Igreja, mulheres e aborto

Entrevista com a socióloga Maria J. Nunes, presidente da ONG Católicas pelo Direito de Decidir:

O discurso utilizado por grupos conservadores de que ser favorável ao aborto é ser contra a vida é frequente em comunidades e paróquias?

Muito. Quer dizer, acho que a sociedade não absorve uma coisa que seria fundamental: permitir que uma mulher interrompa o processo gestacional porque ela considera que naquele momento não deve colocar na comunidade humana um novo ser é dignificar a maternidade. Isso é realmente tratar de forma humana e digna o fato de que nós, mulheres, podemos fazer novos seres humanos. Fazer novos seres humanos é algo transcendental, é um poder muito grande. E não pode ser tratado com leviandade, como resultado unicamente de um processo biológico. Entender que fazer um ser humano é um processo exclusivamente natural é retirar desse processo o desejo, o pensamento e a reflexão pra se saber que aquele é o momento adequado.

Há uma dissociação entre a possibilidade do aborto e a maternidade. A sociedade pergunta a uma mulher que vai abortar: “você pensou bem no que vai fazer? Você vai ter isso paro resto da sua vida no seu pensamento”. E o que ela diz a uma mulher que engravidou? “Que maravilha.” Ora, uma mulher que faz um aborto, o faz num momento da sua vida. E acabou-se, o processo termina ali. A que faz uma criança, um novo ser humano, ela o faz para o resto da vida – essa criança será seu filho para o resto da vida. Então o que a sociedade deveria exigir é uma maternidade refletida e pensada. Então se deveria discutir muito mais a maternidade e exigir que ela seja feita em condições dignas, adequadas e saudáveis. E deveria se exigir do estado que ele, ao admitir que as mulheres façam novos seres humanos, que elas tenham condições não só para gestar e fazer nascer, mas para dar educação, transporte, saúde, dignidade, trabalho. A sociedade deveria se preocupar com a maternidade e deixar as mulheres decidir onde, quando, com quem e se querem ou não entrar nesse processo de fazer um novo ser humano.

Católicas pelo Direito de Decidir na Revista TPM.

Publicado por

Bia Cardoso

Uma feminista lambateira tropical.

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