Nosso Acordo

Veronica é a garota esperta com cabelo bololô, que carrega um lobo no casaco de couro. Tem no dedo mindinho uma garra. Lucky é o garoto sorridente com penteado dos anos 80 que prefere o dia. Sua cor favorita é spray branco. Lucky está apaixonado e Veronica não soube esperar. Eles já foram uma vampira e um lobisomem, mas agora são dois jovens apaixonados sorrindo num telhado.

Fazia tempo que não me apaixonava por um clipe, na verdade, quase um mini-curta-metragem. Quando fiz esse post sobre Drew Barrymore não pensei que iria lá todos os dias para ver e ouvir o West Side Story atualizado, que traz muita sensibilidade em palmas da mão e um estilo delicioso. A cena do telhado é a mais linda, porque no início da paixão é aquilo, um eterno brincar e rir junto misturado com beijos intermináveis. Mesmo com o final não sendo feliz, agradeço muito a Drew e ao Best Coast pelo calorzinho no coração. Vale a pena ver também os divertidos vídeos dos bastidores.

A música é super simples, não tem nada demais, mas a voz da vocalista Bethany Consentino nos prende na historinha, que também tem um quê da tragédia amorosa shakesperiana.

when you leave me

the bed is empty

and i feel crazy

cause i didn’t say anything

i wish you would tell me

how you really feel

but you’ll never tell me

cause that’s not our deal

Coro – Moribundo se encontra o antigo afeto, querendo o novo amor ser seu herdeiro; da beldade fatal o externo aspecto frente a Julieta é monstro verdadeiro. Ama Romeu, sendo também amado. Cada um nos olhos do outro acha feitiço; queixa-se ele do inimigo proclamado; na mais pungente dor cria ela viço. Sendo inimigo, acesso junto dela não obtém ele para suas juras; nem ela sabe, como, com cautela, lhe poderá dizer palavras puras. Mas o amor, em tamanha extremidade. sabe fazer da dor felicidade. Romeu & Julieta

#prontomudei

#prontosumi #prontofugicomocirco #prontocasei #prontomudei ou “Oh no, he can’t read my poker face.”

E no meio da confusão da mudança tive que encarar meus 29 anos espalhados pelo quarto que ocupei todo esse tempo no apartamento de mamãe. Tenho diários e agendas desde que tinha 11 anos e ainda não sei o que farei com eles. Tenho uma caixa cheia de cartas, bilhetes e lembranças que contam tudo sobre meu primeiro namoro em 1996. Tantos fragmentos de pessoas que não lembro, outros tantos de pessoas que a vida engoliu, outros tantos de pessoas que sinto falta. Nem os livros serão todos carregados. Nem todos os filmes serão revistos.

Tem uma carta de 2006 do Lipe, com um cartão que diz:

“VIVA COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ.

AME COMO SE NUNCA FOSSE SE MACHUCAR.

TRABALHE COMO SE NÃO PRECISASSE DO DINHEIRO.

E DANCE COMO SE NINGUÉM ESTIVESSE OLHANDO.”

Tem um postal do Mar de 2008, que diz:

“(do nono quintal, achado na pequena livraria do café, perto da ‘banca da creuza’, onde você não estava ontem) Você faz falta por aqui, tal qual a caneta anterior que secou antes do ponto, nessas frases.”

Confesso que a redescoberta tem sido prazerosa e também tensa, pois a vida caminha e infelizmente não posso levar tudo comigo. O tempo com seus passos largos anda me engolindo o cotidiano, me carregando com o vento. É hora de procurar. De esquecer de fazer a unha e tentar encontrar todos os sentidos perdidos, para depois descobrir que eles continuarão apenas fazendo sentido naqueles momentos, naqueles anos, naqueles dias nostálgicos que existiram onde o amor sempre será o elo mais forte, a única explicação para tanta vida. E as certezas de que algumas coisas são eternas, como a Creuza.

A Helena que não Viveu a Vida.

A primeira vez que ouvi falar da novela Viver a Vida (2009), veio a notícia de que esta seria a primeira novela das oito com uma protagonista negra. Taís Araújo, que já havia sido a primeira protagonista negra de uma novela brasileira com Xica da Silva (1996), na extinta Rede Manchete, iria superar mais uma barreira, pois também já tinha sido a primeira protagonista negra de uma novela da Rede Globo em Da Cor do Pecado (2004). Ela seria uma Helena, que dentro das novelas do autor Manoel Carlos são grandes protagonistas, mulheres que lutam para mudar seus destinos e serem felizes. A Helena de Taís seria uma modelo famosa internacionalmente, independente, conquistadora e carismática que se apaixonaria por um homem mais velho e castrador vivido por Zé Mayer. Realmente era essa a Helena do início da novela, com seus belos vestidos e a lindíssima cabeleira afro coroando uma atriz negra no papel central. Maneco acertou também ao incluir na trama a família de Helena, acolhedora e unida, toda formada por atores negros. Seus enredos fugiam do tradicional papel do ator/atriz negro/a que geralmente é o empregado/a de uma rica família branca ou faz parte do núcleo que mora no subúrbio. Edite, vivida por Lica de Oliveira, é mãe de Helena e figura central da família, uma mulher forte, inteligente e batalhadora, que está em seu segundo casamento e é dona de uma pousada em Búzios.

Apesar do casamento de Helena com Zé Mayer ser um dos pontos altos do início, a novela acabou ganhando outra protagonista. Helena foi totalmente colocada em segundo plano por Aline Moraes e sua personagem Luciana, uma modelo em início de carreira que fica tetraplégica num grave acidente. Não foi uma questão de a interpretação de Aline Moraes ser melhor e ofuscar, mas sim o fato de que Manoel Carlos parece não ter abraçado realmente sua primeira Helena negra, preferindo focar a trama principal nos dramas e na superação de Luciana. A novela teve muitos pontos positivos ao abordar o tema da limitação física, mostrou a reação dos personagens a notícia, o desenvolvimento do tratamento e as dificuldades na nova vida, inclusive houve uma cena em que Luciana tentou usar um ônibus público adaptado. Tratou também de temas difíceis como a vida sexual dos cadeirantes e as possibilidades de terem filhos. E divulgou projetos bacanas como o “Praia para Todos”.

A trama como um todo foi muito fraca. Manoel Carlos é conhecido como o autor do cotidiano, seus diálogos sempre falaram de trivialidades. Porém, tudo parecia excessivamente feliz, sem grandes dramas. Para quem já escreveu uma trama de muita dor e segredos, como a troca de bebês realizada por Regina Duarte em Por Amor, faltou a Viver a Vida uma expectativa, um “quem será o próximo a descobrir”. Faltou também uma grande vilã, como é de praxe nas novelas brasileiras. Em determinado momento a trama da novela girou apenas entre as traições de diversos casais, como se trair fosse algo absolutamente normal e ninguém sofresse mais por isso. Gustavo traía Betina com a prima dela, Betina traía Gustavo com o instrutor da academia. Marcos traía Helena com Dora, que traía Maradona com Marcos. Luciana traía Jorge com Miguel, que traía Renata, que o traía com Felipe.  Sempre tivemos personagens infiéis em outras novelas, como a Norminha de Caminho das Índias, mas nunca vi algo nesse estilo Quadrilha-de-Drummond. Era tanta traição que não tive escolha.  junto com as colegas de twitter apelidamos a novela de #trairavida.

Algumas cenas de Viver a Vida foram extremamente preconceituosas por tratarem mulheres de uma maneira inaceitável. Confesso que muitas vezes vibro com cenas de briga, apesar de não aprovar violência, há momentos em que queremos nos vingar da vilã que tanto tripudiou em cima da mocinha mosca-morta. Não foi o caso dessas três cenas específicas de Viver a Vida.

Helena é chamada de criminosa por ter feito um aborto. Todos os anos são realizados milhares de abortos clandestinos no Brasil, a grande maioria feita sem equipamentos e profissionais adequados, o que acarreta um grande número de mortes. A questão do aborto não deve ser influenciada por questões religiosas ou dogmáticas, o aborto deve ser decisão da mulher e atualmente é questão de saúde pública. O aborto é uma prática comum, presente em todas as classes sociais, sempre acobertado pela hipocrisia, indiferença e desrespeito com a mulher. A diferença é que quem tem dinheiro faz em clínicas particulares, com toda estrutura. Quem não tem se arrisca em abortos clandestinos que podem deixar sequelas ou causar a morte. A descriminalização do aborto é urgente, pois só quem vai presa é a mulher pobre. E quando Maneco escreve uma cena como essa, em que uma mulher que cometeu um aborto, independente de seus motivos, é achincalhada como criminosa, o autor está fazendo um desserviço ao respeito pelas mulheres e ao direito que elas devem ter sobre seu corpo. É importante que a questão do aborto seja retratada em novelas, mas justamente para acabar com os preconceitos. Vai pensando aí.

Helena leva um tapa de forma humilhante. O racismo do brasileiro está sempre nas entrelinhas, nunca é assumido. Num país como o Brasil exibir cenas em que uma pessoa branca bate na cara de uma pessoa negra ajoelhada, as duas caracterizadas por vestimentas totalmente distintas, é reproduzir cenas de humilhação que podem estar sendo vividas por muitas pessoas negras. Helena poderia estar de pé na hora do tapa, já que a idéia era revidar o tapa da cena que citei anteriormente. Helena poderia estar triste e deprimida, mas com certeza poderia estar usando um vestido simples e bonito, poderia estar com os cabelos soltos. Tereza que tinha descoberto que sua filha estava tetraplégica está bem vestida e maquiada. Por que Helena tem que estar numa posição tão humilhante? Por que a adolescente negra que viu Helena tão bela caminhando por Petra, agora tem que vê-la sendo esbofeteada por uma mulher rica e branca? Quantas Helenas se ajoelhariam e pediriam perdão e apanhariam sem reação em pleno século XXI? Foi com certeza a pior cena de toda novela. E ainda temos que aguentar ela sendo chamada de criminosa mais uma vez.

Marcos persegue Dora pela casa tentando agarrá-la. É tão nojento pensar que homens e mulheres realmente acham isso romântico. Um homem correndo atrás de uma mulher, tentando beijá-la a força, ela negando e depois cedendo como se a paixão fosse incontrolável. Todas as cenas em que Marcos, vivido por Zé Mayer, brincava de Lobo Mau com Dora, vivida por Giovanna Antonelli, eram nojentas. Porque começavam da mesma maneira e terminavam da mesma forma, dando a impressão que mulheres gostam de ser subjulgadas, que basta insistir que uma hora elas cedem, que são atitudes como essa que estimulam a paixão. Isso é violência, isso é forçar intimidade, isso é o tipo de atitude que leva ao estupro. Fugir correndo de um homem que quando me agarra à força diz: “você não tem que querer nada”; é deprimente e nojento. Nenhuma mulher deveria ser tratada dessa maneira, ninguém pode achar que isso é divertido ou sensual, isso é viver de forma humilhante.

Houveram outras cenas ruins, porém essas três foram as que mais me chocaram quanto ao desrespeito. Enquanto mostra as dificuldades e preconceitos enfrentados pelos cadeirantes, Manoel Carlos esquece de acabar com uma série de preconceitos contra as mulheres. Uma grande decepção a maioria das personagens femininas da trama , começam fortes, mas no fim padecem por não terem um homem ao seu lado. Uma pena que a primeira Helena negra seja tão esquecível como heroína. No fim, não consigo imaginá-la como a via no início, como uma mulher que muda seu destino e constrói sua felicidade vencendo preconceitos. Entretanto, neste último semestre houveram três novelas na Rede Globo com protagonistas negras, isso demonstra mudanças.

E como nem tudo são lágrimas e novela também é diversão, além das risadas no twitter, alguns vídeos fizeram a alegria da audiência de #trairavida: Houve os imperdíveis Momento Vanessão 1 e Momento Vanessão 2. Uma Dramatic-Rafaela feita pelo Marmota. E o mais infame de todos É Tetra!

Que venha Passione!