Feminismo? Pergunte-me como.

O que é fundamental saber sobre feminismo?

“O feminismo é um movimento pacífico, que nunca matou ninguém, enquanto o machismo mata todos os dias”.

O Marcos deixou essa frase, e um textinho bem bacana Agressives Nous?, em um comentário do último post. Acredito que a frase resume muito bem a diferença entre feminismo e machismo. Duas palavras que não são antônimos, mas antagônicas. Então, antes de acusar as feministas de serem agressivas, mal amadas, chatas e inúteis, pense porque o discurso feminista incomoda tanto. Pergunte-se: quem é o inimigo? Quem é você? A quem interessa que as mulheres vivam sempre na sombra?

 

Fonte: The Big Picture (AP Photo/Intelligencer Journal, Marty Heisey). Clique na foto para ver a galeria.

O título desse post foi uma sugestão da Cintia Barenho.

A quem interessa comparar feministas a nazistas?

Dentro de um movimento social, ou mesmo dentro de pequenos grupos sociais organizados, é possível encontrar grupos ou pessoas com características mais radicais. Na maioria das vezes o termo “radical”, no sentido filosófico, é usado para definir grupos que optam pelo uso de ações extremas, por exemplo, violência física ou verbal, para gerar transformações sociais. Porém, o termo “radicais” pode possuir infinitas interpretações. No caso do feminismo as pessoas gostam de definir como radicais as mulheres que queimam sutiãs em praça pública (você já viu alguma?), as que são incisivamente a favor da legalização do aborto, as que afirmam que o casamento é uma instituição social de aprisionamento da mulher e até as que defendem uma reforma  de gênero na língua portuguesa. Porém, há pessoas que afirmam existir um tipo de feminista que quer a extinção dos homens e para compará-las aos nazistas deram-lhe a alcunha absurda de feminazi.

Essa é uma feminazi? E tem que usar roupa de homem, né?

Você conhece alguma mulher feminista que prega um mundo em que os homens iriam para campos de concentração e depois exterminados? É até possível que alguém tenha essas idéias, um dia Hitler e várias pessoas a tiveram, porém, o movimento feminista não prega o extermínio de pessoas. O movimento feminista prega a igualdade de gênero e o fim do machismo. E ao se falar de igualdade não significa que mulheres querem ser homens, nem que queremos mijar em pé, significa que  mulheres e  homens devem ter os mesmos direitos e deveres na sociedade. Isso inclui desde equalização nos salários, até licença maternidade e paternidade compartilhada, passando por diversas outras questões como a violência doméstica. O movimento feminista é constituído por um discurso social, político e filosófico que tem como base os direitos iguais de gênero e a proteção legal às mulheres. O feminismo contempla não só o âmbito coletivo, como também o âmbito privado das relações humanas, pois o machismo está presente culturalmente na sociedade.

Então, a quem interessa comparar feministas a nazistas? A quem interessa grudar no movimento feminista uma etiqueta que representa supremacia de um gênero sobre o outro, totalitarismo e extremo racismo? Ao se utilizar o termo feminazi definem-se características perversas não apenas para uma feminista, mas para todo o movimento, pois, note que ninguém nunca sabe apontar uma feminista nazista radical, sabem apenas que elas representam grande parte do movimento e são uma grande ameaça a nossas crianças, pois os meninos crescerão afeminados e todas as meninas serão lésbicas. Não é mesmo? Um conjunto de informações erradas que de tanto repetidas na mídia e pelas pessoas se tornam verdades.

Quem se utiliza do termo feminazi quer principalmente desqualificar o movimento feminista, suas conquistas e sua voz. Quer reproduzir idéias estereotipadas, tacanhas e falsas que ajudam a definir o feminismo como um clichê em que mulheres raivosas lutam para tomar o lugar dos homens. Além de se utilizar do direito de definir um movimento do qual não faz parte, justamente para empobrecer sua causa. O que podemos concluir, ao ler o que as pessoas que usam o termo feminazi dizem, é: “Aceito que você seja feminista, desde que não seja uma feminazi, mas quem vai determinar se você é ou não uma feminazi sou eu.” Então, além de desqualificar um movimento social e suas participantes, a pessoa também se sente no direito de definir os critérios para classificar quem é radical e quem não é. Quem utiliza e dissemina o termo feminazi não está qualificando uma pessoa, na verdade está desqualificando todo o movimento feminista e banalizando o nazismo.

Veja bem, existem muitas pessoas chatas no mundo, gente que xinga muito no twitter e etc. Você pode simplesmente achá-la chata, não? Eu não gostava do Plínio de Arruda Sampaio nos debates eleitorais, achava-o chato e implicante, não vi contribuição para a discussão, só fazia atacar e atacar. Poderia definí-lo como um socialista radical chato. Isso me basta, pois reconheço o direito que ele tem de ser assim e a validade de suas idéias. Tanto no socialismo como no feminismo há bandeiras e causas que você pode concordar ou não. Porém, em nenhum momento cunhei o termo nazi-socialista para ele, em nenhum momento espalhei e preguei que ele quer o extermínio das pessoas neoliberais deste país. Então, para que cunhar e disseminar um termo como feminazi? A quem interessa desqualificar todo um movimento e não apenas chamar uma pessoa de chata? Os movimentos sociais reivindicam mudanças sociais por meio de expressões políticas, sociais e filosóficas. A quem interessa não discutir propostas de mudanças sociais?

Isso é uma feminazi? E tem que ser peluda também, né?

A quem interessa afirmar que não há racismo no Brasil? Que há igualdade para todos, basta a pessoa correr atrás? A quem interessa dizer que você pode ser gay, mas só se usar roupas de homem e se comportar como macho? A quem interessa espalhar as idéias de que negros, mulheres e gays querem ganhar privilégios e que os homens brancos e héteros estão ameaçados? A quem interessa dizer que se homofobia virar crime a liberdade de expressão estará ameaçada? A quem interessa dizer que todas as feministas são radicais e violentas e dar provas disso usando tuitadas em que a pessoa fala palavrões? A quem interessa afirmar que qualquer opinião contrária é patrulhamento?

Nenhum movimento social é homogêneo. Ninguém é uma pessoa 100% justa e correta só por fazer parte de um movimento social. Dentro do movimento feminista há diversas opiniões divergentes sobre pornografia, prostituição, licença-maternidade, casamento, economia, política, etc. Porém, há pontos de união, há a luta contra o machismo que prejudica não só a mulher, como também o homem. A identidade de um movimento está em suas ações e não na particularidade de suas participantes. Porém, quando não se tem mais argumentos, a solução para desqualificar um movimento é compará-lo a algo extremamente desumano como o nazismo. Quem faz questão de usar e disseminar um termo como feminazi ajuda na expansão do conservadorismo e na extinção das novas idéias sociais. Contribui para a falta de diálogo e para a renovação do machismo na sociedade.

O feminismo é um movimento que encontra-se muitas vezes isolado, sem o apoio de grupos de direita e esquerda,  não pelo “radicalismo” de suas participantes, mas justamente pelo preconceito, pelas idéias deturpadas, pela falta de visão quando se fala de representatividade para mulheres, pela falta de educação e de um conhecimento maior do que seja feminismo. É fato que mesmo na internet as feministas parecem falar para elas mesmas e por mais que perteçam a grupos de blogueir@s suas reivindicações não ganham peso, pois a maioria não faz questão de que exista representatividade, acham que há questões mais importantes a serem tratadas. O feminismo, assim como o movimento LGBT e o movimento negro, deveria ser uma luta de todos na sociedade, pois pregam justamente o fim das desigualdades sociais, são movimentos pautados nos direitos humanos. Todos somos cidadãos, mas não somos vistos e tratados da mesma forma. A quem interessa isso?

Dia 25: Pelo Fim da Violência Contra a Mulher. O que podemos fazer?

 

Fonte: APAV - Apoio a vítima. Para acessar o site clique na foto.

Você já deve conhecer os números, saber de todos os dados, estar cansad@ de ouvir sobre mulheres mortas por ex-maridos, ex-namorados, violentadas por parentes. Abandonadas a própria sorte após terem feito um aborto. Essas mulheres estão todos os dias vivendo, ou tentando viver, no mundo inteiro.

As mulheres ainda não alcançaram a plenitude de sua liberdade. Ainda são vistas como objeto, como peça de decoração, como parte das posses de seus homens ou familiares. 25/11 é o Dia Latino-Americano e Caribenho de Luta contra a Violência à Mulher*. Pense em todas as mulheres que você já viu sofrerem, não apenas fisicamente, mas também psicologicamente. O que podemos fazer por elas? O que podemos fazer para que tantas meninas e mulheres não sofram com a violência diária dirigida especificamente a elas?

- O que podemos fazer pelas meninas que choram porque não tem um cabelo liso? O cabelo que está estampado em todos os comerciais como o único cabelo bonito. Podemos ensiná-las o lado bom das diferenças? Podemos ensinar a valorizar as características e singularidades de cada corpo humano?

- O que podemos fazer pelas mulheres que um dia foram estupradas e que ao saírem nas ruas ouvem galanteios, cantadas baratas e olhares lascivos sobre seu corpo? Seu corpo não a pertence? Não deveria ser respeitado? Porque um homem se sente no direito de nos molestar verbalmente na rua? Mas tantas mulheres acham isso ótimo, não é mesmo? Até que ponto quero ser valorizada por um comentário grosseiro? Não seria melhor receber mais elogios dos meus amigos, de pessoas que trabalham comigo? Ou não serei elogiada se não tiver o corpo perfeito?

- O que podemos fazer pela mulher que faz um aborto? O que podemos fazer por seu desespero ao colocar a própria vida em risco? Com tanta informação e métodos anticoncepcionais por que essa mulher ainda engravida sem querer? Por que as pessoas se sentem no direito de apontar o dedo e decidir sua vida? Por que a vida de um feto vale mais que a vida de uma mulher? Por que parece ser tão importante não deixar a mulher ter o poder de decidir sobre a procriação humana?

- O que podemos fazer pela mulher que foi abandonada pelo companheiro e que luta diariamente para cuidar de seus filhos? Podemos dar apoio e melhores condições de vida? Podemos não acreditar que ela foi abandonada por que não foi uma boa esposa? Podemos valorizar a mulher socialmente e por meio de políticas públicas?

- O que podemos fazer pela mulher que é espancada diariamente pelo marido e que diz: “Não sou feliz, mas tenho marido”. O que podemos fazer por sua auto-estima? O que podemos fazer para que ela acredita que uma mulher pode ser respeitada e valorizada sem ter um marido?

- O que podemos fazer pela mulher que foi com um vestido curto a faculdade e passou por um linchamento coletivo? Podemos não nos juntar a turba que a xinga por provocar a ira e a transgressão aos bons costumes? Podemos respeitar as mulheres independente dos estereótipos sociais criados? Podemos respeitar as mulheres que dançam funk, que posam nua nas revistas ou que servem de decoração em eventos?

- O que podemos fazer pela mulher que eleita presidente do país abre os jornais e só vê reportagens criticando sua aparência e seu modo de vestir? Podemos acreditar que as mulheres podem não seguir um padrão de beleza? Podemos acreditar que as mulheres podem envelhecer sem serem absurdamente criticadas por isso? Podemos acreditar na sabedoria das rugas? Podemos abandonar o ideal de que a juventude deve ser a busca de todos?

Violência contra a mulher não é só dar porrada. A violência está espalhada socialmente por homens e mulheres que acreditam que mulheres não são capazes, que devem manter seus papéis e padrões, que não merecem respeito. Fundamentalmente a maior violência contra a mulher é a falta de respeito, falta de respeito com suas decisões, com seus desejos e com seu corpo, apenas pelo fato de ser mulher.

*Definido no I Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe, realizado em 1981, em Bogotá, Colômbia, o 25 de Novembro é o Dia Internacional da Não-Violência contra a Mulher. A data foi escolhida para lembrar as irmãs Mirabal, Pátria, Minerva e Maria Teresa, assassinadas pela ditadura de Leônidas Trujillo na República Dominicana.

Este post faz parte da blogagem coletiva #FimDaViolênciaContraMulher