Estupro, no dos outros, é refresco.

Ontem o Metheoro me mandou uma entrevista com um famoso humorista macho engraçaralho. Entre algumas frases proferidas em seu “show de humor” estão:

“Toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia pra caralho.”

“Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade.”

“Homem que fez isso [estupro] não merece cadeia, merece um abraço.”

O estupro é uma das formas de violência mais cruéis. Não é apenas a violência física, como uma porrada ou um chute no rim, é também a violação do corpo, do privado, do íntimo, a submissão e humilhação. Há também graves consequências, físicas e psicológicas que podem resultar desse ato. Desde uma gravidez, passando pela contaminação por doenças sexualmente transmissíveis, até ferimentos graves na vagina e no reto.

Eu não fiz nada para merecer ser estuprada. Imagem de Steve Rhodes no Flickr, em CC.

A grande maioria das vítimas de estupro são mulheres. Em nossa sociedade é obrigação da mulher ser bonita. Se ela for feia não tem direito a nada, nem mesmo a uma trepada. Você não vê homens feios sendo chamados de dragão. Quando homens feios estão de mau humor ninguém diz que eles são pessoas mal comidas. Os padrões de beleza também são impostos aos homens, mas você não vê alguém dizendo: “Todo homem que eu vejo na rua reclamando que foi estuprado é feio pra caralho”. Dizer que mulher mereceu ser estuprada porque usava uma saia curta é justificativa para muita gente. Afinal, vivemos num mundo em que nos ensinam: “Não seja estuprada”. Ao invés de: “Não estupre”. Em nossa sociedade existe o conceito moral da mulher estuprável.

Acredito que as pessoas devem censurar certas piadas. Porém, a Renata Correa me mostrou que o humor pode falar de tudo, mas que ele só é realmente engraçado quando é criativo, quando cumpre sua função de destruir o senso comum. “A ofensa pela ofensa, pode causar espanto, surpresa, vergonha alheia, constrangimento. Mas chega a ser desqualificar o trabalho de humoristas realmente engraçados, chamar isso de humor. Pois isso aí não tá invertendo a lógica vigente. Isso aí não tá dando um nó, isso aí não tá sendo novo. Tá sendo velho. Conservador. Ultrapassado pra cacete. Nesse sentido, os bordões do Zorra Total estão anos luz a frente”.

Ofender mulher feia é chutar cachorro morto. Somos ofendidas todos os dias quando ligamos a tv e só vemos mulheres perfeitas. Acho que as propagandas de comércios locais são as únicas com mulheres comuns, que podem ser encontradas facilmente pelas ruas ou em nossas casas. Mulheres não podem ser feias e não podem envelhecer. Não há uma única mulher apresentadora de cabelo branco na tv, mas podemos citar rapidamente 4 apresentadores de telejornal homens, carecas/calvos, velhos e sérios. A maioria com uma apresentadora jovem, branca e sorridente dividindo a bancada. Há homens, apresentadores de telejornais, jovens, velhos, bonitos, feios, brancos, negros e até asiáticos. Não há pluralidade para mulheres. Há poucas chances de fugir dos padrões. Imagine qual nosso papel na maioria dos programas humorísticos: gostosa burra ou feia chata. Hilariante, não?

Concordo com o Laerte quando fala dos limites do humor: “Não, não tem que ter limites. O que a gente tem que ter também é uma crítica ilimitada. O humor tem que ser solto como qualquer linguagem humana tem que ser solta e livre, o que a gente tem é que ter o direito de exercer o poder da crítica sobre isso permanentemente. Então você dizer que uma piada é racista, ou sexista, e argumentar nessa direção, não é censurá-la, é exercer seu direito de crítica”.

O humor ofensivo segue a linha de pensamento de uma sociedade conservadora. Não é transgressor. Ensinar a arte de insultar é fazer o que já fazem há milhares de anos, cada família ensina a seus filhos seus próprios preconceitos. E também ensinam a dizer que o preconceito está na cabeça das pessoas. Porque ninguém quer assumir sua parte e seus privilégios. Somos todos preconceituosos. Porém, o que ganho insultando outra pessoa?

Estupro é ódio. Imagem de Steve Rhodes no Flickr, em CC.

Hoje está cheio de humoristas engraçaralhos por aí, na mídia e em blogs de sucesso. Por quê? Por que querem tanto ter o direito de ofender? Por que mulheres e homens acham graça e reverberam essas falas? Na minha opinião, essas pessoas não querem fazer piadas, querem é mostrar quem manda no pedaço. Não fazem um humor de quem ri de si mesmo, mas sim de quem agride os outros. Porque toda vez que uma minoria cresce, ganha poderes e direitos, há um movimento contrário que quer colocar essas pessoas de volta no lugar delas, de onde não deveriam ter saído. Querem homossexuais nos guetos com seus trejeitos. Querem negr@s fora da elite com sua pobreza. Querem lembrar as mulheres que para serem valorizadas devem ser gostosas e burras. Querem sempre reproduzir estereótipos e clichês. Não é engraçado como a única vez em que sua raça ou gênero são questionados, é quando você não é um homem branco? Há piadas com brancos e heterossexuais, naquele estilo: quando é que um branco sobe na vida? Ou 4 heterossexuais estão num posto de gasolina, qual o nome do filme?

Então, até apoio que Rafinha Bastos vá as cadeias abraçar todos os estupradores. Porque realmente acho que todos merecem uma segunda chance, inclusive os idiotas. Mas antes, talvez ele pudesse aprender algumas coisas sobre humor com a Wanda Sykes.

Update: O Metheoro fez um ótimo post explicando como fazer denúncias ao Ministério Público ou ao Safernet. Porque humoristas engraçaralhos também podem responder por suas ofensas.

Como denunciar crimes de ódio na internet?

Para denunciar é muito simples: Basta você entrar no site do Ministério Público do seu estado, todos eles tem uma seção de “denúncia online” ou “contato online”. Lá você deve colocar todo o  teor da sua denúncia. No meu caso o que eu fiz: como eu já tinha o nome completo da pessoa em questão (consta no site da justiça) mandei-o, inclusive com o número do processo e a decisão do juiz naquela época, mandei também prints (hospedados no Tinypic e dropbox, que são “guardadores online”) e os links de todos os tweets ofensivos, não só a mim, mas a diversas pessoas. Tudo em forma de texto e no campo indicado. No site do MP-Pe eles ainda dão um telefone 0800, onde você pode denunciar via telefone, caso não queira digitar nada. Praticidade, meus caros.

[+] Politicamente incorreto não é transgressor, Rafinha

[+] A arte de insultar os outros

Violência Sexual.

O programa Profissão Repórter, exibido dia 05/04/2011, teve como tema violência sexual. Durante 12 dias, os repórteres visitaram o Hospital Pérola Byington em São Paulo, Centro de Referência em Saúde da Mulher e acompanharam casos de mulheres e crianças, as maiores vítimas da violência sexual no Brasil. A ONU recentemente lançou um banco de dados sobre a violência contra a mulher. E alguns estados brasileiros mobilizam-se em campanhas públicas de combate a violência sexual contra crianças e adolescentes.

As pessoas são violentadas diariamente a caminho do trabalho ou da escola, porém, a maioria dos casos acontece dentro de casa, praticados por parentes ou conhecidos. O foco do programa é o tratamento dado as vítimas de violência sexual com espaço para as falas das vítimas e dos profissionais de saúde. Acho importante ressaltar algumas informações veiculadas:

- Dentre os atendimentos realizados no Pérola Byington, todo mês, 200 mulheres vão até lá para relatar casos de estupro. O hospital possui um ambulatório especializado em violência sexual. Importante notar que apenas em um hospital, o dado revela que em média há mais de 6 mulheres estupradas por dia na cidade de São Paulo.

- 53% das vítimas de violência sexual tem menos de 12 anos. Apenas neste hospital, 53% das vítimas atendidas são crianças, tanto meninos como meninas. Em um dia dos dias da reportagem houve 12 atendimentos, destes, 10 foram de crianças. A reportagem se concentra no caso de um menino de 4 anos que sofreu abuso do próprio pai. Quem o levou para fazer a denúncia foi a avó, mãe do pai. Especialmente nos casos contra crianças, os abusos acontecem dentro de casa.

- Mulheres que foram estupradas precisam tomar uma bateria de medicações para evitar contágio por doenças sexualmente transmissíveis. Só para combater o vírus da AIDS é preciso tomar 6 comprimidos por dia, 180 comprimidos num mês. O efeitos colaterais desses medicamentos são inúmeros, muita náusea, vômitos e dor de estômago, por causa disso muitas interrompem o tratamento.

- O caso da menina de 12 anos que foi estuprada enquanto ia para casa da avó. Com medo das ameaças do estuprador, que afirmava que se ela contasse algo ele mataria a mãe e a tia dela, demorou a contar sua situação e o aborto não pode ser realizado porque a lei só permite abortar até a 22º semana de gestação e o feto não pode ter mais de 500 gramas. O feto da menina tem 560 gramas. A única opção é ela ter o bebê e depois ficar com ele ou entregá-lo para adoção. Muitas mulheres não sabem que o aborto pode ser uma opção em casos de estupro e quanto mais rápido a denúncia for feita, maiores as chances de se realizar um procedimento de Aspiração Manual Intra-uterina, extremamente rápido, indolor e seguro.

- O caso de duas meninas, de 6 e 4 anos, que foram violentadas por primos mais velhos. Essas duas crianças são filhas de mães que também foram abusadas sexualmente na infância. Casos que se repetem. Quais seriam as razões? A mãe de uma delas optou por parar de trabalhar, porque não há vagas nas escolas e não há com quem deixar a criança.

- Maria, que engravidou do estuprador, realizou uma série de procedimentos para realizar um aborto legal. Durante a noite a bolsa se rompeu e enfermeiras se recusaram a atendê-la por serem religiosas, ela ficou 7 horas sem atendimento e ainda teve que ouvir que mulher que aborta tem é que sofrer mesmo. Realizar o aborto foi fundamental para a saúde, autoestima e para os planos de vida de Maria.

Não deixe de assistir o programa que está dividido em 2 partes e os comentários dos repórteres contando sobre suas impressões:

Ps.: Em determinado momento da reportagem, Caco Barcellos pergunta a assistente social Avani se depois que ela passou a trabalhar no ambulatório a visão dela mudou em relação aos homens. Ela afirma que não pode generalizar. Essa é uma questão importante dentro do movimento de combate a violência contra a mulher, nós que defendemos leis como a Lei Maria da Penha, não estamos dizendo que todos os homens são horríveis estupradores, estamos alertando para a forma como a violência contra a mulher acontece. Não negamos que também existam homens que sofrem violência doméstica ou sexual, mas os números são bem menores e os fatores que provocam essa violência são outros. Estamos dizendo que há em nossa cultura e na nossa história a formação de uma sociedade machista, que enxerga o homem como superior a mulher e, que durante muito tempo essa sociedade aceitou coniventemente a violência doméstica e sexual contra mulheres. Então, muitos dos estupradores e abusadores não são pessoas doentes mentais, são pessoas comuns que se sentem no direito de agredir mulheres. Por que o cara quando está frustrado, bêbado,  não vai procurar alguém do tamanho dele para bater na rua, por que ele vai para casa bater e estuprar a esposa? É mais fácil bater em quem tem menos poder, é mais fácil bater em quem culturalmente não é estimulada a revidar. A violência contra a mulher é cultural. E é um problema generalizado, seja em países desenvolvidos ou não. Por isso devem ser feitas leis especificamente para esses crimes. Porque por mais que a Constituição diga que há igualdade entre todas as pessoas, sabemos que dependendo das circunstâncias não há, então é preciso dar condições de igualdade para os desiguais e isso é feito por meio de leis e medidas públicas do Estado.

[+] Lista de locais onde procurar atendimento, no Brasil, em casos de violência sexual.