Lésbicas Invisíveis

Hoje, 29 de agosto é Dia da Visibilidade Lésbica. A data é um marco porque em 1996 realizou-se o 1° Seminário Nacional de Lésbicas – SENALE, no Brasil. Como em vários movimentos, as lésbicas também sentiam a necessidade de um espaço para articular e discutir melhor suas questões específicas. E, infelizmente, este espaço muitas vezes não é encontrado dentro do amplo movimento LGBT. Porque o machismo e o racismo que permeiam toda sociedade, também estão presentes em espaços de organização política. Homens e mulheres que vivem sua homossexualidade são estruturalmente situad@s em espaços diferentes no sistema patriarcal. Até mesmo lésbicas negras, latinas e proletárias também precisam encontrar seus próprios espaços e colocar em pauta suas demandas específicas dentro do movimento político do lesbianismo.

Mas o que significa um dia para a visibilidade lésbica? Porque as lésbicas são invisíveis? Porque a homossexualidade feminina simplesmente é esquecida. Registros sobre relacionamentos entre mulheres são raros na literatura e mesmo nos documentos históricos. Ninguém nega que lésbicas sempre existiram, mas ninguém se preocupa em mostrá-las. Uma cultura que é baseada no pensamento androcêntrico, em marcos relativos ao homem, muitas vezes remete o lesbianismo ao limbo do mito, como é o caso das Amazonas.

Dentro da filmografia LGBT, há poucos filmes sobre lésbicas ou com personagens lésbicas que tenham destaque. Mesmo em eventos como a Revolta de Stonewall (1969), em que as lésbicas foram fundamentais e tiveram protagonismo, elas aparecem muito pouco nos registros históricos. No documentário A Revolta de Stonewall (2010), por exemplo, aparecem pelo menos uns 10 homens sendo entrevistados e apenas 2 mulheres. Em Milk (2008) há personagens lésbicas que foram fundamentais para a campanha de Harvey Milk, mas possuem papéis pequenos, não estão entre os personagens principais. E isso é apenas uma parte da questão. Lésbicas raramente são personagens de programas populares como novelas e, quando existem, não têm seu romance e nem enredo plenamente desenvolvido. Masculinidade e feminilidade existem e se definem em sua relação e por meio dela. São as relações sociais de sexo marcadas pela dominação masculina, que determinam o que é considerado “normal” — e, no geral, interpretado como “natural” — para mulheres e homens.

Lesbian & Gay Pride, Paris 2010. Imagem de Philippe Leroyer no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

A lesbofobia, o ódio por lésbicas, é no fundo uma maneira de atacar todas as mulheres. Pois qualquer mulher que aspire fugir de seu papel específico feminino, independente de sua sexualidade, pode ser acusada de ser lésbica e sofrer consequências sociais. As lésbicas podem até escapar de se tornarem uma propriedade privada dos homens, mas não escapam de serem uma apropriação coletiva deles, porque pertencem ao grupo das mulheres.  O estupro é muitas vezes uma forma de punir e culpabilizar a mulher por fugir de seu papel especificamente feminino. Um dos crimes mais cruéis que existem é o estupro corretivo de lésbicas, porque para os agressores é inconcebível existir prazer sexual sem a figura do pênis. Ao mesmo tempo, uma das maiores fantasias eróticas heterossexuais é o sexo entre duas mulheres, que só é aceito porque elas estarão ali para o deleite do olhar masculino. Lésbicas não podem escapar ao controle masculino.

É com grande prazer que vemos o lesbianismo ganhar espaço como movimento social, até mesmo na criação de uma cultura própria, por meio de séries de tv americanas adotadas pela comunidade lésbica, como Xena, a Princesa Guerreira. Ou por séries americanas que passam a enxergar lésbicas como um público ávido por enredos próprios como The L Word. Além de música, literatura, espaços próprios de sociabilidade, pesquisas universitárias e redes políticas, tudo desenvolvido por meio de uma estratégia de visibilidade e identidade, fundamentais para o processo de integração social. Porém, em muitos países o lesbianismo ainda é crime ou tabu, punido com requintes de crueldade e resultando em mortes. Por isso precisamos de um Dia da Visibilidade Lésbica.

Esse texto faz parte da Blogagem Coletiva – Dia da Visibilidade Lésbica organizada pelas Blogueiras Feministas.