Na última Revista da Cultura saiu um texto interessante sobre a polêmica que envolve a vida de autores literários com suas obras. Muitas vezes um grande escritor foi também um defensor do antissemitismo ou de regimes totalitaristas como o nazismo ou o stalinismo. Então, a pergunta que vem é: a obra está acima do homem? (Até porque, curiosamente, não há nenhuma escritora citada na matéria). Sabemos que o ser humano é provavelmente a criatura que mais fale besteiras em todo reino animal. É possível perdoar um ganhador do Nobel que afirma com todas as letras que nenhuma mulher está à altura da sua literatura? Nem mesmo nossas roupas estão à nossa altura. Saindo do campo da literatura, é possível perdoar Lars Von Trier e suas péssimas declarações pró-Hitler durante o Festival de Cannes? Dentre os escritores citados na matéria muitos parecem ter se alinhado a ideais políticos de suas épocas, corroborando um contexto histórico. Porém, atualmente, até que ponto declarações machistas e preconceituosas são usadas simplesmente para causar um burburinho? O politicamente incorreto parece mesmo ser apenas o consolo do prisioneiro.
Mas até que ponto vida e obra podem se cruzar sem que haja dano ao escritor, tanto em relação a aspectos estritamente literários – de forma e conteúdo –, quanto à imagem futura que ele terá perante a História? E em que medida pode utilizar a escrita para defender suas ideias pessoais? E como fazê-lo sem que a literatura dê lugar ao panfleto?
“A crítica que vale à pena sabe que não se deve avaliar uma coisa pela outra, a obra pela vida ou a vida pela obra, mas o caso é que há uma tendência, no romance, de fazer o que alguns já chamam de autoficção. Quer dizer, ficção escrita sobre a matéria real, sobre a experiência diretamente vivida pelo autor, borrando os limites entre uma coisa e outra”, diz o crítico e escritor Luís Augusto Fischer, autor de Machado e Borges – e outros ensaios sobre Machado de Assis.
O escritor carioca, para além de toda sua genialidade, ainda recebe críticas a respeito de seu não envolvimento com questões políticas de sua época, a mais importante delas relacionada à luta abolicionista. Maior escritor de seu tempo, Machado de Assis foi acusado de não usar o peso de seu nome para militar contra a escravidão, mesmo sendo mulato.
Para Miguel Sanches, “um escritor que admiramos é como a pessoa que amamos – perdoamos nela todos os defeitos”. É mais ou menos assim que Luis Augusto Fischer pensa, hoje, sobre a relação que Nelson Rodrigues, nosso maior dramaturgo, teve com a ditadura militar.
“Nos piores anos da ditadura militar brasileira, Nelson tomava a palavra para enaltecer uma figura como Médici, que, hoje se sabe sem margem a dúvidas, era a encarnação do poder discricionário, que torturava e matava. Mas passa o tempo e o leitor avalia que tal traço, abominável na época e agora, acaba cedendo lugar ao reconhecimento do valor de sua crônica como um sensacional retrato de época”.
Ainda assim, mesmo com tantos desencontros entre vida e obra, Fischer acredita que as criações artísticas têm mais chance de sobreviver. “O tempo pode ter a virtude de amenizar as circunstâncias e deixar em evidência a arte produzida por gente que não vale à pena”, diz sobre as declarações do escritor V.S. Naipul, vencedor do Nobel de Literatura, que afirmou que nenhuma mulher está à altura de sua literatura. Continue lendo em Palavras que não se escrevem de Luiz Rebinski.
Na matéria fala-se sobre a omissão de Machado de Assis em relação à luta abolicionista, nesse caso acho que há um certo exagero, pois por mais que a pessoa tenha fama é bem complicado obrigá-la a agir politicamente. Há também o caso dos romances de Jorge Amado que retratam um Brasil estereotipado. E há Nelson Rodrigues. Sei que ele tem uma literatura bem machista em alguns pontos, com muitas mulheres histéricas e aquela declaração ridícula de que mulher gosta de apanhar, além de tudo ainda apoiou a ditadura brasileira. Então, como fica? Li vários de seus textos quando adolescente e a série “A vida como ela é” é saborosa para pensar sobre o comportamento privado da sociedade brasileira, especialmente a classe média. Gosto muito de seus textos e não concordo com seus ideais, mas é fato que não o condenaria ao ostracismo. A libido e infidelidade feminina sempre estiveram presentes em seus escritos e, até hoje, sua obra tem um caráter transgressor por isso. O pensamento machista de Nelson estava bem alinhado a cultura urbana brasileira da época. Não o eximo da crítica, fundamental para questionarmos o preconceito, mas acho que faz bem as mulheres lerem seus textos que confrontam muitas vezes nossos moralismos. A seguir, destaco trechos de um artigo sobre relações de gênero nos anos 50, a partir da literatura de Nelson Rodrigues:
Justamente porque a infidelidade feminina pertencia, nesse período, à esfera da vergonha, do tabu e da polêmica, as histórias de “A vida como ela é…”, que davam publicidade ao assunto, apresentam muitos elementos que nos permitem analisar os significados atribuídos ao feminino, ao masculino e às relações amorosas naquela época.
Dessa forma, a análise aqui proposta leva em consideração que as imagens do feminino, do masculino, do casamento e do amor nos contos de Nelson Rodrigues não se reduzem à mera expressão de significados sociais, como se fossem espelho da sociedade, mas acontecem como uma prática e devem ser entendidos no exercício específico da sua leitura, demandando enunciados que os precedem, mas que também os seguem, que são conseqüências por eles ocasionadas.
A mulher ideal era definida a partir dos papéis femininos tradicionais – ocupações domésticas e cuidado dos filhos e do marido – e das características consideradas próprias da feminilidade, como instinto materno, pureza, resignação, doçura e castidade. Por outro lado, as marcas que caracterizavam o ideal de masculinidade eram a iniciativa, o trabalho, a força, a agressividade e o espírito de aventura. Embora nem todas as pessoas correspondessem aos modelos, eles serviam de base para avaliar os comportamentos, delineando o que era adequado para o homem e para a mulher.
O grande fio de atração de leitores por essas histórias era, principalmente, a forma como o autor abordava as tensões que envolviam a presença das mulheres no espaço público. Difícil de ser controlado no cotidiano das grandes cidades, o comportamento das mulheres tornara-se uma questão de confiança na honradez e no autocontrole. Na década de 1950, a tensão que existia sobre controle da sexualidade feminina estava associada ao incipiente trabalho fora de casa (no meio urbano) das mulheres da classe média, a seu progressivo avanço educacional, aos modernos namoros longe dos pais e às possibilidades de encontros furtivos que as cidades proporcionavam.
No imaginário social, existiam as mulheres “sérias”, que se comportavam de acordo com as normas, isto é, mantinham-se virgens até o casamento e fiéis aos maridos após o casamento; e aquelas que não eram sérias, as “levianas” e as adúlteras – mulheres que transgrediam as normas e enganavam os homens. Os comportamentos desviantes colocavam em dúvida o poder e a dominação masculina, de forma que as mulheres transgressoras precisavam arcar com a recriminação e a estereotipagem social. Na teoria, a divisão era simples, mas na prática, como saber se uma mulher era “séria” ou não? Daí a tensão que havia a respeito da confiabilidade de uma mulher.
Podemos concluir, então, que era justamente a dúvida colocada pelos contos sobre a virtude ou não das mulheres (casadas, noivas ou namoradas) que impulsionava o sucesso de “A vida como ela é…”. O autor recorria a um tema que palpitava naquela época; a modernização e as mudanças de comportamento decorrentes da vida urbana incitavam a uma desconfiança permanente sobre as mulheres. A fidelidade feminina estava diretamente relacionada à honra da família e, assim, à masculinidade do marido. Nesse sentido, a dúvida sobre a fidelidade ou não das esposas era uma preocupação constante. Nesse período, a infidelidade masculina não era condenada, recomendando-se às esposas que compreendessem esse instinto natural, essencialmente masculino, que levava à poligamia (Bassanezi, 1996:236). A infidelidade feminina, por sua vez, era inaceitável.
Se no discurso hegemônico da Igreja e do Estado as mulheres deveriam ser mantidas sob controle para a não degeneração da sociedade, a preocupação das pessoas era com a sua própria honra e com sua imagem perante os outros. Dessa forma, a relação das histórias de “A vida como ela é…” com a realidade não se baseava no fato da traição ou não das mulheres, mas na possibilidade dessas traições, que povoava a imaginação das pessoas, suscitando a leitura da coluna diária do jornal Última Hora.
O que deve ser enfatizado é a circulação das idéias a respeito das relações amorosas, o discurso implícito nesse conta e reconta de histórias, cujo mote central era o adultério feminino. Isso está diretamente implicado nas representações sociais das mulheres e dos homens, nos papéis sociais que deveriam cumprir e nas regras que regiam o comportamento sexual de ambos. Continue lendo em “A vida como ela é…”: imagens do casamento e do amor em Nelson Rodrigues de Beatriz Polidori Zechlinski.