Sobre o BBB

Estou com o mesmo sentimento do post da Mary W.

Tem um filme que eu adoro chamado Ruth em Questão. Com a Laura Dern. E que mostra como a Ruth é esquecida em nome de uma causa. No caso, o aborto. Grupos pró e anti aborto tentam manipulá-la e transformá-la em símbolo etc. E ninguém pergunta o que ela quer. Enfim. Eu nem vou discorrer muito sobre os problemas que uma mulher que assume que foi abusada sofre. Porque eu parto do pressuposto que todo mundo já sabe. Mas eu acho que a gente nunca pode perder de vista que a Monique é uma PESSOA. E que ela decide o que fazer. Lutamos pelas causas todas e continuaremos lutando, companheiras. Mas o fundamental é que a palavra dela prevaleça. Como eu já tinha dito. Eu não tenho saco pra explicar que estupro não é sexo. Porque tô velha mesmo. E deixo pras meninas esse rojão. E tanta gente fez isso de explicar. Não só que estupro não é sexo, mas que abuso também não pode. Que não é não. Que carícia sexual em pessoa desacordada é errado e ponto. E da parte que nos toca* deu tudo certo. Havia forte indício de que o caso seria ignorado. Não foi. Daí a gente não pode passar, acho. Ninguém consegue ler os pensamentos de ninguém. Nem decifrar alma. Nada disso. A Monique falou, tá falado. Eu penso que faço umas lutinhas aqui e ali. Mas mulheres maiores do que eu fizeram uma lutona. E deram isso aí pra gente. Nossa palavra vale. Não precisa de pai nem marido. A nível de militância? Vamos ficar batendo bumbo a respeito dessas coisas. Derrubando tabus. Discutindo questões. Pessoas não.

A Monique dizer que foi consensual, é uma questão dela. Falou, tá falado. Não vou inquirí-la, rebatê-la, questioná-la. Não cabe. Mas isso não invalida a pressão que as pessoas fizeram sobre a Globo. Não invalida o debate que foi feito sobre violência sexual e sexo consensual. Não invalida as conquistas femininas que temos. Pautamos a questão. Vale dizer também que o Daniel não é um crápula medonho. Muitos homens e mulheres agiriam da mesma maneira. Por isso é importante o debate, o respeito, a investigação da polícia, reportagem no Jornal Nacional e ver que o Bial teve que engolir toda aquela história de “o amor é lindo”. Não quero que Daniel vá para uma cadeia fétida ser enrrabado para ver o que é bom. Quero que ele e todas as pessoas repensem seus valores antes de falar que “c* de bêbado não tem dono”.

A luta feminista não existe para julgar o Daniel ou a Monique. É pelo respeito, pela não-violência e pela autonomia das pessoas que luto.

Participantes da Marcha das Vadias de São Paulo/2011. Foto de Paulo Toledo Piza/G1

Vestir-se de Mulher.

Sartre de Beauvoir

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Na verdade falo apenas da Simone de Beauvoir que escreveu O Segundo Sexo em 1949. Mas quem escreve uma obra dessa magnitude aos 41 anos precisa de outras credenciais? É nele onde se encontra o célebre princípio que nutre teoricamente ainda hoje o movimento feminista: “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Curiosamente, o desenvolvimento do enunciado é bem menos radical do que dá a entender a sua leitura descontextualizada, pois Beauvoir não está pretendendo que as mulheres não nascem fêmeas! Acho mesmo esse um dos pontos mais lúcidos do seu pensamento: ser mulher não é a mesma coisa que ser fêmea; da mesma maneira, aliás, que ser homem não é a mesma coisa que ser macho. Macho e fêmea são destinos biológicos; mulher e homem são construções históricas. O que hoje até parece uma banalidade, não o era então. Nesse sentido o livro de Simone é um desses que anunciam uma tese que, vindo posteriormente se incorporar ao senso comum – mesmo que um senso comum qualificado -, parece desprovido de novidade quando o lemos a partir de um patamar retrospectivo, esquecendo o quanto ele contribuiu para a construção desse mesmo patamar.

Com sua divisa célebre Beauvoir está afirmando que existe a fêmea como dado biológico, certo, mas o que é feito desse dado – que atribuições lhe são designadas, que costumes lhe são infligidos -, aí a responsabilidade já não cabe à biologia. Se de um lado só a mulher pode dar à luz e amamentar, de outro se abrem infinitas possibilidades diferentes no que diz respeito ao exercício da maternidade e à prática da amamentação – e será a história, a economia, a cultura etc. que se encarregarão de estabelecê-las. Como ela mesma diz, “Os dados biológicos são de uma extrema importância [...]. Mas o que recusamos é a idéia de que eles constituem para a mulher um destino fixo; eles não a condenam a conservar para sempre esse papel subordinado.” O texto de Beauvoir está cheio de observações argutas sobre detalhes aparentemente menores acerca da maneira como revestimos as diferenças entre os dois sexos: “Nada é menos natural do que vestir-se de mulher; sem dúvida o vestuário masculino é também artificial, mas é mais cômodo e mais simples, é feito para favorizar a ação em lugar de entravá-la” – lembre-se o leitor de que, à época em que o livro foi escrito, mulheres não usavam calças!… Assim, ela adverte: “Quando emprego palavras como mulher ou feminino, não me refiro evidentemente a nenhum arquétipo, a nenhuma essência imutável”; ao usar essas palavras, acrescenta, é preciso subentender: “no estado atual da educação e dos costumes.”

Mas esse estado atual, desde a mais remota antiguidade, foi sempre obra de homens. “Foram os homens que fizeram a Grécia, o Império Romano, a França e todas as nações; que descobriram a terra e inventaram todos os instrumentos para explorá-la, que a governaram e encheram-na de estátuas, de quadros e de livros.” Neste universo masculino, à mulher sempre coube o papel de apêndice – como está escrito no renitente mito da criação da primeira mulher a partir de uma costela do primeiro homem. Como, então, admirar-se de que ela própria se sinta inferior? Em determinado momento Beauvoir remete a uma deliciosa boutade de Bernard Shaw: “O americano branco relega o negro à condição de engraxate; e daí conclui que ele é bom apenas para engraxar sapatos”… Valendo-se da terminologia sartreana que ela usa abundantemente no livro, a mulher – como o negro numa sociedade racista, o judeu numa sociedade nazista – não tem uma vida autêntica; ela é um ser para-o-outro.

…Continue lendo este ótimo texto no blog Que cazzo é esse?!!

O feminismo não nega questões biológicas. Não afirma categoricamente que o homem é igual a mulher em absolutamente tudo. O absoluto não deixa espaço para nuances e possibilidades. O que se quer realmente é mostrar o quanto somos culturalmente presos aos papéis sociais de homem e mulher. Ao notar que o vestuário feminino não é feito para a ação, Beauvoir nota também o quanto a mulher é represada em seu corpo, nas maneiras de agir. O salto alto não é um inimigo, mas é limitador no sentido da ação, não é confortável, não permite correr, não possui o formato de nossos pés. Usá-lo não é prático, mas é bonito. Porém, a obrigação de usá-lo para caracterizar o feminino exclui a ação da mulher. A quem devem servir os pés das mulheres?

Dilma e Cristina.

É significativo que a primeira viagem internacional da Presidenta Dilma Roussef tenha sido para a Argentina. A América Latina já teve 11 mulheres no cargo de Presidenta. Destas, oito foram eleitas. Atualmente há três Presidentas na América Latina. No momento, Dilma junta-se a Cristina Kirchner na Argentina e Laura Chinchilla na Costa Rica.

Dilma Roussef e Cristina Kirchner. Fonte: Agência Brasil.

Ver Dilma e Cristina lado a lado é uma imagem extremamente positiva que representa mudanças num continente tão machista como a América Latina. São duas mulheres, que apesar de já terem provado que são extremamente competentes, sofrem constantemente com ataques, a maioria batendo no fato de que foram eleitas com o apoio fundamental de dois homens Ex-Presidentes e que, portanto, não passam de fantoches políticos. Tanto Cristina quanto Dilma provam a cada dia terem estilos próprios de administrar e liderar um país. Vê-las juntas transmite a esperança de que mais mulheres latino-americanas ingressem na carreira política. Nessa viagem, Dilma deu declarações importantes, em uma delas disse que “os problemas dos direitos humanos não devem ser vistos como restrito a um país ou uma região, essa é uma falácia. Direitos humanos, hoje, no mundo é algo que nós temos que olhar em nosso país e em todos os países”.

No governo de Cristina Kirchner a Argentina continua sofrendo consequências financeiras da crise que se agravou em 2001. Porém, muitas vitórias foram conquistadas no campo dos direitos humanos e civis.

O casamento homossexual, um direito civil básico e fundamental para o avanço da sociedade, foi aprovado em julho de 2010 pelo Senado. Com esse ato, a Argentina tornou-se o primeiro país latino-americano que concede aos gays e lésbicas todos os direitos legais, responsabilidades e proteções que contempla aos casais heterossexuais, como a possibilidade de herdar bens e a adoção conjunta de crianças. O Brasil precisa tomar a mesma atitude.

Infelizmente, o aborto ainda é crime na Argentina. Dessa maneira, a maioria dos abortos é realizada de maneira ilegal e muitas vezes em condições deploráveis, uma situação que se repete na maioria dos países da América Latina, cujas legislações são muito restritivas. Porém, em dezembro de 2010, pela primeira vez na história do Congresso da Argentina, a Câmara dos Deputados realizou uma audiência pública para discutir a situação do aborto no país. Um avanço com certeza, a expectativa é que as discussões retornem em março, mas é preciso sempre lembrar que o aborto ilegal é 300 vezes mais perigoso para a mulher que o aborto legal.

Porém, a maior vitória da Argentina no campo dos direitos humanos está no fato de que o país decidiu enfiar o dedo na ferida e escancarar sua ditadura militar, que durou de 1976 a 1983. No Brasil, a ordem é esconder, negar, dizer que não precisamos mais mexer com essa história. O passado que tem consequências atuais deve ficar esquecido na terra dos indigentes. Temos hoje milhares de jovens que durante a campanha política de 2010 não compreendiam porque a candidata a presidência militou e arriscou a própria vida contra a ditadura, o que é uma ditadura, ou se realmente tivemos uma, pois os registros e nossa educação sobre o período são nebulosos. Os presos políticos mortos e torturados existem e seus restos mortais não devem ser esquecidos.

Dilma Roussef no encontro com as Mães e Avós da Praça de Maio. Fonte: Agência Brasil.

O encontro de Dilma com as mães e avós da Praça de Maio é simbólico. Especialmente porque precisamos encarar as atrocidades de nosso passado. Talvez seja preciso até mesmo revisitar fatos como a Guerra do Paraguai, reescrever os livros de História. Mostrar que o Brasil é um país que tem coragem de assumir seus erros. Punir e condenar aqueles que torturaram e mataram em nome de uma ditadura perversa. Desenterrar os corpos que assombram nossa falta de consciência. A líder das mães, Hebe de Bonafini, destacou que Dilma e Cristina Kirchner “são mulheres revolucionárias que lutaram junto com nossos filhos e chegaram a presidentes”.

A viagem de Dilma a Argentina é importante por ter duas mulheres na mesa de negociação, por serem duas Presidentas de países latino-americanos e, porque a Argentina pode nos ensinar a lidar com nosso passado ditatorial e com nosso futuro na promoção dos direitos humanos e civis.

[+] A Niara de Oliveira (@NiDeOliveira71) organiza a Blogagem Coletiva – “Desarquivando o Brasil”,  pela abertura dos arquivos da ditadura militar brasileira e pela punição dos torturadores. A proposta de blogagem coletiva consiste em aderir a campanha produzindo um post inédito até o dia 10 de fevereiro e a divulgação utilizando a tag #DesarquivandoBR. Vale a pena ler, conhecer e participar. A democracia é construída todos os dias.