O caso de Geyse Arruda, a jovem que foi agredida verbalmente e recebeu ameaças de violência física por uma horda de pessoas, na faculdade Uniban do ABC paulista, porque usava um vestido curto, já está em todos os noticiários. Ver a reação de mais de 100 pessoas correndo pelos corredores com celulares na mão dizendo: “Estamos indo atrás da puta da faculdade” choca. Também é revoltante ver que ao sair escoltada pela polícia, Geyse, vestindo um jaleco para esconder o vestido, teve que passar por um corredor polonês com as pessoas gritando em uníssono: “Puta! Puta! Puta!”.
O primeiro paralelo que podemos fazer é com o caso da professora baiana, Jaqueline Carvalho, que foi demitida após o aparecimento de um vídeo no youtube em que aparece dançando sensualmente no palco de um show de pagode. Nesse caso, primeiramente fiquei revoltadíssima ao saber da notícia. A professora estava no seu horário de folga e ninguém tem nada a ver com a vida dela. Porém, ao assistir o vídeo meu moralismo falou mais alto, fiquei extremamente chocada ao ver a dança do “Tá tudo enfiado” e não consegui defender Jaqueline. Fui omissa porque meu moralismo falou mais forte ao ver o vídeo e sua exposição na tv. A imagem é o que choca nesse caso, pois dançarinas sensuais há aos montes no Brasil e enquanto Claudia Leitte dança de micro-short ninguém está a xingando de puta. Portanto, se não houvesse o vídeo talvez nada teria acontecido. Hoje, segundo constam as notícias, Jaqueline não encontrou outro emprego como professora e tornou-se dançarina da banda de pagode O Troco.
No caso da Uniban, a imagem não é necessária. Algumas pessoas insistiam em ver se o vestido era curto mesmo, mas para mim não importa. Ela podia estar vestida de coelhinha da playboy, com todos os artifícios sensuais e fetichistas, que nada justificaria o que aconteceu. E Geyse promete que vai voltar a frequentar as aulas, pois não deve nada a ninguém.
Analisando tudo, tomo como primeira nota que os dois casos só obtiveram divulgação muito depois dos fatos. O caso da Uniban ocorreu no dia 22/10/09, mas as resportagens na mídia só apareceram a partir do dia 29/10/09. Fiquei sabendo por meio do twitter e do blog Boteco Sujo, no dia 28/10/09. O caso da professora baiana só veio à tona dois meses depois do acontecido. A repercussão de vídeos publicamente no youtube foi fundamental para a divulgação.
A segunda nota é: quantas vezes você já viu uma menina com vestido curto, roupa decotada e imediatamente presumiu que ela era uma puta? Ou formulou uma série de pré-conceitos a respeito dela? Porque não basta condenarmos o linchamento se pensamos como os agressores. É claro que há uma distância entre pensar como eles e violentar a menina, mas o moralismo é o mesmo, o desejo de impor minhas regras de conduta é o mesmo, como mostra essa reportagem em que universitárias afirmam que minissaia não combina com sala de aula. Há muitas maneiras de se chamar atenção para o vestuário de uma pessoa, existem códigos de vestimenta na sociedade, mas até que ponto eu posso definir o que uma pessoa veste? Porém, mais uma vez, isso não é justificativa.
A terceira nota é: o que quer uma mulher ao se apresentar num local de maneira sensual? Algumas feministas defendem que a mulher não deve se apresentar como objeto sexual. Concordo que ver a Mulher Samambaia de biquini fazendo figuração em programa de televisão não me faz crer que ela esteja ajudando a eliminar injustiças contra a mulher. Porém, também acho que exprimir sua sexualidade da maneira que quiser é direito da mulher e isso pode sim ajudar na eliminação de uma série de preconceitos e há feministas que também concordam com isso. Parece uma afirmação confusa, mas por exemplo, sou feminista e sou contra o polêmico #lingerieday não porque as meninas colocaram avatares sensuais, mas porque foi algo proposto por homens e focado só em mulheres. Se a proposta fosse fazer o #peladãoday com homens e mulheres colocando fotos sensuais em seus avatares não vejo problema nenhum, aí sim eu encararia como uma grande brincadeira.
A quarta nota é: foi triste ver a aluna saindo da faculdade escoltada pela polícia e não ver ninguém abraçado a ela. Uma amiga, um amigo, um professor, qualquer um. As pessoas permitiram que ela passasse por um corredor polonês sozinha. Por muito menos já comprei muita briga para defender amiga. Algumas pessoas se escandalizaram com o fato de ver tantas mulheres participando do linchamento coletivo de Geyse, porém, o machismo e a intransigência não têm sexo.
O que mais choca em toda situação da Uniban é o moralismo, a intransigência e a hipocrisia da juventude e da mídia. Pois, na mesma semana, a mídia dá espaço para declarações do rapper P. Diddy afirmando que o Brasil é um tsunami de bundas. Se as mulheres brasileiras são mesmo tão valorizadas por sua beleza e atributos físicos, por que mulheres comuns sofrem tantos abusos quando se vestem ou agem da maneira sensual e explícita que está estampada em várias capas de revista e em programas de tv?
Outros posts sobre o caso:
Polanskis do ABC – Boteco Sujo
Em uma faculdade qualquer – No improviso.com
Uniban, para uma catarse moralista e monstruosa, por causa de uma minissaia – Síndrome de Estocolmo
Pensamentos soltos sobre a humilhação – Marjorie Rodrigues
Moça da Uniban – Aquela Deborah
Sobre moças de família e putas – Túlio Vianna
A desgraça da dicotomia: pare o pedestal que eu quero descer – Escreva Lola Escreva
A caça às bruxas na Uniban – Viva Mulher
O apedrejamento verbal de Geyse Arruda – Marco Bitaites
O lugar do corpo feminino – Politika etc.
Brasil mostra a sua cara… Machista e Preconceituosa – New York Kibe
Uniban, roupa curta e idade média: qual será o futuro? – Limão em Limonada
2cm acima do joelho – Meu Veneno
Mais uma aluna é hostilizada e m univerisade – Fiapo de Jaca