É tão difícil falar desse filme sem contar alguma coisa crucial. Passadas mais de 12 horas que o assisti, penso que é um filme bem vertiginoso, passa muito rápido. Gosto muito de ver filmes de suspense porque sou tapada e nunca descubro o mistério, então a hora que tudo é revelado solto aquele gritinho interno e passo o resto do filme com olhos arregalados.
Sou louca pelo Almodóvar, dá para ver pela imagem de cabeçalho desse blog. Como disse o Andre V: como não amar um diretor que aparece em um dos seus filmes de meia arrastão e pernas de fora com lindas argolas de plastico nas orelhas cantando uma ode a dorgas ilicitas ?
Cena do filme A pele que habito.
O que me encanta, é que Almodóvar faz o que ninguém mais faz hoje em dia. Ele explora todos os limites da sexualidade em seus filmes. Sexo sempre é elemento fundamental em seus filmes. Em “A pele que habito” sexo é o motor de várias ações. Uma mulher que se envolve com o irmão do marido. O estupro de uma adolescente numa festa de casamento. A mulher que aceita fazer sexo mesmo sem sentir prazer. A empregada que tem dois filhos com homens diferentes. A vendedora de brechó lésbica. Alguns desses elementos perpassam a trama principal que evoca a transformação e a constituição de uma nova pele, para questionar quem são os personagens por trás das telas de televisão.
Porém, a principal razão pela qual todo mundo deve assistir “A pele que habito” é essencialmente uma: acredito ser impossível ficar impassível em relação a este filme. Alguma reação ele sempre provocará. E em tempos de filmes chatos e sonolentos é um alento ir ao cinema e sair com uma inquietação, uma dúvida, um asco, uma revolta, um desejo, uma vontade, um pavor. É uma delícia sairmos dos limites de nossas caixinhas.
E de bônus ainda tem a maravilhosa Buika lindíssima cantando nas cenas do casamento.
Tenho um problema sério, sempre que ouço a voz de Nelson Mandela me emociono muito. Era adolescente quando ele foi libertado e eleito presidente da África do Sul, sua história me marcou profundamente como um símbolo da luta pela liberdade. No trailer de Borboletas Negras descobri que em seu discurso de posse ele recitou trechos de um poema de Ingrid Jonker, poetisa sul-africana. Vi o trailer pela primeira vez em setembro e desde então precisava descobrir quem foi essa mulher.
Borboletas Negras é a cinebiografia de Ingrid Jonker, poetisa sul-africana. Por causa do estilo de seus poemas foi chamada de a Sylvia Plath da África do Sul. Ingrid é uma daquelas pessoas com as quais não sabemos como lidar. Imprevisível, impulsiva, explosiva, inquieta e sempre apaixonante. Já vimos personagens como Ingrid em outros filmes e vidas, são pessoas que não conseguem simplesmente se encaixar no nosso mundo tão organizado entre a hora de acordar e dormir. Não veem sentido em arrumar um trabalho e viver uma vida comum, algo as persegue internamente, um embate eterno com o não-pertencimento, com a não-identificação. Em alguns momentos Ingrid diz: “eu só quero um lar”. Um local onde possa se sentir segura. Ao mesmo tempo que vemos o quanto Ingrid sofre com sua condição, com suas escolhas e não-escolhas que faz pela vida, ela produz em palavras sentimentos que nunca soubemos expressar. Alguns de seus poemas são recitados no filme, outros podemos ler nas paredes, janelas e qualquer lugar em que ela escreva. Quando Ingrid perde sua capacidade de escrever, perde completamente seu desejo de viver.
O filme é marcado pelo relacionamento amoroso de Ingrid com o escritor Jack Cope. E, pelo relacionamento com seu pai, Abraham Jonker, um autoritário parlamentar sul-africano que defendia o Apartheid e era responsável por censurar produções artísticas, especialmente literatura. Ingrid morreu jovem, aos 31 anos, no mar. Esses dois relacionamentos acabam por ser os pontos de referência para onde Ingrid volta quando está feliz ou triste, mas ela sabe que não pertence a nenhum dos dois.
O filme da diretora Paula van der Oest é envolvente e mostra diferentes faces de Ingrid: mãe, amante, filha, ativista, poetisa. A forte sensibilidade é seu maior trunfo e seu demônio. Fica claro que a inconformidade de Ingrid com as injustiças e com o fato de não ser amada quando tem tanto amor para dar. Ao mesmo tempo que busca incessantemente a aprovação paterna, também deseja a liberdade e o amor. O sexo é uma grande força interior para Ingrid, assim como o amor. Ela sabe que ama Jack, mas a fidelidade não é um imperativo. Seus dois principais amantes dizem a ela em momentos diferentes: “você me esgota, me seca”. Porque tudo em Ingrid é muito intenso. Jack está sempre ao seu lado, mas sabe que é impossível conviver muito tempo com Ingrid, ninguém está preparado para tantos sentimentos e conflitos. Ingrid é seu próprio mar turbulento.
Leia o poema original de Ingrid Jonker lido por Nelson Mandela:
The Dead Child of Nyanga
The child is not dead
The child lifts his fists against his mother
Who shouts Afrika ! shouts the breath
Of freedom and the veld
In the locations of the cordoned heart
The child lifts his fists against his father
in the march of the generations
who shouts Afrika ! shout the breath
of righteousness and blood
in the streets of his embattled pride
The child is not dead not at Langa nor at Nyanga
not at Orlando nor at Sharpeville
nor at the police station at Philippi
where he lies with a bullet through his brain
The child is the dark shadow of the soldiers
on guard with rifles Saracens and batons
the child is present at all assemblies and law-givings
the child peers through the windows of houses and into the hearts of mothers
this child who just wanted to play in the sun at Nyanga is everywhere
the child grown to a man treks through all África
The child grown into a giant journeys through the whole world
O tema é o aborto de fetos sem cérebro e o drama das mulheres que não é levado em consideração. Este é um filme de Débora Diniz, produzido por Anis – Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero e pela produtora Imagens Livres. O que motivou este filme foi uma pergunta de um ministro do Supremo Tribunal Federal. Estavam julgando o caso da permissão de aborto legal para situações de gestação de fetos sem cérebro (morrem antes do parto ou logo após este). E um deles perguntou, quem são essas mulheres? Durante alguns meses, em 2004, as mulheres puderam realizar abortos com base em uma decisão liminar da Justiça. Essa decisão foi suspensa e a dor das mulheres continua nas mãos do Judiciário. É umas das faces do debate sobre o aborto no Brasil. Vale a pena ver e debater.
Este filme contou com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq, da International Women’s Health Coalition e da Ford Foundation.