Arquivos da categoria: Sexualidade

O Corpo Utópico

Trechos do texto de Michel Foucault: O Corpo Utópico. Publicado pelo site Instituto Humanitas Unisinos em 22/11/2010.

Depois de tudo, creio que é contra ele e como que para apagá-lo, que nasceram todas as utopias. A que se devem o prestígio da utopia, da beleza, da maravilha da utopia? A utopia é um lugar fora de todos os lugares, mas é um lugar onde terei um corpo sem corpo, um corpo que será belo, límpido, transparente, luminoso, veloz, colossal em sua potência, infinito em sua duração, desligado, invisível, protegido, sempre transfigurado; e é bem possível que a utopia primeira, aquela que é a mais inextirpável no coração dos homens, seja precisamente a utopia de um corpo incorpóreo. O país das fadas, dos duendes, dos gênios, dos magos, e bem, é o país onde os corpos se transportam à velocidade da luz, onde as feridas se curam imediatamente, onde caímos de uma montanha sem nos machucar, onde se é visível quando se quer e invisível quando se deseja. Se há um país mágico é realmente para que nele eu seja um príncipe encantado e todos os lindos peraltas se tornem peludos e feios como ursos.

[…]

Mas meu corpo, para dizer a verdade, não se deixa submeter com tanta facilidade. Depois de tudo, ele mesmo tem seus recursos próprios e fantásticos. Também ele possui lugares sem-lugar e lugares mais profundos, mais obstinados ainda que a alma, que a tumba, que o encanto dos magos. Tem suas bodegas e seus celeiros, seus lugares obscuros e praias luminosas. Minha cabeça, por exemplo, é uma estranha caverna aberta ao mundo exterior através de duas janelas, de duas aberturas – estou seguro disso, posto que as vejo no espelho. E, além disso, posso fechar um e outro separadamente. E, no entanto, não há mais que uma só dessas aberturas, porque diante de mim não vejo mais que uma única paisagem, contínua, sem tabiques nem cortes. E nessa cabeça, como acontecem as coisas? E, se as coisas entram na minha cabeça – e disso estou muito seguro, de que as coisas entram na minha cabeça quando olho, porque o sol, quando é muito forte e me deslumbra, vai a desgarrar até o fundo do meu cérebro –, e, no entanto, essas coisas ficam fora dela, posto que as vejo diante de mim e, para alcançá-las, devo me adiantar.

Corpo incompreensível, penetrável e opaco, aberto e fechado: corpo utópico. Corpo absolutamente visível – porque sei muito bem o que é ser visto por alguém de alto a baixo, sei o que é ser espiado por trás, vigiado por cima do ombro, surpreendido quando menos espero, sei o que é estar nu. Entretanto, esse mesmo corpo é também tomado por uma certa invisibilidade da qual jamais posso separá-lo. A minha nuca, por exemplo, posso tocá-la, mas jamais vê-la; as costas, que posso ver apenas no espelho; e o que é esse ombro, cujos movimentos e posições conheço com precisão, mas que jamais poderei ver sem retorcer-me espantosamente. O corpo, fantasma que não aparece senão na miragem de um espelho e, mesmo assim, de maneira fragmentada. Necessito realmente dos gênios e das fadas, e da morte e da alma, para ser ao mesmo tempo indissociavelmente visível e invisível? E, além disso, esse corpo é ligeiro, transparente, imponderável; não é uma coisa: anda, mexe, vive, deseja, se deixa atravessar sem resistências por todas as minhas intenções. Sim. Mas até o dia em que fico doente, sinto dor de estômago e febre. Até o dia em que estala no fundo da minha boca a dor de dentes. Então, então deixo de ser ligeiro, imponderável, etc.: me torno coisa, arquitetura fantástica e arruinada.

Não, realmente, não se necessita de magia, não se necessita de uma alma nem de uma morte para que eu seja ao mesmo tempo opaco e transparente, visível e invisível, vida e coisa. Para que eu seja utopia, basta que seja um corpo. Todas essas utopias pelas quais esquivava o meu corpo, simplesmente tinham seu modelo e seu ponto primeiro de aplicação, tinham seu lugar de origem em meu corpo. Estava muito equivocado há pouco ao dizer que as utopias estavam voltadas contra o corpo e destinadas a apagá-lo: elas nasceram do próprio corpo e depois, talvez, se voltarão contra ele.

O Império Homossexual

O querido (#NOT) senador Magno Malta está sem louça para lavar e sem lote para carpir. Daí resolveu denunciar uma polêmica (#mamilos) de que estão tentando criar um Império Homossexual.

Tirinha de Arnaldo Branco

Veja bem, colega-irmã-companheira-siliconada-travesti que está sendo espancada em cada esquina desse país, nós estamos aê criando um império e tu não sabia.

Veja bem, colega-irmã-companheira-lésbica-de-melissinha que está tomando pedrada na rua e sendo chamada de homem, nós estamos aê criando um império e tu não sabia.

Veja bem, colega-gay-que-arrasa-na-buátchy mas tem que sair na rua com medo de tomar uma lâmpada fluorescente na cara, nós estamos aê criando um império e tu não sabia.

Veja bem, colega-irmão-companheiro-transexual que é obrigado a viver como outra pessoa e ser constrangido porque não consegue mudar seu nome nos documentos oficiais, nós estamos aê criando um império e tu não sabia.

Veja bem, colega-irmã-companheiro-gay-lésbica-travesti-transexual-transgênero-bissexual que não pode andar de mãos dadas com uma pessoa do mesmo sexo na rua porque pode apanhar, nós estamos aê criando um império e tu não sabia.

Então, chegou a hora de revelar todos os planos do Império Homossexual. O hino nacional será trocado por um potpourri de Lady Gaga, Madonna e Alcione. Se você é homem heterossexual, casado com uma mulher, em breve ela será realocada para uma união homossexual e você receberá um companheiro para iniciar uma união estável em que um de vocês ficará grávido.

Achava que ainda não era hora, mas como boa travesti que sou compartilho com você todos os planos e ações que serão executadas no Império Homossexual. O Fabiano Camilo decidiu (Des)travar o Terrorismo Rizomático Alucinante da Vanguarda Anal e contar tudo: Revelados os terríveis planos secretos para a instituição do Império Homossexual!

O texto confirma as piores suspeitas das autoridades religiosas e governamentais acerca da existência de uma conspiração glbt para a tomada do poder. Contudo, aparentemente, as suspeitas estavam em parte equivocadas e o objetivo almejado pelos grupos terroristas glbt’s não é o estabelecimento de uma ditadura gay, mas a instituição de um Império Homossexual, um Estado totalitário onde os heterossexuais não terão direitos reconhecidos.

  • as seguintes disciplinas serão obrigatórias para as crianças e os adolescentes que se identificarem como pertencentes ao gênero masculino: maquiagem, moda, balé, ginástica artística ou saltos ornamentais, chuca perfeita, criando e difundindo baphos, vida e obra das magníficas divas, etiqueta para banheirão e dark room;
  • as seguintes disciplinas serão obrigatórias para as crianças e os adolescentes que se identificarem como pertencentes ao gênero feminino: manicure para fins vaginais, futebol ou artes marciais, vida e obra das maravilhosas cantoras da MPB, manufatura de sapatos, direção de caminhões;

Travestis e Transexuais das Novelas

Cartaz do grupo britânico Transfabulous

O Mar, me mandou um link super bacana esses dias que ficou perdido na timeline louca do Facebook.

Relembre os travestis e transexuais das novelas.

Imperdível! Especialmente em tempos de Laerte sendo sabatinado por pessoas com as mentes tão fechadas no programa Roda Viva. Chegou a hora dessa gente bronzeada subverter de vez os limites de gênero e sexualidade.

Enfim, a emancipação masculina – O que é ser homem hoje? A boa notícia é que ninguém sabe.

Desdiagnosticando o gênero

Para continuar a problematização do post de ontem sobre transexualidade.

De fato, as correlações entre identidade de gênero e orientação sexual são, na melhor das hipóteses, turvas: não se pode prever, com base no gênero de uma pessoa, qual identidade de gênero ela terá e qual ou quais direções do desejo essa pessoa, ao final, levará em consideração e seguirá. Embora John Money e outros, assim chamados, transposicionalistas pensem que a orientação sexual tende a ser uma consequência da identidade de gênero, seria um grande erro pressupor que a identidade de gênero causa a orientação sexual ou que a sexualidade tem necessariamente como referência uma prévia identidade de gênero. Tal como tentarei mostrar, ainda que uma pessoa aceitasse como não sendo problemático indicar quais são as características “femininas” e quais são as “masculinas”, isso não acarretaria que o “feminino” é atraído pelo o “masculino”, e o “masculino” pelo o feminino. Isso só se daria se compreendêssemos o desejo a partir de uma matriz exclusivamente heterossexual. Na verdade, essa matriz não apreenderia corretamente alguns comportamentos queercrossings na heterossexualidade, assim como, por exemplo, quando um homem heterossexual femininizado deseja uma mulher femininizada a fim de que os dois possam ficar tal como “entre meninas”. Ou quando mulheres heterossexuais masculinas desejam que, para elas, seus meninos sejam tanto meninas quanto meninos. O mesmo comportamento queer crossing acontece na vida das lésbicas e dos gays, quando uma lésbica butch junto com outra constitui um modo caracteristicamente lésbico de homossexualidade masculina. Além disso, a bissexualidade, como já disse antes, não pode ser reduzível a dois desejos heterossexuais, quer compreendido como um lado feminino desejando um objeto masculino, quer como um lado masculino desejando um objeto feminino. Esses queercrossings são tão complexos quanto qualquer coisa que acontece tanto na heterossexualidade quanto na homossexualidade. Esses queercrossings ocorrem mais frequentemente do que em geral se percebe, o que expõe ao ridículo a proposição transposicionalista de que a identidade de gênero pode predizer a orientação sexual. De fato, por vezes é exatamente a desconexão entre a identidade de gênero e a orientação sexual – o não se orientar pelo modelo transposicionalista – que, para algumas pessoas, constitui o excitante e o erótico.

Continue lendo em Desdiagnosticando o gênero. Por Judith Butler, tradução de André Rios e revisão técnica de Marcia Arán.