Pinheirinho

Sei que é um imenso clichê, mas vendo vários vídeos com imagens da polícia invadindo o Pinheirinho em São José dos Campos, lembrei da música: Não existe amor em SP.

É muito importante lembrar que o Pinheirinho é um terreno que faz parte da massa falida do especulador Naji Nahas. Ele foi ocupado há 8 anos. Mais de 6 mil famílias moravam no local. Havia ruas asfaltadas, luz, água encanada e linhas de ônibus circulando dentro da comunidade. O terreno tem um dívida de IPTU milionária com a prefeitura. A comunidade do Pinheirinho existia como um símbolo do direito a moradia, que é direito de todas as pessoas. Ao longo de 8 anos, buscaram firmar acordos com instâncias governamentais para que fosse promovida a regularização fundiária da comunidade. A comunidade do Pinheirinho é um movimento social legítimo. Porém, o Estado e todo seu aparato não enxerga pessoas. Por isso somos todos testemunhas e responsáveis pelas cenas de guerra. É fundamental não esquecer, pois enquanto a desigualdade no Brasil for enorme, ainda haverá quem ache justo transformar milhares de pessoas que tinham um lar em sem-tetos, por meio da violência. A ganância vibra com a especulação imobiliária. O Brasil enfraquece com a intransigência da Justiça e do Estado.

Maíra Kubik e Felipe Milanez trazem os relatos – Liguei para o 190 com medo da polícia.

Raquel Rosnik fez um interessante paralelo sobre a atuação do Estado por meio da polícia no caso do Pinheirinho, na ação da Cracolândia e na USP. Todos os atos, (coincidência?) em São Paulo – Pinheirinho, Cracolândia e USP: em vez de política, polícia!

Camila Pavanelli fala sobre como o Estado tem usado a polícia como exército de ocupação (as UPP’s cariocas são a solução?) e pergunta: de que lado está a lei e a ordem? – Não existe polícia em São Paulo.

Foto: Cassio Roosevelt/Reuters

 

Binarismos

Já falei sobre medos de fêmeas e machos.

Essa semana me caiu nas mãos o texto: Como homem, admito: o poder é das mulheres. Ele começa bem. Quando chega na parte: “uma jovem de classe média do eixo Porto Alegre-São Paulo-Rio de Janeiro”, a sirene acende. E aí vem um imenso #mimimi:

Placa de banheiro na California. Foto de bitshaker no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

“Com tanto poder em suas mãos, porém, é importante que as mulheres não se esqueçam da outra metade do mundo. Aquela metade que nunca gerará um filho e não pode sair às ruas para exigir direitos, sob o risco de ser ridicularizada, até porque nem tem objetivos óbvios para perseguir.”

Quando foi que as mulheres esqueceram dos homens? Porque também quero viver nesse mundo em que mulheres são 95% das presidentes de grandes empresas. Em que homens são encochados todos os dias nos transportes coletivos. E, onde a maior prova de que o mundo é ruim para o sexo masculino é que 90% dos mendigos são homens.

No resto do texto ele vai reclamar de que:

  • Os homens desta nossa sociedade moderna não lutam pelo direito de disputar o campeonato de nado sincronizado ou de aparecer totalmente nu em uma revista feminina. Se esse é seu desejo, vá perseguí-lo. Tire fotos nus fazendo nado sincronizado, não há problema nenhum nisso.
  • Não podem ser pais sem informar a mãe ou realizar o sonho da paternidade por meio de um banco de óvulos – eles só se tornam pais quando uma mulher decide ser mãe de um filho seu. Inveja do útero? Adoção é uma opção, sabe?
  • Nos comentários ainda encontramos pérolas como: “Querem igualdade, mas vejo pouquissimas em minas de carvao, estivadoras e outros servicos bracais pezados” (sic).

Porém, o mais absurdo é o constante reforço do binarismo de gênero:

Sem reivindicações, objetivos ou clareza sobre seu papel, esses seres básicos contam apenas e tão somente com a compreensão das mulheres. Querem que elas entendam as suas dificuldades em saber como devem se comportar para conquistá-las e – o mais difícil – fazê-las felizes. Os homens – que no fundo desejam, mais do que tudo, ser reconhecidos e valorizados por aquele que já foi conhecido como o “sexo frágil” – acham cada vez mais difícil agradá-las. Poucos sabem quando o romantismo funciona ou quando é necessário ou recomendável perseguir um maior contato físico.

A verdade é que os códigos, papéis e responsabilidades ficaram confusos demais para um nível satisfatório de comunicação entre os sexos – e a saída está hoje muito mais nas mãos das mulheres. Paralisados diante das mudanças de regras, sem que um novo código de conduta tenha sido estabelecido, os homens sentam-se no fundo da sala à espera de uma nova orientação geral.

É preciso repetir várias vezes: é ótimo que não existam papéis pré-definidos para homens e mulheres. Porque não existem maneiras infalíveis de conquistar homens e mulheres. O que existem são pessoas, com gostos, personalidades, manias e medos distintos. É claro que ser romântico funcionará para algumas mulheres, entretanto, para outras isso não surtirá efeito. Da mesma forma são os homens. Não existem regras para um relacionamento dar certo, o que se pode fazer é tentar conhecer pessoas, ver o que as faz sorrir ou não, quais programas são divertidos ou não. E é justamente pelo fim desse binarismo que temos que lutar, porque quando não há comportamentos específicos para mulheres ou homens as pessoas são mais livres. Não fique reclamando que não há homem que preste no mercado, conheça novas pessoas. Se você teve algum problema no seu divórcio, vá ao terapeuta. Não fique passivamente esperando que mulheres resolvam sua vida, não sente no fundo da sala esperando orientações. Vá viver sua vida, conheça pessoas e descubra que há diversas formas de se relacionar.

Sobre Racismo

Ajudei a Karen Polaz com algumas dicas de links nesse post: Machismo e racismo dentro e fora do BBB. Um desses links é uma reportagem sobre desemprego entre negros e pardos.

Entre os comentários que não foram aprovados apareceu a seguinte pérola:

Janette Santiago. Foto de Nina Vieira no Flickr em CC.

Você pode ser formada no que for, mas não sabe interpretar estatísticas. Negros são mais desempregados por RACISMO? Que bacana. O fato de negros serem 80% dos jogadores da NBA e 60% da NFL (duas ligas que mais pagam aos jogadores no mundo) é o quê? Anti-racismo? Racismo contra os brancos jogadores de basquete?

Comentei no Facebook, como é interessante que as pessoas não percebam o quanto há racismo neste comentário, que limita e acha que já está muito boa a atuação dos negros no mercado de trabalho. A Luciana Rocha me mandou uma das melhores respostas sobre racismo que já vi:

Mimimi dos negros, não existe racismo! Na verdade os negros são supervalorizados!

Também me incomoda essa supervalorização. Já não basta todos os presidentes do país terem sido negros, já não basta que 87% do Congresso brasileiro é de negros, já não basta que o governo só escuta religiões afro-brasileiras e não dá a mínima bola para bispos católicos brancos em greve de fome, já não basta a maioria dos universitários serem negros, os negros viverem mais do que os brancos e serem menos vítimas de violência e quase toda propaganda ser estrelada por modelos negros e mais, eles controlam 72% do PIB brasileiro. Não agüento mais os negros controlando a FIESP em Sp e que tenhamos que estudar só História da África na escola e nada de Europa branca. Não agüento estes feriados por Oxalá, Ogum e Iemanjá.

Chega! Vamos nos unir e lutar pelos brancos neste país de exclusão dos brancos! Chega da polícia só bater nos brancos! Chega de negros reitores, governadores, delegados, bispos e papas! Basta do Imperialismo de Gana, Senegal e Angola! Todo poder aos excluídos!!!

O governo Lula deveria indicar ao menos um branco para seu governo! Abaixo a discriminação. Vamos levantar a moral dos brancos humilhados e explorados por este domínio de 500 anos! Os brancos devem ter direito a morar nos Jardins, no Leblon e em outros bairros de elite também!”

O autor do comentário acima chama-se Leandro. De acordo com o Pedro, o comentário foi feito na comunidade História, do Orkut, em resposta a um sujeito que perguntava por que essa atual “supervalorização” dos negros. Imagina, gente, 80% dos jogadores da NBA são negros! Cadê o racismo que tava aqui?