Dos sentidos e dos livros

Da última vez que eu e Mar conversamos em meio a sanduíches e deliciosas batatas, lembramos de nosso amor por Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector. Uma das primeiras coisas que nos uniu. Dei vários livros para ele, mas Água-Viva acho que foi o mais especial. Falamos de como hoje temos praticamente vergonha de dizer que nossos autores preferidos são Clarice e Caio. Porque eles acabaram virando aplicativos do facebook. Frases e fragmentos retirados do contexto viraram literatura barata de auto-ajuda, para quem busca uma frase hype do dia.

Imagem compartilhada no facebook. Autoria desconhecida.

Não é para preservar um lado hipster literário escondido que faço esse mimimi. Não gosto de ver as palavras de Clarice e Caio entrecortadas por fotos de balada e gifs animados. Porque para nós eles são sagrados. Realmente especiais. Nosso encontro foi precedido pelos encontros que tivemos com Caio e Clarice no final da adolescência. E sim, é tudo bem ridículo, mas eu queria mesmo que as pessoas sentissem Caio e Clarice ao invés de simplesmente compartilharem frases soltas. Literatura para mim tem a ver com cheiros e sabores.

Então, que há outro autor com quem me encontro sorrateiramente pelas esquinas: Julio Cortázar. Tinha só um livro dele até semana passada. Por favor, não me fale de O Jogo da Amarelinha, não quero saber. Gosto dos contos, aprendi a gostar de Cortázar do meu jeito e por algum motivo o universo insiste em nos aproximar. Só isso explica um vendedor ambulante de livros, que me abordou num restaurante, ter um Cortazar a R$10. É desses encontros que falo. Então, por favor, parem de picotar Caio e Clarice, encontre-os como um todo. Assim como me encontro numa edição velhinha, com cheirinho de sebo, que não tem nem mesmo ano de publicação, dos contos de Cortázar:

Tema para uma tapeçaria

O general só tem oitenta homens e o inimigo cinco mil. Em sua tenda, o general blasfema e chora. Então escreve uma ordem do dia inspirada, que pombos-correio espalham sobre o acampamento inimigo. Duzentos infantes passam-se para o general. Segue-se uma escaramuça que o general vence facilmente, e dois regimentos se passam para o seu lado. Três dias depois o inimigo tem somente oitenta homens e o general cinco mil. Então o general escreve outra ordem do dia e setenta e nove homens passam-se para seu lado. Só resta um inimigo, cercado pelo exército do general, que aguarda em silêncio. Transcorre a noite e o inimigo não passou para o seu lado. O general blasfema e chora em sua tenda. Ao amanhecer o inimigo desembainha lentamente a espada e avança em direção à tenda do general. Entra e olha para ele. O exército do general se dispersa. Sai o sol.

Histórias de cronópios e de famas, Julio Cortázar. (Pg. 81)

Monografia, day 78.

Monografia é algo que suga, como grande parte das coisas da vida. Aí me peguei pensando em abandonar o blog até terminar tudo. Mas as coisas não funcionam assim. Nem eu consigo ser tão entregue. Aí as vezes fujo para outro lado, pego o primeiro livro da estante, abro uma página qualquer e respiro. São essas pausas que andarão por aqui, até o fim de tudo. E o bom é que acabam sendo dicas literárias.

[A Fernando Sabino]

Washington, 5 de outubro de 1953, segunda-feira

Fernando,

Não tenho feito muitos amigos (salvo uma enfermeira da maternidade que gostou de mim e depois de quase oito meses de Paulinho nascido vem me visitar na folga — hoje toma chá comigo), e não tenho influenciado nenhuma pessoa. Tomo menos milk-shake e levo uma vida diária vazia e agitada. Passo o tempo todo pensando — não raciocinando, não meditando — mas pensando, pensando sem parar. E aprendendo, não sei o que, mas aprendendo. E com a alma mais sossegada (não estou totalmente certa). Sempre quis “jogar alto”, mas parece que estou aprendendo que o jogo alto está numa vida diária pequena, em que uma pessoa se arrisca muito mais profundamente, com ameaças maiores. Com tudo isso, parece que estou perdendo um sentimento de grandeza que não veio nunca de livros nem de influência de pessoas, uma coisa muito minha e que desde pequena deu a tudo, aos meus olhos, uma verdade que não vejo mais com tanta frequência. Disso tudo, restam nervos muito sensíveis e uma predisposição séria para ficar calada. Mas aceito tanto agora. Nem sempre pacificamente, mas a atitude é de aceitar.

Correspondências – Clarice Lispector, pág. 201.

Feira de Links #2

#O CCBB de Brasília está com seu teatro preenchido pela peça: Simplesmente eu, Clarice Lispector. Um monólogo dirigido, adaptado e estrelado por Beth Goulart. Vale a pena assistir. Tive um certo estranhamento ao ver alguém interpretar os textos de Clarice. Acho que nunca ri com Clarice, nunca achei que seus escritos, por mais estapafúrdios, fossem uma comédia. E Beth nos faz rir às vezes. Devo rever a peça semana que vem, pois é um encontro com Clarice, um encontro bem diferente do que o que tive nos meus 16 anos. Clarice e Caio F. são meus principais alicerces literários e deles herdei uma visão de mundo, por meio deles descobri meu mundo. A peça fica em Brasília até 02/08/09 e depois segue para o Rio de Janeiro, de 13/08 a 04/10/09.

#A Lola já deu a largada faz tempo para o 2º Concurso de Blogueiras. O tema da vez é feminismo e tem texto meu concorrendo. O texto Mayara, Obama e a imprensa ridícula teve uma ótima repercussão. Recebi elogios e reconhecimento pelo texto, boas discussões foram geradas. Fiquei muito orgulhosa e feliz, uma pena que a imprensa não perceba que uma mulher quer reconhecimento pelo seu trabalho, por seus feitos e não apenas pela admiração que outras pessoas tem pela sua bunda. Não estou pedindo votos, quero que você vá lá conhecer os outros textos, vote no que achar melhor e tenha certeza que o feminismo não morreu e nem é bicho-papão.

#A revista Veja dessa semana traz uma entrevista com Xinran Xue, autora do livro “As Boas Mulheres da China”. Em um trecho da entrevista, ela cita um dos motivos pelos quais penso que o feminismo é um movimento ainda muito importante, não só para a China, mas para o mundo em que vivemos, um mundo onde a mulher tem  sua liberdade sufocada. Ela fala da realidade de uma campesina chinesa, mas sabemos que ainda existem mulheres aí na esquina que sofrem da mesma cegueira social.

A senhora quer dizer que é cedo demais para que a democracia chegue à China? Vou repetir uma lição que recebi de uma camponesa de Hunan, região onde nasceu Mao Tsé-tung. Entrevistei-a em 1995, quando já era jornalista, achava que sabia tudo, mas na verdade era ainda muito ingênua. A mulher trabalhava num campo de arroz. Perguntei a ela o que escolheria se eu lhe oferecesse três coisas: liberdade e democracia; marido e filhos; ou terra e dinheiro. Ela me olhou como quem diz: “Ah, você está tentando me enganar!”. Respondeu que terra e dinheiro pertencem aos homens, não às mulheres. Sobre marido e filhos, disse: “Marido é quem manda em tudo e os filhos são a minha rotina”, querendo dizer que aquilo ela já tinha. Então, perguntou: “Mas quanto é a garrafa de liberdade?”. Eu fiquei atônita: “Como assim?”. Ela repetiu: “Quanto custa essa garrafa de óleo que você quer vender?”. Foi aí que eu entendi: em chinês, a pronúncia da palavra óleo (you) é muito parecida com a de liberdade (ziyou). Ela achou que eu estava querendo lhe vender óleo.
Quando ela entendeu que a senhora se referia a liberdade, o que achou da oferta? Mas ela não entendia essa palavra! Eu tive de explicar-lhe o que era e o fiz da forma que considerei mais simples. Disse algo como: “Bem, liberdade é você ter o direito de contrariar o seu marido quando você acha que ele fez algo errado. Liberdade é você ter o direito de dizer: ‘Eu quero algo para mim, não para o meu marido ou para os meus filhos – um vestido bonito, uma comida gostosa ou um dia de descanso’”. Achei que, colocando desse modo, ela fosse entender. Em vez disso, olhou para mim e respondeu: “Que mulher tola você é! Isso não existe”. Eu falei sobre liberdade, que é uma palavra muito mais fácil. Imagine se eu tivesse falado sobre democracia…

#A Yoko me entrevistou algum tempo atrás para seu trabalho final de curso. Vale a pena conhecer a Blogotecaria e várias dicas de blogs do Planalto Central. Acredite se quiser, nunca matei um blog. Fui simplesmente mudando de casa, carregando os posts comigo e deixando-os vazios para trás. Este endereço é minha terceira casa e acho que definitiva, pelo tempo que for.

#O , que já tinha me feito cair de amores pela Bic Runga, recentemente me apresentou o Hollywood Mon Amour. Foi paixão à primeira vista. É maravilhoso encontrar pessoas que sabem o que nossos corações precisam.

#Por falar em pessoas especiais, há alguns dias atrás foi Dia do Amigo. Não sou de comemorar essas datas, mas tenho uma amiga, uma melhor amiga, uma amiga tão querida que não sabe que choro às vezes de tão feliz que sou por tê-la na minha vida (mas ela sabe que choro até vendo novela). A Rosália está trabalhando do outro lado da rua do meu trabalho. Daí outro dia ela foi no meu prédio comprar dindin de cajá e levou um colega. Ao me apresentar para ele, ela disse: “Essa é a Bia, ela é a minha melhor amiga.” Como se nós tivéssemos seis anos e estivéssemos apresentando a nossa melhor amiga da escola. Faz tempo que ela é a minha melhor amiga, mas eu não sabia que eu era a melhor amiga dela. Não lembro que dia foi, mas aquele dia valeu para mim por todos os Dias do Amigo que eu nunca soube que existiam.

#E por falar em datas, no exato dia 19 de julho de 2009, na cidade de Brasília, eu e esse Adorável Nerd completamos 1 ano de namoro, ou como ele prefere, 365 voltas ao redor da Terra juntos. Sim, all we need is love!

#Preciso falar também desse anúncio da Lego, de muitos anos atrás. Uma garotinha sorri orgulhosa com seu brinquedo. Apenas isso, sem cor-de-rosa, sem glitter. Ok, adoro as Princesas Disney (sou Pocahontas!), mas meninas não são só isso e meninos não são só azul e comandos em ação. Ser livre é justamente poder ser o que ser quer, a qualquer hora, em qualquer momento. Ser livre é poder escolher.

#Debora Rocco, companheira de Deusario, estreou coluna nova sobre Menopausa: Tenda Lunar. Vale muito!

#E posso dar mais um link? Sexo e pizza quando são ruins…