O Crocodilo de Almas

Uma das imagens mais vivas que tenho da infância vem de um documentário filmado na África. Uma zebra atravessava um lago, ou tentava beber água. A câmera focalizava um crocodilo gigantesco e sonolento que tomava sol à beira do lago. Logo depois, se movimenta e submerge silenciosamente. Reaparece abocanhando a cabeça da vítima. O resto do corpo se debate, agonizante. A cena é rápida; tudo desaparece rapidamente dentro da água avermelhada. Na sensibilidade infantil, a cena foi vivida como se fosse eu o engolido pelo crocodilo. Um crocodilo de verdade, tão verdadeiro quanto o sofá no qual me sentava. Senti horrorizado o esmagamento dos meus próprios ossos, o rosto se tornando uma massa disforme na boca da besta. Cheguei a discordar com veemência de uma professora que dizia que “sentir um frio na espinha” era uma expressão com sentido figurado: ela nunca havia visto aquele crocodilo.

Foto de Joel Sartore, National Geographic Stock.

Há muitos crocodilos neste mundo. O crocodilo que atazanava o Capitão Gancho, o crocodilo do conto de Dostoiévski,o crocodilo das alucinações de ópio de Thomas de Quincey. Um crocodilo nunca desperta piedade ou compaixão. Suas pernas de réptil são atrofiadas, sua aparência desagradável ao extremo. O crocodilo é tão feio e desprovido de poesia que não serve nem como símbolo de coisas ruins. Na Divina Comédia, quem impede o acesso ao reto caminho são a pantera, o leão e a loba; na iconografia cristã, o mal é o urso, o pássaro preto, o dragão, o leopardo, o escorpião, a aranha e a baleia; no Velho Testamento, as pragas do Egito falam da mosca, da rã e do gafanhoto. Ninguém se lembra do crocodilo. E mais do que o crocodilo, o que me horrorizava naquela cena era o corpo da vítima, a cabeça triturada pelas mandíbulas, e o resto do corpo ainda dependurado, um corpo inteiro, mas já morto, meu rosto rasgado pelos dentes afiados e eu ainda consciente para sentir a dor do dilaceramento.

O horror humano talvez seja pior do que o crocodilo. O torturador justifica a tortura como mecanismo eficiente para lograr a confissão, o momento no qual o torturado dá voz ao corpo suplicante e cede. Mas como pode ele, torturador, saber se a confissão do torturado foi integral, irrestrita, se não guardou um resto de segredo? Como pode ter certeza? Apenas pelo exercício de uma violência sádica e desmedida, irrazoável por qualquer critério, que desespere o torturado a ponto de levá-lo a destruir os últimos redutos de sua consciência, que o faça abrir aos olhos e ouvidos do torturador todas as portas do mundo secreto onde moram os seus pensamentos, a sua altivez e a sua dignidade. Daí o horror especificamente humano da tortura: esmaga seus ossos, sim, mas apenas para quebrar a sua alma. O torturador é um crocodilo de almas – o torturado que confessa só sobrevive após ter morrido por dentro.

Rakudianai.

Pérsio Arida fala de suas memórias dos tempos da ditadura militar brasileira na Revista Piauí.

Edição 55, abril/2011.

A gripe do amor

Estou guibada. E lembro que isso não é tão incomum. E lembro que já escrevi várias vezes sobre gripe. Lá naqueles inícios dos anos 2000, quando eu achava que morreria aos 21 anos, porque aquela época era tão boa, que não era capaz de compreender porque deveria seguir em frente e viver outras vidas. Veja bem, em 2008 eu gostava de Mallu Magalhães. E é provável que ainda goste, mas é fato que o tempo para mim gira diferente. Hoje é raro, mas algumas vezes acontece de acordar com meus 21 anos.

Foto de ademiromano no Picsy.com

Aí vasculhando os arquivos dos antigos blogs, encontrei “A gripe do amor”. Texto curto que não lembro se é de 2005 ou 2007. Estava ali na gaveta e caiu quando fui procurar o xarope.

A Gripe do Amor

Sim, é ridículo. Mas acasos como este só acontecem de tempos em tempos quando Saturno está retrógrado à Vênus. Tanto tempo sem se encontrarem e indubitavelmente estão todas contaminadas com a gripe do amor. Nenhuma se salvou. Parece até que passou de uma para outra, numa epidemia maléfica arquitetada por fãs de Mariah Carrey aliados aos da Whitney Houston. Ou talvez pior, talvez seja o plano ardiloso de uma coletânea love songs. Cada uma que chega tira do saleiro a pergunta e na bolsa dela vem a resposta, seguida de suspiros e olhinhos girando na órbita. Começam a cantarolar, lembram dos bilhetinhos, repetem os sussurros ao pé do ouvido, gabam-se dos presentinhos, mostram mensagens no celular e interpretam pontos de exclamação, pontos finais, maiúsculas e minúsculas. Caracteres que passam de significado a significante. E o sintoma mais estarrecedor, um festival de diálogos patrocinado pelo Leite Ninho, frases que começam com “Ele é tão…” recheadas com “carinhosinho”, “gostosinho”, “bonitinho”, “preguiçozinho”, “malvadinho”, “danadinho”. As pessoas ao redor no início se enternecem com as pobres alminhas e suas preciosas ilusões, mas depois de um tempo tudo começa a ficar açucarado demais, e é hora das abelhas aparecerem com seus ferrões da verdade. A ironia é que nenhuma delas está com nenhum deles, o que só demonstra o poder devastador de mais uma gripe do amor. Vem e vai com o torpor dos dias felizes que deixaram borboletas na barriga, sabores nas línguas e sorrisos permanentes em boquinhas pintadas com batom de longa duração. Despedem-se com olhares cúmplices e logo vão para casa colocar suas perucas. À tarde estão na fila do posto de saúde, fingindo que são maiores de 60 para tomarem suas vacinas anti-gripais. Coisas do coração e suas psicodelias adoráveis provocadas por grandes quantidades ingeridas de analgésicos e anti-térmicos. Não sofrem porque estão dopadas, já conhecem os efeitos colaterais de cor, mais alguns dias e estarão curadas. Atchim!

Diálogos de Infância

I. Três crianças, entre 8 e 9 anos, conversando sobre o professor de teatro:

Flower Child. Imagem de Matt Weber no Picsy

- Por que ele fala engraçado?

- A minha mãe disse que ele é gay.

- Ele não é gay. É negro.

- Aaaaah… deve ser isso.

II. Professora e aluno de 5 anos:

- Por que você não vai brincar com as meninas?

- Brincar com as meninas é chato, Tia.

- Por quê?

- Porque meninas só querem brincar de realidade. Meninos brincam de monstros e de imaginação. As meninas sempre querem brincar de realidade.

III. Mãe e filha de 6 anos passam em frente a pessoas remexendo latas de lixo:

- Filha, olha essas pessoas. Tem gente que não tem o que comer, por isso não devemos jogar comida fora. Devemos sempre comer tudo.

- Mamãe, que bom que jogo comida fora, porque senão eles não iam achar nada.

Dos sentidos e dos livros

Da última vez que eu e Mar conversamos em meio a sanduíches e deliciosas batatas, lembramos de nosso amor por Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector. Uma das primeiras coisas que nos uniu. Dei vários livros para ele, mas Água-Viva acho que foi o mais especial. Falamos de como hoje temos praticamente vergonha de dizer que nossos autores preferidos são Clarice e Caio. Porque eles acabaram virando aplicativos do facebook. Frases e fragmentos retirados do contexto viraram literatura barata de auto-ajuda, para quem busca uma frase hype do dia.

Imagem compartilhada no facebook. Autoria desconhecida.

Não é para preservar um lado hipster literário escondido que faço esse mimimi. Não gosto de ver as palavras de Clarice e Caio entrecortadas por fotos de balada e gifs animados. Porque para nós eles são sagrados. Realmente especiais. Nosso encontro foi precedido pelos encontros que tivemos com Caio e Clarice no final da adolescência. E sim, é tudo bem ridículo, mas eu queria mesmo que as pessoas sentissem Caio e Clarice ao invés de simplesmente compartilharem frases soltas. Literatura para mim tem a ver com cheiros e sabores.

Então, que há outro autor com quem me encontro sorrateiramente pelas esquinas: Julio Cortázar. Tinha só um livro dele até semana passada. Por favor, não me fale de O Jogo da Amarelinha, não quero saber. Gosto dos contos, aprendi a gostar de Cortázar do meu jeito e por algum motivo o universo insiste em nos aproximar. Só isso explica um vendedor ambulante de livros, que me abordou num restaurante, ter um Cortazar a R$10. É desses encontros que falo. Então, por favor, parem de picotar Caio e Clarice, encontre-os como um todo. Assim como me encontro numa edição velhinha, com cheirinho de sebo, que não tem nem mesmo ano de publicação, dos contos de Cortázar:

Tema para uma tapeçaria

O general só tem oitenta homens e o inimigo cinco mil. Em sua tenda, o general blasfema e chora. Então escreve uma ordem do dia inspirada, que pombos-correio espalham sobre o acampamento inimigo. Duzentos infantes passam-se para o general. Segue-se uma escaramuça que o general vence facilmente, e dois regimentos se passam para o seu lado. Três dias depois o inimigo tem somente oitenta homens e o general cinco mil. Então o general escreve outra ordem do dia e setenta e nove homens passam-se para seu lado. Só resta um inimigo, cercado pelo exército do general, que aguarda em silêncio. Transcorre a noite e o inimigo não passou para o seu lado. O general blasfema e chora em sua tenda. Ao amanhecer o inimigo desembainha lentamente a espada e avança em direção à tenda do general. Entra e olha para ele. O exército do general se dispersa. Sai o sol.

Histórias de cronópios e de famas, Julio Cortázar. (Pg. 81)

Vacilação

Vacilar é fundamental. É complicado ser o que os outros esperam de nós. O perfeccionismo que nos cobram em toda e qualquer atitude é extremamente limitador. Porque todo mundo tem que vacilar, fazer merda e se tornar humano. Faz parte disso saber quem nem todo mundo vai gostar de você, mas que isso é natural. As pessoas vão te cobrar posições e você vai preferir ficar nos bons drinks. Ninguém precisa ser militante 24 horas. Ninguém precisa ser a pessoa que resolve qualquer problema. Qualquer pessoa pode se contradizer. Qualquer pessoa pode decepcionar os outros e a vida segue, né? A vacilação também está aí para combater a caretice.