Jogos Vorazes

Gosto muito de Jennifer Lawrence, desde Inverno da Alma. Acho que é uma grande atriz. Talvez se fosse coadjuvante em Inverno da Alma tivesse levado o Oscar, já que Hollywood adora premiar jovens atrizes nessa categoria. Jennifer traz uma segurança muito grande dentro de um rosto lindo, mas que guarda imensos abismos. Foi assim com Ree de Inverno da Alma, com Mystique de X-Men: Primeira Classe e, é assim com Katniss em Jogos Vorazes.

Nessas três personagens, Jennifer interpreta adolescentes forçadas a amadurecerem rápido devido as circunstâncias da vida. Também é interessante notar que nunca há a figura paterna nesses três papéis. Ree, assim como Katniss tem a mãe e a irmã. E elas são extremamente dependentes. Mystique tem o irmão, futuro Professor Xavier, mas sabe que eles se afastarão em algum momento. Há figuras masculinas que são importantes para elas, mas a impressão recorrente é que não podem contar com ninguém, cada uma precisa lutar por sua sobrevivência em uma mundo hostil, que as rejeita.

Jogos Vorazes (2012)

O filme tem um ritmo bom. Achei mais assustador do que imaginei, afinal é um jogo em que 24 jovens de 12 distritos devem matar uns aos outros até que reste apenas uma ou um. Katniss vem de um dos distritos mais pobres, seu pai morreu nas minas de carvão. Sobrevive por meio de suas habilidades como caçadora, usando arco e flecha. A mãe e a irmã são seus únicos tesouros. Sua identificação com seu condado sua única esperança.

A jornada da heroína começa diferente da maioria dos heróis porque Katniss não é escolhida por uma profecia e nem é convencida de sua importância. Katniss Everdeen é a mártir voluntária. Ela não aguenta ver sua irmã mais nova ser escolhida. No momento em que a pequena Primrose começa a andar para seu destino, Katniss intervem e se apresenta. A primeira voluntária em muitos anos como deixa parecer a apresentadora do sorteio. Um prato cheio para a audiência.

Katniss é uma heroína muito inteligente, que conta com alguma sorte, mas que também sabe que os bons sempre vencem, mas que também podem morrer jovens. Seu momento final é um grande golpe sobre todos, um ótimo momento para todas as meninas do mundo terem esperança de que podemos chegar onde queremos, porque o sistema sempre tem suas falhas.

Do Outro Lado

Janaína, uma menina de 14 anos, negra, baixinha, boca grande e lábios grossos, falastrona e, vista de certo ângulo, divertida, não tem a ponta do dedo indicador da mão esquerda. É o menor de seus problemas. Janaína começou a se prostituir aos 10 anos. O primeiro a abusar dela foi um policial. Ganhou em troca uma pedrinha de crack. Passou a viver na área do Centro de São Paulo conhecida como Cracolândia. Entrou na roda-viva de prostituir-se, ou “fazer programas” – muitos, a cada dia –, em troca das pedrinhas miraculosas – muitas, a cada dia.

“No começo, eu nem sabia o que era programa”, diz Janaína. “Pensava que era programa de televisão.” Dá um sorriso maroto. É o seu lado divertido. Um dia, a pedra do crack estourou dentro do cachimbo e queimou-lhe a mão. “O dedo ficou cheio de pus.” Levaram-na para a Santa Casa de Misericórdia, e teve de ter a ponta do dedo amputada. Foi um acidente grave, mas um nada, um detalhe, uma coisica do tamanho da ponta de seus dedinhos de criança, no contexto geral da vida que lhe foi reservada.

Janaína é um dos adolescentes, entre meninos e meninas, internados no Serviço de Atenção Integral ao Dependente, o Said, uma unidade de tratamento da prefeitura paulistana, administrada pelo Hospital Samaritano de São Paulo. O centenário Samaritano assumiu, em anos recentes, dois projetos de atendimento gratuito a dependentes do uso de drogas. Um é o Said, iniciado em agosto do ano passado no bairro de Heliópolis, perto de uma das maiores favelas da cidade. O outro é o Projeto Jovem Samaritano, iniciado um ano e meio antes no município de Cotia, na Grande São Paulo.

Continue lendo em Do outro lado da Lua.

Matéria de Roberto Pompeu de Toledo.

Publicada na Revista Piauí edição 56, maio/2011.

Sobre a histeria juvenil

Acredito que se Freud fosse iniciar seus estudos sobre histeria hoje dedicaria um tempo a juventude, especialmente o período entre 13 e 16 anos. É claro que lembro de imagens antigas com várias garotas esgoelando-se por Elvis, os Beatles ou os músicos que iam no Chacrinha, mas esse desespero pelos ídolos de uns tempos para cá parece acontecer cada vez mais cedo e de maneira mais recorrente. Tenho um interesse bem particular pela adolescência porque é um período onde a dificuldade de comunicação é real. Há vários obstáculos de interação com os adultos, porque ninguém parece capaz de entender toda complexidade e intensidade do período. Portanto, é fácil viver numa bolha com outros adolescentes, ao mesmo tempo, não é simples descobrir o que pensam e o que querem os adolescentes.

Tem dois vídeos que me chamaram atenção desde a primeira vez que os vi. O primeiro é famoso e suscitou uma série de bordões. São vários jovens que foram impedidos de ver um pocket show da banda Restart na loja FNAC da Avenida Paulista. Há relatos do que aconteceu, muito choro, revolta e enquanto alguns bradam que apoiarão a banda até o fim, outros afirmam que vão xingar muito no twitter.

O segundo, que considero quase um vídeo-irmão do primeiro, mostra o desespero de jovens que não conseguiram comprar ingressos para um show do cantor Justin Bieber no México. Há muita gritaria e é claro que com a narração em espanhol fica tudo muito mais dramático.

Os dois vídeos tem vários elementos em comum. A grande maioria dos fãs são meninas, mas sempre dá para ver alguns meninos. Há uma mãe que levou as filhas sendo entrevistada. Há alguém chorando muito dando entrevista. Há pessoas se abraçando e chorando, vivendo intensamente aquele momento, enquanto outras parecem chorar simplesmente porque é preciso mostrar algum desespero nessa hora, mesmo que seus rostos mostrem que não sabem bem o que fazer nesse momento.

O que faz essas jovens passarem o dia inteiro numa fila num mundo em que o sucesso dos artistas é tão efêmero? É claro que nos anos 80 nunca pensei que os Menudos iam acabar, mas hoje não imagino nenhum artista de multidões surgido há poucos anos atrás que vá durar muito tempo. Talvez a internet mantenha os fãs constantemente em alerta e agrupados, como exércitos de zumbis, mas seu desespero ao não conseguirem ver o ídolo é extremamente genuíno e parece aproximá-los. Afinal, que outras coisas seriam mais importantes nessa idade?