Sobre Cotas Raciais

O Supremo Tribunal Federal (STF) continua hoje a votação sobre cotas raciais nas universidades. Já discuti muito o assunto. Sou a favor. Acredito que as cotas são uma solução imediata e provisória para resolver um problema que levará anos para ser solucionado. Nossa estrutura social é pautada há muito tempo no racismo e não podemos esperar que as desigualdades sociais se resolvam por si só, sob os ventos nada democráticos do capitalismo. Então, criamos paliativos para sacudir o sistema.

Como lembra Bruno Cava em A função racial da universidade:

Que o Brasil seja um país racista é de uma evidência de doer aos olhos. Historicamente racista, economicamente racista, esteticamente racista, culturalmente racista. A democracia racial é um mito que serve à perpetuação das desigualdades socioeconômicas com modulação racial. A tese do povo brasileiro como miscigenação do branco, do indígena e do negro – o mestiço como o substrato da brasilidade – camufla a nossa história, que é a da explícita hegemonia do branco. A elite branca predomina nos cargos públicos de alto escalão, nas chefias empresariais e na direção da grande imprensa.

É claro que a educação básica precisa melhorar, que se ela fosse realmente boa as cotas não seriam necessárias. Porém, educação de qualidade leva muito tempo para ser fomentada e nesse momento ainda estamos num patamar em que a prioridade é lutar contra a miséria. Portanto, as cotas raciais nas universidades e outras ações afirmativas tornam-se elementos fundamentais para dar dignidade e cidadania agora para jovens negr@s.

Da Mary W.

A política de cotas visa combater o racismo. É uma medida que tem como objetivo diminuir as desigualdades raciais. Tem uma economista do IPEA que escreveu um texto muito bom sobre isso, explicando um pouco a confusão. Ela diz que num país que tem tanta desigualdade social, é difícil demais que as pessoas consigam pensar políticas públicas por QUALQUER outro viés que não seja o de diminuir a desigualdade social. Então a gente usa via torta pra legitimar e fazer passar as políticas públicas que nos interessam e acabamos alimentando a lógica. É assim que nós fazemos com o aborto, quando concordamos em colocá-lo na pauta da Saúde Pública. Nós sabemos que é uma questão de autonomia do sujeito. Mas fingimos que ele tem que ser liberado porque é uma questão social e que as ricas fazem enquanto as pobres morrem. É verdade isso. Mas não deveria ser o caminho da luta. Os fins justificam os meios, mas até chegar no fim as pessoas já estão bem burras. Então o racismo brasileiro. Que está entranhado e precisa ser combatido. Daí essas propostas todas. Que a gente chama de ação afirmativa. E que envolvem desde visibilidade dos negros na publicidade e história da África até política de cotas. São ações que a gente chama de engenharia social. Recebem esse nome porque pretendem transformar a estrutura*, que seria viciada. Você precisa dar uma paulada na estrutura, pra que ela comece a fluir diferente. Uma das coisas que está na estrutura da sociedade brasileira é o racismo. Com todas as consequências psicológicas, sociais e econômicas. Se mudarmos a estrutura, mudaremos as consequências. Veja bem. Maior igualdade social é uma consequência que teremos ao combater o racismo. O que estamos discutindo é essa estrutura que foi historicamente construída para colocar um grupo sempre à margem. E sofrendo as consequências psicológicas, sociais e econômicas de estar à margem. As cotas tem a finalidade específica de aumentar a classe média negra e com isso permitir que o imaginário seja substituído. E que a diversidade tome conta. Que as pessoas no escritório e na cozinha não tenham “cor”. É uma medida que se provou eficaz para a transformação da estrutura. Tanto que ela é pensada de forma provisória. Uma vez estabelecida a classe média negra, os filhos dela estudarão e assim por diante. O que, para mim, é o fundamental é perceber isso. Que não é uma política pública voltada para o combate à pobreza. É corretiva de uma estrutura que todos nós renegamos que tem origem no colonialismo e num dos episódios de maior barbárie da história universal. Aparecem problemas? Trocentos. Na sala tem aluna branca que conta que perdeu o PROUNI pra alguém só porque não era negra. Um colega de mestrado, que morreu de infarto com 30 anos, implementou uma cotas indiretas num morro carioca. Um cursinho de alta qualidade para estudantes negros. E ele, que também era negro, chorou quando um menino branco o procurou, pedindo pra frequentar as aulas. O menino morava no morro, ué. E claro que ele frequentou as aulas. E eu não sei o que aconteceu. Mas ele deve ter tido menos chance que os colegas, por conta das cotas. Ninguém é insensível aos problemas individuais. Ninguém é insensível às desigualdades sociais. Nós estamos, todos, acho, lutando por um mundo mais justo. Essa batalha específica, é sobre racismo. E eu noto que as pessoas colocam renda nessa batalha. E não é por maldade. É porque elas querem que também isso seja resolvido. E todo mundo quer. Mas política pública tem objetivo, tem público-alvo. Sem querer, essas pessoas embolam o meio de campo. Vamos lutar, então, por outras cotas. Mas ESSAS cotas são para negros. E visam combater o racismo.

Nosso Racismo é um Crime Perfeito – Entrevista com Kabengele Munanga para a Revista Fórum, via Fundação Perseu Abramo

Quando as pessoas não são iguais, não se pode colocar no ponto de partida para concorrer igualmente. É como você pegar uma pessoa com um fusquinha e outro com um Mercedes, colocar na mesma linha de partida e ver qual o carro mais veloz. O aluno que vem da escola pública, da periferia, de péssima qualidade, e o aluno que vem de escola particular de boa qualidade, partindo do mesmo ponto, é claro que os que vêm de uma boa escola vão ter uma nota superior. Se um aluno que vem de um Pueri Domus, Liceu Pasteur, tira nota 8, esse que vem da periferia e tirou nota 5 teve uma caminhada muito longa. Essa nota 5 pode ser mais significativa do que a nota 7 ou 8. Dando oportunidade ao aluno, ele não vai decepcionar.

Foi isso que aconteceu, deram oportunidade. As cotas são aplicadas desde 2003. Nestes sete anos, quantos jovens beneficiados pelas cotas terminaram o curso universitário e quantos anos o Brasil levaria para formar o tanto de negros sem cotas? Talvez 20 ou mais. Isso são coisas concretas para as quais as pessoas fecham os olhos.

Educação e Tecnologia

Saíram dois ótimos textos sobre como o governo tem enxergado a questão da tecnologia nas salas de aulas das escolas públicas brasileiras. Há vários programas para aproximar a tecnologia de professores e alunos, mas nenhum programa sério para estabelecer uma relação de ensino/qualidade. Não há projetos sérios para melhorar a carreira de professor, tanto financeiramente como profissionalmente. Todos sabemos a importância primordial que professoras e professores tem nesse país, mas a realidade em que vivem atualmente, numa profissão extremamente desvalorizada, não reflete essa importância. Sem reconhecimento profissional, dificilmente se terá professores motivados. Portanto, apenas distribuir computadores e tablets não resolve nada.

Vale lembrar que muitas pessoas que estão nas salas de aulas lecionando não queriam estar ali. Os cursos de pedagogia tem inúmeros alunos que buscam apenas um diploma universitário, afinal existem inúmeros cursos de pedagogia e pouquíssimas escolas de aplicação. Os estágios são pouco supervisionados e muitos nem cumprem toda carga horária dos estágios em sala de aula. Há também os professores que estão e querem continuar lecionando na sala de aula, mas que além dos baixos salários enfrentam a violência e a falta de apoio do governo.

Programas como o ProUni promovem a formação de professores para as escolas públicas, mas não permitem que escolham outro curso que não seja pedagogia ou licenciaturas. Por outro lado, há várias pessoas que gostariam de estar lecionando nas salas de aulas, mas que no sistema atual não sentem que teriam êxito, porque não encontram liberdade e apoio para aplicar novas dinâmicas e não teriam reconhecimento profissional perante a sociedade. De nada adianta formar uma legião de professores se eles não querem realmente estar em sala de aula, se estão ali por falta de opções, porque não conseguiram passar em outros cursos e ter outras profissões.

Escola de Ensino Fundamental Roberto Mubarac. Foto de Agência de Notícias do Acre no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Em As mentiras convencionais de nossa educação, Lincoll Secco enumera diversas mentiras dadas como soluções para a educação brasileira. Cita, inclusive, o arremedo de solução que o governo criou quando foi cobrado a abrir mais vagas nas creches e na educação infantil:

4. Não é verdade que a redução da idade de ingresso na escola atendeu critérios pedagógicos. Como as creches se tornaram um direito reivindicado pelas mães e custa mais barato abrir um turno na escola fundamental, os governos reduziram a demanda por creches fazendo as crianças saírem mais cedo delas.

5. Não é verdade que aumento salarial substancial não melhora a educação. O problema é que um professor carece de salário e status. A relação pedagógica é baseada principalmente na autoridade conferida ao docente pela avaliação, idade, conhecimento e respeito social. Como vivemos numa sociedade capitalista, é claro que a maior parte desses atributos depende da renda. Ou seja: do salário!

A demanda por berçários e creches no Brasil é tão alta que nem as instituições privadas dão conta, especialmente vagas no período integral. Há mães e pais que entram na fila da vaga antes do parto da criança. Uma das melhores soluções seria flexibilizar o horário de trabalho de mães e pais para que eles possam ficar mais próximos dos filhos nesses primeiros anos, mas sabemos que o capitalismo não está preocupado com isso. Se não há creches com quem mães e pais vão deixar as crianças? As empregadas domésticas cada vez buscam novas oportunidades no mercado de trabalho e babás especializadas fazem bem ao cobrar alto por seu trabalho. Atualmente, as famílias são pequenas e muitas vezes não há uma avó, madrinha ou outro parente para ficar com as crianças enquanto mães e pais trabalham. As pessoas terão que resolver essa questão, mas é preciso compreender que o bem estar das crianças é responsabilidade de toda a sociedade.

Em Ipad pra todo mundo, Ana Elisa Ribeiro fala justamente da simplicidade dos programas que apenas distribuem o instrumento tecnológico, mas não capacitam ninguém:

Tenho colegas que andam saltitantes de alegres com essa história de estados ou o governo dar iPads para os professores. Também dei lá meus pulinhos, mas não eram bem de alegria. É que fico perplexa com a superficialidade das soluções. Fico mesmo embasbacada e chego a perder parcelas de sono por conta disso. Será que é muito difícil de entender? Se alguém não tem condições dignas de trabalho (e de vida mesmo), não adianta dar um iPad, um refresco ou um jogo de resta um pro cara. O negócio é saber o que fazer com as máquinas. Mas deve ser bem difícil de compreender a profundidade desta condição.

Afinal, o que eu estou dizendo? Que os professores precisam mais de criatividade e do propiciamento de suas inteligências do que de máquinas novas. Sai até mais barato, quem sabe? Se bem que é claro que alguém fez essa conta antes de comprar os iPads. Provavelmente foi assim: se eu der esses brinquedinhos pra esse pessoal vai sair mais em conta do que qualificar todos eles e permitir que eles tenham ampliado seu letramento digital. A conta fecha.

É moleza fazer propaganda e dizer que está equipando as escolas com equipamentos da moda de última geração, mas o que isso realmente muda na vida de professores e alunos que convivem em salas super lotadas e com grandes barreiras comunicacionais? Fora a falta de autoridade, afinal o status dos professores socialmente é minúsculo.

Os jovens conhecem a tecnologia e mesmo para os mais pobres as lan houses foram uma importante porta de entrada, mas não há educação para cidadania por si só. É preciso aprender por meio das relações interpessoais, a criatividade pode ser estimulada de diferentes maneiras fora do meio digital e ela é fundamental para o aprendizado, pois é o contato com o concreto que facilita o caminho para o abstrato.

Li ontem que uma lei declarou Paulo Freire patrono da educação brasileira. Mais do que nunca é preciso retomar tudo o que Freire ensinou, que a tecnologia é importante, mas o fundamental é promover a educação por meio do cotidiano do aluno, deixando claro o quanto a política e os sistemas sociais influenciam na educação. Afinal, sempre há quem ganhe com a desvalorização da educação pública brasileira.

Blogagem Coletiva: Consumo, Infância e Sexismo

Hoje as Blogueiras Feministas convidam você a participar de uma Blogagem Coletiva sobre as relações entre consumo, infância e sexismo. Não perca!

A contemporaneidade tem-se caracterizado pelas relações de produção e de consumo permeando as interações sociais. Temos acompanhado mudanças nas relações estabelecidas entre adultos e crianças, bem como o surgimento de uma nova produção da subjetividade em função da organização do cotidiano pela mídia e o modo como a experiência das crianças, dos jovens e dos adultos vem se transformando na sociedade de consumo. Portanto, crianças, adolescentes e adultos alteram suas relações intersubjetivas a partir das influências que a mídia e a cultura do consumo exercem sobre todos nós.

Para Postman (1999), não só a idéia de infância está em declínio. Paralelamente a esse processo, há também o adulto infantilizado que se alimenta de junkfood, que tem dificuldade em assumir sua prole e familiares idosos, apresentando pouco compromisso com a educação dos filhos. Os limites que separam crianças e adultos estão desaparecendo, pois as diferenças entre essas duas categorias não são enfatizadas.

Sarlo (1997) sinaliza que a infância é uma experiência que praticamente desapareceu, pois se encontra espremida por uma adolescência bastante precoce e uma juventude que se prolonga até os 30 anos. Pelo menos um terço da vida recebe o rótulo de juventude! Alguns autores buscam uma explicação para esse fato a partir das transformações radicais que vêm sendo operadas no cotidiano pela circulação das informações e o acesso crescente às novas formas de tecnologia em permanente expansão.

A mídia invade nosso cotidiano. A criança e o adolescente de hoje não conheceram o mundo de outra maneira – nasceram imersas no mundo com telefone, fax, computadores, televisão, etc. TVs ligadas a maior parte do tempo, assistidas por qualquer faixa etária, acabam por assumir um papel significativo na construção de valores culturais. A cultura do consumo molda o campo social, construindo, desde muito cedo, a experiência da criança e do adolescente que vai se consolidando em atitudes centradas no consumo.

Nos dias de hoje, há cada vez mais a preponderância dos processos de consumo, fazendo com que os sujeitos sejam levados a identificar-se com coisas e objetos que os levam a diferenciar-se dos demais, como também a discriminar e hierarquizar grupos sociais. Baudrillard (1995) esclarece que não é o consumo que se organiza em torno das diferenças individuais, mas, sim, estas, assumindo a forma de personalização, é que se organizam em torno de modelos comunicados pelo sistema de consumo. Para esse autor, existe inicialmente a lógica da diferenciação social e, depois, a manifestação organizada das diferenças individuais. Com isso, o sistema promove a anulação das diferenças “reais” e transforma as pessoas em seres contraditórios através da produção industrial da diferença. Em suma, o que prepondera é a ilusão de que podemos realizar escolhas autênticas, pois, de fato, todas as escolhas já estão previstas pelo sistema. O processo de construção da identidade na cultura de consumo apresenta-se como cambiante, fluido, fragmentado e parcial. Objetos e mercadorias são usados para demarcar as relações sociais e determinam estilos de vida, posição social, além da maneira de as pessoas interagirem socialmente. “Isto faz com que tais mecanismos culturais tenham o papel de estipular a natureza da experiência emocional e social que regerá o contexto entre os diversos grupos sociais” (Rabello de Castro, 1995: p.222).

Canclini (1997) mostra-nos como a maneira de consumir acabou por alterar as possibilidades e as formas de exercer cidadania. As identidades contemporâneas se configuram no consumo, dependendo daquilo que se possui ou do que se pode vir a consumir. Há um descontentamento com o que se tem, próprio do mundo globalizado, que “supõe uma interação funcional de atividades econômicas e culturais dispersas, bens e serviços gerados por um sistema com muitos centros, no qual é mais importante a velocidade com que se percorre o mundo do que as posições geográficas a partir das quais se está agindo” (p. 17). Esse descontentamento provém da fugacidade, da obsolescência. Tudo se torna obsoleto a todo instante.

Continue lendo em Mídia, cultura do consumo e constituição da subjetividade na infância. Artigo de Cristiana Caldas Guimarães de Campos e Solange Jobim e Souza da Faculdade de Educação da UERJ.