Quero o governo na minha vagina

Quero os republicanos na minha vagina. Sou uma mulher ocupada, que toma várias decisões por dia. Não quero o governo em bancos. Não quero o governo nas salas de aula. Onde quero o governo? Na minha vagina! Bem fundo, na minha vagina. Na vagina de minha mãe. Na vagina de minha filha. Na vagina de minha bisavó. Meu direito de escolher? E quanto ao meu direito de escolher não ter escolha?

Ser uma mulher significa ter uma vagina, mas isso não significa que quero ter controle sobre ela. Você já olhou de perto? Parece um palhaço que não foi depilado. Um buraco negro sem fim. Tomo grandes decisões todos os dias e agora os democratas querem que eu tome mais decisões? O governo poderia tornar métodos anticoncepcionais acessíveis com preços baixos, eu poderia decidir quando ficar grávida, faria exames médicos para saber se está tudo bem comigo e com o feto. Aí eu teria um bebê. Ou, o governo poderia restringir os métodos anticoncepcionais, aumentar minhas chances de ficar grávida sem desejar e ainda me forçar a fazer uma transvaginal invasiva sem o propósito de um diagnóstico, apenas para me assustar e recusar a opção de fazer um aborto. Aí sim eu teria um bebê. É bem mais fácil!

Quem você vai escutar? Seu médico ou um republicano? Você não quer uma pessoa como seu pai na sua vagina? Eu quero! Adoro pensar em ter meu pai envolvido em assuntos sobre minha vagina. E por sorte, durante um estupro, minha vagina sabe que é errado e produz um hormônio que me impede de ficar grávida. Todas ganhamos! Abra sua pernas e deixe o governo entrar!

Paula, obrigada pela dica do vídeo!

O conservadorismo crescente

Saiu hoje no Blogueiras Feministas, uma tradução da Paula Penedo de um texto muito bacana de Soraya Chemaly, blogueira do Huffington Post: 10 Razões pelas quais o resto do mundo pensa que os EUA são loucos.

É interessante ver como na América estão forjando diversas medidas que afetam diretamente os direitos humanos das mulheres, especialmente quando elas estão grávidas. É impossível ler projetos de lei que pretendem obrigar mulheres a arriscarem suas vidas ou fazerem transvaginais obrigadas, tudo em prol de um feto, e não lembrar de projetos de lei brasileiros como o estatuto do nascituro e o bolsa-estupro.

Conversando com o Cesar, questionei porque o continente americana tem todo esse fervor religioso, enquanto na Europa parece que a s religiões sempre estão à parte, até mesmo na Itália. Cesar me lembrou que na Europa o escapismo da extrema direita é a xenofobia, enquanto na América é a religião. Em meio a graves crises financeiras o conservadorismo floresce para esses lados. Uma esperança é que as mulheres percebam o quanto seus direitos estão sendo ameaçados e reajam. Obama parece estar à frente da campanha presidencial americana graças as mulheres.

O direito de não ser um útero à disposição da sociedade

Transcrição da sustentação oral do advogado Luís Roberto Barroso no julgamento do STF relativo a gravidez de fetos anencéfalos.

Excelentíssimo senhor presidente, senhoras ministras, senhores ministros, senhor procurador-geral da República:

Ao iniciar esta sustentação, meu primeiro pensamento vai para as mulheres, para a condição feminina, que atravessou muitas gerações em busca de igualdade e de proteção dos seus direitos fundamentais. O direito de não ser propriedade do marido, de educar-se, de votar e ser votada, de ingressar no mercado de trabalho. O direito à liberdade sexual, conquistada derrotando todos os preconceitos. E agora, perante esse tribunal, um capítulo decisivo dos seus direitos reprodutivos. O direito de não ser um útero à disposição da sociedade, mas de ser uma pessoa plena, com liberdade de ser, pensar e escolher. Senhores ministros: desde a noite dos tempos, muitos séculos de opressão feminina nos contemplam nessa manhã.

Meu segundo pensamento vai para as pessoas que por convicção religiosa ou filosófica não concordam com as ideias e teses que vou aqui defender. Toda crença sincera e não violenta merece respeito e consideração. Não passa pela minha cabeça mudar a convicção de ninguém. A verdade não tem dono. O pluralismo e a tolerância fazem parte da beleza da vida, da vida boa, da vida ética, da vida que inclui o outro. Aqui se trava um debate entre valores e ideias. Cada um em busca do argumento que possa conquistar maior adesão social. A única coisa ruim em um debate de valores e de ideias é um dos lados poder utilizar, em seu favor, o poder coercitivo do Estado. É um dos lados poder criminalizar o ponto de vista diferente. Essa seria uma visão autoritária e intolerante da vida.

O papel do Estado e do Poder Judiciário, nas questões que envolvem desacordos morais razoáveis, não é o de escolher um lado, mas o de permitir que cada um viva a sua crença, a sua autonomia, o seu ideal de vida boa.