A gripe do amor

Estou guibada. E lembro que isso não é tão incomum. E lembro que já escrevi várias vezes sobre gripe. Lá naqueles inícios dos anos 2000, quando eu achava que morreria aos 21 anos, porque aquela época era tão boa, que não era capaz de compreender porque deveria seguir em frente e viver outras vidas. Veja bem, em 2008 eu gostava de Mallu Magalhães. E é provável que ainda goste, mas é fato que o tempo para mim gira diferente. Hoje é raro, mas algumas vezes acontece de acordar com meus 21 anos.

Foto de ademiromano no Picsy.com

Aí vasculhando os arquivos dos antigos blogs, encontrei “A gripe do amor”. Texto curto que não lembro se é de 2005 ou 2007. Estava ali na gaveta e caiu quando fui procurar o xarope.

A Gripe do Amor

Sim, é ridículo. Mas acasos como este só acontecem de tempos em tempos quando Saturno está retrógrado à Vênus. Tanto tempo sem se encontrarem e indubitavelmente estão todas contaminadas com a gripe do amor. Nenhuma se salvou. Parece até que passou de uma para outra, numa epidemia maléfica arquitetada por fãs de Mariah Carrey aliados aos da Whitney Houston. Ou talvez pior, talvez seja o plano ardiloso de uma coletânea love songs. Cada uma que chega tira do saleiro a pergunta e na bolsa dela vem a resposta, seguida de suspiros e olhinhos girando na órbita. Começam a cantarolar, lembram dos bilhetinhos, repetem os sussurros ao pé do ouvido, gabam-se dos presentinhos, mostram mensagens no celular e interpretam pontos de exclamação, pontos finais, maiúsculas e minúsculas. Caracteres que passam de significado a significante. E o sintoma mais estarrecedor, um festival de diálogos patrocinado pelo Leite Ninho, frases que começam com “Ele é tão…” recheadas com “carinhosinho”, “gostosinho”, “bonitinho”, “preguiçozinho”, “malvadinho”, “danadinho”. As pessoas ao redor no início se enternecem com as pobres alminhas e suas preciosas ilusões, mas depois de um tempo tudo começa a ficar açucarado demais, e é hora das abelhas aparecerem com seus ferrões da verdade. A ironia é que nenhuma delas está com nenhum deles, o que só demonstra o poder devastador de mais uma gripe do amor. Vem e vai com o torpor dos dias felizes que deixaram borboletas na barriga, sabores nas línguas e sorrisos permanentes em boquinhas pintadas com batom de longa duração. Despedem-se com olhares cúmplices e logo vão para casa colocar suas perucas. À tarde estão na fila do posto de saúde, fingindo que são maiores de 60 para tomarem suas vacinas anti-gripais. Coisas do coração e suas psicodelias adoráveis provocadas por grandes quantidades ingeridas de analgésicos e anti-térmicos. Não sofrem porque estão dopadas, já conhecem os efeitos colaterais de cor, mais alguns dias e estarão curadas. Atchim!

Abelardo.

Abelardo Antonio da Fonseca é advogado. Tem quase trinta anos e mora confortavelmente em um prédio localizado de frente para o mar. Dentre as coisas feitas e as mal-feitas, consta que nunca assistiu um episódio de Seinfeld por inteiro, e sabe o gosto de sorvete de pistache. Abelardo é um sujeito bem de vida, inteligente e educado. Mas Abelardo tem algo de diferente. Não chega a ser uma aberração nem nada do tipo, é algo até bem simples, Abelardo tem um sexto dedo no pé direito. Olhando de lado, pensa-se até que é um joanete, mas quando fixa-se os olhos, ele está bem ali, ao lado do caçula dos dedos. Ele apareceu um dia, e Abelardo se afeiçoou. Chama-o carinhosamente de Ronnie Von porque ele tem uma unha, pequena, mas tem. E Abelardo acha que ao olhá-la de longe ela parece uma coroa, logo o dedo a mais é seu príncipe. Nunca se casou porque nenhuma mulher ainda o aceitou exatamente como é. Quem amá-lo terá que amar também o seu sexto dedo. E vice-versa.

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#prontomudei

#prontosumi #prontofugicomocirco #prontocasei #prontomudei ou “Oh no, he can’t read my poker face.”

E no meio da confusão da mudança tive que encarar meus 29 anos espalhados pelo quarto que ocupei todo esse tempo no apartamento de mamãe. Tenho diários e agendas desde que tinha 11 anos e ainda não sei o que farei com eles. Tenho uma caixa cheia de cartas, bilhetes e lembranças que contam tudo sobre meu primeiro namoro em 1996. Tantos fragmentos de pessoas que não lembro, outros tantos de pessoas que a vida engoliu, outros tantos de pessoas que sinto falta. Nem os livros serão todos carregados. Nem todos os filmes serão revistos.

Tem uma carta de 2006 do Lipe, com um cartão que diz:

“VIVA COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ.

AME COMO SE NUNCA FOSSE SE MACHUCAR.

TRABALHE COMO SE NÃO PRECISASSE DO DINHEIRO.

E DANCE COMO SE NINGUÉM ESTIVESSE OLHANDO.”

Tem um postal do Mar de 2008, que diz:

“(do nono quintal, achado na pequena livraria do café, perto da ‘banca da creuza’, onde você não estava ontem) Você faz falta por aqui, tal qual a caneta anterior que secou antes do ponto, nessas frases.”

Confesso que a redescoberta tem sido prazerosa e também tensa, pois a vida caminha e infelizmente não posso levar tudo comigo. O tempo com seus passos largos anda me engolindo o cotidiano, me carregando com o vento. É hora de procurar. De esquecer de fazer a unha e tentar encontrar todos os sentidos perdidos, para depois descobrir que eles continuarão apenas fazendo sentido naqueles momentos, naqueles anos, naqueles dias nostálgicos que existiram onde o amor sempre será o elo mais forte, a única explicação para tanta vida. E as certezas de que algumas coisas são eternas, como a Creuza.

Vida e Água.

“Nada é mais importante no estudo do homem do que as suas relações com a água: com a água do mar, com a água dos rios, com a água condensada nas nuvens, com a água da chuva e de degelo, com a água subterrânea, com a água que corre na seiva das plantas ou que circula nas artérias e nas veias dos animais. Por conseguinte o próprio sangue e a própria vida dos homens.”

Gilberto Freyre

Nordeste. Rio de Janeiro: José Olympio, 1979.

Chegou a hora de começar a escrever mais uma monografia, dessa vez para a pós-graduação. Essa é a citação que abre a minha monografia da graduação em pedagogia. Fico muito feliz em ver que ela ainda faz todo sentido para mim. Carreira acadêmica, não é mole não. E esse calor está de matar.

2009 – Eu fui!

Acredito em Ano Novo. Com letras maiúsculas, com roupa nova, com desejos de felicidade, acreditando que tudo pode mudar, fazendo planos. Para mim não importa se é só a Terra que gira ao redor do sol, se os cálculos astronômicos estão errados, se no dia 04/01 estarei no mesmo trabalho com as mesmas pessoas.  Dia 31 de dezembro é um dia muito especial. Acho que cada ano é uma nova vida, até porque completarei mais um ano e não serei a mesma. Sou uma eterna otimista. Minha receita para viver num mundo tão caótico, com tantas injustiças e desigualdade sociais é se apaixonar todos os dias. Seja por uma música, por um pão reçém saído do forno, pela lambida do meu cachorro, pelo abraço do meu pai, por um sorriso do cobrador, pela capa de um livro, pelo perfume da manga fresca, por homenagens aos amigos, por um brinde de lanchonete, pelo cheiro da chuva, pelo agradecimento de uma pessoa, pela maneira como minha mãe fala mirtilo, pelas caretas que faço e meu estagiário filma, pela alegria de ir ao cinema com uma amiga, por um telefonema de madrugada, pela curvinha na sobrancelha de alguém, por fotos de gatinhos,  por um bom prato de macarronada, por uma bolsa, pelo sotaque carioca do meu namorado, por um novo chiclete de frutas tropicais, pela causa feminista, pelo meu novo corte de cabelo, por um urso panda. Qualquer coisa pode me ajudar a passar pelos dias, qualquer coisa pode construir um novo ano.

Hoje me apaixonei por um vídeo no youtube que descobri pelo blog do Ricardo Calil. Um cara bem criativo fez uma montagem com cenas de 342 filmes que foram exibidos em 2009, com uma trilha sonora super bacana.  Tem quase todos os filmes que passaram esse ano e muitos que não estrearam por aqui. Ele também disponibiliza a lista de todos os filmes na ordem em que aparecem. É claro que ele parece usar mais cenas dos filmes de ação como O Exterminador do Futuro 4, Transformers 2, Bastardos Inglórios e Watchmen, mas também tem (500) Dias com Ela, Nova Iorque, Eu te amo, Where the Wild Things Are e outros. A montagem é ótima e muito vibrante. E cinema é algo que alimenta minha alma e me dá a possibilidade de novas paixões toda semana. É com ele que termino o ano nesse blog, desejando a todos que se apaixonem todos os dias.

Nos vemos em 2010!