As Canções

Ontem dei uma corrida no cinema para ver As Canções, o mais recente documentário de Eduardo Coutinho. Um documentarista que nunca me decepciona, porque busca sempre o humano, a memória e o sentimento por trás da vida de pessoas comuns.

Como diz a crítica de Neusa Barbosa no Cineweb:

Dos apartamentos de um prédio em Copacabana (“Edifício Master”), à religião (“Santo Forte”), à velhice (“O Fim e o Princípio”), aos sonhos de sindicalistas dos anos 70/80 (“Peões”) e ao próprio teatro (“Moscou”), muitos temas passaram pelo crivo de sua curiosidade, tão reveladora quanto respeitadora da intimidade. Um verdadeiro paradoxo, mas Coutinho é isso mesmo. A antítese do reality show.

As Canções compartilha conosco momentos e histórias de pessoas que tem suas vidas marcadas por uma música. Tem muito Roberto Carlos, mas também tem muito samba triste. E tem Retrato em Branco e Preto do Chico Buarque. A mistura de personagens que Coutinho faz é unica. Tem o morador do pé da favela, que só sai de casa antes de ouvir os tiros e que adora Jorge Ben. Tem a londrina que veio para o Brasil aprender capoeira e curou um grande amor com o desprezo ensinado em um samba. Tem o filho da costureira que nunca ouviu no rádio a música Esmeralda que sua mãe cantarolava e mesmo assim sabe cantá-la inteira. Tem muita história de amor, porque a música tem esse poder de simplificar um sentimento tão complexo em versos.

Em entrevista ao Cineweb, Eduardo Coutinho fala um pouco mais sobre seu processo de escolha dos personagens:

Os demais personagens foram escolhidos pelos métodos tradicionais do diretor, mediante anúncios de jornal e na internet que, segundo ele, “não funcionou”. Para este processo de seleção, o melhor resultado foi obtido pelo grupo de pesquisadores que se postou com uma placa onde se lia “você tem uma cantão importante na vida?” no Largo da Carioca, centro do Rio de Janeiro. Por que funcionou melhor lá? Para Coutinho: “Porque é o centro da cidade, a cidade tem de tudo. Além de tudo, tem a vantagem de ser um largo muito grande, tem metrô ali, as pessoas param. O pessoal da pesquisa ficava com a placa lá e as pessoas vinham. Aí a regra era a pessoa dizer qual era a música e cantar ali mesmo. Se não soubesse a letra ou fosse péssima cantora, nem gravava. Daí ela dizia porque que a música era importante. Eu ia vendo e marcando.

Sergio

Sergio Vieira de Mello era brasileiro, natural do Rio de Janeiro e alto comissário da Organização das Nações Unidas (ONU). O documentário Sergio fala sobre sua vida, seu trabalho e sobre o fatídico atentado terrorista a embaixada das Nações Unidas no Iraque que o matou em 2003.

Antes da exibição, no CCBB de Brasília, um funcionário das Nações Unidas falou um pouco sobre o filme. Disse que Sergio era uma figura extremamente carismática e importante para a ONU. Sua morte em 2003 provocou uma série de debates sobre o trabalhador humanitário, especialmente sobre sua segurança. Segundo ele, essa era uma questão pouco discutida, acreditava-se que o capacete azul era garantia de alguma segurança, porém os conflitos mundiais mudaram muito. Esse ano, especialmente na Somália há diversos entraves em relação a segurança dificultando os trabalhos humanitários realizados na região do Chifre da África.

Cartaz do Documentário Sergio da HBO.

O documentário é curto e bem interessante. Foca bastante no atentado terrorista. No momento do atentado, ocorria uma coletiva de imprensa no primeiro andar e na hora da batida e da explosão, o barulho, a poeira e os gritos das pessoas são assustadores. Porém, também fala sobre alguns dos principais trabalhos de Sergio e mostra que ele não era um santo. Extremamente carismático, bonito e inteligente, Sergio Vieira de Mello era casado, mas teve vários casos amorosos públicos, além de passar pouquíssimo tempo com os filhos. Dedicou praticamente toda sua vida as causas humanitárias. E como diz um entrevistado no filme: “Se tivesse sido um pai de família convencional, provavelmente não teria realizado tantas coisas incríveis”. Não deve ser fácil crescer sem o pai, sabendo que ele está lá fora salvando vários. Mas é importante mostrar que somos humanos, e mesmo o maior defensor dos direitos humanos, não é perfeito.

Sergio era filho de diplomata brasileiro e viajou muito na infância. Estudou na Sorbonne e no maio de 68 jogou pedras na polícia francesa. Depois de se formar em filosofia, entrou para uma das agências da ONU. “Era um revolucionário, sempre um revolucionário”, diz outro entrevistado. Seu primeiro grande trabalho foi levar de volta ao Camboja um grupo de refugiados que viviam na fronteira com a Tailândia. Para isso negociou com o partido que dominou o Camboja e foi destituído do poder. Enquanto muitos se recusariam a conversar e simplesmente tratá-los como criminosos de guerra, Sergio viu ali a chance de negociar uma volta com menos problemas de milhares de refugiados, pois fez alguns líderes do Khmer Vermelho perceberem que as Nações Unidas poderiam estar do lado de todos.

Seu grande sucesso foi no Timor-Leste. A ONU o transformou num governador-geral e lhe deu poderes de ditador. Mas, Sergio montou conselhos e comitês com líderes timorenses e nunca tomou uma decisão em relação ao país sem consultá-los. De 1999 a 2002 ele comandou um país que sobreviveu a guerras e genocídios. Quando houve a cerimônia oficial que declarou o Timor Leste um país independente, com a presença de diversos líderes de estado, entre eles Bill Clinton (ex-presidente americano) e Kofi Annan ( ex-secretário geral da ONU), Sergio preferiu comemorar correndo com Carolina Larriera, sua noiva, na beira do mar.

O atentado ao Iraque é uma constante no filme. A narração gira em torno do evento. Sergio resistiu muito a ir, era contra a Guerra do Iraque desde o início. Além disso, o Iraque tornou-se um território extremamente hostil. Bin Laden avisou em vídeo que a ONU trabalhava em conjunto com os Estados Unidos e a maior prova disso é que dividiram a Indonèsia, o maior país mulçumano do mundo, promovendo a independência do Timor Leste. Papéis eram distribuídos em Bagdá avisando que a Al-Qaeda estava na região. Sergio dispensou a ajuda da segurança americana no prédio da ONU. Não queria que a ONU fosse indentificada como parte da coalização que promoveu a guerra. Em uma entrevista, ao ser perguntado se ele temia que a ONU fosse vista como uma aliada dos Estados Unidos no Iraque, ele respondeu de maneira enérgica que a ONU era uma instituição independente e não era fantoche de ninguém.

O caminhão com as bombas explodiu bem embaixo do escritório de Sergio. Ele ficou 3 horas sob os escombros. Os paramédicos militares americanos, que tiveram contato com ele até sua morte, dizem que ele nunca perguntou sobre si, apenas como estavam os outros e dizia: “salve os outros”. Carolina o procurava nos escombros pelo lado de fora. E conseguiu trocar algumas palavras com ele. O filme dá a entender que os Estados Unidos não fizeram tudo o que podiam para ajudar os feridos e soterrados nesse atendado. Não havia pás, não havia equipamentos adequados e o socorro às vítimas foi demorado. Alguns paramédicos militares chegaram rápido ao local, mas precisavam usar a criatividade para vencer obstáculos, como usar uma bolsa de mulher para retirar tijolos que cobriam os corpos de Sergio e outros feridos. Sergio foi retirado dos escombros por seus colegas, mas deixou sua marca. Em 2008, a Assembléia Geral das Nações Unidas resolveu designar o 19 de agosto, dia do ataque à sede da ONU em Bagdá, como Dia Mundial Humanitário, em memória de todos os trabalhadores que perderam suas vidas na promoção da causa humanitária.