Quem não gosta de dar

Me impressiono com a pessoa que faz isso. Invade um Centro Acadêmico e escreve com tinta vermelha (que se assemelha muito a sangue) as palavras: “Quem gosta de dar, gosta de apanhar”.

Parece ser claramente alguém que não goza ou que apenas goza com a morte de outros. Porque o sexo, o gozo, o orgasmo, o amor sempre pareceram ser a melhor resposta para todo ódio do mundo.

Mas com quem não gosta de dar, não tem conversa. Quem não gosta de dar não quer felicidade, nem ver ninguém feliz.

Reproduzo a nota de repúdio aos Atos Praticados no Espaço Físico do Centro Acadêmico de Direito da UnB.

Mensagem com ameaças deixada no Centro Acadêmico de Direito da UnB em janeiro de 2013. Foto: Gestão Maracatu Atômico.

Na manhã dessa terça, dia 08 de janeiro, membros da Gestão Diretora do Centro Acadêmico de Direito da Universidade de Brasília foram se reunir no espaço físico do nosso CA. Chegando lá, depararam-se com novas escritas nas paredes do local. No entanto, ao contrário dos já existentes, esses novos dizeres possuem um caráter totalmente ofensivo, preconceituoso, pejorativo, machista e homofóbico. As frases são “Ñ aos gays” e “Quem gosta de dar, gosta de apanhar”. Além disso, foi apagada a mensagem “Não existe nada mais sexy que um homem feminista”.

Não é a primeira vez que grupos minoritários são alvos de atos ofensivos claros no ambiente do nosso Centro Acadêmico. Em meados de julho do ano passado, a bandeira LGBT havia sido retirada de seu suporte e jogada pela janela, fato que levou a Gestão Inclusão a fazer um pronunciamento durante a XVII Semana Jurídica da UnB. Além disso, constantemente as bandeiras somem e vão parar debaixo dos sofás ou em outros locais do CA. Por fim, ainda cabe citar a frase “fulano, viado de REL”, a qual já foi apagada, mas que insiste em ser reescrita.

Diante do ocorrido e de todo esse contexto, a Gestão Maracatu Atômico vem demonstrar o seu repúdio perante os atos praticados e convocar os/as estudantes de Direito para intervirem criativamente nas paredes do nosso CA, demonstrando que os/as discentes do curso não se calarão diante do ocorrido!

Essa nota não é de tom acusatório, até porque nem se sabe se o/a (s) autor/a (s) é aluno/a do Direito, mas possui a intenção de chamar a atenção da comunidade acadêmica da FD para a gravidade dos atos. A Gestão Maracatu Atômico entende que tais práticas se inserem em um contexto muito maior de machismo, homofobia, racismo e outros preconceitos que o nosso Centro Acadêmico historicamente vem tentando combater.

Muito se lutou nessa Faculdade para que a bandeira LGBT fosse levantada, para que um beijaço pudesse ocorrer de forma minimamente razoável em nossos Batizados, para que o racismo fosse visto e tratado como problema sério, para que o feminismo fosse discutido, para que a pauta de gênero fosse colocada na nossa agenda e para que o machismo fosse combatido. Muito se lutou para que as opressões saíssem da invibilização e entrassem no nosso contexto argumentativo. Muito se lutou para que nós pudéssemos ser o que realmente somos! Muito se lutou para se tentar fazer o mínimo, que é o tratamento igual entre todas/os nós, independentemente da sua cor, origem, classe, orientação sexual, sexo ou gênero! Muito se lutou para que nós pudéssemos ter voz!

E não vai ser agora que vamos nos calar ou recuar. Se em outros locais da UnB, tais práticas opressivas são toleradas ou consideradas normais nos seus contextos acadêmicos ou em seus Centros Acadêmicos, dizemos que aqui não! Dizemos que a nossa liberdade de ser o que somos não será tolhida, invibilizada, negada, ridicularizada ou violentada! Que as séries de reproduções, ratificações e estratificações, que nossa sociedade insiste em manter, aqui são e continuarão a ser quebradas! Pois não abaixamos a cabeça, não deixamos os outros dizerem o que devemos ou podemos ser!

Além disso, a Gestão Maracatu Atômico e muitos/as dos que tocam a pauta de opressões na Faculdade de Direito são publicamente conhecidos/as. Não nos escondemos, mostramos nossas opiniões e disputamos sim os espaços. Com isso, queremos que o duelo semântico saia dos muros ou das opiniões de corredor. Estamos aqui, dispostos a disputar discursivamente e confrontar visões de mundo. Não temos medo, pois nossas vontades, liberdades e desejos não cabem em arenas invisíveis e na pseudosatisfação de viver escondido/a. Saímos dos nossos armários para NUNCA mais voltar! Pois o mundo é e deve ser sempre de todas/os!

Que continuem nos ofendendo nas paredes, pois continuaremos escrevendo e colorindo por cima! Que continuem arrancado e jogando fora as bandeiras, pois outras bandeiras virão até o dia em que ser gay, lésbica, negro ou mulher não ofender ninguém, até o dia em que bandeiras não forem mais necessárias! Que continuem negando nossa existência, pois continuaremos a existir independentemente e contra vossas vontades!

Como disse um de nossos professores na última Semana Jurídica, o vento da história veio e não há como mudar o inevitável!

Os nossos sonhos hão de continuar perturbando sonos!

Não passarão! Não nos calarão! Jamais!

Centro Acadêmico de Direito da Universidade de Brasília, Gestão Maracatu Atômico