Tenho 27 anos, um bom salário e uma queda por bolsas e sapatos. Parece que nunca tenho o suficiente. Quando percebi que tinha alguns pares que nunca usava, comecei a me questionar por que comprava tanto e decidi mudar meus hábitos de consumo. Gosto de comprar, isso até me deixa mais calma, como naqueles clichês femininos. Ter mais e mais objetos é um símbolo de que tenho poder financeiro, mas não remete necessariamente ao que sou. Ter uma casa própria, ter apenas 5 calças jeans, nada disso pode me representar. São coisas que enfeitam minha pessoa, mas apenas meus sentimentos e atitudes dizem quem realmente sou.
Atualmente, o consumo está ligado estritamente aos sentimentos. Confesso que o nome “liquidação” age sentimentalmente sobre mim. Você precisa ter determinado objeto para poder ser alguém, para que os outros possam ver quem você é, ou simplesmente para ter. Por meio de suas roupas, objetos pessoais e hábitos é possível classificar uma pessoa em grupos, encaixá-la em padrões de consumo que vão da cor da cueca a música que ela escuta. Tudo hoje é feito para vender. Tudo parece descartável, pois logo virá outra novidade, outra moda, outro estilo, outra escova de dentes aprovada pela associação brasileira de odontologia. Não estou condenando o avanço tecnológico, é importante continuar criando, sejam novos celulares ou escovas com 3 cores de cerdas diferentes. Minha crítica é ao consumo desenfreado, ao simples desejo de querer ter mais e mais.
Parece impossível viver sem consumir, mas acredite, há pessoas como minha mãe que só compra um sapato a cada dois anos. Ela é uma pessoa extremamente consciente e avessa a qualquer tipo de desperdício, principalmente de dinheiro. Quando ainda não ganhava meu próprio dinheiro, eu só podia comprar uma coisa se outra saísse do armário. Se eu comprasse uma blusa, uma antiga deveria ir para doação. Bolsas, casacos, jeans, tudo era assim. Durante muito tempo soube exatamente quantas peças de roupa tinha nos meus cabides.
Pense nas pessoas que você conhece que se endividaram com financeiras de esquina ou lojas de departamento. A imensa maioria delas não usou esse dinheiro para comprar itens de primeira necessidade. Elas queriam apenas consumir, comprar uma televisão maior ou um carro da moda. Em qualquer loja que se entre, ao perguntar o preço de algo, o vendedor sempre diz que pode-se dividir em x vezes, não vai nem perceber que está pagando. Esse é o problema, as pessoas não percebem o quanto gastam, as pessoas não têm consciência de como compram e de como acumulam coisas que não vão usar. Todos temos nosso calcanhar de Aquiles quando se refere a consumo. O meu são bolsas e sapatos. E por já conhecê-lo sei que devo me preocupar em não ceder a impulsos. É preciso perguntar-se, pensar se aquilo é realmente necessário.
Preocupada com meus impulsos de consumidora estabeleci algumas regras durante o último ano:
1. Menos livros pegando poeira. Sou a Felícia dos livros. Adoro pegá-los, agarrá-los e amá-los. A solução foi trocar livros em sebos, ou com amigos e utilizar mais a biblioteca. A coleção secou bastante e 90% da prateleira hoje está ocupada por títulos que releio com freqüência, livros realmente especiais. Há alguns anos comecei a ler os livros do Harry Potter na Biblioteca Demonstrativa de Brasília, lá havia até o terceiro volume da série. Gostei tanto que passei a comprar os outros volumes e depois os doava a Biblioteca para que outras pessoas pudessem ter o mesmo prazer de descobri-los. A regra também vale para dvd’s, só compro filmes que sei que vou querer rever várias e várias vezes.
2. Sapato só nas liquidações. Existem lojas que nas mudanças de coleção fazem promoções incríveis, do tipo leve 3 por 49,90 cada. É aí que compro. Quando se trata de roupas e sapatos é importante ter alguns coringas, por exemplo, uma boa sandália preta de festa serve para ir em qualquer casamento ou evento mais chique. Por mais que pareçam todos lindos é preciso se controlar e pensar no quanto será útil ter muitas sandálias com saltos altíssimos se no dia-a-dia você só usa saltos baixos no trabalho. Atualmente entre botas, sandálias, tênis e sapatos tenho exatamente 20 pares, ainda acho muito, mas esse número não aumenta a três anos, pois aplico a regra de mamãe, quando um entra, outro sai. A regra também vale para roupas e acessórios.
3. Tem que acabar com o xampu. Era comum ter mil produtos para o cabelo, batons, cremes, esmaltes e mais um monte de coisas entupindo os armários do banheiro. Passei a usar os produtos até o fim, sem poder comprar outro até que o primeiro acabe. Se por acaso, o xampu não deu certo com meu cabelo procuro uma amiga para dá-lo. Não fico mais entulhando mil marcas, pois cada uma promete fazer um milagre diferente. Fazer hidratação semanalmente, cortar regularmente as pontas ajuda bastante a deixar o cabelo bonito. É claro que ajuda o fato de meu cabelo ser natural, não pinto, não faço escova, chapinha, nada. Também evito elásticos e acessórios que quebram o cabelo. Só lavo, passo uns cremes e deixo secar. A regra vale para todos os cosméticos.
Minha dica para consumo consciente é parar de acumular coisas, parar de entupir gavetas e armários com coisas que só serão usadas poucas vezes. Com a economia passei a viajar mais, a comer em lugares mais caros, a comprar produtos com maior durabilidade. Porém, é importante lembrar que consumo consciente não se refere apenas a coisas que você compra, está relacionado também a maneira como você utiliza os recursos naturais como a água e a energia elétrica. Repensar hábitos e maneiras, procurar novas formas de economizar energia, água, dinheiro e tempo também fazem parte de uma vida mais consciente.
#Esse post faz parte da blogagem coletiva: Consumo Consciente.
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