O Coração

Era uma tarde calorenta. Lá estava ele de terno e camisa, como sempre o vejo. Eu e Frida Marioca bagunçando com ele. E aí, o Marcelo, o Caetano, abre umas folhas meio amassadas, meio escondidas. Declama. Com a voz que ele tira lá do fundo, sem tempo para respirar. Com a memória de quem já releu aquelas linhas mentalmente várias vezes. E quando ele correu, gritei: “publica!” E ele publicou, corra lá: Coração pra compensar.

Heart Anatomy. Imagem de mychoice no Picsy

Do Outro Lado

Janaína, uma menina de 14 anos, negra, baixinha, boca grande e lábios grossos, falastrona e, vista de certo ângulo, divertida, não tem a ponta do dedo indicador da mão esquerda. É o menor de seus problemas. Janaína começou a se prostituir aos 10 anos. O primeiro a abusar dela foi um policial. Ganhou em troca uma pedrinha de crack. Passou a viver na área do Centro de São Paulo conhecida como Cracolândia. Entrou na roda-viva de prostituir-se, ou “fazer programas” – muitos, a cada dia –, em troca das pedrinhas miraculosas – muitas, a cada dia.

“No começo, eu nem sabia o que era programa”, diz Janaína. “Pensava que era programa de televisão.” Dá um sorriso maroto. É o seu lado divertido. Um dia, a pedra do crack estourou dentro do cachimbo e queimou-lhe a mão. “O dedo ficou cheio de pus.” Levaram-na para a Santa Casa de Misericórdia, e teve de ter a ponta do dedo amputada. Foi um acidente grave, mas um nada, um detalhe, uma coisica do tamanho da ponta de seus dedinhos de criança, no contexto geral da vida que lhe foi reservada.

Janaína é um dos adolescentes, entre meninos e meninas, internados no Serviço de Atenção Integral ao Dependente, o Said, uma unidade de tratamento da prefeitura paulistana, administrada pelo Hospital Samaritano de São Paulo. O centenário Samaritano assumiu, em anos recentes, dois projetos de atendimento gratuito a dependentes do uso de drogas. Um é o Said, iniciado em agosto do ano passado no bairro de Heliópolis, perto de uma das maiores favelas da cidade. O outro é o Projeto Jovem Samaritano, iniciado um ano e meio antes no município de Cotia, na Grande São Paulo.

Continue lendo em Do outro lado da Lua.

Matéria de Roberto Pompeu de Toledo.

Publicada na Revista Piauí edição 56, maio/2011.

Inícios

Hortelã

O vento aqui invade cada fresta, cada vão, cada canto. As árvores plantadas por Seu Lurdiano, perto do muro, não barram o vento. Só o obrigam a uivar mais, até me alcançar. Quando reclamo, Seu Lurdiano ri com a mão na frente da boca. Ele me pergunta que vento é esse que só eu escuto. Não sei o que dizer.

Página 9: Minúsculos Assassinatos e Alguns Copos de Leite de Fal Azevedo

Foto de Saltarello no Picsy

Eu não sei se eu já nasci desse jeito ou se eu fui ficando assim por causa do meu amigo pintor, mas quando eu olho pra uma coisa eu me ligo logo é na cor.

Gente, casa, livro, é sempre igual: primeiro eu fico olhando pra cor do olho, da porta, da capa; só depois eu começo a ver o jeito que o resto tem.

Página 8: Meu Amigo Pintor de Lygia Bojunga

Isto é para quando você vier. É preciso estar preparado. Alguém terá que prevení-lo. Vai entrar numa terra em que a verdade e a mentira não tem mais os sentidos que o trouxeram até aqui. Pergunte aos índios. Qualquer coisa. O que primeiro lhe passar pela cabeça. E amanhã, ao acordar, faça de novo a mesma pergunta. E depois de amanhã, mais uma vez. Sempre a mesma pergunta. E a cada dia receberá uma resposta diferente.. A verdade está perdida entre todas as contradições e os disparates. Quando vier à procura do que o passado enterrou, é preciso saber que estará às portas de uma terra em que a memória não pode ser exumada, pois o segredo, sendo o único bem que se leva para o túmulo, é também a única herança que se deixa aos que ficam, como você e eu, à espera de um sentido, nem que seja pela suposição do mistério, para acabar morrendo de curiosidade. Virá escorado em fatos que até então terão lhe parecido incontestáveis.

Página 6: Nove Noites de Bernardo Carvalho

Acho que começou na sétima série, quando me apaixonei por um canhoto e não tive descanso enquanto não escrevi perfeitamente com a mão esquerda — ingênua tentativa de criar uma ligação com o objeto do meu amor, ainda que para isso se precisasse jogar treze anos de destreza no lixo. Ou então foi antes, lá pelos meus oito anos, no instante em que percebi que um vizinho mais velho só usava roupas vermelhas. Foi o que bastou para eu ter longas crises de choro cada vez que minha mãe me ameaçava com um vestidinho rosa, verde ou amarelo, e o que determinou o eletroencefalograma ao qual fui submetida naquela época. Mulher prática, minha mãe diagnosticou minhas lágrimas como problema neurológico, e não amor.

Página 7: Louca por Homem – Histórias de uma doente de amor de Claudia Tajes

Meu relógio parou? Não. Mas os ponteiros parecem não se mover. Não olhar para eles. Pensar em outra coisa, em qualquer coisa: nesse dia que passou, tranquilo e rotineiro apesar da agitação da espera.

Página 9: A Mullher Desiludida de Simone de Beauvoir

O Crocodilo de Almas

Uma das imagens mais vivas que tenho da infância vem de um documentário filmado na África. Uma zebra atravessava um lago, ou tentava beber água. A câmera focalizava um crocodilo gigantesco e sonolento que tomava sol à beira do lago. Logo depois, se movimenta e submerge silenciosamente. Reaparece abocanhando a cabeça da vítima. O resto do corpo se debate, agonizante. A cena é rápida; tudo desaparece rapidamente dentro da água avermelhada. Na sensibilidade infantil, a cena foi vivida como se fosse eu o engolido pelo crocodilo. Um crocodilo de verdade, tão verdadeiro quanto o sofá no qual me sentava. Senti horrorizado o esmagamento dos meus próprios ossos, o rosto se tornando uma massa disforme na boca da besta. Cheguei a discordar com veemência de uma professora que dizia que “sentir um frio na espinha” era uma expressão com sentido figurado: ela nunca havia visto aquele crocodilo.

Foto de Joel Sartore, National Geographic Stock.

Há muitos crocodilos neste mundo. O crocodilo que atazanava o Capitão Gancho, o crocodilo do conto de Dostoiévski,o crocodilo das alucinações de ópio de Thomas de Quincey. Um crocodilo nunca desperta piedade ou compaixão. Suas pernas de réptil são atrofiadas, sua aparência desagradável ao extremo. O crocodilo é tão feio e desprovido de poesia que não serve nem como símbolo de coisas ruins. Na Divina Comédia, quem impede o acesso ao reto caminho são a pantera, o leão e a loba; na iconografia cristã, o mal é o urso, o pássaro preto, o dragão, o leopardo, o escorpião, a aranha e a baleia; no Velho Testamento, as pragas do Egito falam da mosca, da rã e do gafanhoto. Ninguém se lembra do crocodilo. E mais do que o crocodilo, o que me horrorizava naquela cena era o corpo da vítima, a cabeça triturada pelas mandíbulas, e o resto do corpo ainda dependurado, um corpo inteiro, mas já morto, meu rosto rasgado pelos dentes afiados e eu ainda consciente para sentir a dor do dilaceramento.

O horror humano talvez seja pior do que o crocodilo. O torturador justifica a tortura como mecanismo eficiente para lograr a confissão, o momento no qual o torturado dá voz ao corpo suplicante e cede. Mas como pode ele, torturador, saber se a confissão do torturado foi integral, irrestrita, se não guardou um resto de segredo? Como pode ter certeza? Apenas pelo exercício de uma violência sádica e desmedida, irrazoável por qualquer critério, que desespere o torturado a ponto de levá-lo a destruir os últimos redutos de sua consciência, que o faça abrir aos olhos e ouvidos do torturador todas as portas do mundo secreto onde moram os seus pensamentos, a sua altivez e a sua dignidade. Daí o horror especificamente humano da tortura: esmaga seus ossos, sim, mas apenas para quebrar a sua alma. O torturador é um crocodilo de almas – o torturado que confessa só sobrevive após ter morrido por dentro.

Rakudianai.

Pérsio Arida fala de suas memórias dos tempos da ditadura militar brasileira na Revista Piauí.

Edição 55, abril/2011.

A gripe do amor

Estou guibada. E lembro que isso não é tão incomum. E lembro que já escrevi várias vezes sobre gripe. Lá naqueles inícios dos anos 2000, quando eu achava que morreria aos 21 anos, porque aquela época era tão boa, que não era capaz de compreender porque deveria seguir em frente e viver outras vidas. Veja bem, em 2008 eu gostava de Mallu Magalhães. E é provável que ainda goste, mas é fato que o tempo para mim gira diferente. Hoje é raro, mas algumas vezes acontece de acordar com meus 21 anos.

Foto de ademiromano no Picsy.com

Aí vasculhando os arquivos dos antigos blogs, encontrei “A gripe do amor”. Texto curto que não lembro se é de 2005 ou 2007. Estava ali na gaveta e caiu quando fui procurar o xarope.

A Gripe do Amor

Sim, é ridículo. Mas acasos como este só acontecem de tempos em tempos quando Saturno está retrógrado à Vênus. Tanto tempo sem se encontrarem e indubitavelmente estão todas contaminadas com a gripe do amor. Nenhuma se salvou. Parece até que passou de uma para outra, numa epidemia maléfica arquitetada por fãs de Mariah Carrey aliados aos da Whitney Houston. Ou talvez pior, talvez seja o plano ardiloso de uma coletânea love songs. Cada uma que chega tira do saleiro a pergunta e na bolsa dela vem a resposta, seguida de suspiros e olhinhos girando na órbita. Começam a cantarolar, lembram dos bilhetinhos, repetem os sussurros ao pé do ouvido, gabam-se dos presentinhos, mostram mensagens no celular e interpretam pontos de exclamação, pontos finais, maiúsculas e minúsculas. Caracteres que passam de significado a significante. E o sintoma mais estarrecedor, um festival de diálogos patrocinado pelo Leite Ninho, frases que começam com “Ele é tão…” recheadas com “carinhosinho”, “gostosinho”, “bonitinho”, “preguiçozinho”, “malvadinho”, “danadinho”. As pessoas ao redor no início se enternecem com as pobres alminhas e suas preciosas ilusões, mas depois de um tempo tudo começa a ficar açucarado demais, e é hora das abelhas aparecerem com seus ferrões da verdade. A ironia é que nenhuma delas está com nenhum deles, o que só demonstra o poder devastador de mais uma gripe do amor. Vem e vai com o torpor dos dias felizes que deixaram borboletas na barriga, sabores nas línguas e sorrisos permanentes em boquinhas pintadas com batom de longa duração. Despedem-se com olhares cúmplices e logo vão para casa colocar suas perucas. À tarde estão na fila do posto de saúde, fingindo que são maiores de 60 para tomarem suas vacinas anti-gripais. Coisas do coração e suas psicodelias adoráveis provocadas por grandes quantidades ingeridas de analgésicos e anti-térmicos. Não sofrem porque estão dopadas, já conhecem os efeitos colaterais de cor, mais alguns dias e estarão curadas. Atchim!