O Artista

Achei que Hollywood jamais daria um Oscar para um filme francês. Porém, O Artista só é um filme francês por algum erro de logística geográfica. Se houvesse um diretor extremamente criativo e amante do cinema mudo ele poderia ter sido feito por um americano. Porém, foi um francês quem notou que a ruptura existente entre o cinema mudo e o falado foi crucial não só para os espectadores, mas também para seus protagonistas.

O filme é uma delícia. Minha primeira referência de filmes antigos é Charlie Chaplin. Foi ótimo relembrar a estrutura, a narrativa e a fotografia desse tipo de filme. É pura nostalgia, mas também uma história cativante, entre um ator em decadência e uma estrela em ascensão. Dois mundos opostos que se cruzam por causa de uma pinta. Pode não ser um filme que arrebata multidões, mas é daquele tipo que dá um calor no coração.

Não sei como as fashionistas ainda não começaram a usar os chapéus dos anos 20. Peppy Miller usa e abusa dos chapéus mais lindos que já vi. Berenice Bejo é lindíssima, praticamente saída diretamente dos anos 20. Close na cena em que ela consegue seu primeiro papel, passos de dança divertidíssimos que eu adoraria repetir todos os dias. Há também a cena com o paletó, maravilhosa.

Jean Dujardin mostra várias facetas com seus diversos bigodes e tem nos presenteado com ótimas aparições, seja imitando os passos de Tony Manero ou fazendo audições para papéis de vilões em grandes blockbusters (obrigada pela dica, Patricia Scarpin), afinal todo ator estrangeiro quando chega a Hollywood faz papel de um vilão bem estereotipado.

O cãozinho Uggie merece todos os elogios possíveis. E rola aqueles momentos em que você grita: “Gente, o chofer é o pai do Babe, o porquinho”; “Gente, o cara é o piradão do Laranja Mecânica”; “Gente, o Fred Flintstone!”.

Até assistir O Artista apostava todas as minhas fichas do Oscar em Os Descendentes, mas o show tem que continuar.

Tenho cara de canastrão de novela mexicana, mas ela me dá dignidade. O Artista (2011)

Os Descendentes

Sempre soube que ia gostar de Os Descendentes. Família disfuncional, pai ausente tentando se reabilitar, mãe catalisadora de todas as emoções. Welcome to my world. A diferença entre eu e os King é que na minha família quase todo mundo foi para terapia em algum momento. Enquanto a maioria se identifica com pais repressores, mães inocentes e religiosas em filmes roteirizados pelo Djavan, Os Descendentes é minha história de inadequação sem o amigo maconheiro. O que senti falta foi conhecer melhor a personagem de Elizabeth King. Porque acaba que só formamos sua imagem a partir dos olhos dos outros. Do marido amargurado, da filha revoltada ao pai super protetor.

Muito se fala sobre a corrida de George Clooney (e ela é bem marcante, especialmente na corrida clímax na praia), mas me chamou mais atenção a cena na piscina de Shailene Woodley. Sei exatamente o que é esse sentimento de pessoas que nunca foram próximas, mas que por serem da família sentem-se unidas em algum momento de ruptura. Para mim, Os Descendentes é um filme sobre rupturas. Sobre meninas que praticam bulliyng para se sentirem mais fortes, mas que serão forçadas a amadurecer num quarto de hospital. Sobre terras virgens que remetem a gerações, estão nas mãos de poucos, mas interessam a milhares de pessoas. Fora que tem o Havaí e suas paisagens maravilhosas. Conheci melhor o estado americano depois de começar a ler o blog da Lucia Malla, sempre imperdível.

Camisas havaianas, muito mahalo e Beau Bridges bonachão como o Primo Hugh. Os Primos são todos ótimos. Alexander Payne acertou mais uma vez com um filme em que uma das personagens principais está o tempo todo em estado terminal. Porque sempre chega o momento de destruir tudo e recomeçar.

Sim, somos a família Addams do Havaí, vai encarar? Os Descendentes (2011)

Histórias Cruzadas

Se os cartazes dos filmes contassem a verdade, essa seria a de "Histórias Cruzadas": "Bem-vindas, pessoas negras. Pessoas brancas resolveram o racismo". Imagem: Shizinit.co.uk

É um filme que devo escrever um post maior no futuro, tentando abarcar parte da polêmica sobre brancos salvando negros. Mesmo citando a figura da “mammy” como a única figura conhecida das empregadas domésticas negras, o filme cai em grande parte no mesmo estereótipo.

Mas não posso negar que gostei, que é bem meu tipo de filme, porque é cheio de mulheres. Há drama em excesso, chega um momento em que você diz: “por favor, não preciso dessa criança chorando e batendo na janela”. E mesmo assim me fisgaram, me fizeram pensar em cada uma das personagens quando sai.

Gosto muito da Viola Davis, desde que a vi em Dúvida. E gosto especialmente de vê-la na cena em que ela está ao telefone com Minny. Emma Stone está bonequinha, mas é sempre bom ver uma personagem subversiva em meio a tanto conservadorismo. Jessica Chanstain está piriguete e fiquei surpresa de ter ganho uma indicação para Oscar por esse filme. Achei-a muito caricata. Ela está bem melhor em Árvore-Da-Vida-Djavan-Fez-A-Via-Láctea-Fez-Os-Dinossauros, por mais que eu desteste esse filme, ela é a melhor coisa dele. Adorei conhecer Octavia Spencer, mas tenho muito medo que ela seja pega pela maldição do Oscar de atriz coadjuvante e depois só faça comédias medonhas do Eddy Murphy. Bryce Dallas Howard é o diabo racista encarnado. E Sissi Spacek é sempre uma alegria, ainda mais como uma senhorinha insolente.

A Separação

Fazia muito tempo que não assistia um filme iraniano. Não lembrava de como a língua é sonora. É um filme de diálogos tensos. Em que verdades diferentes importam para cada pessoa. É também um filme sobre um Irã desconhecido, cotidiano e íntimo, com um conflito constante entre religião e liberdade.

Cena do Filme A Separação (2011)

É um filme de tribunal que, como li numa crítica, tem toques de O Processo de Kafka. Simin quer ir embora do Irã. Nader não aceita, seu pai está com Alzheimer. Ela está preocupada com a filha e com as circunstâncias. Logo no início o juiz a questiona quais são essas circunstâncias. Nós sabemos. Simin decide abandonar o marido e volta para casa dos pais, pois está chateada. Nader precisa contratar uma empregada para cuidar do pai. Razieh candidata-se a vaga. Porém, seu marido não pode saber que ela trabalha na casa de um homem que apesar de casado está solteiro.

É interessante notar como o ato de colocar, arrumar e ajeitar os diferentes véus é repetido tantas vezes pelas mulheres. Em várias críticas li que Simin parece corajosa, mas mostra-se covarde em outros momentos. Não chamo suas atitudes de covardia, não é uma questão simples de fácil resolução, mas ela tenta. E ser criada numa cultura submissa não ajuda as mulheres e suas decisões, muitas revelações parecem proibidas a seus olhos.

A separação de Nader e Simin parece ser o estopim, mas há sempre algo não dito, um momento de fraqueza, o esgotamento da paciência e o desejo de fazer justiça. É um filme muito bom, com roteiro enxuto e cheio de reviravoltas. Porém, a separação não é apenas do casal. É de toda uma cultura e um país. Há os olhos sempre presentes da pequena Somayeh, mas é pelas lentes dos óculos de Termeh que podemos vislumbrar o futuro, mesmo com os corpos presos ao passado.

#7 Pontos – Oscar 2012

#1.  Toda minha torcida é para a dobradinha Black-Actress-Power com Viola Davis e Octavia Spencer levando respectivamente os prêmios de Melhor Atriz e Melhor Atriz Codjuvante pelo filme Histórias Cruzadas.

Heloooooo! Sou Tilda Swinton, a flambática Feiticeira Branca de Nárnia! David Bowie ligou e avisou que todo o look é autorizado.

#2. Esse é o ano em que Spielberg e Tom Hanks floparam bonito. Apesar de Cavalo de Guerra e Tão Perto, Tão Longe terem levado indicações para melhor filme, está bem na cara que não levam nada e que ninguém gostou.

#3. Estou decepcionadíssima que Tilda Swinton não levou uma indicação. Espero que ela suba no palco para sapatear flambando na cara dessa galera com um figurino ainda melhor que o do Globo de Ouro. Pelo menos Jessica Chainstain, que é a atriz do ano, aparecendo em nada menos que 7 filmes em 2011, levou uma indicação.

#4. Gary Oldman ganhar uma indicação para melhor ator é um grande presente para todas as piriguetes-amo-atores-britânicos do Bonde das Gary Lovers do qual faço parte. Beijo no coração para @TKitchen_blog, @Adelialund e @Rita_Paschoalin.

#5. Super vou assistir o Oscar só para ver Carlinhos Brown flambar pinga com mel naquela galera. Michel Teló com turnê européia, Carlinhos Brown no Oscar, o próximo passo é Aviões no Forró ganhando o Grammy com “Motel Disfarçado”. Se me odeia, deita na BR!

#6. A Academia não curtiu Harry Potter. Alan Rickman merecia demais uma indicação a melhor ator coadjuvante por Severo Snape. Esperei que no último filme fossem reconhecer a genialidade da série que cresceu junto com seus leitores. Ryan Gosling, o ator do ano, também foi solenemente ignorado.

#7. Estou muito feliz que A-Árvore-Da-Vida-Djavan-Fez-A-Via-Láctea-Fez-Os-Dinossauros não vai levar nada.

Confira os indicados.