Infância Livre de Consumismo

Um coletivo de mães, pais e cidadãos inconformados com a publicidade dirigida às crianças uniram-se ao Instituto Alana na Campanha: Infância Livre de Consumismo (twitter e youtube).

O objetivo é questionar ações publicitárias com foco nas crianças e chamar a atenção para a responsabilidade que todos nós temos, como sociedade, na educação e bem estar das crianças. O movimento nasceu da indignação com a Campanha Somos Todos Responsáveis da ABAP (Associação Associação Brasileira de Agências de Publicidade), que responsabiliza unicamente pais e mães quanto à proteção das crianças diante dos estímulos abusivos das propagandas ao consumismo. A ABAP defende a autorregulamentação e o “bom senso” dos anunciantes como únicos controladores da publicidade infantil. Porém, por que é interessante ensinar as crianças a serem consumidores vorazes desde pequenos? Justamente para tornar automático o ato de consumir cada vez mais.

Por mais que a sociedade seja individualista nos dias de hoje, só conseguiremos contruir uma sociedade mais justa e igualitária com todos assumindo suas responsabilidades. Para que mães e pais eduquem seus filhos visando a cidadania e a sustentabilidade é preciso apoio efetivo do Estado, além da responsabilização das empresas privadas, dos veículos de comunicação e publicidade. Diante do excesso de propagandas e do conteúdo manipulatório que se apresenta diariamente na mídia direcionada às crianças, não é possível que mães e pais aceitem esta responsabilidade sozinhos.

O projeto Infância Livre de Consumismo busca abrir um canal de diálogo com a sociedade na tentativa de encontrar novas soluções para a questão da publicidade infantil. Afinal, a publicidade é danosa às crianças quando as pressiona a desejar cada vez mais bens de consumo, associando-os a um discurso enganoso, de alegria, felicidade e status social. Uma pressão que não pode ser devidamente elaborada pelas crianças, cujo senso crítico e cognição ainda estão em desenvolvimento. A criança está em real desvantagem frente o marqueteiro especialista que estudou os hábitos, conhece profundamente os desejos e aspirações de seu público alvo. Todo esse conhecimento tem como propósito derrubar as barreiras, filtros e principalmente a consciência crítica que define critérios para a compra de produtos.

É fundamental discutir a maneira como consumimos atualmente, porque os recursos naturais são limitados. Não é possível pensar em medidas ambientais e sustentabilidade sem pensar em reduzir o consumo. São as novas gerações que herdarão as consequências do mundo em que vivemos hoje. Vale muito apoiar esse projeto.

Susan Linn

Quando comecei a pesquisar sobre publicidade infantil deparei-me com Susan Linn. Americana, professora de psiquiatria na Escola Médica de Harvard, diretora associada do Centro de Mídia Infantil Judge Baker (Media Center of the Judge Baker Children’s Center) e co-fundadora da Campanha de Coalizão Nacional por Comercial sem Infância (National Coalition Campaign for a Commercial-Free Childhood). E, autora do livro “Crianças do Consumo – A infância roubada”.

Nesse livro, Susan Linn discute as relações entre pais, crianças, agências de publicidade, marketing e consumismo e suas conseqüências para o desenvolvimento infantil, como erotização precoce, obesidade e fortalecimento do egocentrismo. São títulos de alguns dos capítulos: “Alunos à venda: quem lucra com o marketing nas escolas?”, “Bebês de marca: do berço ao túmulo” e “Na magreza e na obesidade: o pesado problema do marketing de alimentos”.

Susan era uma das palestrantes do Encontro de Blogueiras promovido pelo Instituto Alana. Infelizmente não conseguiu comparecer pessoalmente, mas fez um vídeo expondo suas ideias principais. A primeira pergunta que Susan nos faz é: o que há de errado com a publicidade? Tenho 30 anos, cresci repetindo vários jingles publicitários e estou ótima, por que devo me preocupar com isso? Porque o mundo mudou e, como Susan nos mostra, as estratégias de marketing também. Porém, não é preciso ficar descrente e achar que nada pode ser feito. Podemos sempre apoiar projetos que proponham a regulamentação da publicidade.

 

Marketing Infantil

Tem texto meu no Amálgama Blog.

Deixo um trecho, mas não deixe de conferir por inteiro: O impacto negativo do marketing infantil.

A publicidade é a primeira indústria criada exclusivamente para a promoção do consumo. Agora o consumidor deve ser motivado, seduzido a adquirir tal produto ao invés de outro. Neste caso, o discurso da publicidade passa a se autonomizar das características utilitárias do produto em favor de associações que se referem a universos simbólicos que extrapolam o próprio valor de uso dos bens que deseja promover. Dessa maneira a publicidade desloca o foco do utilitarismo do produto e busca o campo do simbólico para seduzir o consumidor. O produto passa a ser também mediador de relações sociais, pois dentro da estrutura capitalista o ter significa ser.

Muitas vezes acabamos não sabendo por que compramos um produto específico. Qual a diferença entre desejo espontâneo e apelo de mercado? As crianças sabem distinguir o que está por trás da publicidade? Ou o objetivo é continuar formando mais ávidos consumidores? A publicidade possui uma avançada tecnologia de persuasão. Onde está a ética ao focar crianças como consumidoras? Afinal, sabemos que crianças ainda não têm o desenvolvimento cognitivo e pensamento crítico completamente desenvolvidos, e muitas vezes não diferenciam um programa de tevê de um comercial. Embora, de acordo com a lei, as crianças não possam comprar um automóvel ou um celular, elas são abordadas diretamente pela publicidade como plenas consumidoras. Basta ver a quantidade de propagandas de celulares com crianças e as propagandas de carro em que pais pegam os filhos na escola.

Há muito tempo a publicidade percebeu que as crianças têm influência nas compras da família. Técnicas de venda, linguagem específica e fantasias são usadas para conquistar a atenção e a emoção das crianças. Que criança não quer um cereal extremamente açucarado para ficar mais próxima do tigre protetor e forte? Quantas meninas não querem ser magras, loiras e eternamente lindas como a boneca? O incentivo ao consumo também segrega as crianças, pois elas se sentem inferior ao coleguinha que tem o brinquedo da moda. Acreditam que sua mãe é malvada porque não permite que ele coma todas as guloseimas, como a mãe do comercial. Quais seriam os valores que a publicidade transmite?

Para saber mais:

Instituto Alana

Manifesto pelo fim da publicidade e da comunicação mercadológica dirigida ao público infantil

Encontro de Blogueiras no Dia das Crianças

Ontem fiz uma viagem bate-volta para participar do Encontro de Blogueiras promovido pelo Instituto Alana. A idéia geral era estreitar laços e ouvir nossas opiniões sobre consumo, alimentação, sustentabilidade, limites, publicidade e o encurtamento da infância.

O encontro foi excelente. Aprendi bastante e trouxe muito material para compartilhar no blog. Parabéns ao Instituto Alana por essa iniciativa e, um obrigada muito especial por terem me proporcionado a chance de conhecer blogueiras muito bacanas.

Aqui uma lista com os links de algumas blogueiras que estiveram presentes, com quem conversei mais:

Ana Claudia Bessa da Futuro do Presente

Cybele Meyer do Educa Já!

Renata e Kalu do Mamíferas

Mariana do Viciados em Colo

Carolina Pombo do What Mommy Needs

Lola do Escreva Lola Escreva

Renata Monteiro do Propaganut

Encontro de Blogueiras promovido pelo Instituto Alana. 12/10/2011

Blogagem Coletiva: Consumo, Infância e Sexismo

Hoje as Blogueiras Feministas convidam você a participar de uma Blogagem Coletiva sobre as relações entre consumo, infância e sexismo. Não perca!

A contemporaneidade tem-se caracterizado pelas relações de produção e de consumo permeando as interações sociais. Temos acompanhado mudanças nas relações estabelecidas entre adultos e crianças, bem como o surgimento de uma nova produção da subjetividade em função da organização do cotidiano pela mídia e o modo como a experiência das crianças, dos jovens e dos adultos vem se transformando na sociedade de consumo. Portanto, crianças, adolescentes e adultos alteram suas relações intersubjetivas a partir das influências que a mídia e a cultura do consumo exercem sobre todos nós.

Para Postman (1999), não só a idéia de infância está em declínio. Paralelamente a esse processo, há também o adulto infantilizado que se alimenta de junkfood, que tem dificuldade em assumir sua prole e familiares idosos, apresentando pouco compromisso com a educação dos filhos. Os limites que separam crianças e adultos estão desaparecendo, pois as diferenças entre essas duas categorias não são enfatizadas.

Sarlo (1997) sinaliza que a infância é uma experiência que praticamente desapareceu, pois se encontra espremida por uma adolescência bastante precoce e uma juventude que se prolonga até os 30 anos. Pelo menos um terço da vida recebe o rótulo de juventude! Alguns autores buscam uma explicação para esse fato a partir das transformações radicais que vêm sendo operadas no cotidiano pela circulação das informações e o acesso crescente às novas formas de tecnologia em permanente expansão.

A mídia invade nosso cotidiano. A criança e o adolescente de hoje não conheceram o mundo de outra maneira – nasceram imersas no mundo com telefone, fax, computadores, televisão, etc. TVs ligadas a maior parte do tempo, assistidas por qualquer faixa etária, acabam por assumir um papel significativo na construção de valores culturais. A cultura do consumo molda o campo social, construindo, desde muito cedo, a experiência da criança e do adolescente que vai se consolidando em atitudes centradas no consumo.

Nos dias de hoje, há cada vez mais a preponderância dos processos de consumo, fazendo com que os sujeitos sejam levados a identificar-se com coisas e objetos que os levam a diferenciar-se dos demais, como também a discriminar e hierarquizar grupos sociais. Baudrillard (1995) esclarece que não é o consumo que se organiza em torno das diferenças individuais, mas, sim, estas, assumindo a forma de personalização, é que se organizam em torno de modelos comunicados pelo sistema de consumo. Para esse autor, existe inicialmente a lógica da diferenciação social e, depois, a manifestação organizada das diferenças individuais. Com isso, o sistema promove a anulação das diferenças “reais” e transforma as pessoas em seres contraditórios através da produção industrial da diferença. Em suma, o que prepondera é a ilusão de que podemos realizar escolhas autênticas, pois, de fato, todas as escolhas já estão previstas pelo sistema. O processo de construção da identidade na cultura de consumo apresenta-se como cambiante, fluido, fragmentado e parcial. Objetos e mercadorias são usados para demarcar as relações sociais e determinam estilos de vida, posição social, além da maneira de as pessoas interagirem socialmente. “Isto faz com que tais mecanismos culturais tenham o papel de estipular a natureza da experiência emocional e social que regerá o contexto entre os diversos grupos sociais” (Rabello de Castro, 1995: p.222).

Canclini (1997) mostra-nos como a maneira de consumir acabou por alterar as possibilidades e as formas de exercer cidadania. As identidades contemporâneas se configuram no consumo, dependendo daquilo que se possui ou do que se pode vir a consumir. Há um descontentamento com o que se tem, próprio do mundo globalizado, que “supõe uma interação funcional de atividades econômicas e culturais dispersas, bens e serviços gerados por um sistema com muitos centros, no qual é mais importante a velocidade com que se percorre o mundo do que as posições geográficas a partir das quais se está agindo” (p. 17). Esse descontentamento provém da fugacidade, da obsolescência. Tudo se torna obsoleto a todo instante.

Continue lendo em Mídia, cultura do consumo e constituição da subjetividade na infância. Artigo de Cristiana Caldas Guimarães de Campos e Solange Jobim e Souza da Faculdade de Educação da UERJ.