Hoje tem texto meu, em parceria com a queridíssima Luciana Borboleta, no Blogueiras Feministas: O Amor, esse romântico. Jogamos na panela um pouco de psicologia, algumas xícaras de psicanálise e acrescentamos dúvidas e inferências para questionar a idéia do amor romântico. Deixo aqui trechos de dois livros que usei no post para esticar o olhar sobre o assunto.
O Amor Romântico
Referência: JOHNSON, Robert A. We: a chave da psicologia do amor romântico. São Paulo: Mercuryo, 1997.
O amor romântico é o maior sistema energético dentro da psique ocidental. Na nossa cultura, é — mais ainda que a própria religião — a arena em que homens e mulheres tentam conseguir transcendência, plenitude, êxtase e sentido para vida. Como fenômeno de massa, o amor romântico é peculiar ao Ocidente. Estamos tão acostumados a conviver com as crenças e as suposições do amor romântico, que o consideramos como a única forma de “amor” que pode gerar casamento e relacionamentos verdadeiros. Achamos que o amor romântico é o único “verdadeiro amor”. O amor romântico não é apenas uma forma de “amor”, mas é todo um conjunto psicológico — uma combinação de ideais, crenças, atitudes e expectativas. Estas idéias, frequentemente contraditórias, coexistem no nosso inconsciente e, sem que percebamos, dominam nossos comportamentos e reações. Inconscientemente, predeterminamos como deve ser um relacionamento com outra pessoa, o que devemos sentir e mesmo o que devemos “lucrar com isso”.
O amor romântico não significa apenas amar alguém; significa “estar apaixonado”. Este é um fenômeno psicológico muito peculiar. Quando estamos “apaixonados”, acreditamos ter encontrado o verdadeiro sentido da vida revelado num outro ser humano. sentimos que finalmente nos completamos, que encontramos as partes que nos faltavam. A vida, de repente, parece ter atingido uma plenitude, uma vibração sobrehumana, que nos ergue acima do plano comum da existência. Para nós, estes são os sinais seguros do “amor verdadeiro”. Este conjunto psicológico inclui uma exigência inconsciente de que o nosso amante ou cônjuge nos alimente continuamente com esta sensação de êxtase e de emoção intensa. Apesar do êxtase que sentimos quando estamos “apaixonados”, passamos boa parte do nosso tempo com uma profunda sensação de solidão, alienação e frustração causada pela nossa incapacidade de construir relacionamentos afetuosos, baseados em compromissos. Culpamos geralmente os outros por nos terem falhado; não nos ocorre que talvez sejamos nós que precisemos modificar nossas próprias atitudes inconscientes — as expectativas que alimentamos e as exigências que impomos aos nossos relacionamentos e às demais pessoas. (Págs. 12 – 14)
As pessoas ficam tão exauridas com os ciclos e os becos sem saída do romance, que começam a se perguntar se realmente existe essa coisa chamada “amor”. Existe, mas algumas vezes precisamos promover profundas mudanças de atitudes antes de podermos descobrir o que é o amor e assim abrir um espaço para ele em nossa vida. Quando eu digo que “amo”, não sou eu quem ama; na realidade, é o Amor que age através de mim. O amor não é algo que eu faço, mas algo que eu sou, ele não é um fazer, é um estado de ser — uma ligação, uma construção de elos, com outros mortais. Uma identificação que simplesmente flui de dentro para fora, independentemente de minhas intenções ou de meu esforço. O amor existe independentemente de nossas opiniões sobre como ele deveria ser. Apesar das mentiras e do egoísmo que tentamos justificar em nome do “amor”, ainda assim ele mantém imutáveis suas características. Sua existência e sua natureza não dependem da nossa ilusão, de nossas opiniões ou de nossas fraudes. O amor não é o que a sociedade nos leva a esperar, não é aquilo que o nosso ego deseja, não é o palavreado piegas nem os êxtases exagerados que nos acostumamos a esperar dele. Acontece que o amor é, ele é aquilo que “eu sou”, e não o que o ego gostaria que ele fosse. (Págs. 253 – 254)

Imagem de dayglowill, no Flickr em CC
A Mulher e a Feminilidade
Referência: KEHL, Maria Rita. Deslocamentos do feminino: a mulher freudiana na passagem para a modernidade. Rio de Janeiro: Imago, 1998. (A Iara tem um texto bacana sobre esse livro: Leituras Feministas – Deslocamentos do Feminino)
Até aqui, entendo que a feminilidade é uma construção do discurso masculino à qual se espera que as mulheres correspondam, na posição que a psicanálise lacaniana designa como sendo a do “outro do discurso”. A participação das mulheres, no entanto, nem sempre é passiva — a sedução, por exemplo, um dos principais apanágios da feminilidade, exige uma dose considerável de atividade, ainda que frequentemente mascarada por atitudes de belle indifférence. Além disso, como veremos mais à frente, o ajuste das mulheres à feminilidade nunca é perfeito, e muito menos se dá sem conflito. A posição de “outro do discurso” parece impossível de se sustentar ao longo de uma vida.
Quando tentaram ocupar voluntariamente a posição de mantenedoras da ordem e da harmonia do lar, na retaguarda do campo de batalhas onde se define a vida social, as mulheres se inscreveram sob duas formas de alienação. A primeira, no sentido político: durante muitas décadas ainda, apesar do esforço e do desgaste de alguma poucas sufragistas que lutaram isoladas da grande massa das mulheres de seu tempo, as mulheres aceitaram “com uma passividade de ovelhas”, na expressão de Hubertine Auclert, manter-se distante das disputas de poder que definiriam seus próprios destinos. Em seu livro Subjection of Women, John Stuart Mill, um dos poucos homens considerados feministas no século XIX, assim como Condorcet o havia sido no século XVIII, chamou a atenção para esta forma de alienação feminina: sem acesso aos poder político, as mulheres não teriam meios de garantir os outros direitos fundamentais para se tornarem sujeitos de suas próprias histórias.
A segunda forma de alienação a que me refiro é subjetiva. Ao aceitar a posição do “outro do discurso” as mulheres renunciarem ao falo da fala, e durante quase todo o século XIX deixaram de participar do que Freud chamou “as grandes tarefas da cultura”, permanecendo socialmente invisíveis. Não se trata de negar a importância da maternidade, nem denegar que a organização da vida doméstica confira um grande poder às mulheres. Trata-se de apontar para o fracasso de uma posição subjetiva que não produz discurso, da qual só se espera que corresponda ao que já está designado no discurso do Outro. Se a mulher só produz filhos, só se produz como mãe — o que indica no mínimo, um repertório muito estreito de opções, além de produzir um impasse no plano de identificações. De fato, a mulher que não é mãe praticamente não existe como entidade civil, principalmente na primeira metade do século XIX. A afirmação lacaniana — “a mulher não existe” — ganha assim uma outra leitura, segundo a qual a mulher não existe para o inconsciente porque não inscreve sua experiência, sua fala, no campo simbólico.
Estabilidade e simplificação na distribuição dos papéis eram necessidades psicológicas dos indivíduos que precisavam fortalecer suas personalidades para travar as batalhas requeridas pelos negócios e pela vida pública; a daí a insistência na harmonia do lar, pelo qual a mulher deverá zelar sacrificando todos os componentes excessivos de sua “natureza”, caracterizada sobretudo pela sexualidade. Como vimos em Rousseau, o precursor do modelo familiar oitocentista, a sexualidade feminina teria aspectos ameaçadores para o homem, que deveriam ser reprimidos desde cedo pela educação para que ela pudesse, por um lado, estimular a virilidade masculina e por outro, desempenhar a contento os papéis de esposa e mães. Os defensores da sujeição feminina no século XIX continuaram os raciocínios de Rousseau e Kant, de que a mulher é um animal selvagem que é preciso domar com mão de ferro para que ela possa, pacificada, encarregar-se da paz doméstica. A domesticação das mulheres é responsável pela criação do mito do mistério feminino: de alguma forma, os homens pressentem a magnitude das forças que a educação recalcou nas mulheres em nome da redução da complexidade dos papéis que uma esposa/mãe tem de representar.(Págs. 81 – 85)