A sororidade que não transa críticas

Na sexta-feira publiquei o texto: Porque não transo sororidade. Minha intenção ao ter um blog feminista é discutir Feminismo, não apenas divulgá-lo. Acredito que o Feminismo é, antes de tudo, um movimento político e social que pretende mudar o status quo. Por isso, tenho um certo incômodo com o movimento da sororidade, porque não tenho o acolhimento como o objetivo fim do Feminismo, mas parte do processo, como uma ferramenta importante, mas algo que precisa ir além dos pequenos grupos.

Há muitas mulheres importantes em minha vida, mas não nasci e nem sobrevivi por causa da sororidade delas. Sempre pertenci a classe média e fui criada com plano de saúde e toddynho. Se fosse pobre e marginalizada, muito provavelmente nem teria esse espaço para escrever, por mais que mulheres tenham lutado por mim no passado. Por isso, meu interesse é que o Feminismo também englobe os diversos aspectos sociais que nos cercam.

Ao ler, ao escrever e ao narrar o feminino em muitos tempos, é possível relocalizar a metáfora da “sororidade” em redes sociais que as mulheres protagonizam, como também a sua negação, em muitas práticas. O sentimento de solidariedade traduz, também, códigos de não solidariedade. Ambos estão nas práticas femininas. Referência: Onda, rizoma e “sororidade” como metáforas: representações de mulheres e dos feminismos (Paris, Rio de Janeiro: anos 70/80 do século XX) por Suely Gomes Costa.

Ontem, a pessoa que fez as imagens que ilustravam o texto publicado na sexta-feira, e que exemplificavam de que conceito de sororidade estava falando, foi até os comentários pedir para que eu as despublicasse:

Gostaria de pedir, por gentileza, que você os retire do seu post. Fiquei bastante chateada e incomodada com uma feminista usando meus cartazes sobre sororidade para criticá-la. O termo sororidade, para mim, tem a ver com sobrevivência, entre minhas amigas, companheiras de luta e minhas familiares e ancestrais. Se hoje eu existo, vivo e sobrevivo, foi pela sororidade de toda a geração de mulheres da minha família que sobreviveram e que hoje me apoiam e me ajudam. Para mim, sororidade não é um grupo de amigas infantilizadas brincando de feminismo. São mulheres que podem se apoiar uma nas outras para que a opressão não doa tanto. Enfim, a sororidade é questão de sobrevivência ao patriarcado. E o termo é empoderador ao fazer com que enxerguemos outras mulheres como iguais, em suas especificidades.

Argumentei que as imagens eram importantes para ilustrar o texto e que meu objetivo é debater o assunto (tanto que linko 3 outros textos que tratam de sororidade). O diálogo e a discussão são ferramentas importantes para a construção do Feminismo, por isso quis entrar nesse debate que já estava acontecendo em outros blogs feministas. Porém, ela se mostrou irredutível e retirei as imagens, porque acredito que é um direito pedir isso, mesmo que não haja assinatura e que essas mesmas imagens possam ser encontradas com textos em inglês em outros sites.

Outras críticas interessantes que recebi por meio das redes sociais foram:

– Concordo que é necessário criticar os feminismos, mas temos que tomar cuidado pra não achar que nossas críticas são fundamentais e absolutas para que o feminismo seja melhor pra todo mundo. Isso não vai acontecer. Há mulheres diferentes, interesses diferentes, lutas diferentes. Acho que sororidade é entender isso, que a minha luta não pode passar por cima da luta de outras mulheres, mesmo que elas entrem em conflito.

– Sempre que vejo textos que se propõe feministas, com criticas a comportamentos que já são tão comumente atribuídos às mulheres, como formar panelinhas, e etc., sinto que estamos dando sim combustível para nossas fogueiras, criticas internas e discussões, são importantes, discordâncias idem, mas acredito que talvez, por exemplo, ter postado esse texto num grupo, aberto a discussão entre feministas, teria sido mais produtivo do que lança-lo ao espaço virtual aberto.

– Não compreendo publicar uma critica direta ao termo, a palavra pela palavra não tem força nenhuma, a força esta no uso que damos a ela, e nesse sentido a critica ali exposta me parece aos comportamentos e vivências em discussões feministas.

– A sororidade, inicialmente, tinha essa função de questionar e quebrar esses preconceitos. Através de uma reflexão crítica, do não julgamento, da não desconfiança, do exercício de sentar e perceber que aquilo que te oprime seja você quem for oprime aquela mulher que por algum motivo você está pré-julgando. Isso era, no meu entender, o conceito de sororidade. Sinceramente, não acho ruim. Se isso é ‘tratar outra feminista de companheira de luta’ acho que é válido sim. Agora, isso pode ter sido mal utilizado para silenciar críticas, criar grupos herméticos e impermeáveis a reflexões críticas, para servir de desculpa para escorregadelas que todas damos? Pode. E isso não é legal.

– Não faz diferença dizer solidariedade ou sororidade, como você propõe que seja feita a troca, o que faz a diferença é a maneira como o termo é empregado, solidariedade também pode ser usada para silenciar ou oprimir.

– É meu sentimento que DEVO SIM tratar outra feminista como uma companheira de luta, mesmo que eu discorde com ela em assuntos pontuais.

Esse apontamentos complementam bem a discussão e mostram que a Segunda Onda deixou marcas fortes no Feminismo, além do desejo de retomar o termo por mais pessoas. Porém, com esse episódio, acredito que parte do que critiquei está sendo corroborado. Há pessoas que defendem a sororidade como um conceito fundamental ao Feminismo e que não admitem críticas de outras feministas. Outras sugerem que críticas ao Feminismo devem ficar restritas aos espaços feministas porque estamos dando combustível para nossas fogueiras. Há todo espaço para comentar, indicar textos ou fazer um post em resposta, mas algumas pessoas preferem que o debate não seja feito, infelizmente.

imagem do tumblr Chibambo.
imagem do tumblr Chibambo.

É óbvio que não sou dona do conceito de sororidade, mas esse episódio me mostrou que para algumas pessoas esse parece ser um assunto intocável. E, vamos falar sério, dou gargalhadas quando me acusam de querer “rachar” o movimento. Quem sou eu na fila do pão feminista para “rachar” e prejudicar um movimento histórico?

Meu objetivo nunca foi criticar alguém especificamente, mas o uso de um termo que está sendo apropriado e utilizado por várias feministas, especialmente na internet. Se basear na origem do termo pode ser simplista, claro. Usar solidariedade ao invés de sororidade não tem a mesma amplitude, concordo. Sisterhood é um conceito bem difundido em inglês. Mas, continuo acreditando que sororidade não está tão longe da ideia de convento, de grupos de mulheres enclausuradas em si mesmas, preocupadas apenas em combater o patriarcado e estereótipos que não serão modificados se não saírem da esfera do grupo de irmãs feministas.

É exatamente esse tipo de comportamento que não entendo no Feminismo que prega a sororidade. Como se fosse pecado criticar algo que sim, empodera mulheres, mas que acho importante perguntar: que mulheres ele empodera? que mulheres se sentem seguras dentro do conceito de sororidade? Além de acolhimento e empoderamento o que mais a sororidade propõe? A sororidade está sendo usada para atacar em bloco grupos de mulheres marginalizadas ou quem não se encaixa no conceito? É preciso esperar que todas as mulheres se unam, se amem e sejam empoderadas para fazer política? Por que todo esse foco no patriarcado como o grande vilão?

Inclusive, esses dias rolou nos Estados Unidos uma discussão sobre solidariedade no Feminismo, por causa da hashtag #Solidarityisforwhitewomen.

É claro que várias pessoas me apresentaram outros conceitos de sororidade. Focando na ideia de que as mulheres foram e são educadas para encarar outras mulheres como adversárias. Que mulheres não devem confiar em mulheres e que isso precisa urgentemente ser combatido. Não discordo de nada disso. Nem mesmo que grupos de mulheres ajudam muito vítimas de violência. Mas, não sei se é possível combater estereótipos que prejudicam as mulheres pregando apenas acolhimento e empoderamento. Porque, antes de tudo, somos pessoas e entramos em conflitos constantemente.

A obrigação de apoiar a companheira de luta nos leva a algum lugar? Acredito que não silenciar frente a reprodução e disseminação de preconceitos como o racismo, a transfobia, o capacitismo, a gordofobia e a lesbofobia tem sido táticas mais interessantes. E daí, vem outra pergunta: posso ressignificar individualmente um conceito que está sendo usado majoritariamente de outra forma, algumas vezes até antagônica?

O problema se torna mais complexo e mais nuançado, no entanto, quando entendemos que as identidades dos indivíduos são socialmente aprendidas, mas que esse não é um ponto de chegada para as reflexões sobre o impacto das estruturas e as formas que a ação individual assume. Considerar suas escolhas – e o grau de autonomia nelas envolvido – é considerá-las a partir dessa base, isto é, de sua inserção no contexto de relações sociais concretas. O fato de que são socialmente constituídas e motivadas não significa, no entanto, que os indivíduos não façam escolhas e que estas não tenham impacto na definição das suas vidas. Mas significa que são feitas em meio a pressões, interpelações e constrangimentos que não são necessariamente percebidos como tal.

Assim, o problema da constituição autônoma das identidades, que é objeto deste artigo, não se define na oposição entre autonomia individual e produção social da individualidade. Partir dessa premissa, que é de fato a orientação mais fundamental assumida neste artigo, não esgota o problema. Daí a necessidade de analisar diferentes abordagens para esse problema num campo da teoria política em que a crítica à opressão e a análise da constituição diferenciada das identidades (em alguns casos, como reação à opressão, em outros como sua reprodução) vem sendo fecundo, a teoria política feminista. Referência: Autonomia, opressão e identidades: a ressignificação da experiência na teoria política feminista por Flávia Biroli.

Os movimentos sociais sempre trabalharam com ressignificações de termos e conceitos: vadia e queer são alguns exemplos. Mas, estes estão sendo usados de forma positiva majoritariamente em seus âmbitos. Então, surgem mais perguntas: o conceito de sororidade tem sido a voz de que grupo? De mulheres brancas cisgêneras? As negras, indígenas, trans*, mães solteiras, deficientes, lésbicas, as soropositivas, as donas de casa, as funkeiras do Bonde das Maravilhas, a personagem gorda e humilhada da novela das 8, a participante do reality show traída pelo marido, também são sempre defendidas pela sororidade em todas as suas demandas?

Cada dia transo menos esse conceito de sororidade. Porque para mim o Feminismo precisa ser criticado em todos os ângulos para se reconstruir constantemente. E, por mais que acolhimento seja importante, não é meu principal objetivo como feminista. Há diversas formas de empoderar mulheres, busco lutar dentro daquelas que tem propostas políticas concretas e que beneficiem as mulheres como um todo, observando demandas e especificidades, não apenas focando em eliminar o patriarcado ou me preocupando em ser legal com todas as feministas.

[+] A Angélica Radhãrani respondeu algumas perguntas que fiz no texto: Porque eu transo sororidade.

[+] O gosto agridoce da irmandade por Thais Lombardi.

[+] Como feminista negra tenho basicamente duas opções. Conquistar espaços que me são hostis ou criar novas possibilidades por Charô.

[+] Onde está a nossa sororidade por Hailey Kaas.

[+] Fobiafobia por Isabela Cassalotti.

Publicado por

Bia Cardoso

Uma feminista lambateira tropical.

26 comentários sobre “A sororidade que não transa críticas”

  1. A sororidade serve bem às feministas brancas. Sendo uma mulher negra, nunca senti essa “sororidade” como feminista.

    Entendo o conceito de sororidade e aprecio (na teoria), mas na prática parece uma panelinha de mulheres brancas mesmo.

  2. Bia, sinceramente? Acho que no final das contas a tuas críticas não é ao conceito isolado em si, mas a uma concepção feminista que é mais ampla que apenas a sororidade, querendo ou não é a faceta atual do próprio feminismo radical em que uma sociedade sem homens por si só já resolveria todos os problemas. Não colocando na conta do que rege e estrutura as relações sociais as questões raciais, de identidade de gênero, orientação sexual e tantas outras que ajudam a manter um estado patriarcal, capitalista, racista, penal e tantas outras coisas… Sei lá… acho que abres um debate onde o buraco é mais embaixo ;D

  3. Bia, por mais desgastante que possa ser, você está capitaneando uma discussão fundamental. Fico feliz que tenha tido gás pra trazê-la novamente pro blog em forma de texto. Sisterhood é um conceito cis, pra mim, antes de mais nada. Então não serve. Solidariedade feminista, na minha opinião, é muito mais abrangente do que sororidade (que, além do más, é um anglicismo horroroso).

    As pessoas se preocupam demais com léxico e de menos com a prática. Defender sororidade/solidariedade atacando os outros (e deixar grupos de pessoas de fora é uma forma de ataque) é uó.

    PS: “Quem sou eu na fila do pão…” é ótimo! hahaha. VC É A BIA “GRANDE LÍDER” CARDOSO! <3 <3 <3

  4. Bia, vou colar um trecho e vou comentar: “A obrigação de apoiar a companheira de luta nos leva a algum lugar? Acredito que não silenciar frente a reprodução e disseminação de preconceitos como o racismo, a transfobia, o capacitismo, a gordofobia e a lesbofobia tem sido táticas mais interessantes”. Pois acho, então, que meu conceito de sororidade (ou a sororidade que me ensinaram nos grupos feministas) tá errado – pois eu sempre achei que a sororidade existia justamente para se reconhecer as diferenças, as diferentes demandas dos diferentes grupos e não fazer dessas diferenças uma guerra, mas sim uma união, uma empatia. Bom, é como te falei, eu devo ter aprendido errado. Ou, como você está dizendo, estão usando o termo de uma forma completamente equivocada, para calar as divergências, apagar as diferentes mulheres que fazem parte do rolê. E se é essa falta de politização que tá pegando nos debates virtuais, você fez muito bem de trazer o tema à tona. 😀

    1. Amanda, esse conceito da sororidade é uma herança da Segunda Onda. No primeiro texto publiquei um conceito da Zaíra Pires no final que vai muito de encontro ao que você fala. Então, não acho que é uma questão de o conceito estar errado ou não, esse texto mostra que ainda tenho muitas dúvidas, mas tenho focado em observar que grupos estão usando esse conceito atualmente.

  5. Ih, Bia, uma pena toda essa polêmica.

    Infelizmente, é o problema que eu imaginei quando te escrevi no post passado: o problema de se brigar com uma palavra, um conceito que já é experienciado por várias pessoas, em vez de criticar só o uso equivocado ou o grupo equivocado que usa ele. Com isso você atingiu todo mundo que se identificava com o termo, e principalmente as pessoas que não experienciam ele do jeito que você chamou de majoritário (e que eu tentei mostrar que não era nada majoritário). A palavra já existe e já é usada de diversas maneiras, não adianta personalizar o termo e querer afirmar com certeza o que ele quer dizer. Como o exemplo que dei lá, ‘sororidade’ é praticamente a única tradução pra ‘sisterhood’ (que não seja uma palavra composta), e ‘sisterhood’ vai continuar sendo traduzido. Ouvi dizer agora também que congregações católicas usam a palavra pra se referir a reunião de mulheres no geral (‘vamos juntar a sororidade’), não só pra freiras (que usam a palavra, afinal, porque se chamam de ‘irmãs’, né).

    Me disseram também que um livro de 2006 chamado “Manobras Radicais”, da Heloisa Buarque de Holanda, apresenta também o termo como algo que está sendo usado, e define como você disse, ‘solidariedade entre mulheres’. Tudo indica que ele já está rolando há muito tempo, não é um conceito novo (assim como o sentimento não é novo, como você também disse, e de qualquer modo mereceria um nome). Usar exemplos pontuais em que o termo foi usado de maneira errada, perigosa, aliás, pouco diz sobre a palavra; só mostra o quanto palavras são ‘despersonalizadas’ e como a experiência para com elas é subjetiva, e sempre passível de distorção, apropriação, etc. E definir que essa distorção ‘venceu’, além de ser uma posição que simplifica todo o cenário, deixa pra escanteio as pessoas que ficaram de fora da equação, ainda acreditando na palavra (algumas com as ‘vozes’ que você citou, algumas não, mas não é por aí também que se critica a existência de um termo).

    Enfim, acredito que essa é uma briga infinita mesmo, porque discordar de uma palavra é uma batalha perdida; O processo todo de ter que brigar pela definição que você acredita que a palavra tem já torna a discussão perdida. Gente de todo tipo e que não vê ela assim vai se sentir atingida, e na minha opinião, quem realmente vai desacreditar a palavra, infelizmente, pode ser quem não acredita no próprio sentimento como um todo. Pois toda palavra está sempre em mutação, não é, e *negar* a palavra é só parte do processo, e justo a parte sobre negar o potencial dela :(. Por isso, temo que criticar a palavra pode ter o efeito contrário, de adicionar mais carga pejorativa a ele e fechar mais as portas pras pluralidades dele. Claro que nem de longe é sua intenção, mas pode acabar servindo pra isso, você não acha? Ou, pelo menos, não pode ser assim que algumas pessoas estão enxergando sua crítica, e por isso automaticamente estão se posicionando contra? Pois discutir as várias faces do termo é uma coisa, não gostar/não usar/achá-lo falho majoritariamente, é outra.

    Bom, só resolvi falar sobre o desfecho porque eu apareci lá no primeiro texto. Queria também dar o toque de que não chamei a Maiara aqui, não a conhecia até então, e que não tinha falado por aí do seu post antes dele virar assunto (até por não conhecer muita gente mesmo). Aliás, queria compartilhar também que a frase do cartaz das lobas, ‘sororidade divide fardos, soma lutas’, é de outra feminista que pelo que sei não conhece a Maiara e não é de SP, e também não foi quem fez a montagem das lobas. E pelo que sei a Angélica do texto “Porque eu transo sororidade” também não conhece nem uma nem outra. Só pra dar o cenário de quem reagiu a essa crítica, pra gente repensar o ‘majoritariamente’ dessa distorção silenciadora e segregadora de ‘sororidade’ que você está apontando. Agradeço de novo pela atenção e a disposição pro debate. Um abraço!

    1. Guilherme, discordo totalmente de não poder questionar um conceito. Apresentei as imagens de onde fiz a interpretação e inclusive, linkei 3 textos no primeiro post que falam sobre sororidade com outros conceitos. Deixei claro que o que chegou para mim e o que considero majoritário é isso. É lógico que posso estar errada, não sou dona de conceito nenhum, Estou apresentando uma interpretação para gerar o debate, a questão é que tem pessoas que pensam como eu, como é possível ver nos comentários e nos textos linkados. Não é questão de ganhar discussão, de quem tá certo e quem tá errado, é questão de debate mesmo, de levantar perguntas, como fiz. Nesse texto aqui também linkei um artigo acadêmico sobre sororidade, o da Angelica e o da Thais Lombardi, E óbvio que o conceito não é novo, tanto que no primeiro texto cito a Segunda Onda do Feminismo.

      Não tenho palavra melhor para sisterhood e nem mesmo sei se gosto ou se usaria sisterhood.

      Não entendo porque as pessoas se sentem atacadas. Quando falam mal do feminismo eu não me sinto atacada, quando criticam um texto meu não me sinto atacada. Então, acho que é algo que as pessoas tem que resolver com elas mesmas.

      Acho que você deveria parar de ouvir o que te dizem (porque o tempo todo nesse comentário você diz “me disseram”) e ler mais sobre o assunto. A discussão está posta e é isso que me interessa. O comentário da Thais Campolina aí em cima é bem legal, assim como o texto da Angélica. Não me interessa quem conhece quem nessa internet, porque o que estou propondo é justamente isso, o debate e ele tá rolando e tô achando ótimo..

      1. Bom, pra fazer justiça ao meu comentário, rs:

        Eu estava falando na verdade sobre questionar uma palavra, e não um conceito. Tanto que digo que cada pessoa experiencia a palavra de um jeito, o que dá a ela várias conceitos. E que pra criticar uma palavra você precisa ‘congelar’ o sentido dela, o que é por si só uma simplificação do que ela realmente representa.

        Eu defendi que o conceito não é novo, achando que isso não era óbvio pra você, como uma resposta direta ao seu “não precisamos de novos conceitos para resgatar sentimentos necessários”. E realmente achei que você considerava ele novo, porque você citou só as freiras como exemplo além do que você viu sendo usado de maneira distorcida na Internat. Na verdade, você citou a Segunda Onda pra falar dos grupos de autoconsciência, não pra falar da palavra ‘sororidade’.

        Daí, quem “me disseram” sobre sororidade dentro da igreja católica foi minha mãe, 2 duas tias e uma colega delas depois, rs, só não citei porque achei irrelevante, só queria dizer que a palavra é usada fora do contexto feminista, o que acho que todo mundo concorda. Já o livro “Manobras Radicais” na verdade fui eu quem li, não disse porque não queria dar a entender que ‘estudei feminismo’, o que seria mentira, pois conheço muito pouco. Mas eu agradeço a passada de bola de autonomia, daqui pra frente falarei em meu próprio nome,

        Essa comparação minha sobre quem conhece quem, eu achei importante citar pra mostrar a pluralidade de pessoas que estão usando o termo, e mostrar que tanto seu próprio post quanto a resposta que ele está recebendo são exemplos dessa pluralidade, e do que eu estou defendendo, que é o que você disse na frase: “Talvez o termo tenha sido apropriado por um grupo mais intolerante e eu esteja com a impressão errada”. Eu acho que é exatamente isso.

      2. (escrevi mais um pouco, mas estou lotando sua caixa, se quiser deixe esse de fora do blog, só queria te explicar o que fiquei segurando antes, não vou me alongar mais que isso, agradeço pela conversa toda)

        Só como adendo, já que você se perguntou: eu entendo sim por que as feministas se sentem atacadas quando se fala mal de feminismo ou de algum aspecto dele, ainda mais se diz respeito a como elas se comportam. E também entederia se alguém se sentisse atacado por ter um texto criticado de determinada maneira, ou uma opinião, ou uma atitude. Cobrar diálogo pacífico, dizer que não entende a indignação de alguém que considera sua crítica injusta, principalmente se a impressão não é de ‘debate proposto’ (me desculpe, mas minha impressão é que o 1o post foi mais um ‘discordo’ do que um ‘proponho debate’), sinceramente me parece mais coisa da tal sororidade distocida que você disse, que apaga vozes em nome de uma falsa união, e não de uma solidariedade que respeita cisões e contrói pontes. Não é uma coisa pra se resolver ‘com si mesmo não’, acho uma coisa a se resolver com quem criticou. E achei injusto você insinuar que esse sentimento de que você fez um ataque à idéia de ‘sororidade’ prova o seu ponto de que essa gente (que você juntou em um grupo só) não está aceitando críticas. Pois eu acho que prova justamente o contrário: grupos feministas seguem não aceitando que alguém decida por eles como devem se sentir, como devem definir termos e que palavras devem usar, nem mesmo em nome de ‘um feminismo maior’ que diz que, se as críticas forem ‘internas’, elas têm que ser consideradas válidas. Não é justo cobrar cordialidade e satisfações de quem não gostou da crítica sob o pretexto de ser um ‘debate proposto a um grupo que não parece aceitar críticas’, ainda mais quando se está defendendo cisões, vozes plurais e o fim do senso de uma falsa união. Pois me parece que você está ‘ligando’ e ‘desligando’ esse senso de solidariedade de uma maneira arbitrária e muito pouco clara, e a parte do senso que te incomoda você está rotulando como ‘sororidade’, e criando essa confusão toda sobre é, não é, a palavra é ruim, a palavra está distorcida. E a coitada de culpa não tem nada, rs. Então, como eu disse no 1o commentário, as respostas negativas eram mais do que esperadas, agora que entrei nesse mérito, acho até que foram em bom tom. E fica a minha aqui pra somar com o resto.

        1. Guilherme, não entendo alguém se sentir atacada por uma crítica a um conceito. Isso para mim é não querer debate, é sentimentalizar a questão. Se for assim, ninguém mais pesquisa conceitos nesse país, porque é lógico que você precisa contextualizar para observar. A minha contextualização é essa, a sua é outra, move on. Como disse, não tô preocupada em ser legal, tô querendo discutir e tenho recebido ótimas respostas e estou muito satisfeita com esses dois textos, atingi meu objetivo. Especialmente porque estão escrevendo textos em resposta.

          A questão é, estou dando a minha interpretação, não estou dizendo: “nunca mais usem essa palavra”. Estou dizendo que não gosto da palavra, questionando e construindo, muita gente veio aqui e apresentou outros conceitos ao invés de ficar como você, dizendo que sou injusta ou que não posso congelar um conceito.

          1. Só queria dizer que a frase de outra feminista que o Guilherme falou é minha, é um poema que escrevi baseando naquela ideia de sororidade que comentei no post anterior (que é a que eu vivo.) O poema foi postado aqui: http://notadedevolucao.wordpress.com/2013/04/08/2/)

            E bom, como eu deixei claro no comentário do texto anterior e no meu poeminha, a sororidade pra mim tem o poder de somar lutas, o que é importantíssimo no feminismo.

            Não li todos os comentários, só me falaram que tinham comentado dessa frase do meu poema e eu quis me manifestar a respeito.

            Abraços.

            1. Ah, não conheço a pessoa autora da imagem discutida também, só sei que reconheci a frase como “”””minha””””” e concordo com a imagem, com essa ideia de matilha, porque vejo que quando a gente defende umas as outras do machismo e outras opressões, a gente age com sororidade. Inclusive comentei isso no post sobre seu texto no grupo Feministas.

  6. adorei os dois posts questionando sororidade, pq venho questionando o termo faz muito tempo e dá uma sensação de que se vc discordar da forma como o utilizam vc será imediatamente tachada de misógina anti-sororidade.
    pra mim sororidade lembra “soeur”, irmã. e irmã pra mim é quem eu escolho, é quem confio muito. incrivelmente são as pessoas com quem me sinto mais à vontade pra discordar, pq rola confiança. muitas vezes são pessoas com quem já briguei mto feio no passado e mesmo assim perdurou, por motivos de sangue, por motivos de ter crescido juntas.

    agora solidariedade, como vc disse, é pra todas, até para as que nos consideram inimigas. todxs aqui sabemos que, se qqr uma de nós, mesmo as que discordam veementemente de você, chegarem pra vc e contar um caso de agressão, violência, abuso, o que não vai faltar é solidariedade, ou sororidade, chamem do que quiserem. disso a gente não precisa nem ter dúvidas pq esse é o rolê do feminismo, é pra isso que estamos aqui. pra estender a mão nos piores momentos, mesmo que não sejamos super amigas best friends forever.

    então, acho NADA A VER qualquer um te acusar de ser contra a sororidade como se vc fosse incapaz de oferecer apoio em momentos como esses seja pra feministas, seja pra pessoas fora do feminismo, como todas fizemos no caso das menores de idade estupradas pelo New Hit. nenhuma de nós vai deixar de ser solidária com outras. isso é sororidade, por mais que digam que, por criticar o termo, estamos tentando rachar o movimento ou atrapalhar alguma coisa. NÃO, questionar um termo nunca será motivo pra acabar com o objetivo principal do feminismo que existe há eras. não vai ser uma discussão tipo rixa de internet que vai acabar, desmoronar o propósito principal do feminismo que é dar apoio umas às outras em situação de opressão.

    mesmo as que são acusadas de transfobia, mesmo que tenham mesmo dito coisas transfóbicas propositalmente, aparentemente não tinham essa intenção e tentam construir sororidade com mulheres trans também.

    estive conversando hj de manhã com alguém que discorda também do modo como sororidade vem sendo usado e resolvi vir aqui desabafar e falar o que penso de uma parte disso tudo.

    eu tou bem cansada de panelinhas, nem quero mais fazer parte. não tenho um pingo de vontade de fazer parte dessa sororidade. só me interessa saber como serão as coisas na prática quando eu quiser desabafar sobre alguma situação de opressão de algum homem que fez parte da minha vida, se vão me dar apoio ou se vão acreditar mais nele que em mim, esse tipo de coisa que sinto que já aconteceu. quero saber como será a sororidade na prática, ou melhor, o feminismo na prática.

    quero um feminismo sem slut-shaming, sem termos como attwhore sendo inocentados, quero um feminismo sem vadias, piranhas, piriguetes, putas como xingamento. quero um feminismo com respeito e mais paciência às mulheres que muito nos ensinaram, mesmo quando elas cometem deslizes ou erros feios. quero um feminismo que não coloca na fogueira mulheres sem contato com feminismo que soltam milhares de preconceitos no discurso por falta de conhecimento mesmo. é isso que eu tou esperando que aconteça e caso eu não encontre, continuarei nesse meu bloco do eu sozinha.

    #eisbär

    1. “mesmo as que são acusadas de transfobia, mesmo que tenham mesmo dito coisas transfóbicas propositalmente, aparentemente não tinham essa intenção e tentam construir sororidade com mulheres trans também. ”

      Erm…Não.

  7. Olá Bia, obrigada pelo linque.

    Nunca senti o benefício dessa sororidade branca, cis, classista. A lista desses adjetivos é gigante pois não estou falando dessa ou daquela pessoa, mas de estrutura mesmo.

    Especificamente sobre o racismo, compreendo a resistência em perceber que o feminismo negro tem suas demandas semelhante à de reconhecer que não existe uma democracia racial.

    A sociedade brasileira é racista, como entender um feminismo que inserido nesse contexto permanece alheio à mulher negra? Isso é sororidade? Se é, não me cabe.

    Para mim está claro que a reação das pessoas está corroborando a crítica.

    Abraço!

  8. bom, então pelo menos tentam construir sim sororidade com mulheres trans.
    enfim, existe todo um histórico por trás dessas tretas, mas como não sou parte desse histórico, não era a parte ofendida e fiz o que pude pra não me omitir, só sei que não tenho mais a menor intenção de estar no meio disso. vejo muita gente querendo não tomar parte, tanto pessoas do transfeminismo quanto pessoas do feminismo, tanto gente trans, quanto gente cis. acho que muita gente não concorda com nenhum dos 2 lados mais extremos dessa treta toda.
    e já estamos sendo acusadas de lesbofobia por concordar com os textos da Bia.
    é o que digo, parece que existe uma forte cultura no feminismo de colocar na fogueira. sejam as que não perceberam opressões implícitas, sejam as que não têm conhecimento de nada e estão fora de contexto.
    já tive tretas com feministas e nunca deixei de curtir seus comentários mesmo após cortar amizade, nunca deixei de apoiar quando tinham algum problema com algum machista e isso chegava aos meus ouvidos. briga, treta, discordância, pra mim nunca foi motivo pra deixar de demonstrar apoio, simpatia mesmo distante, logo, nunca houve perseguição da minha parte contra qqr das pessoas que já discordei, nem mesmo com quem fez slut-shaming em página feminista.
    eu não vejo sentido em ficar colocando na fogueira blogueiras que falaram merda grande por um momento mas que conscientizaram gerações de gurias de todas as idades na maior parte do tempo.
    não acho que devemos deixar de fazer críticas. devemos estar sempre atentos.
    mas essa necessidade de botar na fogueira e meter punhaladas pelas costas girando não me representa. não farei parte de sororidades desse tipo.

    1. “eu não vejo sentido em ficar colocando na fogueira blogueiras que falaram merda grande por um momento mas que conscientizaram gerações de gurias de todas as idades na maior parte do tempo.”

      Porque obviamente importa mais ser positiva pra mulheres cis do que não foder com a vida de gente trans*.

      ENTENDI.

    2. Não, elas NÃO tentam construir sororidade com mulheres trans*. Se estão tentando, então é com OUTRAS mulheres trans*, não com aquelas que elas agrediram e ofenderam.

  9. REPITO: NÃO VEJO MOTIVO EM FICAR COLOCANDO NA FOGUEIRA BLOGUEIRAS QUE FALARAM MERDA GRANDE POR UM MOMENTO, MAS QUE CONSCIENTIZARAM GERAÇÕES DE GURIAS DE TODAS AS IDADES.

    ISSO VALE PRA MULHERES CIS QUE TAMBÉM TÊM O COSTUME DE FAZER FOGUEIRA PRA QUEIMAR OUTRAS MULHERES CIS PQ BLOGARAM ALGUMA BESTEIRA.

    “importa mais ser positiva pra mulheres cis que não foder com gente trans” não disse isso em momento algum, se vc leu isso, tá precisando melhorar sua capacidade de análise de discurso.

    o que eu disse vale pra blogueira trans ou cis, feminista ou transfeminista. LEIA ISSO!

  10. seus dois textos sobre sororidade e seus links postados foram todos muito importantes pra mim. Esse conjunto me fez organizar vários pensamentos e, principalmente, localizar, mapear e nomear várias coisas que vinham me incomodando há tempos mas eu não conseguia identificar.

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