O Feminismo & Eu.

Girls can wear jeans
And cut their hair short
Wear shirts and boots
‘Cause it’s OK to be a boy
But for a boy to look like a girl is degrading
‘Cause you think that being a girl is degrading
But secretly you’d love to know what it’s like
Wouldn’t you?
What it feels like for a girl

Fui criada por muitas mulheres. Mãe, avós, tias, todas bem sucedidas, todas com muita liberdade para ir e vir.  Tive liberdade, não fui obrigada a casar e nem ter filhos, pude construir minha vida do jeito que quisesse. Meu único dever para essas mulheres era ser independente. Acabou que cresci um pouco no mundo de Bobby acreditando que todo mundo era feminista, porque: “Oi? Por que alguém não seria feminista? Um movimento fantástico que quer a emancipação feminina?” Além da minha vida extremamente libertária, eu não era uma pessoa politizada, alguém que se interessasse por analisar os problemas sociais e tentar descobrir as nuances dos processos de dominação forjados no nosso dia a dia. Até que em 2003, entrei na faculdade de Pedagogia na UnB, me deparei com Paulo Freire e minha percepção de mundo deu um giro de 180°. Foi aí que realmente enxerguei como a sociedade se estruturava. Eu usufruia de todas as benesses do movimento feminista e não conseguia ver que a empregada da minha tia era desrespeitada numa delegacia onde ia prestar queixa de estupro, que há várias maneiras de ignorar as mulheres, que só a mulher rica tem direito a escolher abortar ou não com procedimentos seguros, que não há muitas mulheres senadoras, deputadas, ministras ou presidentes, que há mulheres que recebem salários menores apenas por serem mulheres, que crimes contra mulheres permanecem impunes.

Porém, eu ainda não sabia que a palavra feminista era um palavrão. Uma designação fuleira da mulher barbada que só sabe reclamar que tudo é sexismo e cospe na cara dos homens. Em 2008 publiquei o post Girl Power! Muito do meu feminismo era estimulado pelas músicas da Madonna, por filmes que focam as mulheres como grandes heroínas de suas próprias vidas, além de personalidades femininas como Frida Kahlo. O mundo sempre teve grandes mulheres, mas elas também sempre foram mal vistas socialmente por causa de suas atitudes. Esse post de 2008 era um momento que eu refletia sobre minha construção pessoal como mulher e descobria que dentre as pessoas que foram responsáveis pela minha trajetória estão mulheres públicas.

Também em 2008, aconteceu o primeiro Luluzinha Camp em que conheci várias mulheres, mas uma foi muito especial, a Cynthia Semiramis, por meio do blog dela conheci várias outras feministas. Foi nessa época que descobri que ser feminista é algo terrível, e me surpreendi mais ainda ao saber que amigas que eu considerava feministas tinham horror a essa palavra. Daí encasquetei e fui estudar para descobrir mais. Perguntei a 15 amigas se elas eram feministas, obtive 10 respostas e nenhuma delas disse ser feminista. A maioria disse que prefere ser feminina, que o feminismo não é mais tão necessário e que sempre que lê a palavra “feminista” pensa em mulheres rasgando sutiãs e querendo ser igual aos homens. E algumas reclamaram que por culpa do feminismo as mulheres hoje carregam muito mais tarefas e responsabilidades do que antes. Parar para pensar que a divisão de tarefas justa entre os sexos nunca aconteceu não parece ser o problema, as feministas lutarem para mulher entrar no mercado de trabalho, sim.

Também me joguei na literatura do movimento: Simone de Beauvoir, Gloria Steinem, Naomi Wolf e outras. Enxergava o feminismo por meio de lentes opacas e sujas que a mídia me passava, mas nunca enxerguei as mulheres feministas por meio de seus clichês, nem nunca achei que me rotular como feminista fosse algo ruim. Sou tão grata a todas as mulheres que lutaram pela liberdade que tenho hoje que não concebo ignorá-las, tratá-las como loucas que só querem pisar nos homens. Em qualquer posição que tomo posso ter direito de mudar de opinião, de errar, até de ser contraditória. E pagarei por isso, pois as pessoas estão sempre prontas a apontar o dedo para nossas contradições.

Ser feminista para mim nunca significou ser igual a um homem. Acho que a sociedade é formada por homens, mulheres, crianças, natureza, cosmos e tantas coisas. Acho também que homens e mulheres têm diferenças biológicas e culturais. Boas e ruins. Adoro ser mimada pelos homens ao meu redor, adoro que não me deixem carregar alguma coisa pesada e não faço a minima idéia de como se troca um pneu, mas nem por isso me considero menos feminista. E quando digo que sou feminista não estou dizendo que luto apenas por salários iguais e pelo fim da violência, mas luto também para que pais não desestimulem sua filha que quer ser engenheira espacial, luto para que a Geyse Arruda não seja expulsa da faculdade por usar vestido curto e para que Tessália possa praticar sua sexualidade embaixo do edredon com liberdade.  E para que uma jovem seja valorizada por seu papel num evento e não por seus atributos físicos. Luto para que todas as mulheres tenham voz numa sociedade que prefere vê-las castas, lutando contra o envelhecimento para não perder o marido ou de costas num outdoor.

Veja bem, é claro que existem pessoas boas e ruins, não vou defender todas as mulheres sempre, mas vou defender a mulher que decide fazer um aborto, a que quer ser prostituta ou a atriz pornô. Mas também vou discutir toda e qualquer situação, vou assistir novela e participar do debate sobre a representação da sociedade. E esse debate precisa incluir todo mundo, homem, mulher, negro, negra, branca, branco, índio, índia, rico, pobre, portadores de necessidades especiais, etc. O meu principal dever como feminista é trazer o debate à tona, é não deixar esquecida a pena por agressão do Dado Dolabella. É propor um debate político sério, pois pela primeira vez temos 2 mulheres candidatas a Presidência da República na mesma eleição. Minha atuação como feminista também é lutar por mais creches públicas e educação de qualidade para formação de um mundo mais igualitário. E também é prestar atenção diariamente nos pequenos preconceitos que mascaram anos de machismo social. É dizer pro meu pai que ele não pode xingar de vagabunda a atriz global que posa na playboy, é dizer pro meu irmão que ele tem que respeitar se a namorada dele não quer trepar com ele naquele dia, é dizer pro meu amigo que ele é tão responsável por uma gravidez indesejada quanto a menina com quem ele trepou, é dizer pra minha amiga que ela não pode continuar num relacionamento em que ela não é respeitada. E no meu caso, também é casar com um homem que me ame, me respeite e entenda o quanto é importante para mim ser feminista.

Há vários motivos para você achar que sou uma feminista de meia-tigela. Gosto de funk, volta e meia caio na risada com as amigas cantando: “Por que agora eu sou piranha e ninguém vai me segurar”.  Uso roupas  detonadas num dia e ando toda bibêlo no outro, Sex And The City é um dos meus seriados favoritos e gosto de cuidar do meu marido. Apoio o Piriguete Pride e o Trucker Pride. Porque ser feminista para mim não significa ser homem, e também não é o contrário do machismo, significa essencialmente liberdade. Liberdade de cada mulher ser a mulher que quiser, mas consciente de sua representatividade, sempre repensando seu papel, sempre pronta a mudar de opinião, sempre pronta a identificar quando uma situação não lhe faz bem. Não acredite em estereótipos, não vire as costas para a feminista que você considera radical. Aquela mulher que queimou ou não sutiã no passado, protestando por um mundo mais justo é parte de mim hoje.  Está viva em cada escolha que faço. Não preciso ser como ela, não preciso ter as mesmas atitudes, mas não posso negar sua importância, seu significado e sua revolução que ainda não terminou. Porque, como disse a Maria Frô, sexismo emburrece e mata.

Este post já vinha sendo pensado há muito tempo, mas foi feito especialmente para o Concurso de Blogueiras organizado pela Lola.

Outros posts bacanas de mulheres queridas sobre a origem de seu feminismo:

Princesas, Roses, Simones e Malus.

Feminismo, ateísmo e outros “ismos”

Eu, feminista

Feira de Links #4

1. “Baby, você precisa saber da piscina, da margarina, da Carolina, da gasolina…”

 

Aborto Libre

Aborto Libre y gratuito. Fonte: Flickr, photo by isus

 

2. 1 em cada 5 mulheres já fez aborto no Brasil.

Neste domingo, o Fantástico veiculou uma reportagem denunciando clínicas que realizam abortos em Belém, Salvador e Rio de Janeiro.  A reportagem foca apenas em clínicas que atendem mulheres pobre, debocha da maneira como os funcionários tratam as pacientes e no fim consegue apenas provar a importância da legalização do aborto, num país onde o SUS têm que realizar milhões de procedimentos cirúrgicos decorrentes de abortos malfeitos. Porque ao que parece as mulheres ricas já legalizaram o aborto em clínicas particulares caras. O aborto é uma questão delicada para a imensa maioria das mulheres. Sempre existiu e sempre existirá. Porém, deve ser uma escolha de cada mulher. Por mais que existam métodos anticoncepcionais, algo pode dar errado e uma mulher pode se ver diante de uma situação de gravidez indesejada. E por que ela não pode decidir não ter esse filho? Por que ela não pode escolher realizar um aborto num local limpo e estruturado, com apoio psicológico? Muitas pessoas gritam que se o aborto for legalizado então todas o usarão como método anticoncepcional. Isso não é verdade. Sempre haverá pessoas que usam indiscriminadamente a pílula do dia seguinte ou métodos de interrupção da grvidez, mas com certeza não é a maioria. E outra coisa, as mulheres já fazem muitos abortos no Brasil, mesmo com o ato sendo crime. E você acha que uma mulher que não quer ter um filho é uma criminosa? Como diz a antropóloga na reportagem, a mulher que aborta é uma mulher comum, como qualquer outra, é tia, advogada, mãe, diarista, universitária. E a mulher deve ter direito sobre seu corpo. E se sua religião não aceita, não faça um aborto, mas não venha dizer que você sabe o que é melhor para todo mundo. Cada um sabe de sua vida e de suas escolhas.

3. Aborto no Fantástico: sensacionalismo e superficialidade.

“A responsabilidade por evitar uma gravidez indesejada é integralmente da mulher: é ela quem deve tomar pílulas anticoncepcionais; é ela quem tem dificuldade de negociar com seu parceiro o uso da camisinha; são dela todos os ônus de eventuais falhas de métodos contraceptivos; é dela a vida que mais muda com o nascimento de uma criança, muitas vezes, sem pai. Apenas uma coisa não é dela: o direito de escolher levar a cabo ou não uma gravidez. A matéria também não falou disso.”

4. Aborto: em defesa de qual vida?

“A criminalização do aborto não evita o aborto, mas tão somente obriga a mulher a realizá-lo na clandestinidade. A discussão sobre a descriminalização do aborto não é uma discussão sobre o direito ou não de a gestante abortar, mas sobre o direito ou não de a gestante ter auxílio médico para abortar. Com a descriminalização, os abortos continuarão a ser praticados, tal como hoje o são, mas a mortalidade materna será substancialmente reduzida.”

5. Mulheres que optam por não ter filhos são alvo de pressão social

Porque se a mulher faz um aborto é criminosa, mas se decide não ter filhos é uma pessoa egoísta e sem coração. O papel da mulher na sociedade não pode vir atrelado apenas ao fato de ser mãe. Ter filhos ou não deveria ser uma escolha pessoal de mulheres e de homens. Dessa maneira talvez as pessoas tivessem uma visão melhor das responsabilidades.

6. Escravidão, questão de gênero.

Gulnara Shahinian é relatora da ONU sobre Formas Contemporâneas de Trabalho Escravo  e busca chamar atenção do Conselho de Direitos Humanos para a exploração do trabalho doméstico feminino. Uma atividade que sempre foi vista como um dever da mulher pode muitas vezes acobertar a escravidão. Afinal, se é um serviço que as mulheres devem fazer, por que deveríamos pagar a elas?

08 de Março – Ações no DF.

08 de março para mim não é o Dia da Mulher que recebe flores na porta do mercado, que ganha cartões coloridos do

100 anos de Luta!

100 anos de Luta!

chefe na empresa e nem da mulher que ganha um beijo especial de alguém só porque é Dia da Mulher. Dia 08 de março é o dia de Luta pelos Direitos das Mulheres. É o Dia de mostrar resultados e promover ações que mostrem o que mudou e o que não mudou. Em Brasília e pelo Distrito Federal acontecerão vários eventos esse mês, participe, informe-se, fale e movimente-se para acabar com as injustiças.

100 anos de Luta Feminista: E mais mil anos se for preciso!

08/03 – O Cfemea – Centro Feminista de Estudos e Assessoria, comemora o 08 de março com o lançamento do novo site: www.cfemea.org.br

08/03Seminário Lei Maria da Penha, Oficinas de Artesanato e debates da conjuntura Política no DF – Programação: 09 às 18 Horas – Promoção: Meninas do Setor O, Taguatinga Sul– Local Areal.

08/03Vigília pelo Fim da Violência contra as Mulheres – Local : em frente ao STJ. Concentração a partir das 16:00 horas  para  Oficina  de confecção de faixas e cartazes. Iremos vestidas de Preto e levaremos velas. Promoção: FMDF – Fórum de Mulheres do Distrito Federal.

08 e 09/03 – Encontro de Articulação dos Direitos das Mulheres Indígenas – Local : Memorial dos povos indigenas – 09 às 18 Horas.

09/03Sessão Solene 08 de Março – Coordenação: Bancada Feminina no Congresso Nacional – Local : Plenário do Senado Federal – 10 Horas .

11/03 – Palestra: O novo direito da mulher, com a Dra. Luiza Nagib Eluf, às 19h, no IESB, L2 609 norte, Auditório Benedito Coutinho
Entrada Franca.

18 a 21/03Mostra de Cinema Espaço Feminino – Local : Instituto Cervantes (España), SEPS 707/907 – Lote D, Asa Sul  , Contato : Tel.:  61- 3242 0603.

19/03IV Seminário Nacional  Viver Mulher – Local : San Marco Hotel SHS Q. 05 – Bloco C  – Realização : CONTRATHUR – informações : (61) 3322-6884.

20/03Encontro Regional de Mulheres Trabalhadoras. A atividade acontecerá de 9 às 18h, na sede do SINPRO/DF (SIG, Quadra 6, Lote 2260, Brasília – DF).

20/03 – Instalação do Fórum de Mulheres da Vila Planalto – palestra sobre violência Doméstica e oficinas diversas – Local : Centro de Ensino 01 da Vila Planalto – 09 às 18 Horas.

21/03 – Dia Mundial Contra a Discriminação Racial.

21/03 – Apresentação do Grupo Teatral Professora Zilda Dias. Tema: Você tem preconceito? Por quê? Realização: Rede Social Da Ceilândia. Local: Foier do Teatro Nacional -  19 horas.

23/03 – Lançamento da Exposição Mulheres entre luzes e sombras -  Realização: IPAS Brasil  – Local: Câmara dos Deputados  – 15h.

23/03 – Debate Mulheres e Direitos Humanos: entre luzes e sombras – Objetivo: Debater o Plano Nacional de Direitos Humanos sob o olhar das mulheres e as perspectivas para o alcance da igualdade de gênero. Realização: Bancada Feminina do Congresso Nacional, IPAS Brasil e Cfemea. Local: Comissão de Direitos Humanos (a confirmar) – Abertura às 15 Horas.

30/03Palestra violência contra a Mulher. Local: Auditório Hospital regional de Santa Maria. Horário: 14 às 15:00h.

Se souber de mais eventos aqui no DF é só informar nos comentários que atualizo o post.