo o único bem que se leva para o túmulo, é também a única herança que se deixa aos que ficam, como você e eu, à espera de um sentido, nem que seja pela suposição do mistério, para acabar morrendo de curiosidade. Virá escorado em fatos que até então terão lhe parecido incontestáveis.

Página 6: Nove Noites de Bernardo Carvalho

Acho que começou na sétima série, quando me apaixonei por um canhoto e não tive descanso enquanto não escrevi perfeitamente com a mão esquerda — ingênua tentativa de criar uma ligação com o objeto do meu amor, ainda que para isso se precisasse jogar treze anos de destreza no lixo. Ou então foi antes, lá pelos meus oito anos, no instante em que percebi que um vizinho mais velho só usava roupas vermelhas. Foi o que bastou para eu ter longas crises de choro cada vez que minha mãe me ameaçava com um vestidinho rosa, verde ou amarelo, e o que determinou o eletroencefalograma ao qual fui submetida naquela época. Mulher prática, minha mãe diagnosticou minhas lágrimas como problema neurológico, e não amor.

Página 7: Louca por Homem – Histórias de uma doente de amor de Claudia Tajes

Meu relógio parou? Não. Mas os ponteiros parecem não se mover. Não olhar para eles. Pensar em outra coisa, em qualquer coisa: nesse dia que passou, tranquilo e rotineiro apesar da agitação da espera.

Página 9: A Mullher Desiludida de Simone de Beauvoir

Dos sentidos e dos livros

Da última vez que eu e Mar conversamos em meio a sanduíches e deliciosas batatas, lembramos de nosso amor por Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector. Uma das primeiras coisas que nos uniu. Dei vários livros para ele, mas Água-Viva acho que foi o mais especial. Falamos de como hoje temos praticamente vergonha de dizer que nossos autores preferidos são Clarice e Caio. Porque eles acabaram virando aplicativos do facebook. Frases e fragmentos retirados do contexto viraram literatura barata de auto-ajuda, para quem busca uma frase hype do dia.

Imagem compartilhada no facebook. Autoria desconhecida.

Não é para preservar um lado hipster literário escondido que faço esse mimimi. Não gosto de ver as palavras de Clarice e Caio entrecortadas por fotos de balada e gifs animados. Porque para nós eles são sagrados. Realmente especiais. Nosso encontro foi precedido pelos encontros que tivemos com Caio e Clarice no final da adolescência. E sim, é tudo bem ridículo, mas eu queria mesmo que as pessoas sentissem Caio e Clarice ao invés de simplesmente compartilharem frases soltas. Literatura para mim tem a ver com cheiros e sabores.

Então, que há outro autor com quem me encontro sorrateiramente pelas esquinas: Julio Cortázar. Tinha só um livro dele até semana passada. Por favor, não me fale de O Jogo da Amarelinha, não quero saber. Gosto dos contos, aprendi a gostar de Cortázar do meu jeito e por algum motivo o universo insiste em nos aproximar. Só isso explica um vendedor ambulante de livros, que me abordou num restaurante, ter um Cortazar a R$10. É desses encontros que falo. Então, por favor, parem de picotar Caio e Clarice, encontre-os como um todo. Assim como me encontro numa edição velhinha, com cheirinho de sebo, que não tem nem mesmo ano de publicação, dos contos de Cortázar:

Tema para uma tapeçaria

O general só tem oitenta homens e o inimigo cinco mil. Em sua tenda, o general blasfema e chora. Então escreve uma ordem do dia inspirada, que pombos-correio espalham sobre o acampamento inimigo. Duzentos infantes passam-se para o general. Segue-se uma escaramuça que o general vence facilmente, e dois regimentos se passam para o seu lado. Três dias depois o inimigo tem somente oitenta homens e o general cinco mil. Então o general escreve outra ordem do dia e setenta e nove homens passam-se para seu lado. Só resta um inimigo, cercado pelo exército do general, que aguarda em silêncio. Transcorre a noite e o inimigo não passou para o seu lado. O general blasfema e chora em sua tenda. Ao amanhecer o inimigo desembainha lentamente a espada e avança em direção à tenda do general. Entra e olha para ele. O exército do general se dispersa. Sai o sol.

Histórias de cronópios e de famas, Julio Cortázar. (Pg. 81)