Assumir

Seis meses depois da entrevista em que revelou ser gay, Nanini não demonstra arrependimento. “Foi no momento certo. Não sou militante, mas me senti pressionado por mim mesmo a fazer alguma coisa diante da crescente onda de violência contra os gays. Foi, digamos, um ato político”, afirma. “Não considero que saí do armário porque nunca entrei nele e, além disso, só falei uma coisa que todo mundo já sabia”. Marco Nanini: “nunca entrei no armário”.

Foto de Penguin Cakes, no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Harvey Milk dizia que é fundamental que gays e lésbicas se assumam. Porque isso faz com que as pessoas vejam que o vizinho bacana é gay, a colega de trabalho que faz ótimas piadas é lésbica e por aí vai. Porém, não é moleza se assumir. Até hoje há muito receio e preconceito. Obrigar alguém a se assumir é absurdo, porque não sou eu quem estou na pele daquela pessoa. É preciso que seja espontâneo, até para juntar coragem suficiente para enfrentar a vida de outra maneira.

Brinco muito que sou travesti, mas sei que para mim é fácil. Não sou eu que apanho na rua apenas por existir, não sou eu que muitas vezes sou obrigada a me prostituir, pois quase ninguém tem coragem de empregar uma travesti. Mas também é uma forma de dizer que não tenho problema nenhum em ser chamada de travesti, não é algo que me diminui, pois admiro cada dia mais as/os travestis, transexuais e transgêneros. Então, da minha maneira tento assumir uma parte de mim que a sociedade não vê.

Por mais que fosse óbvio para Marco Nanini, não era para muitas pessoas. Talvez o senhor que assiste a Grande Família e que afirma que Deus criou Adão e Eva, não Adão e Ivo, não saiba. Mas talvez a senhora que assiste a Grande Família e, que acredita que orando vai mudar a orientação sexual da filha, veja a notícia em algum jornal distribuído gratuitamente. A esperança de uma sociedade mais justa e igualitária não pode esmorecer nunca. Obrigada por seu ato político, Nanini.

O Império Homossexual

O querido (#NOT) senador Magno Malta está sem louça para lavar e sem lote para carpir. Daí resolveu denunciar uma polêmica (#mamilos) de que estão tentando criar um Império Homossexual.

Tirinha de Arnaldo Branco

Veja bem, colega-irmã-companheira-siliconada-travesti que está sendo espancada em cada esquina desse país, nós estamos aê criando um império e tu não sabia.

Veja bem, colega-irmã-companheira-lésbica-de-melissinha que está tomando pedrada na rua e sendo chamada de homem, nós estamos aê criando um império e tu não sabia.

Veja bem, colega-gay-que-arrasa-na-buátchy mas tem que sair na rua com medo de tomar uma lâmpada fluorescente na cara, nós estamos aê criando um império e tu não sabia.

Veja bem, colega-irmão-companheiro-transexual que é obrigado a viver como outra pessoa e ser constrangido porque não consegue mudar seu nome nos documentos oficiais, nós estamos aê criando um império e tu não sabia.

Veja bem, colega-irmã-companheiro-gay-lésbica-travesti-transexual-transgênero-bissexual que não pode andar de mãos dadas com uma pessoa do mesmo sexo na rua porque pode apanhar, nós estamos aê criando um império e tu não sabia.

Então, chegou a hora de revelar todos os planos do Império Homossexual. O hino nacional será trocado por um potpourri de Lady Gaga, Madonna e Alcione. Se você é homem heterossexual, casado com uma mulher, em breve ela será realocada para uma união homossexual e você receberá um companheiro para iniciar uma união estável em que um de vocês ficará grávido.

Achava que ainda não era hora, mas como boa travesti que sou compartilho com você todos os planos e ações que serão executadas no Império Homossexual. O Fabiano Camilo decidiu (Des)travar o Terrorismo Rizomático Alucinante da Vanguarda Anal e contar tudo: Revelados os terríveis planos secretos para a instituição do Império Homossexual!

O texto confirma as piores suspeitas das autoridades religiosas e governamentais acerca da existência de uma conspiração glbt para a tomada do poder. Contudo, aparentemente, as suspeitas estavam em parte equivocadas e o objetivo almejado pelos grupos terroristas glbt’s não é o estabelecimento de uma ditadura gay, mas a instituição de um Império Homossexual, um Estado totalitário onde os heterossexuais não terão direitos reconhecidos.

  • as seguintes disciplinas serão obrigatórias para as crianças e os adolescentes que se identificarem como pertencentes ao gênero masculino: maquiagem, moda, balé, ginástica artística ou saltos ornamentais, chuca perfeita, criando e difundindo baphos, vida e obra das magníficas divas, etiqueta para banheirão e dark room;
  • as seguintes disciplinas serão obrigatórias para as crianças e os adolescentes que se identificarem como pertencentes ao gênero feminino: manicure para fins vaginais, futebol ou artes marciais, vida e obra das maravilhosas cantoras da MPB, manufatura de sapatos, direção de caminhões;

Lésbicas Invisíveis

Hoje, 29 de agosto é Dia da Visibilidade Lésbica. A data é um marco porque em 1996 realizou-se o 1° Seminário Nacional de Lésbicas – SENALE, no Brasil. Como em vários movimentos, as lésbicas também sentiam a necessidade de um espaço para articular e discutir melhor suas questões específicas. E, infelizmente, este espaço muitas vezes não é encontrado dentro do amplo movimento LGBT. Porque o machismo e o racismo que permeiam toda sociedade, também estão presentes em espaços de organização política. Homens e mulheres que vivem sua homossexualidade são estruturalmente situad@s em espaços diferentes no sistema patriarcal. Até mesmo lésbicas negras, latinas e proletárias também precisam encontrar seus próprios espaços e colocar em pauta suas demandas específicas dentro do movimento político do lesbianismo.

Mas o que significa um dia para a visibilidade lésbica? Porque as lésbicas são invisíveis? Porque a homossexualidade feminina simplesmente é esquecida. Registros sobre relacionamentos entre mulheres são raros na literatura e mesmo nos documentos históricos. Ninguém nega que lésbicas sempre existiram, mas ninguém se preocupa em mostrá-las. Uma cultura que é baseada no pensamento androcêntrico, em marcos relativos ao homem, muitas vezes remete o lesbianismo ao limbo do mito, como é o caso das Amazonas.

Dentro da filmografia LGBT, há poucos filmes sobre lésbicas ou com personagens lésbicas que tenham destaque. Mesmo em eventos como a Revolta de Stonewall (1969), em que as lésbicas foram fundamentais e tiveram protagonismo, elas aparecem muito pouco nos registros históricos. No documentário A Revolta de Stonewall (2010), por exemplo, aparecem pelo menos uns 10 homens sendo entrevistados e apenas 2 mulheres. Em Milk (2008) há personagens lésbicas que foram fundamentais para a campanha de Harvey Milk, mas possuem papéis pequenos, não estão entre os personagens principais. E isso é apenas uma parte da questão. Lésbicas raramente são personagens de programas populares como novelas e, quando existem, não têm seu romance e nem enredo plenamente desenvolvido. Masculinidade e feminilidade existem e se definem em sua relação e por meio dela. São as relações sociais de sexo marcadas pela dominação masculina, que determinam o que é considerado “normal” — e, no geral, interpretado como “natural” — para mulheres e homens.

Lesbian & Gay Pride, Paris 2010. Imagem de Philippe Leroyer no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

A lesbofobia, o ódio por lésbicas, é no fundo uma maneira de atacar todas as mulheres. Pois qualquer mulher que aspire fugir de seu papel específico feminino, independente de sua sexualidade, pode ser acusada de ser lésbica e sofrer consequências sociais. As lésbicas podem até escapar de se tornarem uma propriedade privada dos homens, mas não escapam de serem uma apropriação coletiva deles, porque pertencem ao grupo das mulheres.  O estupro é muitas vezes uma forma de punir e culpabilizar a mulher por fugir de seu papel especificamente feminino. Um dos crimes mais cruéis que existem é o estupro corretivo de lésbicas, porque para os agressores é inconcebível existir prazer sexual sem a figura do pênis. Ao mesmo tempo, uma das maiores fantasias eróticas heterossexuais é o sexo entre duas mulheres, que só é aceito porque elas estarão ali para o deleite do olhar masculino. Lésbicas não podem escapar ao controle masculino.

É com grande prazer que vemos o lesbianismo ganhar espaço como movimento social, até mesmo na criação de uma cultura própria, por meio de séries de tv americanas adotadas pela comunidade lésbica, como Xena, a Princesa Guerreira. Ou por séries americanas que passam a enxergar lésbicas como um público ávido por enredos próprios como The L Word. Além de música, literatura, espaços próprios de sociabilidade, pesquisas universitárias e redes políticas, tudo desenvolvido por meio de uma estratégia de visibilidade e identidade, fundamentais para o processo de integração social. Porém, em muitos países o lesbianismo ainda é crime ou tabu, punido com requintes de crueldade e resultando em mortes. Por isso precisamos de um Dia da Visibilidade Lésbica.

Esse texto faz parte da Blogagem Coletiva – Dia da Visibilidade Lésbica organizada pelas Blogueiras Feministas.

Rubens

Essa semana observava uma discussão sobre músicas machistas e em determinado momento alguém disse: “vocês já perceberam que não existem muitas músicas com nomes de homens? Há músicas para Bárbara, Ana Julia, Carolina, Lígia, mas não músicas para o José, o Carlos.” Aí eu lembrei de Rubens, que conheci na voz de Cássia Eller. A letra é do Mario Manga. É uma das poucas músicas que conheço com nome de homem e a única que me lembro de cabeça que fala claramente de um casal gay. E quando a descobri lá em 1996, ouvia o dia inteiro, porque é engraçado ver o Rubens tomando uma bronca, e o protagonista cheio de tesão e tal, querendo viver aquele sentimento.

Eu nunca quis te dizer

Sempre te achei bacaninha

O tempo todo sonhando

Com a tua pica na minha

O teu rostinho bonito

O jeito diferentão

De olhar no olho da gente

E de criar confusão

Man Love. Imagem de Coldpants, no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

O teu andar malandrinho

O meu cabelo em pé

O teu cheirinho gostoso

A minha vida de ré

Você me dando uma bola

E eu perdido na escola

Essa fissura no ar

Parece que eu vô correndo

Sem vontade de andar

 

Eu quero te apertar

Eu quero te morder, me dá

Quero mas não posso, não, porque:

Rubens! Não dá!

A gente é homem

O povo vai estranhar

Rubens! Para de rir menino

Se a tua família descobre

Eles vão querer nos engolir

 

A sociedade não gosta

O pessoal acha estranho

Nós dois bricando de médico

Nós dois com esse tamanho

E com essa nova doença

O mundo todo na crença

Que tudo isso vai parar

E a gente continuando

Deixando o mundo pensar

 

Minha mãe teria um ataque

Teu pai, uma paralisia

Se por acaso soubessem

Que a gente transou um dia

Nossos amigos chorando,

A vizinhança falando,

O mundo todo em prece

E quando a gente passeia,

A gente só esquece

 

Eu quero te apertar

Eu quero te morder, bicha

Só que eu sinto uma

Dúvida no ar:

Rubens! Será que dá?

A gente é homem

O povo vai estranhar

Rubens! Para de rir

Se a tua família descobre

Eles vão querer nos engolir

 

Rubens!!Eu acho que dá pé…

Esse negócio de homem com homem, Mulher com mulher 

Sinto uma falta danada da Cássia. Ela encontrava uma maneira de cantar as músicas que era tão incrível. É claro que eu não aguento mais ouvir “quem sabe ainda sou uma garotinhaaaa…”, mas o álbum “com você meu mundo ficaria completo” é uma das minhas paixões. Mas o Rubens nem era desse álbum.

Stonewall

Este texto é de autoria da Mary W. Publicado originalmente no blog BBB, o décimo. Republico-o porque é um texto fundamental, pelo qual compreendi amplamente o que é homofobia e como se dá a reação histérica quando homossexuais adentram novos espaços.

A questão do Dourado não é quem ele é. Isso é um problema dele e a gente sente que o cara tenta ser reflexivo e se arrepende da arrogância etc. A questão, pra mim, foi a rápida identificação de uma parcela do público com ele. Sem que ele tenha feito nada pra merecer, na primeira semana de programa todo mundo já estava torcendo pelo cara. Como o script da Globo nesse caso foi óbvio, a gente imagina o porquê da identificação. Ele entrou na casa por conta do comportamento homofóbico apresentado no BBB4. E a produção deve ter achado que seria interessante tê-lo como ingrediente e tal. O caso é que o público rapidamente o colocou como porta-voz. Como se tanta gayzice precisasse mesmo de um combatente etc. A reação foi histérica. Um tanto ridícula. No forinho, um amigo disse que as mulheres estavam úmidas e que devia ser isso. Eu pensei que vivemos na sociedade do espetáculo e que as subcelebridades tem um status enorme e mobilizam uma parcela significativa da população. Teoria da cauda longa aplicada, vemos ex-bbbs que ainda possuem fã-clube, comediantes de 5a categoria nos trending topics e atriz pornô convertida com vídeo hypado no youtube. Estou dizendo isso porque dei esse desconto. Tentei. Mas não dá. Tem coisas que vão além. A discussão sobre homofobia, então, ganhou o contorno mais preconceituoso do mundo. Quando dizem que deveria existir uma camiseta 100% branco. Mesma lógica. Começaram a dizer que o Dourado era vítima de heterofobia. Olha. Essa palavra é tão cruel que eu queria passar o programa todo sem tocar nela. É preciso que alguém seja um autêntico canalha para usá-la. É preciso que a pessoa nunca tenha lido uma droga de um livro de sociologia ou filosofia. É preciso que o significado do conceito de relativização seja completamente ignorado. Não existe heterofobia porque nós vivemos num mundo heterocentrado. Todos os valores e fundamentos tentam reforçar, pra todos nós, a sacralidade do casal heterossexual. Não existe vida fora da heterossexualidade. Um hetero não corre o risco de perder o emprego por conta de orientação. Um hetero não tem que esconder desejos, sentimentos e relacionamentos. Não existe um ambiente hostil para a heterossexualidade. Não existe a zombaria e os olhares. As piadas e insinuações. Quando uma colega sua é zoada na base do será que ela é? a resposta vem rápida “tá me estranhando”, “deus me livre”, “credo”. Quantos “credo” um gay escuta por dia em referência à orientação sexual? “Que desperdício fulana ser lésbica”. Quando eu vi que a Globo ia colocar a questão no BBB, sabia que ia dar merda. A emissora não sabe lidar com a questão e o programa é francamente emocional. Dourado perdeu voto hoje? De jeito nenhum. Ganhou voto hoje. Ele falou o que tá entalado na garganta de todo mundo: nós não temos moral. Imagina uma drag dar em cima de um macho? Falta de moral. Isso, my friend, é ambiente hostil. E nós não somos apenas gays. Nós estamos dentro de um movimento. Fazemos parte de uma luta. Uma das etapas fundamentais da nossa luta foi a construção da nossa subcultura. Não há lugar pra gente no mundo. Fomos construindo um lugar. Vida fora da heterossexualidade. E não construímos um gueto. Montamos um imaginário poderoso que é um pilar na desconstrução do preconceito. A rua Augusta está aí. Lady Gaga está aí. As performances do Serginho estão aí. Toda a arte homoerótica está aí. As drags queens estão aí pedindo passagem. Oscar Wilde é um símbolo. Shena e The L Word também. The Week e a A Lôca. Tem como ser gay e não dar pinta? Opa. Mas não tem como ser gay e não participar dessa subcultura. O S, do GLS, vem das pessoas heteros que curtem essa subcultura. No programa da TV, o Dourado se mostrou extremamente INCOMODADO com essa subcultura. Com todas as referências. Ele senta, durante as festas, quando toca “música de viado”. Homofobia não é apenas atacar gay. É preciso ser um completo tapado pra não perceber as camadas do preconceito e quando ele é sutil. Como o Dourado não bateu no Dicésar, ele não é homofóbico. Faça-me o favor. A negação da nossa subcultura é homofobia. Você não tem espaço no meu mundo e eu odeio o mundo que você construiu. Não tem por onde. Tudo relativo ao mundo GLS incomodou o cara. Mas ele é reflexivo. Não considero um vilão. Acho que vem bem no programa. Ele escuta, pondera etc. O problema, repito, não é ele. É quem torce por ele. Porque a intenção é clara. Baixar a viadagem do programa. E aí não podemos ficar calados. Queria ficar o BBB todo sem tocar nesse assunto. Nunca vou considerar que a cultura de massas dá conta disso. Eu já sabia que do BBB não sairia um mundo mais tolerante. Eu só não esperava que a intolerância fosse vir em forma de avalanche e, pior, covardemente mascarada. Ele pode ganhar 1,5 milhão? Pode. Pode ganhar 15 milhões. Milhares de homofóbicos estão por aí, enchendo o rabo de dinheiro. Não faz diferença para a nossa luta. Não somos maioria nem queremos ser. Vamos continuar fazendo o que sempre fizemos. Fortalecendo a nossa auto-estima através da nossa subcultura. Buscando visibilidade através das nossas paradas. Criando redes de proteção para aqueles que ficam desamparados por conta da discriminação. O que deve ficar claro, eu acho, é que nós já esperávamos. A cada conquista sentimos a reação conservadora. Entrar no BBB tem uma conotação de conquista. Então veio a reação. Mas que venha. Não é o primeiro ataque que sofremos. Não será o último. E nós não temos mais medo. Podem gritar bastante. Podem soltar foguetes. Nós somos gays. Nós estamos aqui. Acostumem-se com isso.

*Tô pensando muito no Dicésar, sabe? Em como ele está se sentindo. Depois, na varanda, ele não falou diretamente no assunto. Falou que já passou por tanta coisa em boates e tal. Nossa. Como ele nao merecia isso em rede nacional. Essa reação de asco e nojo. Ser amado por ele se tornar um desvio de caráter. E ele que nem ama. Passar por isso por conta de uma piada. Ser agredido daquela forma. Chorei um monte por conta disso.