Adolescência Brasileira no Cinema.

Nos próximos dias, respectivamente 16 e 23 de abril, estreiam nos cinemas 2 filmes que retratam adolescentes brasileiros: As Melhores Coisas do Mundo e Sonhos Roubados.

A adolescência é fervor. A urgência, a impaciência, a aventura, as primeiras vezes povoam cada poro espinhento. Pelo menos foi assim comigo. Hoje sinto falta de ver filmes sobre adolescentes porque, prestes a completar 29 anos, não consigo dialogar com eles. Quase não tenho contato com adolescentes. Qual a idade da adolescência hoje? 11, 13, 15, 17, 21? É preciso dialogar com os jovens, saber o que anda borbulhando por essas mentes que muitos julgam inférteis. A cabeça adolescente é uma fábrica sem fim de pensamentos e as gerações mudam, as tribos se multiplicam, a individualidade dos bandos continua exagerada. O que há nesse turbilhão? Por que parecem cada vez mais indomáveis? Penso que perdemos comunicação, perdemos as brechas de diálogo, as gerações se afastam cada vez mais num abismo inexplicável.

Na safra de filmes estrangeiros sempre houve alguns exemplos: Sociedade dos Poetas Mortos, Juno, American Pie, Aos Treze, Elefante, E Sua Mãe Também, Precious, Kids… E no Brasil? Quem é o adolescente brasileiro pobre, classe média ou rico? Num país com tantas contradições sociais é possível termos os mesmos sonhos e problemas na adolescência? Em quem o jovem da favela, a patricinha do Iguatemi, o revolucionário universitário, o surfista roqueiro vão votar nas eleições? Qual a graça de Gaiola das Popozudas, Justin Bieber, Crepúsculo, NX Zero? Não posso querer que o jovem venha conversar comigo sem que haja um diálogo, sem que eu conheça também um pouco do que ele gosta e vive. Consigo lembrar de Houve uma vez dois verões, Meu Tio Matou um Cara, Era uma vez e À Deriva. Filmes brasileiros que mostram um pouco como é ser adolescente brasileiro em diferentes cenários e diferentes épocas, mas acho que os próximos trazem mais.

As Melhores Coisas do Mundo corre para mostrar um jovem de classe média que divide seu cotidiano entre a família, a escola e os amigos. É também, o jovem que tem a internet como um terceiro braço de comunicação. Lais Bodanzky é diretora tarimbada, com ótimos filmes no currículo como Bicho de Sete Cabeças. Tem uma pegada sincera na sua direção e pelo trailer estou entusiasmada. Espero um filme pra cima, mas que também desvende um pouco daquela solidão de sermos um entre tantos, sem saber para onde ir. O filme é inspirado na série de livros Mano, escritos por Gilberto Dimenstein e Heloisa Prieto.

Sonhos Roubados é o novo filme de Sandra Werneck, que vem desde Meninas focando firme nas adolescentes brasileiras. Meninas, um documentário sobre adolescentes grávidas lidando precocemente com rupturas no cotidiano é sensacional. Sonhos Roubados tem tudo para ser também. Pelo que vejo no trailer, a diretora extrai delicadeza da crueza advinda da prostituição e da necessidade de sobrevivência de três adolescentes de classe baixa. A inspiração para Sonhos Roubados é o livro da jornalista Eliane Trindade, Meninas da Esquina, lançado em 2005, que agora ganha nova edição pela Record. O livro surgiu de uma série de diários feitos por 6 meninas de diferentes estados brasileiros. Dar voz a adolescentes já não é tão comum, dar voz a meninas adolescentes pobres é mais incomum ainda, por isso torna-se tão louvável as iniciativas de Eliane e Sandra. Espero me encantar com cada uma das meninas, sofrer com seus dramas íntimos e sentir as interrupções de seus sonhos por conta da dura realidade. E por fim ter alguma esperança, pois sem ela não há vida possível. Linda também é a música de Maria Gadú para o filme. “Quero o mundo, agora, sem demora. O que desejo ninguém vai roubar”.

Espero que esses filmes tragam elementos para que as pessoas apurem seus sentidos sobre os adolescentes. Faltam políticas públicas específicas para eles, falta diálogo, espaço, apoio, um porto seguro onde possam resvalar seus sentimentos. São inconsequentes, amigos, preguiçosos, ardorosos, revolucionários, consumidores, desligados, desbocados e moralistas. E é preciso travar diálogos, reconhecê-los no que fui, conhecê-los no que não sei. É claro que quero mais, quero ver filmes sobre jovens transsexuais, sobre lésbicas adolescentes, sobre jovens feministas, sobre bissexuais, emos, roqueiros, neo-punks e tudo mais.  E não posso esquecer de citar um outro filme que estreou em circuito pequeno e que também dizem ser muito bom:  Os Famosos e Os Duendes da Morte. É o cinema brasileiro estourando suas espinhas. “Não é impossível ser feliz depois que a gente cresce. Só é mais complicado”.